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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Representação feminina: O princípio da Smurfette

Smurfs - Representação predominantemente masculina
Um dos clichês que envolvem a representação feminina na TV, quadrinhos, jogos, cinema, literatura e etc, é o "Princípio da Smurfette". O termo foi cunhado por Katha Pollitt em 1991, para o NY Times.O texto de Pollitt foi motivado pela dificuldade que ela encontrou em oferecer para a filha dela histórias em que houvesse uma representação feminina adequada. 

Tartarugas Ninja - April é a única mulher e não luta
Se você, como eu, foi criança nos anos 80, deve se lembrar dos smurfs. Os smurfs eram pequenas criaturas azuis que viviam em uma comunidade exclusivamente masculina, exceto por uma personagem, a Smurfette. O princípio da smurfette trata exatamente dessa desigualdade numérica entre personagens femininas e masculinas que é recorrente. Esse princípio se aplica aos casos em que os personagens centrais carregam essa desigualdade. Entretanto,  às vezes, como no caso dos Smurfs, a coisa é tão absurda que entre TODO o grupo de personagens só há uma mulher, desprezando completamente o fato de que metade da população mundial é composta por mulheres. E é claro que isso se repete em muitas outras obras de ficção. O problema, entretanto, extrapola a questão numérica. As "mulheres-smurfettes" geralmente são estereotipadas e não definem o grupo, são em sua maioria personagens à parte do grupo. Às vezes sua função é decorativa, às vezes é meramente para evitar a crítica da não-representatividade das mulheres, às vezes ela é o par romântico de algum dos outros personagens principais.

Miss piggy é uma personagem sexualizada. SIM. Isso mesmo. :O
A Smurfette sexualizada: A começar pela própria smurfette (a original), que foi criada pelo Gargamel para seduzir os smurfs e depois transformada pelo papai-smurf em uma smurf do bem (loira, sexy com decote e salto alto). Outro exemplo é a Miss Piggy dos Muppets, a única mulher do grupo principal obviamente é muito vaidosa.


Kanga é uma canguru-fêmea, mãe de Roo.
 E é a única personagem feminina de Winnie the Pooh.
A Smurfette maternal/Sentimental: Em outros casos, a mulher-smurfette pode ser uma figura que cuida dos personagens masculinos, preocupa-se com eles quase de forma maternal, ela é o lado sentimental e/ou espiritual. 

TBBT - Tanta coisa errada que fica difícil começar a falar
Ou seja, prevalece a dualidade santa x vadia. Algumas personagens incorporam elementos dos dois grupos. Por exemplo, a Penny nas duas primeiras temporadas de The Big Bang Theory. Às vezes representada como uma mulher sexy, às vezes como mãe (especialmente na maneira como se relaciona com o Sheldon). Nesse caso há ainda o problema de a personagem ser tachada de burra e fútil o tempo todo e, obviamente, ser assediada por quase todos os homens do grupo. Felizmente, após algum tempo foram inseridas outras personagens, como a Leslie, Amy, Bernadette e Pryia (não quer dizer que essas personagens estejam livres de estereótipos).

Novo Star Trek de J.J. Abrams
Tudo bem, vamos assumir que esse é um clichê que vem se reduzindo ao longo dos anos. Antingamente era mais que normal haver apenas uma mulher. Em Star Wars, por exemplo, só há duas mulheres representativas em toda a franquia (Padmé e Léia) e elas não são contemporâneas uma à outra. Porém é válido lembrar que muitas histórias estão sendo recontadas atualmente. O filme de Star Trek, por J.J. Abrams, só tem uma personagem mulher, a Uhura. Em remakes não há o cuidado em repensar esse tipo de posicionamento. E é claro que em tempos de filmes de superheróis criados há décadas atrás, se torna bem comum ver filmes com mulheres-smurfettes.

Pacific Rim - O problema persiste
Assisti recentemente o filme "Pacific Rim", queridinho de 10 entre 10 nerds ávidos por reviver os live actions japoneses da infância. Adivinhe? a personagem Mako é uma smurfette. E é claro que é ela que se deixa levar pelas emoções dentro do Jaeger. E é a única cuja competência é questionada em função de seu passado. Coincidência? Eu sei que havia uma outra pilota, russa, contudo ela não abriu a boca durante todo o filme.


Muitos filmes (e séries) recentes padecem desse mal. Parece que na indústria do cinema só mesmo as mentes masculinas definem o grupo. E é de dentro delas que sai essa pífia representatividade feminina que, quando existe está cercada de estereótipos, paternalismo e misoginia. Seria bom lembrar que há séries e desenhos de sucesso com grupos de personagens quase que inteiramente femininos. Basta lembrar de As Panteras, Buffy, Sailor Moon (esse em especial praticamente inverte o princípio da Smurfette), vários desenhos da Clamp e etc. O problema é que, quando a história é cheia de personagens masculinos, é apenas uma história. Quando ela é cheia de personagens femininas, é uma história de "mulherzinha". Machismo everywhere.

Caverna do Dragão - E quando só há um personagem negro?
Se esquecermos a representação de gênero (por um segundo) e pensarmos de forma mais abrangente, esse clichê pode ser aplicado às questões raciais também. Às vezes no meio de um grupo inteiramente branco, até há mais de uma personagem feminina, porém apenas um personagem negro (exemplo: Diana, em Caverna do Dragão). Isso significa que estão tentando nos vender diversidade só que não. É quase um favor permitir personagens femininas e/ou negrxs.


Bons Links:
Anita Sarkeesian - The Smurfette principle

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Meus pitacos sobre Django Livre



Eu não sou crítica de cinema e talvez por isso mesmo minha opinião esteja tão longe dos aplausos que Django Livre recebeu. Aliás, um motivo para eu não ter me entusiasmado tanto com o filme: Western. Western, para mim e para muitas mulheres, é gosto adquirido. Falo isso porque somos educadas para a docilidade, a passividade. Não significa que mulheres não possam gostar e se divertir assistindo, apenas que não somos estimuladas a assistir o gênero. Recentemente assisti Bravura Indômita e achei sensacional. O que acontece é que Western é um gênero violento e dominado pela presença masculina. Assim, foi preciso muito tempo para que eu pudesse dizer: "eu curto western". Eu gostei do filme? Sim. Eu amei? Não. Eu pagaria para ver de novo? Não. 

Pesa para mim o fato de que o Tarantino costuma colocar as mulheres de suas histórias como personagens marcantes, ativas, inteligentes. Ele faz filmes que são marcadamente violentos, brutais, mas olha só: as mulheres participam. As mulheres do tarantino até protagonizam. Mas em Django Livre as mulheres são completamente apagadas. Cito aqui as três que apareceram no filme: A mulher de lenço vermelho no rosto, que estava entre os capatazes de candyland, a irmã de Calvin Candie (que eu sequer me lembro do nome, para vocês sentirem o quanto a personagem é dispensável) e Brunhilde Von Shaft, a esposa de Django.

Mulher misteriosa de lenço vermelho
A mulher de lenço vermelho no rosto é apenas uma promessa que não dá em nada. Ela passa o tempo todo calada e morre repentinamente, sem ter agido, sem ter falado, enfim, nada. A irmã de Calvin é retratada quase como uma criança, sob o manto de paternalismo do irmão. E Brunhilde Von Shaft é a maior decepção. O que sabemos dela no início do filme é que tentou fugir da fazenda onde era escrava, o que em si é um ato de muita coragem, foi vendida para outro senhor, separada de Django. E depois, quando ele a reencontra ela está sendo punida por ter tentado fugir novamente. É de se esperar que ela fosse A mulher que o Tarantino adora representar: forte, determinada, ousada, inteligente. Mas não. Não. Ela está lá quase que para efeito decorativo. A única função é a de dar a motivação para o herói Django. A donzela em perigo. 
Os parceiros Django e Schultz
Esquecendo esse traço do filme que me incomodou muito, mas que não seria suficiente para que o filme fosse mediano (uma vez que "Cães de Aluguel", por exemplo, não tem mulheres também e é fantástico) tenho outros "poréns". Eu acredito mais no Tarantino quando ele conta histórias de bandidos. Imagino que ele tentou fazer isso em Django ao colocá-lo como parceiro de um "caçador de recompensas", alguém moralmente questionável, se pensarmos que ele recolhe cadáveres e troca por dinheiro, por outro lado, faz isso sob a tutela da lei. Assim, estamos falando de dois personagens que são um homem oprimido e um homem que mata bandidos, ou seja, por definição, mocinhos. É uma história sobre heróis. E heróis tem um problema que bandidos não possuem: Heróis sentem culpa. Mesmo que em dados momentos da história o Django precise agir de forma cruel com seus companheiros que foram escravizados, isso não acontece sem culpa. Quando a gente assiste Kill Bill, a gente empatiza com a vilania da personagem principal, Beatrix Kiddo, que mata sem remorso, como ela mesma informa aos seus oponentes. E porque é ruim que personagens sintam culpa? Não é ruim, é apenas diferente do que estamos habituados a ver em filmes do Tarantino. Eu, pessoalmente, acho que ele conta histórias de bandidos muito bem, mas histórias de mocinhos, não tanto. E por falar em diferenças, Django Livre é um filme linear. 

Os vilões Stephen e Calvin
No tocante às atuações, Samuel L. Jackson, Cristoph Waltz, Leonardo di Caprio estão incríveis, Jamie Foxx também se saiu bem, embora possua menos diálogos. A impressão que tenho é que conforme o personagem se empodera, toma as rédeas de sua vida, ele vai adquirindo mais diálogos e isso é uma característica bacana do filme. Mas é exatamente na questão da escravidão que o filme mais peca. É muito bom assistir um filme Western estrelado por um ator negro. Há outros, de cabeça me lembro de "As loucas aventuras de James West". Li um post  que mostra vários outros títulos. Tudo bem, é verdade que o Tarantino nos faz gargalhar do ridículo homem branco opressor encapuzado, numa clara referência à Ku klux klan, que na época ainda nem existia. E também é interessante o discurso "científico" do Calvin Candie para justificar a escravidão, faz a gente pensar em como a ciência não é neutra e foi usada como arma para garantir a perpetuação do preconceito. Mas é também verdade que o Tarantino deu para o herói um tutor branco. E para finalizar, caiu na falácia que "pior que o homem branco é o homem negro opressor". O maior vilão de um filme cuja temática É A ESCRAVIDÃO é um negro. Eu acho que isso é um profundo desrespeito à história das pessoas negras. O homem negro, ainda que poderoso, continuaria sendo alvo do preconceito, continuaria sendo oprimido. Daí eu me pergunto: Era mesmo necessário? Parece uma mea culpa: "olha só, eu mostrei esse personagem aqui (o Candy), que é um homem branco desprezível, mas também tem esse aqui (Dr. Schultz), que é um cara legal. E até tem esse outro (Stephen) que é negro e é pior que o branco!".