quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Não é iuzomismo quando...

Dentro (e fora) do feminismo há uma enorme preocupação com o homem. Muitas vezes essa preocupação acaba por secundarizar as questões pertinentes à mulher. Para dar um exemplo, basta falar um pouco sobre as agruras de ser uma mãe solteira para um monte de gente reclamar um espaço para o homem nesse discurso, para dizer que o homem não tem licença paternidade digna, para dizer que o homem também ama seus filhos, que a guarda normalmente é da mãe e etc. O protagonismo da luta é disvirtuado, retirado de nossas mãos porque temos que pensar em igualdade. Numa igualdade para a qual não importa as nuances do machismo com que precisamos lidar. Um ideal de igualdade que não entende o conceito de isonomia. Para essas situações, muitas de nós, mulheres e feministas, usamos ironicamente a expressão "iuzômi?", ou seja, brincamos com o fato de que muitas vezes somos interpeladas por pessoas que antes de pensar nos direitos das mulheres querem saber onde se encaixam os homens em nossa luta.

Eu uso essa expressão de forma jocosa e acredito nela como forma de empoderar mulheres. Mostrar para elas que há um certo ridículo em buscar benefícios para os homens em um mundo que pertence a eles. Em que todos os benefícios já estão concentrados em suas mãos. Porém, discordo da aplicação desse termo nas questões interseccionais.

Amarildo, torturado e morto
pela polícia "pacificadora"
Não é "iuzomismo" quando nos perguntamos, por exemplo, porque o homem negro ganha tão mal. Talvez você não saiba, mas a mulher branca ganha mais do que o homem negro. E tampouco o extermínio da juventude masculina e negra é uma questão pertinente apenas à luta antirracista. Eu creio nesse tópico também como assunto do feminismo, pois há gerações e gerações de mães que perderam seus filhos para a violência institucional. Há filhas sem pai. Há mulheres que precisam lidar com a realidade de cuidar sozinhas de suas crianças porque o companheiro morreu ou desapareceu. Amarildo também é questão feminista. Não significa relevar toda e qualquer opressão de gênero proveniente de um homem negro, significa que devemos compreender que o homem negro não está no topo da escala da opressão e não deveria ser alçado a esse posto, equiparando-se ao homem branco.

Não existe um descolamento tão grande entre a mulher negra e o homem negro, quanto existe entre a mulher branca e o homem branco. Especialmente porque entre eles há a experiência do racismo. Isso os une de forma indelével. E é mesmo assim que deve ser. O homem branco representa a figura do poder, o homem negro, não. O homem negro não personifica o inimigo. Portanto, ao meu ver, apoiar a mulher negra é também apoiar o homem negro, um feminismo que não compreende as nuances de privilégio e opressão que se alternam em momentos distintos e categoriza absolutamente tudo como "iuzomi" não é o feminismo que defendo.

Bons Links:

Uma carta de amor aberta para o meu filho: Sobre luto, amor e maternidade negra, no Blogueiras Negras.


Update: Algumas pessoas me criticaram por acreditar que ao colocar o homem negro na luta feminista eu estaria priorizando esse homem em detrimento das mulheres negras (cis e trans). A essas pessoas eu peço desculpas, realmente não me expressei bem como poderia ter feito. Há obviamente mais tonalidades de cinza do que um texto de 4 parágrafos pode expressar. Há homens negros silenciando mulheres negras em sua luta política. E também usando do poder concedido pelo patriarcado para abusar fisicamente, sexualmente e etc. Eu entendo tudo isso, amigas e jamais intencionei ocultar isso, diminuir, ou negar. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Ficção: Brasil, o país literário e mágico

Essa semana é daquelas em que as muitas contradições do Brasil se revelam. Fora do Brasil, uma delegação com setenta escritores foi levada à cidade de Frankfurt, para a Feira do Livro, cujo convidado de honra é o nosso país. Em um dos claros esforços de vender uma imagem de nação evoluída, levamos aqueles que representam o ápice da educação: As pessoas que escrevem os livros. Digo isso não porque os convidados sejam as pessoas mais cultas de nosso país, mas porque os livros, simbolicamente, representam a educação.

Porém, se voltarmos os olhos nesse momento para dentro do Brasil veremos um quadro com cores muito diferentes. Onde impera o vermelho-sangue que já pintou essa tela tantas vezes. Há professores saindo às ruas em busca de aumento de salário, reformas no plano de carreira, reformas na educação, mas também em busca do seu direito constitucional de ser grevista. Porque enquanto lá fora se veste a fantasia do país da literatura, aqui dentro ainda impera o país da tortura e da repressão. O país que bate em quem o desafia, que quer manter a todos de cabeça baixa. Enquanto essa realidade esteve encerrada dentro das comunidades pobres e marginais, ninguém se incomodou de fato. Enquanto sofriam os Amarildos e suas famílias, havia uma justificativa elitista e racial perfeitamente aceita para a violência.

Luiz Ruffato
A fantasia do país da literatura felizmente durou pouco. Um autor, cujos livros nunca li mas que já admiro imensamente pela coragem, falou na abertura do evento em Frankfurt sobre o nosso país. Não o país "literário e mágico", que a ministra Marta Suplicy esperava vender para o mundo. Mas do país degradado pelo genocídio, pela educação deficiente, pela hipocrisia, intolerância e machismo. O rei estava nu. Do seu lugar de fala de homem do povo, cuja mãe foi uma lavadeira de roupa analfabeta e o pai um pipoqueiro semianalfabeto, Luiz Rufatto mandou um papo sem curva sobre o desrespeito aos direitos humanos que se pratica no Brasil.

Paulo Coelho que me perdoe, mas esse sim é um protesto que ficou marcado na lembrança daqueles que estiveram na Feira de Frankfurt. Protestar porque algumas pessoas que você gostaria que participasse do evento não foram convidadas é válido (Embora seja injusto desqualificar 50 nomes porque você não os conhece), porém, protestar sobre as mazelas que atormentam o povo, é necessário. Especialmente nesse momento dramático que vivem os professores no Rio de Janeiro. Ziraldo, que uma vez defendeu abertamente Monteiro Lobato das acusações justas e comprovadas de racismo, disse que se Ruffato estava tão insatisfeito que saísse do país. Ziraldo, volte dez casas no jogo democrático. Eu pergunto: continua assim? Brasil, ame-o ou deixe-o, tal e qual era na ditadura militar? Quem está insatisfeito com o país merece o exílio? Não. A insatisfação crítica (não aquela que desmerece os poucos avanços que não se dirigem a quem já detém o privilégio) é o caminho para construir um país melhor. 

Se quiser ficar passadx e dobradx com a coragem e lucidez do escritor, leia abaixo o discurso na íntegra, que peguei emprestado daqui. :)


O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora?

Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas.

Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças. O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados elevados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução. O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década.

Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir.

Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra.

Aqui e agora.