Mostrando postagens com marcador mulheres na literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mulheres na literatura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Representação feminina: O princípio da Smurfette

Smurfs - Representação predominantemente masculina
Um dos clichês que envolvem a representação feminina na TV, quadrinhos, jogos, cinema, literatura e etc, é o "Princípio da Smurfette". O termo foi cunhado por Katha Pollitt em 1991, para o NY Times.O texto de Pollitt foi motivado pela dificuldade que ela encontrou em oferecer para a filha dela histórias em que houvesse uma representação feminina adequada. 

Tartarugas Ninja - April é a única mulher e não luta
Se você, como eu, foi criança nos anos 80, deve se lembrar dos smurfs. Os smurfs eram pequenas criaturas azuis que viviam em uma comunidade exclusivamente masculina, exceto por uma personagem, a Smurfette. O princípio da smurfette trata exatamente dessa desigualdade numérica entre personagens femininas e masculinas que é recorrente. Esse princípio se aplica aos casos em que os personagens centrais carregam essa desigualdade. Entretanto,  às vezes, como no caso dos Smurfs, a coisa é tão absurda que entre TODO o grupo de personagens só há uma mulher, desprezando completamente o fato de que metade da população mundial é composta por mulheres. E é claro que isso se repete em muitas outras obras de ficção. O problema, entretanto, extrapola a questão numérica. As "mulheres-smurfettes" geralmente são estereotipadas e não definem o grupo, são em sua maioria personagens à parte do grupo. Às vezes sua função é decorativa, às vezes é meramente para evitar a crítica da não-representatividade das mulheres, às vezes ela é o par romântico de algum dos outros personagens principais.

Miss piggy é uma personagem sexualizada. SIM. Isso mesmo. :O
A Smurfette sexualizada: A começar pela própria smurfette (a original), que foi criada pelo Gargamel para seduzir os smurfs e depois transformada pelo papai-smurf em uma smurf do bem (loira, sexy com decote e salto alto). Outro exemplo é a Miss Piggy dos Muppets, a única mulher do grupo principal obviamente é muito vaidosa.


Kanga é uma canguru-fêmea, mãe de Roo.
 E é a única personagem feminina de Winnie the Pooh.
A Smurfette maternal/Sentimental: Em outros casos, a mulher-smurfette pode ser uma figura que cuida dos personagens masculinos, preocupa-se com eles quase de forma maternal, ela é o lado sentimental e/ou espiritual. 

TBBT - Tanta coisa errada que fica difícil começar a falar
Ou seja, prevalece a dualidade santa x vadia. Algumas personagens incorporam elementos dos dois grupos. Por exemplo, a Penny nas duas primeiras temporadas de The Big Bang Theory. Às vezes representada como uma mulher sexy, às vezes como mãe (especialmente na maneira como se relaciona com o Sheldon). Nesse caso há ainda o problema de a personagem ser tachada de burra e fútil o tempo todo e, obviamente, ser assediada por quase todos os homens do grupo. Felizmente, após algum tempo foram inseridas outras personagens, como a Leslie, Amy, Bernadette e Pryia (não quer dizer que essas personagens estejam livres de estereótipos).

Novo Star Trek de J.J. Abrams
Tudo bem, vamos assumir que esse é um clichê que vem se reduzindo ao longo dos anos. Antingamente era mais que normal haver apenas uma mulher. Em Star Wars, por exemplo, só há duas mulheres representativas em toda a franquia (Padmé e Léia) e elas não são contemporâneas uma à outra. Porém é válido lembrar que muitas histórias estão sendo recontadas atualmente. O filme de Star Trek, por J.J. Abrams, só tem uma personagem mulher, a Uhura. Em remakes não há o cuidado em repensar esse tipo de posicionamento. E é claro que em tempos de filmes de superheróis criados há décadas atrás, se torna bem comum ver filmes com mulheres-smurfettes.

Pacific Rim - O problema persiste
Assisti recentemente o filme "Pacific Rim", queridinho de 10 entre 10 nerds ávidos por reviver os live actions japoneses da infância. Adivinhe? a personagem Mako é uma smurfette. E é claro que é ela que se deixa levar pelas emoções dentro do Jaeger. E é a única cuja competência é questionada em função de seu passado. Coincidência? Eu sei que havia uma outra pilota, russa, contudo ela não abriu a boca durante todo o filme.


Muitos filmes (e séries) recentes padecem desse mal. Parece que na indústria do cinema só mesmo as mentes masculinas definem o grupo. E é de dentro delas que sai essa pífia representatividade feminina que, quando existe está cercada de estereótipos, paternalismo e misoginia. Seria bom lembrar que há séries e desenhos de sucesso com grupos de personagens quase que inteiramente femininos. Basta lembrar de As Panteras, Buffy, Sailor Moon (esse em especial praticamente inverte o princípio da Smurfette), vários desenhos da Clamp e etc. O problema é que, quando a história é cheia de personagens masculinos, é apenas uma história. Quando ela é cheia de personagens femininas, é uma história de "mulherzinha". Machismo everywhere.

Caverna do Dragão - E quando só há um personagem negro?
Se esquecermos a representação de gênero (por um segundo) e pensarmos de forma mais abrangente, esse clichê pode ser aplicado às questões raciais também. Às vezes no meio de um grupo inteiramente branco, até há mais de uma personagem feminina, porém apenas um personagem negro (exemplo: Diana, em Caverna do Dragão). Isso significa que estão tentando nos vender diversidade só que não. É quase um favor permitir personagens femininas e/ou negrxs.


Bons Links:
Anita Sarkeesian - The Smurfette principle

terça-feira, 2 de julho de 2013

Literatura de/para/sobre mulher não é subgênero!

Desenhe um boneco de palitinho num quadro negro, em giz branco. E pergunte a qualquer um quem é aquela figura. 100% de certeza que é um homem, branco, cisgênero e heterossexual. Assim é na vida em praticamente tudo. Imagine x CEO de uma grande empresa. Imagine x presidente de uma nação. Imagine x protagonista de um filme de ação. Imagine x personagem central de um livro de aventura. Vou focar na literatura, pois mesmo personagens altamente libertárias como a Lisbeth Salander (Série Millenium - Stieg Larsson) só quebram em parte esse estereótipo: Mulher, branca, cisgênero, bissexual. Nesse texto tratarei apenas da questão de gênero, deixando as outras características para outros textos (vindouros, aguardem).

A literatura é dominada por homens. Por isso eu criei uma versão um pouco melhorada (acho) de um bechdel test, doravante chamarei de Teste Giza (Porque SIM!), que é meu atual critério para comprar/ler um livro:

- O livro é escrito por uma mulher?
- A personagem central é mulher?
- O interesse romântico em um homem, caso haja, é secundário para a trama?

Isso, obviamente, não vai medir o grau de feminismo, vai apenas determinar se os livros que são escritos por e para mulheres são sobre mulheres. Imagine que fosse o contrário, quantos livros você conhece que são escritos por homens? com protagonismo masculino e cujos interesses românticos são secundários para a trama? Aí ficou fácil, não é? Essa pesquisa aqui sobre o panorama brasileiro comprova bem o problema.

Aguardo o dia em que a normatização sobre a literatura não seja tão grande a ponto de existir um gênero desviante que é "para mulheres". Ou seja, que o protagonismo masculino deixe de ser padrão e que ser mulher deixe de carregar o estigma de ser sub-qualquer coisa. 

Por que é importante ler livros escritos por mulheres? 

O teste Bechdel original não contém informações sobre quem está por trás da história. Talvez porque realizar um filme é uma competência de muitas pessoas, o que tornaria difícil a análise. Mas um livro é escrito por um autor ou por poucas mãos, o que facilitaria. O nome está na capa, não custa dar uma olhadinha rápida. É importante ler livros de mulheres porque o olhar masculino sobre as mulheres tem sido em grande escala ou misógino, ou paternalista. De princesas que precisam ser salvas à pedaços de carne que precisam ser devoradas (metaforicamente). Livros como a série Millenium, escritos por um homem e com olhar igualitário sobre as mulheres, são raros. Muito raros.

Aguardando ansiosa o dia que essa linda <3 vai
escrever livros sobre Hermiones e não sobre Harrys.

Dia desses, estava lendo Game of Thrones. O mundo lá retratado é muito similar ao nosso no tocante à misoginia, ainda que as mulheres do livro sejam em sua maioria personagens maravilhosas, ricas em complexidade. Enfim, me surpreendi com um trecho em que Danaerys adentrava um recinto onde só havia homens, em sua maioria desconhecidos. Ela quase que instintivamente procura por outra mulher no recinto. Não encontra e, por isso, se sente desconfortável. Esse pequeno trecho, que poderia passar completamente despercebido, demonstra que o autor naquele momento teve uma enorme empatia pelas mulheres de forma geral. Qual mulher se sentiu segura em um ambiente completamente masculino? Eu nunca me senti. Lembro-me das muitas vezes em que desci praticamente na última parada de ônibus, tarde da noite, voltando da faculdade. Quantas vezes não tive medo ao ficar sozinha com o motorista, o cobrador e um ou dois gatos pingados desconhecidos dentro do ônibus? Esse tipo de pensamento pode vir num lampejo de empatia de um autor homem, mas vem naturalmente quando a autora é mulher, porque ela vive esses sentimentos o tempo todo.

Saindo um pouco da literatura para o cinema (oi, maior digressão do mundo, lembra?), quando a Pixar lançou "Valente", o que mais ouvi por aí foram críticas. Diziam que era um filme sem muita ação. Diziam que era um filme sem muita comédia. Diziam tanta coisa que eu desanimei o suficiente para não criar expectativas, mas qual não foi a minha surpresa ao assistir o filme e me deparar com grande parte da minha vida ali, naquela tela? Eu e minha mãe sempre tão parceiras, tão amigas e tão diferentes, passamos boa parte da nossa vida discutindo essas diferenças. Já repararam como é raro que se trate a fundo dessa relação entre mãe e filha? Ou que, quando o fazem, uma das duas sempre sai como vilã? Valente é um filme com não uma, mas duas protagonistas que se amam. É um filme que não gira em torno dos homens que estão na vida delas, mas apenas do amadurecimento e fortalecimento daquela relação entre mulheres. Se fosse um livro passaria com louvor no meu personal Giza test for books.

Além disso é importantíssimo parar de normatizar a profissão de escritor como uma profissão masculina. Recomendo esse texto.

Por que é importante que as personagens centrais sejam mulheres? 

Para que possamos nos sentir representadas e empoderadas. É ótimo encontrar personagens como a Hermione (Harry Potter - J.K Rowling), que é a aluna mais inteligente da grifinória, possivelmente de Hogwarts. É ótimo encontrar personagens como a Michonne (The Walking Dead - Robert Kirkman), que é uma guerreira negra e badass num mundo onde a maior parte da população foi dizimada. Porém, nenhuma dessas personagens são autônomas de fato nessas aventuras, pois são secundarizadas e eclipsadas pelo protagonismo masculino. Pense aí como seria foda um The Walking Dead sob a liderança da Michonne? 

Katniss Badass Everdeen
Sabe aquele estereótipo de que nerd é tudo um bando de adolescente espinhento de mão peluda que não tem namorada porque as garotas em geral desprezam a cultura nerd? Deixa eu contar um segredo: é o oposto. Mulheres são desprezadas pela cultura. Imperam o paternalismo e a misoginia. Não nos sentindo plenamente representadas, muitas de nós, nerds em potencial, acabam por trilhar outros caminhos. Por não se interessar por games, por exemplo! A Anita Sarkeesian recentemente criticou o fato de não haver nenhum jogo para XBOX One com protagonismo feminino entre os lançamentos anunciados esse ano. Sacou? Temos sido sistematicamente excluídas ou eclipsadas na literatura, nos games, no cinema e etc.

Por que é importante que o interesse romântico não seja prioritário para a trama?

Recentemente, várias autoras tem escrito livros com protagonismo feminino (o que é ótimo), porém, as histórias giram em torno de homens (o que é péssimo). Mesmo os livros que são escritos para um público feminino, são sobre homens. A presença masculina é o fio condutor das histórias que as mulheres lêem. É importante que personagens masculinos sejam secundários, para que o protagonismo seja feminino DE FATO. Pois na nossa sociedade atual, não há equilíbrio entre essa relação, mesmo um protagonismo dividido pode facilmente se tornar paternalista.

Não leio porque não me
empodera, mas não julgo quem lê.
Observe, por exemplo, que segundo esse teste que propus, nenhum livro da Jane Austen passaria. Eu amo Jane Austen. Acho que a obra dela busca a quebra de paradigmas da sociedade em que ela vivia, onde casamentos eram arranjados entre pessoas de mesma classe social. Ela questiona em sua obra várias questões: Se o casamento entre pessoas de classe social diferente deveria ser probido, se mulheres devem casar por interesse e por fim, o próprio casamento arranjado em si, que é fruto de um relacionamento (ou nem isso) sem amor. Porém, uma vez que o assunto tratado é a questão do casamento e da vida conjugal, pode-se dizer que os livros tratam do relacionamento de mulheres e homens. 

Isso que estou falando parece contrariar a idéia do primeiro tópico? Ou seja, antes eu disse que mulheres empatizam melhor com mulheres por compartilhar experiências similares, mas agora eu digo que algumas de nós estão escrevendo histórias que não nos empoderam e isso soa estranho? Bom, a verdade é que uma das experiências universalmente compartilhadas por nós é a internalização do machismo. Crescemos ouvindo o patriarcado ditar as regras sobre as nossas vidas e muitas vezes acreditamos nele. Acreditamos nele quando nos contaram histórias de princesas presas em torres, aguardando príncipes. Ouvimos o patriarcado quando nossos pais dizem que nosso irmão pode sair à noite, mas nós não. Prestamos atenção quando aquele carinha disse que aquela menina era rodada e sem valor. E principalmente acreditamos no patriarcado quando ele falou que não podemos confiar umas nas outras. Enfim, tantas mentiras foram colocadas dentro de nós que um teste anti-patriarcado precisaria de uma prova de Vestibular padrão CESPE para encontrar uma obra que de fato não fosse machista. 

Então, eu acho importante não julgar, não condenar a mulher que está escrevendo histórias românticas e parar de achar que todas as críticas direcionadas ao gênero literário Chiklit (por exemplo: Becky Bloom, Bridget Jones e, acho que até Crepúsculo se enquadra), são críticas literárias. Há muito de misoginia, tanto contra as escritoras quanto contra suas personagens, mas  principalmente, contra seu público.

E aí, Giza, o que você recomenda, então?

OLHA não está fácil. Tenho 5 livros (na verdade são sagas literárias) para recomendar. E essa lista vai aumentar conforme eu progredir nas leituras encalhadas.

Momento lindo da Marji em Persépolis

- Persépolis, de Marjane Satrapi (Quatro volumes, existe uma edição única). Esse livro merece um texto só para ele, mas adianto que a autobiografia de uma iraniana que tem como pano de fundo o cenário político do Irã, de crescente repressão às liberdades civis.

- As Brumas de Avalon, de Marion Bradley Zimmer (Quatro livros). Old but gold. Pegue uma história contada e recontada sob a ótica masculina e conte-a novamente, só que dando voz às mulheres. Essa é a premissa. É maravilhoso.

- Jogos Vorazes, de Suzane Collins (Três livros). Aqui há um terreno cinzento na questão dos relacionamentos amorosos, se eles são ou não secundários, contudo eu consigo ver que sim, é uma história sobre uma mulher lutando uma guerra sozinha. E é notório que a personagem é muito solitária, então creio que passa no Teste Giza. 

- Caminhos de Sangue, de Moira Young (Três livros, só li o primeiro até agora). A Saba começa a história sendo a sombra do irmão. A própria personagem diz isso, mas ela vai crescendo ao longo do primeiro livro até se tornar autônoma. É ela que embarca em uma aventura para salvar o irmão. É ela a heroína (e para falar a verdade, o irmão mal aparece). 

- Divergente, de Veronica Roth (Três livros, apenas dois lançados). Ai gente, ai gente, será? Não sei ainda, estou em dúvida. Estou aguardando o melhor.

P.S.: Aceito sugestões.

UPDATE: Até mesmo as capas dos livros para mulheres são gritantemente diferentes, veja nesse link.
UPDATE 2: Passar no Teste Giza não assegura qualidade, apenas aponta o protagonismo feminino dentro (personagem) e fora (escritoras) da ficção.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Tris, a Insurgente.

Retomando a programação normal deste blog, chegou a hora de falar de "Insurgente", a segunda parte da trilogia da Veronica Roth. O texto está um pouco atrasado, uma vez que o livro já foi lançado há algum tempo? Sim. Mas foi o tempo necessário para eu entender se gostei ou não do livro. Vou logo adiantando que contém spoilers.


Não sei se é o momento do mundo interferindo na arte, mas está rolando uma tendência de histórias de luta contra Estados opressores, a exemplo de Jogos Vorazes. E isso é bom. São livros com idéias esquerdistas, com questionamento da ordem e viés social. Em insurgente, começamos o livro sabendo que os planos da facção Erudição, de tomar para si o controle político exercido pela Abnegação, usando os membros da Audácia, foram destruídos por Tris e Quatro. Porém, não exatamente. E agora, mais que nunca, os divergentes (pessoas que se identificam com várias facções e não são controladas pelas simulações) estão em perigo. Assim como os líderes da Abnegação, que estão sendo exterminados. E muitas pessoas determinadas a não se unir a erudição acabaram virando "sem facção".

- Marcus Eaton, a incógnita:

Marcus Eaton, o pai de Quatro, que conhecemos somente através da paisagem do medo empunhando um cinto contra o filho, continua sendo apenas isso. Em nenhum momento o personagem revelou um pouco mais de si mesmo, nem demonstrou ter mais tonalidades de cinza. Sou radicalmente contra bater em criança, fui criada sem palmada. E acho importante que a Veronica sutilmente questione mais uma dessas coisas que passam despercebidas numa sociedade doente: bater em criança é violência. Mas esperava mais do Marcus, nem que fosse mais vilanias. Parece que falta alguma coisa nessa história.

- Amizade, muito diferente do meu conceito:

Eu não sei quais são os amigos da Verônica, mas na minha visão, a amizade, enquanto conceito, não ficaria em cima do muro. Amizade é mais do que isso, tem a ver com identificação, carinho e também proteção. Não é amizade se você não toma partido, aí é diplomacia. Quem é amigo de todos, não é amigo de ninguém. Amizade é algo mais amplo e profundo do que não ter inimizades. A facção amizade se mostrou fraca e nada amiga. Quando eu penso em amizade, eu penso em Sororidade. Sororidade, para quem não sabe, é aquilo que existe entre Cristina e Tris, o sentimento de irmandade, que é tão forte entre as duas que fez com que Cristina perdoasse a Tris pelo assassinato do seu namorado, o Will. Que fez com que nem mesmo isso as colocasse em lugares diametralmente opostos. Para mim, ESSE é o relacionamento mais bonito do livro.

- Quatro e Tris:


Ok, isso será polêmico. Eu já disse no meu texto anterior sobre divergente que gosto do casal Q&T. Mas algo me incomodava que me incomodava no primeiro livro mudou E MUITO no segundo. No primeiro livro, eu ficava mais feliz em ler as partes em que o silêncio falava mais do que os dois personagens, e eu digo isso porque quando o Quatro abria a boca o relacionamento desequilibrava. Quatro estava lá para guiar a Tris. Na jornada do herói, pode-se dizer que ele era o tutor dela. Isso é bem paternalista. E gente, desculpa dizer, mas uma personagem feminina forte que é tutelada por um homem que é o seu par romântico perde parte de sua força. Digo isso porque numa sociedade machista, ter autonomia é importante. No primeiro livro, salvo algumas passagens, como quando a Tris sobe a roda gigante, ou ajuda o Quatro na paisagem do medo É ELE e não ela, quem dá as ordens, quem ensina, quem diz o que precisa ser feito e como (rola até liçãozinha de moral). No final de divergente, genialmente, é ela que tem maior grau de divergência e precisa salvá-lo e a todas as pessoas. Difícil saber se há um equilíbrio no primeiro livro, é quase como se eles dividissem o protagonismo.

Em insurgente, diferentemente do primeiro livro, a Tris questiona o Quatro. Ela desobedece, ela desiste dele pelo que acredita. E isso, amigos, é ter autonomia. É se desvincilhar daquele que é ao mesmo tempo tutor e príncipe encatando e dizer: "Estou tomando as rédeas da minha vida". É discordar. A Tris cresceu nesse livro quando discutiu e se afastou do Quatro. Ainda que seja doloroso vê-la sofrer.

- O que espero para "Allegiant", ou "O que eu quero, Mário Alberto?"

Me parece que vai ser uma alegoria do mito da caverna, de Platão. Quero saber o que está do lado de fora da cerca. 
Quero entender de vez em qual lado dança o Caleb. 
Quero saber quem é o Marcus Eaton .
Quero ver Cristina e Tris como grandes amigas.
Quero que o Quatro passe a ouvir a Tris, coisa que ele não fez durante todo o segundo livro (e quebrou a cara, né?).
Quero que chegue logo, porque eu realmente não faço a menor idéia do que virá e estou muito curiosa!

P.S.: Leia também o meu texto sobre o primeiro livro.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Divergente - Facção antes do sangue


Hoje vou dar uma pausa nos textos sobre Jogos Vorazes, porque li outro livro que me chamou a atenção, se chama "Divergente", da autora Veronica Roth. É um livro que veio na levada de Jogos Vorazes, é distópico, narrado em primeira pessoa, a personagem central é mulher e há todo um conflito ideológico envolvido. Sim, há semelhanças com Jogos Vorazes, mas também há diferenças. 

Quero ressaltar o quanto acho importante que o mercado esteja se abrindo para a criação de protagonistas mulheres em tramas de ação. É muito importante para o desenvolvimento e autoestima das crianças e das adolescentes que elas tenham exemplos positivos representados na TV, no cinema, na literatura, nos quadrinhos. Até então, eu lembrava de poucas heroínas protagonistas, digamos assim, na literatura. As que atingiram as maiores massas (e que chegaram ao Brasil), que viraram bestsellers, e que não são exemplos de passividade eram muito raras. 

Cito três sempre: Morgana, Katniss e Lisbeth. Morgana é a principal narradora de "As Brumas de Avalon", na mesma história outras personagens participam contando a história, mas o protagonismo de Morgana é marcante. Depois temos Lisbeth, que é uma das personagens protagonistas de "Os homens que não amavam as mulheres", não falarei muito dela nesse momento porque a amo de paixão enlouquecida e pretendo reservar um texto apenas para ela, mas digamos que ela é atual, ela é destemida, ela é independente e vingativa. Por fim, Katniss, de quem já falei aqui e aqui. Há outras? certamente, mas essas são as mais proeminentes. Se houvesse um "top of mind" de personagens que se enquadram nas seguintes características: "Protagonista, Heroína, ativa, trama de ação", acredito que esses três nomes seriam os mais apontados. ACREDITO, e claro posso estar errada (Sintam-se à vontade para me apresentar novas leituras. Já ouvi falar de mais alguns livros distópicos com protagonismo feminino, em breve pretendo lê-los e comentá-los. Embora esse não seja um blog de literatura, eu gosto muito de ler e acabarei falando muito no assunto).

Agora eu conheci a Tris. E a Tris tem seus altos e baixos mas é certamente mais uma para o time. Vamos ao Livro.

A PARTIR DAQUI CONTÉM (POUCOS) SPOILERS

- Ambientação



"Divergente" é uma história que acontece num futuro distópico. Os antepassados dos personagens, depois de devastarem o planeta com guerras, dividiram a sociedade em facções, criadas para desenvolver certas características da personalidade de cada cidadão. Como assim? Eu explico. Os antepassados culparam algumas características dos seres humanos pelas mazelas da humanidade. Assim:

Aqueles que culpavam o egoísmo, formaram a facção "Abnegação";
Aqueles que culpavam a ignorância, formaram a facção "Erudição";
Aqueles que culpavam a agressividade, formaram a facção "Amizade";
Aqueles que culpavam a duplicidade, formaram a facção "Franqueza";
Aqueles que culpavam a covardia, formaram a facção "Audácia".

Cada facção tem parte no funcionamento da sociedade. Os integrantes da Abnegação controlam o governo, pois são altruístas e botam as prioridades dos outros acima das suas. Os integrantes da Franqueza, controlam a justiça, pois não deve haver duplicidade para que haja justiça. Os integrantes da Erudição, se tornaram professores, médicos, cientistas. Os integrantes da Amizade controlam as fazendas (eu ainda não entendi o motivo, não ficou claro). Os integrantes da Audácia, que são os mais destemidos realizam a segurança. É óbvio que cada facção tem lideranças próprias também.

Há, é claro, aqueles que foram destituídos de suas facções. São chamados de "sem-facção". Fazem os serviços menos remunerados, quando não se tornam pedintes, pessoas carentes.

Enfim, há alguma tensão entre as facções, especialmente entre a Erudição e a Abnegação. As lideranças da Erudição querem integrar o governo com fins bastante egoístas, algo que é rejeitado de pronto pela Abnegação. Há divergências ideológicas entre a Amizade e a Franqueza. Segundo integrantes da Franqueza, quem quer manter a amizade a todo custo, estará de alguma forma enganando alguém, pois não há franqueza absoluta na paz. Assim, entre diferenças ideológicas e questões práticas do funcionamento da sociedade, a coisa se torna bem interessante.

-Tris, a protagonista.

Imagem encontrada nesse link
Esse é o pano de fundo da história de Beatrice, uma jovem nascida na Abnegação. Aos 16 anos, todos os jovens passam por um teste de aptidão que ajudará a definir o melhor direcionamento para ele, ou seja, qual a facção mais indicada. Contudo, a escolha é individual. Uma escolha que define tudo na vida, daí o ditado "Facção antes do sangue", pois a sua escolha pode obrigá-lo a abandonar tudo, inclusive sua família. 

Beatrice, a Tris, acorda todos os dias e leva uma vida contida. Ela deve ser altruísta em tudo o que faz, se ela por exemplo quiser subir num elevador e outras pessoas quiserem fazer isso também, ela irá de escadas. Não importa a situação, o outro é prioridade. As roupas da abnegação são todas iguais, assim como o corte de cabelo, os espelhos são escondidos, pois a vaidade é uma forma de autocomplacência. É uma vida regrada e difícil com certeza.

Ao fazer seu teste, Tris descobre que é "Divergente", ou seja, que ela demonstra inclinação para várias facções, nenhuma em específico, e que isso é muito perigoso. Uma pessoa a ajuda a esconder o resultado do teste de aptidão, introduzindo um resultado falso ao sistema: "Abnegação". Tris escolhe abandonar a sua vida contida e ir para a Audácia. Uma grande diferença entre Jogos Vorazes e Divergente, é que desde o início, Jogos Vorazes é acima de tudo uma crítica a uma sociedade de consumo, vazia de valores, enquanto Divergente (deixo claro que estou falando do primeiro livro da trilogia) é uma história de descoberta, de crescimento. A gente acompanha a Tris durante o seu treinamento na Audácia e como ela passa de uma menina magricela e baixinha, da facção mais sacaneada pelas outras (ela sofre bullying por causa da maneira como os "Caretas", forma como chamam os habitantes da Abnegação, vivem a vida), se torna uma autêntica integrante da Audácia. Além desse foco, há toda uma questão filosófica sobre o que é a coragem e o que representa cada uma dessas qualidades que envolvem as facções, e como o pensamento livre é perigoso para esse tipo de sociedade. Aliás, eu diria que é perigoso em qualquer tipo de sociedade em que há algum grau de autoritarismo.

Depois de escolher a facção, ela passa por um período de treinamento e seleção. Alguns daqueles que tentam entrar em alguma facção acabam não sendo aceitos, e por consequência, tornam-se sem facção. Na Audácia, pode-se dizer que é um treinamento quase militar. Ela aprende a lutar, a atirar, a enfrentar seus piores medos. E é lá que ela entende a diferença entre a paz da abnegação e a liberdade da audácia. E é onde ela se torna para todos os efeitos uma adolescente, é quando ela permite a si mesma se colocar como prioridade às vezes, rir alto, provar sua capacidade, ser vaidosa e autocomplacente. Mas também aprende a ser forte, decidida, audaz e a ser também em alguns momentos altruísta como nunca foi antes. E a amar. Sim, há romance. Diferente de Jogos Vorazes, onde o amor é uma dúvida constante em Katniss, Tris tem algumas certezas. Eu ainda não decidi se gosto disso ou não. Em Jogos Vorazes certamente sofri com a indecisão de Katniss, mas vejo muito valor em um personagem que não sabe o que quer, que precisa compreender a si mesma. Acho que seria legal se a Tris descobrisse mais lentamente o que sente por Quatro. Isso não faz, de forma alguma, que eu desgoste da trama ou dos personagens, ou mesmo do romance. Eu gosto muito dos momentos que eles passam juntos. Os dois são personagens que falam mais em silêncio do que em palavras quando estão juntos, ao menos é essa a sensação que tenho.

Obs.: Divergente já tem adaptação para o cinema prevista para 2014 e o segundo livro, "Insurgent", já foi lançado na gringa.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 4 - Katniss, a bestante do fogo


CONTÉM SPOILERS


Hoje quero apresentar a outra face de Katniss. Não aquela que defende aos inocentes e motiva multidões. A sua agenda pública já foi descrita nesse post. "Katniss, a sobrevivente" dá lugar a "Katniss, a bestante do fogo".


"Bestante" é o nome dado aos seres mortíferos geneticamente manipulados criados pela Capital. E Bestante de fogo é como Katniss se define após passar por todas as provações ao longo dos três livros. Com boa parte do corpo queimado, ela vê pedaços de sua pele retorcida, costurada, dolorida e desmontando. Porém, a verdadeira dor não está na superfície. Ela percebe que jamais conseguirá apagar o rastro de destruição que uma guerra traz, as marcas da guerra no mundo e dentro de Katniss são indeléveis. 

Mesmo insubordinada, mesmo recusando-se a fazer esse papel, Katniss foi usada como a peça que faltava no Jogo de alguém. Se por um lado, ela conseguiu ofuscar o poder da Capital graças às suas atitudes nos Jogos, por outro, os interesses políticos foram se moldando para que a personagem pudesse ser novamente um instrumento, difícil de ser manuseado, é verdade, mas necessário. Demorou muito para que ela entendesse isso plenamente. E custou muito caro. Katniss não conseguiu proteger quem amava dos interesses políticos que rondam toda a trama. A mesma personagem que tanto se ressente da mãe que entrou em depressão quando o pai dela morreu numa mina de carvão, agora se vê totalmente descrente de sua própria vida também, desejando a própria morte, para que haja um fim para o seu sofrimento.

O maravilhoso capítulo 25 do livro Esperança, talvez o meu capítulo preferido de todos os livros, retrata com tanta precisão o sofrimento da personagem através de um dos seus inúmeros pesadelos que eu não poderia tentar explicá-lo sem transcrever essa passagem que foi tão difícil de ler.

"Um bestante do fogo conhece apenas uma única sensação: Agonia. Nenhuma visão, nenhum som, nenhuma sensação além da implacável queimadura na carne. Talvez haja períodos de inconsciência, mas qual é a importância disso se não consigo encontrar refúgio neles? Sou o pássaro de Cinna, inflamado, voando freneticamente para escapar de algo inescapável. As penas flamejantes que crescem de meu corpo. O bater das asas faz com que as chamas se movam. Estou me consumindo, porém infinitamente.

Por fim, minhas asas começam a falhar, perco altura e a gravidade me impulsiona em direção a um mar da cor dos olhos de Finnick e cheio de espuma. Flutuo sobre minhas costas, que continuam queimando debaixo d'água, mas a agonia dá lugar à dor. Quando fico à deriva e incapaz de navegar é que eles aparecem. Os mortos.

Os que eu amava voam como pássaros no céu aberto acima de mim. Adejando, girando no ar, me chamando para que eu me junte a eles. Quero muito seguí-los, mas a água salgada satura minhas asas, tornando impossível levantá-las. Os que eu odiava foram para a água, horrendos seres cheios de escamas que estraçalham minha carne salgada com dentes pontudos. Mordendo sem dar descanso. Arrastando-me para o fundo."

Talvez algumas pessoas discordem de mim, mas na minha opinião, a trilogia que Suzanne Collins escreveu não tem final feliz. Aliás não tem um só minuto de plena felicidade. Mesmo na felicidade há uma dor lancinante. E Katniss nos envolve cada vez mais profundamente na sua escuridão, na sua tristeza. Quando o momento chega, ela também nos envolve no seu desejo de renovação, uma tarefa mais árdua que unificar todos os distritos de Panem. É muito contraditório que o Tordo, o pássaro que é o símbolo da rebelião, se sinta sempre aprisionado na gaiola que alguém criou, no Jogo de alguém que se sentou em uma sala com alguns dos seus e decidiu tomar a vida de pessoas inocentes, como Katniss, como Peeta, como todos os tributos e como todo o povo oprimido dos Distritos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 2 - Katniss, a sobrevivente


Esse texto contém spoilers e talvez você queira começar por esse texto aqui, que explica o que são os Jogos Vorazes.

"É uma sobrevivente, aquela lá". Mãe de Peeta, sobre Katniss.

Morgana, de As Brumas de Avalon
Antes de sequer começar a falar da heroína de Jogos Vorazes, é preciso reforçar o fato de que não é comum que uma trama de guerra, seja centrada numa personagem feminina. A mulher é sempre parte secundária. Acho que no rol de personagens centrais de uma história sobre guerra e poder, me recordo de Morgana (de As Brumas de Avalon) e Katniss. Quando passamos então a distopias, katniss me parece ser única, pioneira, ou pelo menos muito rara na literatura. 

A heroína de Jogos Vorazes, e também a narradora do livro (que é contado em primeira pessoa) é Katniss. Tudo o que vemos e sabemos no livro é a partir do seu ponto de vista.


Katniss é uma moradora do bairro Costura, no Distrito 12 de Panem. E como muitos ali, não teve uma vida fácil. Aos 11 anos, perdeu seu pai em uma explosão numa mina de carvão. Sua mãe entrou em processo de depressão profunda e era incapaz de prover o sustento para a família. E assim, sua família passou enormes necessidades, a ponto de quase morrer de fome. Tão jovem, ela tomou as rédeas da situação e passou a caçar clandestinamente na floresta (crime punível com morte em Panem) e vender os animais no "Prego", uma espécie de mercado negro, tornando-se uma arqueira e caçadora admirável.

Além disso, katniss teve que se submeter à outra tortura que a capital inflige aos pobres. Candidatou-se às tésseras. Isso significa que ela colocou seu nome várias vezes na lista de candidatos à colheita, para conseguir óleo e grãos para sua família. Aos 16 anos, apenas 4 anos após sua iniciação na colheita, ela já tinha seu nome inscrito 20 vezes, uma vez que as inscrições são cumulativas. Mesmo assim, o nome sorteado para participar dos Jogos Vorazes é Prim, sua irmã caçula de 12 anos, estreante na colheita. Katniss se voluntaria para assumir o fardo de sua irmã. Dando nesse momento sua primeira prova de heroísmo. Assumir quase a promessa de uma morte certa para dar uma oportunidade de futuro à Prim.

Em dado momento da história, Katniss analisa como a sua irmã herdou as melhores qualidades da família. E como herança que ela forneceu à Prim, ela cita sua combatividade. Não creio que ela falava numa combatividade vazia, não creio que ela falava de combate no sentido mais estreito da palavra,em guerrear, em matar, em ir para campos de batalha. Acredito que ela se referia ao fato de que ela não se abaixa diante de um sistema, ainda que ela tente. E ela tentou se adaptar. Katniss é tão humana que muitas vezes se deixa abalar quando precisa decidir se vai ser a voz de uma rebelião que salvará muitos mas colocará aquelas pessoas próximas dela em risco. Esse é um conflito interno pelo qual a personagem passa durante quase toda a saga. É uma personagem com milhares de tons de cinza, que por vezes amamos e por vezes condenamos. 

Suas atitudes dentro dos jogos são totalmente o oposto do que se espera de um vitorioso. A Capital espera que um vitorioso seja alguém que luta pela própria vida, que seja impiedoso, que aja em seu próprio benefício. Mas cada atitude de Katniss contraria essa regra, ela não ultrapassa o seu limite moral. Matou sim, para se defender e àqueles que ela amava. E também matou por compaixão alguém que sofria para morrer lentamente. Quando ela foi forçada a matar alguém que amava, ela se recusou estoicamente. E no seu maior enfrentamento ao sistema opressor em que estava inserida, ela se tornou a voz de uma revolução. 
Katniss usando o sinal do distrito 12,
que significa um adeus a alguém que é amado

Vi algumas críticas chamando-a de passiva, por ela não ter clamado a morte das pessoas na arena, não ter ido para o combate. Mas quem critica não vê que de passiva, ela não tem absolutamente nada. Ao se recusar a matar deliberadamente, como faziam os tributos dos distritos 1 e 2, por exemplo, ela foi mais ativa que todos os outros tributos. Ela deixou de matar não apenas para se defender ou para fugir, mas porque matar seres humanos inocentes não é algo que ela consiga fazer sem pesar. Embora vez ou outra ela precise fazer.

Broche que Katniss ganha de Madge, sua amiga,
um símbolo do distrito 12, o pássaro tordo.
Suas ações não foram no sentido de gerar levantes do povo oprimido contra a capital, foi apenas a sua combatividade natural, sua rebeldia, seu rancor e seu ódio (Sim, amigos, Katniss também sente ódio) contra esse sistema, mostrando que a sua natureza não seria facilmente dobrada e ela não se tornaria uma mera peça dos jogos vorazes. E essa foi a fagulha necessária para que o povo tão assustado, tão oprimido, pudesse ter forças para lutar contra a tirania. Durante a guerra, Katniss não teve um alto posto de comando, ela era soldado. Contudo era seu rosto que ia para cada TV em Panem falar diretamente com os rebeldes. Tornou-se o tordo (um pássaro capaz de repetir melodias e que é símbolo do distrito 12) fazendo ecoar sua voz em todos os distritos.