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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 7 - Considerações sobre gênero e raça

CONTÉM SPOILERS

Panem é um país curioso. Sua organização política como um Estado autocrático, ditador, nos faz pensar em como seria absolutamente horrível viver naquela realidade. De fato, seria. Porém, há alguns indícios de evolução quanto às questões de raça e gênero que em nosso mundo não-fictício, na realidade que nos cerca, ainda não alcançamos.

Katniss, na arena
de Em Chamas
O primeiro aspecto visível é a forma como mulheres são lidas como pessoas competentes. Em cada distrito, são escolhidos dois tributos, um de cada gênero. Há casos em que se afirma até mesmo que a mulher é a maior ameaça. Katniss nunca foi minimizada por seus opositores, ela sempre foi temida. Mesmo a pequena Rue, do distrito 11, que possui apenas 12 anos, é analisada como ágil e esperta. Em sua narrativa, a autora Suzanne Collins atribuiu às mulheres muito mais do que a dualidade beleza/inteligência. E é exatamente isso  que possibilita que as enxerguemos como seres humanos dotados de muitas habilidades distintas. Coisa que não vejo muito nas cobranças da nossa sociedade na vida real. Aqui, nesse planetinha patriarcal, a mulher vive sob o estigma da beleza e da inteligência (isso se levarmos em conta o que é a inteligência para o patriarcado).

Apesar de tudo, me parece que em alguns momentos ainda há algum resquício de paternalismo. Um exemplo, que soa até mesmo contraditório, é que aparentemente, apenas homens trabalham nas minas de carvão. Suas filhas e esposas estão presas ao trabalho doméstico e ao comércio, no distrito 12. O trabalho mais pesado parece ser masculino. Há também a forte presença da monogamia. A Katniss teria se martirizado bem menos ao longo do livro se conseguisse se livrar desse conceito, pois está claro que ela ama aos dois rapazes, Peeta e Gale, em formas e intensidades que nem ela consegue medir. Katniss não é monogâmica, mas Panem sim. E foi também por influência desse traço cultural que ela precisou fazer uma escolha. E, enfim, apesar de representar minorias oprimidas, o livro (como a maioria dos livros publicados) não apresenta qualquer personagem com orientação sexual não-heterossexual ou identidade trans.

Com relação às mulheres, são muitos os exemplos positivos. Além da própria Katniss, há mulheres comandando militarmente, como a Comandante Lyme e a comandante Paylor, que presidem o próprio distrito, como a Presidente Coin e um número grande de mulheres que foram tributos e saíram vitoriosas. Se não contarmos também aquelas mulheres em profissões tradicionalmente femininas, mas que são reconhecidas por sua habilidade, como por exemplo a mãe de Katniss e sua irmã Prim. Até mesmo Cressilda, que é do time de cinegrafistas, é de enorme coragem, colocando-se na linha de frente durante a guerra para fazer bem o seu trabalho. 

Há também a questão racial. A autora descreve vagamente seus personagens e eu acredito que seja intencional. Vez ou outra ela fala abertamente sobre a cor de pele, como no caso de Katniss cuja pele é tom de oliva. E também de Thresh e Rue que são negros. Não é à toa que existe um grande chororô branco em volta da série adaptada para o cinema, uma vez que a autora não define claramente a raça de seus personagens, os leitores acabam levando seus próprios preconceitos para dentro de sua imaginação. A branquitude, para muitos, é normativa.

Collins costuma participar da seleção do elenco para os filmes, podemos compreender portanto que essas escolhas não são totalmente descoladas do livro. Infelizmente, Katniss foi interpretada por uma atriz branca (compreendo que a atriz é sensacional, a crítica é restrita à questão racial), mas há também algumas gratas surpresas. O elenco negro de Jogos Vorazes incluem os dois tributos do distrito 11 na primeira arena, Thresh e Rue. Dois personagens importantes para a saga, que trouxeram consigo as características de humanidade, de compaixão, de solidariedade. Eles foram fiéis aos seus princípios ainda que isso custasse suas vidas. O estilista de Katniss, Cinna, também é interpretado por um ator negro. Compreendo essa escolha quase como política, pois é bastante significativo que um habitante da capital, que vive cercado por aquela realidade alienadora e sem empatia, consiga entender seus privilégios e alinhar-se politicamente às pessoas oprimidas dos distritos. 

Patina Miller, atriz escolhida para interpretar
a Comandante Paylor no filme "A Esperança"
No segundo filme, Em Chamas, apareceram novos personagens negros. Como o tributo vitorioso Beetee que é um cientista. É raro vermos pessoas negras representadas num rol de profissões que exigem alto grau de especialização. Como antagonista, existe ainda Enobaria, uma personagem de quem não sabemos muito. Em "A esperança" haverá também a comandante Paylor, uma mulher que é crucial para o destino de Panem e será interpretada por uma atriz negra. No somatório de personagens negros há uma diversidade de pessoas em posições de comando, como símbolos de vitória, humanidade e até mesmo de subversão.

Notem também que o maior vilão da série é um homem branco e rico. Ele personaliza o inimigo. esse fato importa porque na nossa sociedade esse é o perfil que mais acumula privilégios. Assim, jogos vorazes se estabelece como uma saga literária adaptada para o cinema que traz consigo uma característica marcante: O respeito a minorias historicamente oprimidas.

Bons Links:

We Can Cast It - Mulheres na Ficção Científica, Gravidade e Jogos Vorazes., por Gizelli Sousa (eu), Aline Valek e Lady Sybylla.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Não é iuzomismo quando...

Dentro (e fora) do feminismo há uma enorme preocupação com o homem. Muitas vezes essa preocupação acaba por secundarizar as questões pertinentes à mulher. Para dar um exemplo, basta falar um pouco sobre as agruras de ser uma mãe solteira para um monte de gente reclamar um espaço para o homem nesse discurso, para dizer que o homem não tem licença paternidade digna, para dizer que o homem também ama seus filhos, que a guarda normalmente é da mãe e etc. O protagonismo da luta é disvirtuado, retirado de nossas mãos porque temos que pensar em igualdade. Numa igualdade para a qual não importa as nuances do machismo com que precisamos lidar. Um ideal de igualdade que não entende o conceito de isonomia. Para essas situações, muitas de nós, mulheres e feministas, usamos ironicamente a expressão "iuzômi?", ou seja, brincamos com o fato de que muitas vezes somos interpeladas por pessoas que antes de pensar nos direitos das mulheres querem saber onde se encaixam os homens em nossa luta.

Eu uso essa expressão de forma jocosa e acredito nela como forma de empoderar mulheres. Mostrar para elas que há um certo ridículo em buscar benefícios para os homens em um mundo que pertence a eles. Em que todos os benefícios já estão concentrados em suas mãos. Porém, discordo da aplicação desse termo nas questões interseccionais.

Amarildo, torturado e morto
pela polícia "pacificadora"
Não é "iuzomismo" quando nos perguntamos, por exemplo, porque o homem negro ganha tão mal. Talvez você não saiba, mas a mulher branca ganha mais do que o homem negro. E tampouco o extermínio da juventude masculina e negra é uma questão pertinente apenas à luta antirracista. Eu creio nesse tópico também como assunto do feminismo, pois há gerações e gerações de mães que perderam seus filhos para a violência institucional. Há filhas sem pai. Há mulheres que precisam lidar com a realidade de cuidar sozinhas de suas crianças porque o companheiro morreu ou desapareceu. Amarildo também é questão feminista. Não significa relevar toda e qualquer opressão de gênero proveniente de um homem negro, significa que devemos compreender que o homem negro não está no topo da escala da opressão e não deveria ser alçado a esse posto, equiparando-se ao homem branco.

Não existe um descolamento tão grande entre a mulher negra e o homem negro, quanto existe entre a mulher branca e o homem branco. Especialmente porque entre eles há a experiência do racismo. Isso os une de forma indelével. E é mesmo assim que deve ser. O homem branco representa a figura do poder, o homem negro, não. O homem negro não personifica o inimigo. Portanto, ao meu ver, apoiar a mulher negra é também apoiar o homem negro, um feminismo que não compreende as nuances de privilégio e opressão que se alternam em momentos distintos e categoriza absolutamente tudo como "iuzomi" não é o feminismo que defendo.

Bons Links:

Uma carta de amor aberta para o meu filho: Sobre luto, amor e maternidade negra, no Blogueiras Negras.


Update: Algumas pessoas me criticaram por acreditar que ao colocar o homem negro na luta feminista eu estaria priorizando esse homem em detrimento das mulheres negras (cis e trans). A essas pessoas eu peço desculpas, realmente não me expressei bem como poderia ter feito. Há obviamente mais tonalidades de cinza do que um texto de 4 parágrafos pode expressar. Há homens negros silenciando mulheres negras em sua luta política. E também usando do poder concedido pelo patriarcado para abusar fisicamente, sexualmente e etc. Eu entendo tudo isso, amigas e jamais intencionei ocultar isso, diminuir, ou negar. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Afrodescendência perdida

Há algum tempo eu queria falar desse assunto, e não sabia bem por onde começar mas por ocasião do dia de ontem, 25 de julho, dia da mulher negra latinoamericana e caribenha, e dos textos da Liliane Gusmão e da Bianca Cardoso, que serviram de insight, de empurrão, estou me sentindo mais corajosa para tocar num assunto delicado: a minha afrodescendência perdida. 

Voltando um pouco (bem pouco, até) na minha ancestralidade, meu avô materno é negro, minha avó materna é filha de indígena. De um lado um homem negro, do outro uma mulher de pele clara (embora não branca) e cabelos lisos e negros. Eles geraram 8 filhos, um homem que não conheci e sete mulheres. Seis delas negras de cabelos lisos e negros, resquício da descendência indígena. Minha mãe foi a única dentre as irmãs que nasceu com a pele clara, mas de nariz largo, rosto com traços expressivos, sabe?

Euzinha
Sou parecida com a minha mãe. Se você me conhecer agora, verá uma pessoa branca, de cabelos ondulados, quase lisos. Meus traços não são ~~delicados~~, eu tenho um nariz arredondado, lábios grossos e um rosto que não transparece exatamente descendência européia. Não, definitivamente eu não me identifico com as pessoas que afirmam que são descendentes de europeus. Eu, branca, não me sinto assim.

Durante anos e anos da minha vida eu não parei para imaginar porque a minha mãe foi a única das irmãs que conseguiu estudar, porque ela foi a mulher que conseguiu vencer a pobreza, enquanto as minhas tias ainda estão em posição social difícil. E, apesar da grande determinação e espírito empreendedor da minha mãe, e de saber que não foi moleza para ela conseguir mudar a sua realidade social, está claro que o racismo é fator decisivo na perpetuação da pobreza na minha família. 

Até os meus 5 anos de vida, eu tinha cabelos lisos e loiros. Minha mãe, na época professora, me ensinou a ler em casa. Eu fui a melhor aluna do pré-escolar. Como estímulo à minha educação, me fizeram pular a primeira série do ensino fundamental. Eu fui direto para a segunda série. Os privilégios de ser uma mulher branca começam muito cedo. Enquanto há mulheres que se perguntam porque a professora do primário sequer encostava nelas, eu era querida e celebrada na escola. Ao mesmo tempo, quando adolescente, meu cabelo tinha escurecido, e havia mudado de compleição. Estavam mais cheios e não tinham o aspecto sedoso característico da eurodescendência. Meu cabelo tinha uma textura intermediária. E eu sofri algum bullying por causa disso.

Essa foi a primeira dica que eu tive de que não era uma mulher inteiramente branca. Acho bem tranquilo me assumir como afrodescendente, pois a negritude do meu avô foi determinante para a minha família toda viver o racismo, inclusive a minha mãe branca. Só para dar um exemplo, até pouco tempo atrás, minha mãe não tirava fotografias, porque tinha vergonha do próprio nariz, que era o aspecto mais marcante da sua afrodescendência. Chegou a fazer uma cirurgia plástica para deixá-lo mais afilado. Quando saio de casa não tenho medo de ser confundida com bandido, ninguém me olha com suspeita quando eu ando por aí. Eu não estou sujeita aos índices bárbaros de violência contra os negros, eu não sou rejeitada em entrevistas de emprego, as orportunidades não rarearam para mim por causa do tom da minha pele. Mas foi a negritude da minha família que sofreu o racismo que encerrou a todos num estado de pobreza, que botou dificuldades imensas para o meu avô alimentar uma família numerosa e que até hoje se recusa a garantir para as minhas tias o acesso aos serviços básicos do Estado (pois sabemos existir o racismo institucionalizado). Foi o racismo que fez com que uma parte da família do meu pai rejeitasse a minha mãe nos primeiros anos de seu relacionamento, embora a própria família do meu pai também seja afrodescendente. São muitas as histórias de apagamento.

As coisas não são tão claras quando o assunto é afrodescendência, nós não estudamos sobre, não conhecemos e não identificamos a negritude para além do fenótipo, entrando em outras questões, como por exemplo o quanto a afrodescendência é alvo de um racismo mascarado. Uma amiga querida, afrodescendente, uma vez disse que todos falavam que ela era apenas moreninha, até que ela fazia alguma coisa errada, aí alguém lembrava que era porque ela tinha ~~um pé na senzala~~. Sigo sem saber como me identificar (é possível se identificar como branca, já que não sofro o racismo direto, mas afrodescendente por causa do histórico da minha família? Ainda não tenho uma resposta e é tudo muito nebuloso, não chego a uma conclusão), mas fica cada dia mais evidente que não dá para continuar sem fazer essa reflexão. Porque o nosso fenótipo instintivamente nos leva a acreditar que somos brancos e ponto final? Apagando toda a nossa história pregressa? qual o interesse em nos fazer esquecer das nossas raízes?

terça-feira, 4 de junho de 2013

Faroeste Caboclo: "Discriminação por causa da sua classe e sua cor"

Eu, Brasília e Legião Urbana


"E João aceitou sua proposta
E num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal"

A primeira vez que entendi um pouco de Legião foi em uma aula de interpretação de texto. A letra era "Pais e filhos". De tanto ouvir, a música tinha ficado um pouco automática, isso acontece comigo com relativa frequência. Eu ouvia sem interpretar, ou ao menos sem interpretar com todas as camadas que ela possui. Felizmente, uma professora de português fez o favor de desvendar algumas daquelas camadas para mim e para a minha turma e eu voltei a ouvir Legião.

Apesar de gostar, não sou fã de Legião, mas fui uma adolescente em Brasília. Não eram os anos 80 e sim final dos anos 90 e a presença do Legião Urbana continuava por aí, entre rodinhas de amigos. Houve momentos até em que eu cheguei a pensar: "chega, não aguento mais esses fãs de Legião", pois eles eram muitos e estavam em todos os lugares. Ainda estão. Hoje, tenho uma prima adolescente que escuta Legião, demonstrando que a força da banda por aqui ainda é grande.

Acredito que muito dessa força venha de uma sensação que poucas vezes tive na música brasileira:  imersão. Eu sei o quem e o onde do qual as letras tratam. Eu morei na Ceilândia. Eu estudei na Asa Norte. Eu tenho família em Planaltina. Eu tenho amigos em Taguatinga. Passei várias vésperas de natal e réveillons observando as luzes e os fogos na Esplanada dos Ministérios. Toda essa digressão para dizer que é bem legal, para variar, não ouvir músicas que falam apenas das esquinas de São Paulo e das praias do Rio de Janeiro. 

Esse contato com Legião Urbana me deixou um pouco temerosa de assistir ao filme "Faroeste Caboclo". Em parte por medo de como Brasília seria registrada, pois a representação da cidade é sempre de uma das duas formas: Ou é uma cidade de políticos corruptos ou a cidade de Oscar Niemeyer. Somado a isso, soube que a homossexualidade do Renato tinha sido ignorada no filme "Somos tão jovens", também em cartaz. Me decepcionei de antemão. Deu preguicinha. Achei que as duas produções tinham sido maquiadas para "a família brasileira" assistir no domingo à tarde. Por fim, confesso meu preconceito com a recente produção industrial do cinema brasileiro: comédia sem graça atrás de comédia sem graça. Ad eternum.

Aí vem "Faroeste Caboclo" e esbofeteia geral na cara.

Brasília aparece de forma natural, sem grande ostentação. A cena de introdução a cidade deve ser a única que eu sinto a presença da "Cidade de Niemeyer". Depois há perseguição em quadras residenciais, tiroteio em uma mata cheia de eucaliptos (eram bem comuns por aqui, apesar de não ser uma árvore do cerrado) , a UNB e uma Ceilândia que ainda me causa dúvida. Explico: Ceilândia, para quem não sabe, foi uma cidade-satélite criada em 1971 pela CEI - Campanha de Erradicação de Invasões (daí veio o nome da cidade). O filme se passa no início dos anos 80, então decorreram cerca de 10 anos. Sabendo que hoje Ceilândia é a cidade mais populosa do DF, não tenho a certeza de que uma década após a sua criação, ela seria aquele descampado mostrado no filme. Porém, imagino que houve pesquisa na criação das locações e mesmo que haja alguma abstração, não creio que tenha prejudicado o filme.

Faroeste Caboclo, como a música, conta a história trágica de um homem negro e pobre chamado João a.k.a Santo Cristo, nome de sua cidade natal. Sua história vai da infância à sua morte. Alguns fãs não gostarão das adaptações que são muitas. Porém, foram necessárias para tornar verossímil a história que, escrita há 30 anos, é tão atual.

De música para filme algumas coisas mudaram. O tom, por exemplo. Na música, o tom é de um conto épico sendo narrado, com várias passagens "grandiosas". Por exemplo quando, na letra, o duelo teria sido anunciado na TV e todo o povo apareceu para assistí-lo. Ou quando, segundo a letra, o desejo de Santo Cristo na verdade era falar com o presidente para ajudar ao povo. Eu entendo que a poesia do Renato Russo fazia de Santo Cristo (começando pelo seu nome), uma espécie de mártir. Há até um momento em que se fala em Via Crúcis. Enfim, trechos que ficaram para trás para contar uma história menor em "tom" mas que tem a mesma eloquência em denunciar as desigualdades do nosso país.

*Spoiler alert* - Diferenças básicas entre música e filme


"Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu"

Na música, Santo Cristo desde menino desejava ser bandido e guardava dentro de si um ódio crescente que aumentou com a morte do pai (assassinado por um soldado) e com a sua passagem pela FEBEM, sem explicar muito bem o motivo. 

No filme, a infância de Santo Cristo foi dura. O pai foi assassinado por um soldado e ele foi criado com grande dificuldade pela mãe, que morreu aparentemente de fome ou de sede. Nesse momento o Santo Cristo resolve ir embora, mas não sem antes vingar a morte do pai. E por isso ele vai para a FEBEM. A passagem por lá é apenas mencionada.

A morte do pai dele é um marco na música e no filme. Está claro que foi um crime motivado pela desigualdade de classe e de raça. Soldado nenhum mataria por motivo torpe um homem branco de classe mais abastada. Vale lembrar aqui dos dados atuais sobre a mortalidade de homens negros e jovens, os fatores raciais e sociais são determinantes em decidir quem vive e quem morre até hoje. É nesse ponto que o João começa a formar o seu senso de justiça próprio. Fico ainda mais feliz de ver que a mãe dele foi incluída no filme, mostrando que a morte do pai dele repercutiu naquela família, que ele foi criado por uma mulher solteira e sem condições financeiras. O personagem do filme tem mais tonalidades de cinza, ele não desejava ser bandido, não há esse maniqueísmo no personagem.. Era apenas uma criança como as outras, porém com menos oportunidades e expectativas. Uma história bem comum no Brasil de hoje.

"Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá"

O Pablo da música é apenas mencionado como um parente distante e um traficante que trazia a droga da Bolívia. No filme, ele é amigo e protetor (sem no entanto tutelar o Santo Cristo). Aparentemente teve alguma relação mais próxima com o pai do Santo Cristo. Um personagem ligeiramente canastrão na maior parte das cenas, mas impiedoso com seus inimigos. 


"Maria Lúcia pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter"


O que há de mais diferente no filme em relação a música é Maria Lúcia, interpretada pela Isis Valverde. E eu tenho que dizer que adorei isso. Maria Lúcia no filme é praticamente outra protagonista. Originalmente, ela entra no final quase que para redimir João dos seus pecados, para depois trocá-lo pelo seu pior inimigo, quase um Deus ex machina. No filme, entretanto, ela e o João se encontram em algum momento, surge uma afinidade, começam a namorar e enfrentam bastante preconceito por viver um amor interracial e de classes bastantes diferentes. 

Aliás, vou fazer um aparte para falar de quem eu esperava que fosse a Maria Lúcia. Eu acreditava que ela seria uma mulher negra e pobre, moradora da Ceilândia, provável vizinha do Santo Cristo. Eu pensava isso pois na música o Renato fala que o João frequentava as baladinhas da Asa Norte, andava com os boyzinhos e etc. Então, como a Maria Lúcia representava a redenção do Santo Cristo de sua vida como criminoso, imaginei alguém distante desse meio que ele passou a frequentar. Contudo, no filme ela foi retratada como uma garota da Zona Sul (Bom, nesse caso, Asa Norte). Filha de senador, moradora da Asa Norte, estudante de arquitetura e usuária de maconha. Distante do que eu esperava, mas também válido para inserir o personagem Santo Cristo num ambiente completamente diferente do dele, evidenciando o racismo existente em espaços frequentados pela classe média, majoritariamente branca.

Voltando à Maria Lúcia, o que achei mais interessante é que ela é uma mulher ativa na história. Ela não abandona o Santo Cristo para ficar com o Jeremias. Ela se prostitui para que ele permaneça vivo, o que é muito diferente. Então, Faroeste Caboclo também é a história de um amor trágico.

"Mas acontece que um tal de Jeremias,
Traficante de renome, apareceu por lá"

Em nenhum momento na música se fala em raça ou na classe social do Jeremias. Apenas se sabe que ele rivalizou com Santo Cristo pelo mercado de drogas e por Maria Lúcia. No filme, o Jeremias é um traficante branco e rico, associado com a polícia local. Em dado momento é flagrante que bandido que vai preso é o negro e pobre. O bandido branco e rico tem as costas quentes. Mas se há um elo bem fraco no filme é o ator que interpreta o Jeremias. Ele é muito super overactor demais, parece até que pertence a outro filme. Enquanto o João possui tons de cinza, o Jeremias é preto e branco. Isso me incomodou demais. Creio que o personagem o Marco Aurélio, que existe apenas no filme é o principal vilão do filme. Digo isso pois Marco Aurélio é um policial corrupto, que atende aos interesses de Jeremias. E, parando para pensar, foi também um homem armado pelo Estado que matou o pai de João. Além, é claro, da interpretação excelente do Antônio Calloni.

"E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo"
(...)
"E mato também Maria Lúcia
Aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor"


Coloquei esses trechos para falar de violência. Vale mencionar aqui que no estupro que sofre o Santo Cristo fica claro que estupro é uma arma. Estupro NÃO é sexo, é uma questão de poder. E outra diferença grande é que o Santo Cristo não pensou em matar Maria Lúcia, como ele fala na música.

Faroeste Caboclo e Django Livre



Fica difícil evitar comparações, primeiro pois os filmes foram lançados temporalmente próximos, portanto ainda temos Django bem fresco na memória e partilham do mesmo gênero, o western (embora Faroeste Caboclo dialogue com outros gêneros como o romance e o policial). E principalmente porque em ambos os filmes há a presença das opressões sobre os negros em países e momentos distintos, mas ainda sim correlatas. Os dois filmes são retratos do racismo. Em Django o assunto é a escravidão, em Faroeste Caboclo é algo menos tangível, mas também profundo e real e que diz muito sobre o Brasil atual.

Ao assistir Django, por várias vezes eu fiquei incomodada com o personagem Dr. Schultz, de Cristoph Waltz, grande ator que é, roubou para si o protagonismo do filme, fazendo de Django um personagem tutelado, quase secundário, por boa parte do filme. Em Faroeste Caboclo existe o peruano Pablo encarnando a figura do mentor apenas por ter introduzido João às drogas, mas a relação entre eles é muito mais horizontal. Santo Cristo é independente de Pablo, não há alguém para indicar o caminho, ensinar como ele deve agir. João traça o próprio destino apesar das barreiras que estão no caminho. Outra diferença é que em Faroeste Caboclo não há a culpabilização do negro pelo racismo, como representado pelo personagem de Stephen em Django (entenda). Por esses motivos, acho que no quesito de denúncia social e racial, Faroeste Caboclo me emociona mais.

Por fim, acho louvável que tenhamos duas produções de tanta qualidade, com protagonismo negro, girando em torno do racismo. E fico ainda mais feliz que uma dessas produções seja nacional, que tenha sido ambientada em Brasília, originada de uma música do Legião Urbana e que tenha quebrado esse marasmo em que estava o cinema nacional.