Eu não sou crítica de cinema e talvez por isso mesmo minha opinião esteja tão longe dos aplausos que Django Livre recebeu. Aliás, um motivo para eu não ter me entusiasmado tanto com o filme: Western. Western, para mim e para muitas mulheres, é gosto adquirido. Falo isso porque somos educadas para a docilidade, a passividade. Não significa que mulheres não possam gostar e se divertir assistindo, apenas que não somos estimuladas a assistir o gênero. Recentemente assisti Bravura Indômita e achei sensacional. O que acontece é que Western é um gênero violento e dominado pela presença masculina. Assim, foi preciso muito tempo para que eu pudesse dizer: "eu curto western". Eu gostei do filme? Sim. Eu amei? Não. Eu pagaria para ver de novo? Não.
Pesa para mim o fato de que o Tarantino costuma colocar as mulheres de suas histórias como personagens marcantes, ativas, inteligentes. Ele faz filmes que são marcadamente violentos, brutais, mas olha só: as mulheres participam. As mulheres do tarantino até protagonizam. Mas em Django Livre as mulheres são completamente apagadas. Cito aqui as três que apareceram no filme: A mulher de lenço vermelho no rosto, que estava entre os capatazes de candyland, a irmã de Calvin Candie (que eu sequer me lembro do nome, para vocês sentirem o quanto a personagem é dispensável) e Brunhilde Von Shaft, a esposa de Django.
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| Mulher misteriosa de lenço vermelho |
A mulher de lenço vermelho no rosto é apenas uma promessa que não dá em nada. Ela passa o tempo todo calada e morre repentinamente, sem ter agido, sem ter falado, enfim, nada. A irmã de Calvin é retratada quase como uma criança, sob o manto de paternalismo do irmão. E Brunhilde Von Shaft é a maior decepção. O que sabemos dela no início do filme é que tentou fugir da fazenda onde era escrava, o que em si é um ato de muita coragem, foi vendida para outro senhor, separada de Django. E depois, quando ele a reencontra ela está sendo punida por ter tentado fugir novamente. É de se esperar que ela fosse A mulher que o Tarantino adora representar: forte, determinada, ousada, inteligente. Mas não. Não. Ela está lá quase que para efeito decorativo. A única função é a de dar a motivação para o herói Django. A donzela em perigo.
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| Os parceiros Django e Schultz |
Esquecendo esse traço do filme que me incomodou muito, mas que não seria suficiente para que o filme fosse mediano (uma vez que "Cães de Aluguel", por exemplo, não tem mulheres também e é fantástico) tenho outros "poréns". Eu acredito mais no Tarantino quando ele conta histórias de bandidos. Imagino que ele tentou fazer isso em Django ao colocá-lo como parceiro de um "caçador de recompensas", alguém moralmente questionável, se pensarmos que ele recolhe cadáveres e troca por dinheiro, por outro lado, faz isso sob a tutela da lei. Assim, estamos falando de dois personagens que são um homem oprimido e um homem que mata bandidos, ou seja, por definição, mocinhos. É uma história sobre heróis. E heróis tem um problema que bandidos não possuem: Heróis sentem culpa. Mesmo que em dados momentos da história o Django precise agir de forma cruel com seus companheiros que foram escravizados, isso não acontece sem culpa. Quando a gente assiste Kill Bill, a gente empatiza com a vilania da personagem principal, Beatrix Kiddo, que mata sem remorso, como ela mesma informa aos seus oponentes. E porque é ruim que personagens sintam culpa? Não é ruim, é apenas diferente do que estamos habituados a ver em filmes do Tarantino. Eu, pessoalmente, acho que ele conta histórias de bandidos muito bem, mas histórias de mocinhos, não tanto. E por falar em diferenças, Django Livre é um filme linear.
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| Os vilões Stephen e Calvin |
No tocante às atuações, Samuel L. Jackson, Cristoph Waltz, Leonardo di Caprio estão incríveis, Jamie Foxx também se saiu bem, embora possua menos diálogos. A impressão que tenho é que conforme o personagem se empodera, toma as rédeas de sua vida, ele vai adquirindo mais diálogos e isso é uma característica bacana do filme. Mas é exatamente na questão da escravidão que o filme mais peca. É muito bom assistir um filme Western estrelado por um ator negro. Há outros, de cabeça me lembro de "As loucas aventuras de James West". Li um post que mostra vários outros títulos. Tudo bem, é verdade que o Tarantino nos faz gargalhar do ridículo homem branco opressor encapuzado, numa clara referência à Ku klux klan, que na época ainda nem existia. E também é interessante o discurso "científico" do Calvin Candie para justificar a escravidão, faz a gente pensar em como a ciência não é neutra e foi usada como arma para garantir a perpetuação do preconceito. Mas é também verdade que o Tarantino deu para o herói um tutor branco. E para finalizar, caiu na falácia que "pior que o homem branco é o homem negro opressor". O maior vilão de um filme cuja temática É A ESCRAVIDÃO é um negro. Eu acho que isso é um profundo desrespeito à história das pessoas negras. O homem negro, ainda que poderoso, continuaria sendo alvo do preconceito, continuaria sendo oprimido. Daí eu me pergunto: Era mesmo necessário? Parece uma mea culpa: "olha só, eu mostrei esse personagem aqui (o Candy), que é um homem branco desprezível, mas também tem esse aqui (Dr. Schultz), que é um cara legal. E até tem esse outro (Stephen) que é negro e é pior que o branco!".




