segunda-feira, 29 de abril de 2013

Não sou gordofóbico, mas:

Foto da Marcha das Vadias de BH em 2012

... jamais namoraria com umx gordx.
... botei minha/meu filhx na dieta só para garantir.
... acho que obesidade é desleixo.
... compro roupas em lojas que só vendem roupas para magros e isso não me incomoda.
... sempre observo o prato das pessoas obesas.
... acho que, diferente de mim que como o que quiser, xs gordxs só deveriam comer alface.
... acho que, diferente de mim que só ando de carro, xs gordxs só deveriam andar a pé.
... acho que todx gordx tem que ser muito simpático "para compensar".
... prefiro magros, é uma questão de gosto pessoal.
... chamo as pessoas gordas de baleia, monstrinho, superpig, porco e etc, mas é só de brincadeirinha, claro!
... acho que atleta TEM que ser magro.
... acho as pessoas gordas naturalmente engraçadas.
... de vez em quando uso a palavra "gordx" para ofender alguém.
... não entendo porque meu/minha ex me trocou por umx gordx.
... tenho nojinho.
... me incomoda ver gente gorda nos ambientes que frequento.
... acho que gordxs são seres carentes e vulneráveis.
... acho que gordxs devem vestir roupas que disfarcem o seu corpo.
... mantenho alguma distância de gordxs quando entro no ônibus ou no metrô.
... acho ridículo esse negócio de miss plus size, já que não existe gorda bonita.
... se fico com umx gordx, eu digo para xzamigue que é caridade, só para não pegar mal para o meu lado.
... não contrataria umx gordx.
... porque não faz logo uma cirurgia e resolve o "problema"?
... os gordos não estão nem aí para a própria saúde.

Escrevi esse texto porque, em geral, as pessoas não tem nada contra gordos e até têm amigos que são.

Já dá para fazer um bingo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O feminismo não tem limites (e nem deveria ter mesmo)


Há poucas horas, me deparei com a expressão "feminismo desenfreado". Eu ri um pouco do ridículo da expressão, mas depois ela me fez refletir. Em primeiro lugar, qual o problema de não ter freio em exigir igualdade de direitos, respeito a todos e uma sociedade mais justa? E por fim, a quem interessa frear o feminismo?

Ao Estado cujo poder se concentra nas mãos de homens. Ainda que tenhamos uma presidenta, não temos poder, não temos representatividade. Precisamos de mais mulheres nas trincheiras do legislativo, do executivo e do judiciário, na linha de frente, nos defendendo de leis que atentam contra a nossa dignidade, como o Estatuto do Nascituro. 

Aos empresários que precisariam pagar igualmente aos homens e às mulheres. Nada de contratar mão de obra qualificada a preço de banana.

Às empresas que teriam que reformular sua estratégia de marketing. Os fabricantes de cerveja precisariam parar de objetificar mulheres, os fabricantes de produtos de limpeza, teriam que entender que homens também são capazes de realizar tarefas domésticas, os fabricantes de brinquedos teriam que oferecer bonecas aos meninos. Enfim, todo mundo teria que se levantar do seu lugarzinho confortável, quentinho e ser criativo de verdade.

À igreja que teria que explicar para os fiéis porque mulheres não fazem parte do seu alto escalão. Além, é claro, de ter que explicar porque as mulheres foram sempre vilipendiadas, destratadas, subjugadas e mortas em nome da fé. Sem contar o exercício que seria mudar o discurso de submissão que é vomitado em cima das mulheres, o que interferiria diretamente no seu modelo falido de família.

À grande mídia formada por conglomerados familiares, que só oferecem lugar de destaque a uma mulher se ela souber repetir como um papagaio tudo aquilo que os homens e mandatários dessas famílias pensam. Que teria que dar voz às mulheres, em vez de dar ordens.

Aos exploradores sexuais que traficam, vendem, aprisionam, estupram, desumanizam e matam mulheres no mundo inteiro.

Aos financiadores de conflitos, que sabem da força destrutiva do estupro que é constantemente usado como arma de guerra.


À indústria da moda/beleza que retira de nós, mulheres, a capacidade de amar ao próprio corpo, de vestir o que achar melhor, de ter uma auto-imagem adequada. Naomi Wolf mandou o papo retíssimo na cara da sociedade: "Uma cultura obcecada por magreza feminina não é obcecada pela beleza da mulher, mas sim pela obediência feminina. A dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil".

Aos médicos cesaristas que todos os dias praticam o oportunismo de negar informação às suas pacientes, para assim retirar-lhes o poder de escolha sobre o próprio corpo.

Aos charlatães que lotam universidades e ganham dinheiro em cima de pesquisas de gênero pseudocientíficas sem metodologia confiável

E principalmente, àqueles homens que se beneficiam do machismo e não estão dispostos a deixar de lado o poder que presumem ter sobre as mulheres. Poder que vai desde achar que é normal assediar uma mulher na rua até o direito de decidir se a mulher deve viver ou morrer. Homens que não querem uma sociedade horizontalmente estruturada, preferem manter-se no topo de uma pirâmide cuja base é composta por minorias historicamente oprimidas.

E, na boa? sou feminista e nenhum deles vai me segurar.

Essa foi uma lista que reuni em poucos minutos. Sei que há muitos outros interessados na manutenção do sistema patriarcal. A semelhança entre eles? Todos estão lucrando $$$ com a opressão machista. Interessa muitíssimo ao capitalismo que o feminismo seja contido, seja controlado. A quem você acha que interessa frear o feminismo?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Givenchy: o cheiro da morte


Não assisto muito à televisão. Talvez por isso, esse texto esteja um pouco atrasado. Ontem, em um dos raros momentos em que zapeava pelos canais, assisti a uma propaganda que me deixou chocada. Fui obrigada a me questionar: Eu realmente assisti a isso? Eu entendi direito? Infelizmente, a resposta para as duas questões foi "sim". O anúncio era um daqueles comerciais aparentemente nonsense de perfume. Eu nem estava prestando muita atenção. Filmado em preto e branco, com uma modelo bastante alta e magra fazendo carão, vestida em uma roupa preta esvoaçante. Cabelos e roupas ao vento. Propagandas de perfume não vendem odores, vendem estilos de vida. Ao pensar numa mulher linda com os cabelos e as roupas ao vento, dançando suavemente, eu imagino uma mulher livre. A cor da roupa dela, preta, traz a idéia do mistério, da sedução. Até então, tranquilo. Propaganda de perfume é isso mesmo. O problema veio no fim, quando é revelado o nome do perfume: Dahlia Noir. Com o perdão da piada ruim, isso cheira fortíssimo à misoginia. Antes de prosseguirmos, assistam.



Aos menos informados, o nome é uma referência a um feminicídio brutal ocorrido em Los Angeles nos anos 40 e até hoje sem solução. A vítima foi uma moça chamada Elizabeth Short e o caso ficou conhecido como Dália Negra. Quando eu digo que foi um assassinato brutal, eu não estou brincando, galera. A moça foi dividida ao meio, as pernas e o torso foram completamente separadas, o assassino fez cortes em seu rosto que iam dos cantos da boca às orelhas, num sorriso macabro. Especula-se que ela tenha sido torturada. É importante ressaltar que esse é um daqueles casos extremamente famosos. Há livros, há filme dirigido por Brian de Palma, há documentários. Não estamos falando de um feminicídio anônimo, mas de algo que está de alguma maneira na memória das pessoas (na minha, inclusive, que nem sou americana). Até mesmo o RPM tem uma música chamada Dália Negra, que conta a história do assassinato de uma prostituta (eles usam o termo "vadia". Uma pequena gota da misoginia do rock nacional, mas esse assunto fica para outro dia).

O motivo pelo qual o caso é conhecido é o machismo da sociedade. Elizabeth foi uma mulher incomum para a sua época. Ela perdeu o noivo na guerra e resolveu sair da casa dos pais mesmo sendo solteira. Era muito bonita, Vivia sozinha, frequentava bares e aspirava à uma carreira no cinema. O termo machista para definí-la é Femme fatale. O assassinato dela foi alardeado como aviso às moças jovens, para que tivessem uma vida de recato. Culpar a vítima, como se pode notar, é prática antiga. Lamento que ainda precisemos levantar a bandeira de que a vítima não tem culpa.

Propaganda misógina
Não vou colocar aqui fotos do corpo mutilado de Elizabeth Short, mas elas podem ser facilmente encontradas no google. Se você resolver dar uma comparada no corpo e na roupa da modelo, principalmente na mídia impressa onde o figurino está mais evidente, vai encontrar semelhanças também. A roupa possui algumas faixas passando de forma bem marcada pelo seu corpo, e uma espécie de véu de tule. Fica evidente a intenção de fazer uma referência ao mutilamento de Elizabeth. Uma das faixas parece demarcar exatamente o corte abrupto na cintura, é de um mau gosto inexplicável. Tudo muito absurdo e nojento. Não há chance de ser uma coincidência. Dahlia Noir é uma referência direta ao feminicídio de Elizabeth Short.

Modelo da Rodarte e produto que imita sangue
Estou até agora tentando entender essa glamurização do feminicídio que é tão recorrente na moda. Há algum tempo atrás, talvez no primeiro momento em que me dei conta do flerte entre moda e misoginia, eu fiquei igualmente pasma diante do desfile de uma coleção de maquiagem da Rodarte, para a MAC. Foi horrível. O desfile trazia modelos sorumbáticas, com grandes olheiras, de aspecto quase fantasmagórico. Aquilo não era apenas um tanto soturno, era macabro mesmo. Entretanto, o pior veio novamente no nome dos produtos: Border Town, Factory e Juárez, Ghost Town, Sleepless, Quinceañera, Del Norte. TUDO está ligado à Cidade de Juárez.

Protesto em memória das vítimas
de feminicídio realizado pela
artista mexicana Elina Chauvet (foto)
Cidade de Juárez é lembrada em todo o mundo por ser símbolo da violência machista. De 1993 à 2012, ou seja, em 20 anos, foram mais de 700 mulheres mortas. 700 mulheres torturadas, violentadas e por fim, assassinadas em uma única cidade. As vítimas em geral são jovens mulheres, entre 15 e 25 anos,  que abandonaram seus estudos para trabalhar nas fábricas da cidade. É um verdadeiro massacre. Um drama social impensável, uma barbárie. O México é constantemente condenado por cortes internacionais de Direitos Humanos. Como alguém pode cogitar usar essa referência para criar maquiagem? Alguns dirão que as irmãs Mulleavy, fundadoras da Rodarte, estavam tocadas pelo assunto e queriam dar visibilidade ao tema. Certo, eu entendo que as criações artísticas por vezes são denunciativas e que há um espaço para a crítica que deve ser ocupado, inclusive na moda. Porém, quando precisaram se explicar perante à sociedade mexicana e diversas organizações de direitos humanos, elas afirmaram que queriam apenas “celebrar a beleza da paisagem e das pessoas”. Meus caros, celebração da beleza de mulheres mortas e/ou vulneráveis à violência não é crítica. Não há celebração quando estamos falando de um assunto que é uma ferida aberta no México e no mundo inteiro.

Esses dois casos não são isolados. A moda/a indústria de cosméticos é cheia de imagens de mulheres mortas, violentadas, agredidas. Há uma glamurização da violência contra a mulher que não questiona nada é apenas muito pertubadora. Um outro exemplo é a "Agent Provocateur", uma empresa que produz lingerie e que é famosa por lançar campanhas polêmicas e comumente proibidas por serem degradantes para as mulheres. Vejam:


Diante desse panorama, quando oferecem para mulheres produtos que de alguma maneira glamurizam o feminicídio, estão passando adiante essa cultura misógina. Estão incentivando-a. É óbvio que alguém que assiste à propaganda da Dahlia Noir não vai sair por aí matando mulheres, mas é igualmente óbvio que o somatório dessas imagens que se repetem em campanhas publicitárias formam em nós um nível de misoginia. Afinal, propagandas são feitas para nos convencer de algo, certo? para que sejamos convencidos a consumir um produto. As empresas gastam milhões em propagandas por um motivo: elas funcionam. Compramos suas motivações, compramos seus produtos. Quando nos acostumamos a observar mulheres agredidas, mortas, violentadas, ainda que vestidas nas mais lindas lingeries, ainda que usando o perfume mais caro, estamos naturalizando, lenta e silenciosamente, a violência sistemática contra a mulher. 

P.S.: Um texto excelente sobre a coleção Rodarte para MAC, você pode ver no saudoso blog "De Chanel na Laje"

UPDATE: leia também a parte 2 desse texto aqui.