segunda-feira, 29 de junho de 2015

Divertida Mente e a difícil tarefa de aceitar a Tristeza

SIM, TEM SPOILERS.


Embora toda a ambientação, cores e personagens tenham um aspecto muito lúdico e infantil, A nova animação da Pixar, Divertida Mente (Inside Out), talvez seja a animação mais madura do estúdio. É um filme que trata a criança com respeito, sem jamais subestimar sua inteligência. Apesar de ser um filme engraçado e empolgante, ele não se ancora no humor ou na ação para prender a atenção, mas em passar uma mensagem importante sobre como lidar com as próprias emoções.

O filme conta duas histórias paralelas: conhecemos Riley, uma menina de 11 anos que está se mudando de uma zona rural do Minnesotta para São Francisco, portanto é uma história sobre a adaptação dela à nova realidade. A segunda história do filme é a história dos sentimentos da Riley, que também são personagens: Alegria, tristeza, nojinho, raiva e medo. Eles comandam as emoções e consequentemente, as ações de riley. dentro de sua mente através de um painel de controle. 


A representação gráfica de como funciona a mente de Riley é muito interessante. Na sala de comando, em um painel de controle, estes cinco sentimentos se revezam e ajudam Riley a criar memórias. As memórias de longo prazo vão para um gigantesco labirinto de prateleiras. Já algumas memórias de base ajudam Riley a formar suas "ilhas de personalidade". A Riley de 11 anos tem a ilha da família, a da honestidade, da bobeira, do Hockey e da Amizade.



Até então, todas as memórias base de Riley foram criadas pela alegria. Mas diante da nova realidade, a tristeza começa a se tornar mais ativa e acaba criando uma memória base. A Alegria não entende o porquê da Tristeza existir e tenta a todo custo evitar que a ela chegue ao painel de controle. Embora bem intencionada, Alegria acaba criando uma certa confusão e num acidente, ambas são jogadas para fora da sala de comando, no ambiente criativo da mente da Riley. Alegria e Tristeza portanto tentam encontrar o caminho para a sala de comando.

As duas passam por vários lugares incríveis da mente de Riley, como a Terra da Imaginação, a sala de pensamentos abstratos, o Vale do esquecimento, a produção de sonhos, o subconsciente e o Trem de pensamentos. Parece complexo? E é mesmo. Mas a fluidez da narrativa, o visual lúdico e o carisma dos personagens ajudam a simplificar estes conceitos. Além disso, a dinâmica de ação e reação entre as duas histórias é muito fácil de compreender. É um filme em que não precisamos nem nos preocupar em analisar Bechdel Test, já que não existe interesse amoroso e todas as personagens centrais da trama são mulheres.


Uma coisa que deve ser destacada é que embora Riley não seja uma personagem feminina típica, já que ela não tem interesse em coisas de princesa, gosta de Hockey (que é considerado um esporte violento) e de fazer palhaçada (em vez de se comportar "como uma mocinha"), conforme a Tristeza começava a ser mais ativa na mente de Riley, os pais da menina reforçavam nela a idéia de que ela DEVIA ser feliz, que ela DEVIA sorrir e ser a boa garota que sempre foi. Um belo exemplo de como sem querer os pais e a sociedade educam as meninas para serem doces, agradáveis e esconderem seus verdadeiros sentimentos. No caso das meninas exige-se trocar a tristeza pela alegria. Mas e se fosse um menino? A ele também estaria proibido sentir tristeza, mas em troca, em geral, pede-se que o sentimento dominante seja a raiva. Que ele aja "como um homem". 

O que nos impede de aceitar a tristeza como um sentimento válido, real e necessário para a nossa saúde mental? Nesta jornada, Alegria, Riley e nós, o público, começamos a entender a importância da tristeza. Afinal, mesmo uma memória alegre pode estar carregada de uma pequena dose de tristeza se lembrada com saudade, com nostalgia. O simples ato de olhar para o passado evoca sentimentos mais complexos. O filme explora o tema da depressão de forma leve e muito acertada. É subversivo na medida em que nos permite debater os sentimentos negativos de uma menina, sem vilanizar a criança, sem dizer que ela é chata ou mal educada, que seus pais não se esforçaram o suficiente, ou que ela é ingrata por se sentir triste. 

O único senão que vejo é a representação da tristeza como uma mulher gordinha, baixinha e de óculos (olá, podem me chamar de tristeza, até meu cabelo é parecido!). Eu entendo que a pixar usou como referência para a criação dessa personagem o desenho de uma lágrima, por isso ela é azul e gordinha, mas a referência não é óbvia para quem assiste o filme. Entretanto, a personagem nos cativa tão completamente e ela tem um enorme papel no final. Por isso, ao mesmo tempo que ela reforça o estereótipo, ela também o quebra, mostrando que as pessoas gordas podem ser importantes, devem ser respeitadas e levadas a sério.


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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Mad Max: Estrada da Fúria (Feminista)



Estreou neste final de semana passado o novo filme da saga Mad Max. Confesso que eu tinha zero intenção de assistir até ouvir falar da polêmica criada por grupos machistas que ameaçavam boicote ao filme, alegando ser uma "propaganda feminista". Corri para o cinema e o que vi não me decepcionou. "Mad Max: Estrada da Fúria" não é uma continuação direta da saga, nem mesmo um remake, pois não reconta a história original,  apesar da utilização de elementos dos filmes anteriores como o ambiente distópico, as gangues de motocicleta, o fetiche por velocidade e o sobrevivente solitário Max (o protagonista da saga). Em estrada da Fúria, o diretor e roteirista George Miller (que também é responsável pelos filmes originais) fez uma releitura de sua própria obra.

SPOILERS LEVES

Neste universo distópico, a humanidade sucumbiu e o planeta é um grande deserto, Wasteland, em tons avermelhados para todos os lados. Há grupos isolados de seres humanos, uma existência dura, onde todos os sobreviventes são guerreiros. Dentro deste contexto, os conflitos que já temos hoje por petróleo e água são extrapolados. Assim, quem tem o controle sobre os recursos ganha contornos messiânicos. Nesta religiosidade de oportunidade, Immortan Joe, o falso messias que supostamente voltou dos mortos, comanda a Cidadela (uma torre de pedra erguida sobre um aquífero), ladeado por um séquito de guerreiros, os War Boys, capazes de morrer para adentrar Valhalla, o paraíso.

Immortan Joe tem uma imagem impactante, usa uma máscara para respiração decorada como uma caveira com dentes de cavalo e uma armadura plástica para proteger a sua pele coberta de bolhas. Não se sabe o passado de Joe, portanto não importa saber como se deu esta transformação física, mas ela certamente referencia a outro vilão icônico, Darth Vader, e nos faz questionar em que ponto Immortan Joe sucumbiu ao mal, onde perdeu sua humanidade. Joe tem dois filhos, Corpus Colossus e Rictus Erectus, o primeiro muito inteligente, porém possui alguma deficiência de crescimento, o segundo não chegamos a conhecer bem, mas sabemos que é um maiores guerreiros de Cidadela. Joe ainda está em busca de um herdeiro para perpetuar seu legado.


Com este objetivo, Joe possui um pequeno harém, onde mantém cinco mulheres como escravas sexuais. É importante frisar, porém, que neste universo não são apenas as mulheres do harém de Joe que são tratadas como objeto. Os seres humanos de forma geral são tratados de forma totalmente utilitarista por Joe, os próprios War Boys em seu desespero por salvação são usados como armas de guerra. Mesmo o protagonista que dá nome ao filme, Max, é capturado em Wasteland para servir como BloodBag, doador de sangue. Num universo de guerreiros, há um cuidado com o tratamento das feridas de guerra, ainda que seja uma medicina rudimentar. Assim, todos tem uma "função" que os torna, de alguma forma, menos sujeitos.

Entretanto, no tocante à objetificação, há uma cena especialmente perturbadora em que vemos mulheres sendo ordenhadas como se fossem vacas, pois o leite humano, aparentemente, é o único que sobrou no mundo e leite tornou-se uma iguaria. As mulheres ordenhadas são aquelas que fazem parte do séquito de Joe, cuja única opção é ficar para não morrer nas areias do deserto. Novamente, como uma boa distopia deve fazer, Mad Max nos faz pensar na forma como validamos o consumo de produtos derivados dos animais. E se fôssemos nós a receber o tratamento que oferecemos aos animais? E por fim, as mulheres neste futuro distópico também são encaradas como um recurso, uma mercadoria. Mas não são também neste nosso mundo atual? A distopia de alguns é a realidade outros, a escravidão sexual é uma realidade em nosso mundo, ela acontece diariamente em todos os lugares, obviamente de forma ilegal mas acontece. Está aí uma das raízes da força feminista do filme, revelar como a objetificação das mulheres está ligada à violência propagada contra elas. Esta força feminista que transborda da mensagem do filme foi ampliada pela forma como George Miller conduziu sua obra. 

Ao lidar com o tema da escravidão sexual, George Miller pediu a consultoria de Eve Ensler. Para quem não a conhece, Eve Ensler foi a criadora da peça "Monólogos da Vagina", de 1996. A peça, que trata de assuntos como sexo, amor, menstrução, multilação genital, masturbação e estupro, entre outros, já foi traduzida em mais de 40 línguas e encenada em mais de 140 países. Eve criou o V-Day movement, um dia para levantar fundos para organizações de proteção às mulheres. Eve viajou o mundo conhecendo as mais diversas culturas e histórias de mulheres, perguntando a elas como ela poderia ajudar, como os fundos do V-Day poderiam ser aplicados para melhorar suas vidas. A participação de Eve no projeto sedimenta a tendência feminista do filme.

No rol de decisões acertadas, George Miller incumbiu sua esposa, Margaret Sixel, de fazer o corte final do longa, evitando colocar o projeto nas mãos das pessoas que costumam realizar este trabalho em Hollywood, que sabemos, já está cheia de vícios machistas nos filmes de ação. George Miller escolheu se cercar de mulheres neste projeto, o resultado é um longa que ninguém pode acusar de ser menos divertido que qualquer outro Mad Max, ao contrário, eu acredito que este é o mais representativo da franquia. Ação do começo ao fim. Eu não sou a maior fã de filmes de ação, mas neste caso não é uma ação cansativa como acontece, por exemplo, nos Transformers de Michael Bay, onde há uma confusão de peças metálicas na tela e ficamos observando sem saber exatamente o que está acontecendo. Em Mad Max a ação é filmada em planos estáticos, longos e bem marcados, nós sabemos exatamente o que está acontecendo e isto não torna o filme menos emocionante.

SPOILERS SEVEROS


A condução da sinopse traça aspectos feministas do filme. O protagonista Max, um guerreiro solitário, porém dotado de uma consciência, ajudaria as esposas do vilão Joe a escapar da escravidão sexual a que eram submetidas. Entretanto, Miller percebeu o quanto seria machista ver um homem resgatando as mulheres que pertenciam a outro homem. Somente uma mulher poderia receber esta tarefa, somente uma mulher seria realmente capaz de resgatar outras mulheres, porque uma se espelharia na outra, seriam iguais. Surge então a outra protagonista do filme, a Imperatriz Furiosa (MEU DEUS, já começa lacrando no nome!), interpretada brilhantemente por Charlize Theron. Uma heroína como poucas na história do cinema de ação. Para mim é impossível não colocá-la ao lado de Katniss (Jogos Vorazes), Ripley (Alien) e Sarah Connor (Teminator 2). Furiosa costumava trabalhar para Joe, porém, em busca de redenção, rouba uma máquina de guerra e tenta levar as esposas para a sua terra natal, o Vale Verde. Na fuga, Max acaba se aliando a elas. Max e Furiosa são os protagonistas, mas Furiosa é a líder da missão, Max inclusive obedece suas ordens. Talvez este seja o maior incômodo dos machinhos com o filme, não aguentaram ver uma mulher em posição de comando.

Furiosa é uma mulher com uma deficiência física, ela não tem um de seus braços e usa uma prótese mecânica. Assim como os War Boys, ela tem a cabeça raspada, usa roupas funcionais para uma guerreira e tem uma força física tremenda, a ponto de entrar numa briga corpo-a-corpo com Max. Aliás, esta cena da briga no encontro inicial deles foi especialmente importante para evidenciar que as mulheres neste filme não são bibelôs. Passamos a conhecer um pouco melhor Cheedo, Toast, Capable, Dag e Angharad, as esposas. Não se engane com as roupas curtas e pele à mostra, que servem como recordação de como as esposas foram tratadas até então, como objetos, não para mantê-las no mesmo status. Ancoro essa opinião, primeiro, pelo impacto de ver as esposas cortando seus cintos de castidade, uma cena de forte simbolismo. Segundo, porque as esposas, duas delas grávidas, também são movidas por seu instinto de sobrevivência e não estão ali apenas para agir como uma carga a ser transportada, elas lutam e participam ativamente da ação do filme. E principalmente porque todas elas tem personalidade própria e até mesmo conflitos internos sobre fugir ou não. 


Elas não são belas donzelas em perigo, são mulheres empoderadas assumindo os riscos de escapar de seu algoz. Outra coisa interessante é como elas, as esposas, defendem os War Boys, embora eles as estejam caçando a serviço de Joe, elas conseguem ver através da situação e enxergar o verdadeiro inimigo. Os War Boys, assim como elas, são meros objetos para Joe. As esposas são dotadas de inteligência e sensibilidade, até mesmo destoando um pouco da crueldade do mundo que as cerca. Por sinal, outra cena digna de nota, perturbadora, grotesca, de uma cesária nos mostra que essa crueldade é o modus operandi do mundo de Mad Max.

Não bastasse todo o cuidado em representar estas mulheres, nós também somos presenteados com um gangue de motoqueiras guerreiras idosas. E pelo aspecto físico, uma delas é indígena. Considere o quanto é raro ver uma mulher idosa no cinema sem que ela esteja encenando alguém que lida com a perda de memória ou morrendo em camas de hospitais. Em Mad Max, as mulheres idosas são pessoas poderosas, imagine o quanto é difícil chegar aos 70 anos em um ambiente inóspito cheio de conflitos? Contudo, é mesmo Charlize Theron que rouba todas as cenas com sua determinação, destreza e força, mas também emociona quando percebe que seu objetivo maior pode não ser alcançado e nos mostra que Furiosa é apenas humana, passando por este mundo, fazendo o melhor que pode. 

Em geral, histórias sobre mulheres ou produzidas por mulheres, são demarcadas por gênero, ou seja, são encaradas como obras de público alvo exclusivamente feminino. E personagens femininas normalmente não são admiradas por homens. Embora eu, mesmo mulher, me sinta representada por vários personagens masculinos da ficção, o oposto é muito raro. Eu creio que em Mad Max conseguiram quebrar essas duas barreiras comuns no cinema, fazer um filme com mulheres sem demarcar o filme com um único gênero e fazer uma personagem que inspira homens e mulheres. Já chega de sermos alocadas sempre como subgênero e público de menor importância na cultura pop. Histórias sobre mulheres podem ser divertidas e lucrativas e veja só, elas ainda são um campo a explorar, pois ainda não foram contadas na mesma medida que as histórias masculinas, parece que Hollywood começa a perceber isto.

domingo, 29 de março de 2015

Kingsmansplaining - Já deu de machismo nerd, né, gente? melhorem!

Lamentável. Não tem outra forma de definir o final de Kingsman. 



O resto do filme é ótimo e muito divertido. Enquanto eu assistia, já pensava no texto que postaria aqui, falando da personagem Gazelle, uma mulher não-branca, com as duas pernas amputadas na altura do joelho, que usa suas próteses como armas letais.  Eu queria vir aqui hoje celebrar essa personagem, dizer que eu adoro o Colin Firth, que achei interessante terem colocado trama de fundo com violência doméstica. Enfim, muitas coisas para falar mas, sinceramente, tudo ficou meio enevoado depois do final LAMENTÁVEL.

O filme conta a história do personagem Eggsy Unwin que participa de uma seleção para ocupar a vaga de um agente kingsman, um grupo britânico ultra secreto. No caminho se depara com um vilão que tem um plano para diminuir drasticamente a população mundial, para que a Terra se recupere dos danos causados pelos seres humanos. Conta com atores incríveis, como Colin Firth e Samuel L. Jackson.

O enorme problema é que há uma personagem no filme, a princesa Tilde, que existe unicamente para que haja uma piada misógina ao final. Explicando a cena: Ela está presa em uma cela. O herói do filme a encontra e diz (em tom de brincadeira) que só vai tirá-la se ela der um beijo nele, pois ele sempre quis beijar uma princesa. Ela responde que se ele tirá-la de lá, vai dar muito mais que isso. Quando ele diz que vai salvar o mundo, ela diz que vai até deixá-lo usar a "Porta dos fundos". Quando ele conclui a tarefa, ele vai até a cela dela, onde ela o espera com a bunda de fora, aliás a câmera dá um close na bunda dela. ISSO MESMO. Fecha o filme com essa gag.

Em nenhum outro momento do filme existe qualquer tom misógino, o personagem principal é um jovem rapaz que se solidariza com a sua mãe, Michelle, porque ela está em um relacionamento abusivo, é carinhoso com sua irmãzinha mais nova, tem uma concorrente e amiga, a Roxy, que ele trata com respeito durante todo o filme. Ele vê a Gazelle como uma ameaça, ele não a subestima em nenhum momento. Portanto, a piada nem sequer faz sentido com o personagem que foi apresentado. Até então, o filme tinha a minha confiança. Eu havia embarcado completamente naquela história e sentia que era um bom filme para as mulheres (não seria ótimo porque, convenhamos, é apenas mais um herói-homem-hetero-branco). Portanto, a piada ficou ainda mais rasteira, mais gratuita.

Depois quando nós falamos o quanto o universo pop e de quadrinhos está claramente afogado no machismo, nós é que somos chatas. Foi isso o que Matthew Vaughn, diretor do filme, disse. Nós, as feministas, é que não sabemos rir. Ele argumentou que a agência de sugerir o sexo foi da mulher, por isso a piada seria até mesmo empoderadora e que ele não era misógino. 

Acho tão significativo que a personagem em questão seja uma princesa, tradicionalmente princesas aprisionadas servem de motivação para o herói. A piada aqui é óbvia, muito requentada. Mas piora. Sendo mulher e me imaginando na situação dela, há dias presa, sabendo que o mundo como ela conhecia estava prestes a acabar, eu jamais teria desejo de fazer sexo com um total desconhecido, como se em vez de estar aprisionada, ela estivesse numa balada procurando um parceiro, sabe? As emoções da personagem foram completamente desconsideradas. 

A princesa Tilde tem uma cena empoderadora. Ela estava presa porque se negou corajosamente a ajudar o Valentine, vilão do filme. Depois de presa, ela negou novamente participar dos planos dele. Isso é empoderamento. Mas ao torná-la a recompensa do herói. A "Bond" Girl do Kingsman, ele retirou essa força da personagem. Se ele queria empoderar uma mulher sexualmente, porque não subverter essa lógica de que o herói salva a mocinha em troca do seu amor, e pensasse na Roxy como protagonista dessa cena? E se ela fosse recompensada sexualmente? E o que acharia a audiência de um nu masculino sexualizado? Tenho certeza de que não seria tão bem recebido quanto o close na bunda da princesa, mas afinal não é disso que se trata uma sátira? Mesmo assim, não tenho a certeza de que seria uma boa idéia, porque um homem estranho oferecendo-se sexualmente para uma mulher costuma ser puro assédio. O ideal mesmo seria cortar esta cena, não apenas do filme, mas do imaginário nerd.

O filme deveria se chamar "Kingsmansplaining". Para quem não conhece o termo "mansplaining", ele pode ser definido como a mania que os homens tem de explicar para as mulheres algo que elas sabem o que é, às vezes muito melhor do que eles. Acontece muito com mulheres feministas. O autor afirma que não é misógino mas, para começar, ele não é mulher. Não está em suas mãos definir o que é ou não ofensivo para as mulheres. Mesmo que não tenha sido sua intenção, misoginia não intencional ainda é misoginia. Embora eu acredite que, depois de tanto se falar em machismo nerd, fica difícil supor que houve misoginia não intencional. Na minha opinião, o diretor marcou seu ponto de vista com a piadinha. Ele vê as mulheres das mesma forma que as retrata: Ele até entende que elas são inteligentes como a Roxy, que elas são fortes e determinadas, como a Gazelle, firmes, como a Tilde e às vezes vulneráveis, como Michelle, mas no final do dia, elas vão mesmo é servir para aquecer a cama do herói, para ser mais um nome na sua listinha de recompensas e motivações. No fim, é sempre a visão masculina que prevalece. É como se ele observasse a discussão em torno do machismo nerd de fora e dissesse: Até posso ceder em um ou outro ponto, mas não quero perder de vez o meu privilégio de objetificar mulheres.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

São Luís (parte 1): Porque fiquei positivamente surpresa com a cidade

Este ano bateu o desejo de conhecer São Luís. Eu, que nasci e morei no Pará por anos, que tenho muitos familiares no Piauí, sempre estive pelo maranhão apenas de passagem. De repente, a idéia de viajar para São Luís para conhecer a cidade foi ganhando espaço. Comecei a pesquisar na internet sobre a cidade e tenho que dizer que foi difícil encontrar informações, não encontrei guias impressos sobre o Maranhão e não encontrei tantas informações assim usando o Google. Repetem-se as mesmas dicas, os mesmos pontos turísticos, grande parte deles no centro histórico. Mas e a parte nova da cidade? Não existem museus, centros de cultura e outras coisas interessantes para conhecer na parte nova da cidade? Jamais saberei.

Quando eu viajo para uma cidade gosto de explorar endereços inusitados, curiosos e que nem sempre fazem parte do circuito tradicional de turismo. Tem uma série de guias turísticos impressos que adoro, se chama "Endereços curiosos de (...)", seria maravilhoso se um dos volumes fosse sobre São Luís (eu imagino que seria um guia riquíssimo, pois há muitos endereços curiosos em São Luís). Também não encontrei um guia gastronômico de São Luís, como quase tudo, encontrei dicas dos mesmos restaurantes, sempre dispersos em blogs não especializados na internet. Ou era a blogueira de moda que recomendava o restaurante X ou o site de turismo que recomendava o mesmo restaurante. Faltam sites especializados em gastronomia maranhense (que aliás é uma delícia!), o único que encontrei é bem recente.

Li muitos depoimentos de visitantes (a maior parte deles eram moradores do sudeste do Brasil), falando muito mal da experiência de conhecer a cidade. Tudo levava a crer que seria uma experiência decepcionante. Felizmente, a minha determinação de visitar São Luís foi maior. Por isso, resolvi falar sobre como as minhas impressões foram diferentes do que havia lido e ouvido por aí. Eu acredito que muitas das pessoas que reclamaram de São Luís esperavam encontrar no nordeste outro sudeste, ou um nordeste romantizado que só existe na imaginação das pessoas mesmo.

"As praias são horríveis e poluídas"

Horrível!? Onde?

São Luís é uma cidade atípica, situada em uma ilha (mas bem próxima ao continente), podemos visualizar uma orla bem generosa, mas que não é paradisíaca como grande parte das praias nordestinas. As águas não são de azul cristalino. A tonalidade é esverdeada e densa, não dá para ver o fundo. A areia é branca e muito, muito, muito fininha. O clima é bem quente, mas como venta! a brisa do mar corre por todos os cantinhos da cidade. A areia entra nos seus olhos, na sua boca, no seu nariz. Ela gruda em todo o seu corpo, ainda que você tenha ido apenas fazer uma caminhada rápida no calçadão e nem tenha pisado na areia de fato. Alguns quiosques da orla são completamente fechados com painéis de vidro para evitar que o vento vá levando tudo embora.

Passei pela praia em dias de semana e sempre havia movimento, vida, não dá para perder de vista o próximo quiosque para tomar uma água de côco. De noite, o movimento é bem menor e se resume aos quiosques. A orla mais badalada à noite está na praia do Calhau, na minha opinião, a praia urbana mais bonita de São Luís. Não vá às praias Ludovicenses procurando uma foto de algum pôster caribenho, contudo, não passei por nenhuma praia horrível, não.

As condições de balneabilidade variam, por onde estive sempre havia bastante gente tomando banho de mar tranquilamente. Vi pouquíssimo lixo nas praias. Inclusive a maré abaixa muito, deixando uma faixa muito larga de areia e é possível perceber a ausência de lixo no mar. Também não senti nenhum odor característico de esgoto, nada, nada, nada. Não vi nenhuma placa alertando para más condições de balneabilidade nesta época do ano. Entrei no mar, estou viva e saudável, sem nenhuma frieira, coceira, nada. 

Entretanto acho que cabe uma crítica: deveria haver mais equipamento urbano, banheiros, calçadas maiores, ciclovias, bancos e etc. Isso ajudaria a dar mais vida noturna para as praias. Na praia de Ponta D'areia, onde acabaram de inaugurar o "Espigão Costeiro" (uma obra de engenharia para conter a erosão que seguia em direção aos prédios chiques da cidade), começaram a delinear melhor uma estrutura desse tipo, seria interessante que seguisse em direção às outras praias da cidade. 

"Dá medo andar por São Luís"

Gente. Gente. Como assim? Um vendedor em uma das lojinhas de artesanato me falou que depois das "pacificações" no Rio de Janeiro, a violência aumentou no Nordeste, sugerindo que o tráfico hoje é polinuclear. Também vi várias notícias sobre fugas do presídio de Pedrinhas. Apesar disso, São Luís é como qualquer capital do Brasil, tem que tomar os cuidados de sempre: Se você vai andar pelas zonas turísticas da cidade, tente não andar por lugares ermos, e leve por aí apenas o essencial e tal. Nada demais. 

"O Centro Histórico está caindo aos pedaços"

Uma das ruas mais preservadinhas

Longe de mim dizer que não existem problemas, mas o meu ponto é: Quando a gente visita o Rio de Janeiro, nós focamos as nossas impressões em quê? O centrão do Rio de Janeiro também não está super bem cuidadinho, não. Mas voltamos para casa falando em cidade maravilhosa. E Brasília, essa cidade tão jovem, você conhece o Setor Comercial Sul? E o centro antigo de São Paulo? E o centro antigo de BH (cidade onde já morei e amo muito)?  E o centrão de Fortaleza? Há muita degradação nas áreas antigas e comerciais das cidades, é comum.

Acho que o que deixa as pessoas chocadas é que São Luís tem um casario tombado pelo IPHAN (considerado o maior conjunto arquitetônico português fora de Portugal) e mesmo assim a degradação urbana permanece. As pessoas vão à São Luís esperando o mesmo cuidado que existe em Ouro Preto, por exemplo. Mas vamos recordar que Minas Gerais é um dos estados mais ricos do Brasil e que Ouro Preto apesar de ter uma área de município maior, tem uma área urbana menor, uma população e densidade muito menor e etc. Ouro Preto é uma cidade incrível, mas que não tem a complexidade e as contradições próprias de uma grande cidade. 

O casario de São Luís não está tão conservado, exceto por áreas pontuais, como a Rua Portugal. As edificações mais conservadas são aquelas utilizadas por órgãos públicos ou com algum uso que recebe patrocínio do governo. Também observamos que muitos casarões estão sendo reformados por uma iniciativa chamada de "Casa do Maranhão". Me parece que em breve haverá vários museus com temas específicos do maranhão (inclusive um museu da gastronomia maranhense que já me deixou louca de vontade de voltar quando ficar pronto).

Uma coisa que me deixou muito impressionada com o Centro Histórico é a quantidade de pequenos museus e centros de cultura, muitos deles eu nunca li nada a respeito na internet (Ou se li foi em alguma descrição tão superficial que não me chamou atenção). E em todos os espaços culturais que entrei há um guia preparado para atender os visitantes (sempre peça as visitas guiadas). Todos, sem exceção, foram muito gentis e atenciosos. Acho que, se de um lado existe um governo omisso, há também muita boa vontade das pessoas em resgatar e preservar a cultura maranhense. Então, antes de focar no "Centro Histórico caindo aos pedaços" eu me lembrarei do "Centro Histórico orgulhoso da cultura maranhense". 

A crítica que faço ao Centro Histórico é que apesar de ser um lugar lindíssimo, deveria haver mais ruas exclusivas para pedestres. Há espaços que ficam dominados pelos carros e que poderiam ser tomados pelas pessoas. Mas esta também é uma crítica que se estende à diversos centros urbanos pelo país. Eu acho que São Luís vale demais a visita, por ser uma cidade única e tão cheia de cultura.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Valorize as Minas: Que venham as férias!

Finalmente chegou dezembro e espero que possamos nos despedir de 2014 logo. Este ano que já teve 45 meses. Novo mene da atéia que acredita em superstição: Eu acredito em ano novo, energias renovadas, novos ares. Porque estou falando isso agora, no início de dezembro? Porque eu estou entrando de férias do blog hoje, volto ano que vem!

Então, desejo a todas um ótimo finalzinho de 2014, que nossos forninhos estejam seguros em 2015.

Boas festas :)

E corram para o cinema para assistir Mockinjay parte 1


Transexualidade:

Transexual, a busca pela identidade: terceira parte da entrevista com Daniela Andrade.

Parents place "retraction" to birth announcement to show support for trans son: Em um mundo em que grande parte das pessoas trans são expulsas de casa quando assumem sua identidade de gênero, os pais de um jovem trans arranjaram uma forma doce e linda de mostrar apoio. <3

Literatura e Cinema

Comentando a primeira parte de Mockinjay (Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1) : A Valéria faz uma ótima análise do filme (Com alguns spoilers). E não deixe de ler este texto sobre as plantas mencionadas em Jogos Vorazes (Não tem nada a ver com feminismo, mas achei tão sensacional!)

Mulheres negras na literatura: De Carolina à Luma, questões raciais e de gênero : Uma entrevista ótima com a poeta e educadora Luma de Lima Oliveira sobre Carolina Maria de Jesus e as dificuldades encontradas pelas escritoras negras.

Games:

The Gaming Industry's Greatest Adversary Is Just Getting Started:  Um texto sobre Anita Sarkeesian e o assédio que tem sido o background da sua vida.

Game Reviewer Alanah Pearce Is Contacting The Mothers Of Boys Who Sent Her Rape Threats : Uma crítica de games está usando uma técnica interessante contra o assédio e ameaças virtuais que recebe. Ela percebeu que muitas vezes as ameaças partem de garotos menores de idade, então, ela os delata para os seus pais.

Música:

Friday Playlist: Where My Girls At? : Playlist com músicas de girls bands <3

Solidariedade:

#ForçaAndressa : Andressa Urarch foi a vítima célebre do padrão de beleza esta semana. Não bastasse entrar em coma, ainda está sendo chamada de fútil e louca pela mesma sociedade que impõe os padrões.

Victoria Lopes: Relatos de um dia de Albino César : As blogueiras negras lançaram uma nota em apoio à Victória, uma adolescente negra que foi espancada por SEIS policiais na saída da escola. 

O estigma da vítima : Qualquer mulher pode ser uma vítima e isso não é sinônimo de ser fraca ou ser passiva diante das situações opressivas. Esse é um engano comum e que, inclusive, já levou a casos em que o judiciário favoreceu o agressor, porque afinal a vítima não era a "vítima ideal" (no sentido de idealizada, aquela vítima que existe na cabeça das pessoas).

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Valorize As Minas: Não deu :(



Oi, pessoal. Devido à severíssima falta de tempo esta semana, hoje não tem texto introdutório e temos também menos links. :(

Espero que gostem da seleção de hoje!

Sexo e As Negas/ Representação televisiva da mulher negra:

Debate ao vivo: A Mulher Negra na Televisão Brasileira : Excelente debate entre três mulheres negras sobre a representação da mulher na televisão brasileiras, especialmente na série "O sexo e as negas" e no carnaval.

Quando um homem esfrega teoria na nossa cara: Sobre Jean Wyllys e a mulher negra que ousa falar : Um texto que analisa o posicionamento do deputado Jean Wyllys.

Literatura

A surpresa da literatura negra: Texto sobre a importância da geração de escritoras negras, nascidas na África, mas que vivem em outros países do mundo.

Representação feminina:

Natalie Dormer Talks ‘Hunger Games,’ Feminism, and Why ‘Game of Thrones’ Needs More Dick : Entrevista com a atriz Natalie Dormer em que ela fala de suas personagens em Jogos Vorazes e GoT e também se afirma feminista.

A representação feminina em Interestelar : Minha percepção sobre os erros e acertos de representação feminina em um filme que assisti e amei. A Sybylla também escreveu sobre isto.

Literally the Best Thing Ever: Lucy and Ethel : Um texto sobre a amizade entre duas personagens na icônica série "I love Lucy".

Teoria Feminista:

As diversas ondas do feminismo acadêmico : Um texto curtinho sobre teoria feminista, achei muito legal porque pode servir como introdução à teoria para quem quiser se informar mais a fundo sobre a história do feminismo.

O feminismo não é um humanismo : Tradução de um texto da filósofa Beatriz Preciado. Texto muito interessante que ainda estou digerindo. A autora defende que o feminismo na verdade é um animalismo.

Dia Internacional da Memória Trans:

Transgender, Dead, and Forgotten : Texto sobre o dia 20 de novembro, que é o Dia Internacional da Memória Trans, para lembrar das pessoas trans que foram assassinadas por transfobia.

Remembering Us When We’re Gone, Ignoring Us While We’re Here: Trans Women Deserve More : Além de lembrar das mulheres trans que perderam suas vidas, o que pode ser feito por aquelas que estão vivas?

Panorama Mundial:

Marissa Alexander agrees to plea deal : Marissa que seria possivelmente condenada à prisão por se defender de seu marido agressor fez um acordo e recebeu uma pena de 3 anos, considerado o tempo que ela já esteve presa, ela deve sair da prisão em janeiro. Ótimo. Ou não. Que mundo é esse em que uma mulher vai para a prisão por três anos porque se defendeu de um agressor?

Eu queria ter selecionado uns links bacanas sobre Ferguson mas não tive tempo de ler! 

Toda quinta-feira tem Valorize As Minas! Volte sempre!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014