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terça-feira, 29 de abril de 2014

Divergente, filme versus livro


No último final de semana eu assisti ao filme “Divergente”, adaptação para o cinema da obra homônima de Veronica Roth. E apesar de concordar inteiramente com críticas como essa, do Thiago Siqueira, eu percebo que falta a visão de alguém que leu os livros. Não porque eu acredite que as coisas precisam estar literalmente transpostas de uma mídia para outra, mas para analisar outro aspecto da obra: A adaptação respeita a obra original?


SIM, CONTÉM SPOILERS

Eu confesso que até agora não decidi se gostei do filme. Certamente tem algo de muito positivo em ver uma heroína de ação no cinema. Vê-la superar suas próprias fraquezas, fazendo escolhas que decidirão o seu próprio destino. Porém, a sensação que ficou é que o livro é muito melhor. Isso não é surpresa. É muito comum que o livro seja melhor que a adaptação para o cinema, são raros os casos em que o contrário ocorre. Contudo, no caso de divergente, a disparidade é muito grande.

O que mais senti falta nessa adaptação foi de ver a Tris crescer dentro da Audácia. De vê-la criando relacionamentos verdadeiros, como a amizade com a Christina. Sair da Abnegação não representou para Tris apenas a entrada nessa facção guerreira, mas também a liberdade de ser autocomplacente, de agir espontaneamente e fazer amizades incontidas. Eu entenderia que cortassem as amizades mais superficiais da Tris, como Uriah, Marlene e Lynn. Mas não o grupo principal de amigos. A cumplicidade entre Tris e Christina é importante e jamais deveria ter sido limada do filme. Aliás, quem apenas viu o filme, mal deve se lembrar quem são os amigos da Tris: Christina, Will e o traidor Al.

 Através do filme, as pessoas não saberão o quão duro foi o golpe que Al deu em Tris. E nem o quão traumatizante. No cinema, a Tris apenas apanha de um grupo de encapuzados, um dos quais ela descobre ser o Al. Entretanto, no livro, o ataque beira um estupro. Os caras passam a mão nela enquanto ameaçam sua integridade física. Será por isso que a Tris desenvolveu tanto medo de ter relações sexuais com Quatro? Talvez sim. Quem leu o livro pode se fazer essa pergunta, quem viu o filme, nunca imaginaria.

Na adaptação também não dá para perceber claramente o quanto ou como Christina e Will se apaixonaram durante o treinamento. E por isso não saberão que Tris e Christina terão que reconstruir juntas essa amizade, já que Tris foi forçada a matar Will. Toda essa teia de relacionamentos foi sumariamente cortada para dar espaço a cenas de ação, luta, correria e tiroteio.

Infelizmente, pelo filme, não chegamos sequer a conhecer a personagem principal. Não vemos a Tris descobrir o que é a coragem, como acontece no livro, onde ela começa falando que é egoísta e é corajosa, mas depois entende o significado de “acreditamos em nos libertar dos medos, nos simples atos de bravura, em defender aqueles que não podem se levantar sozinhos”. Nem sequer chegamos a conhecer todos os medos de Tris na paisagem do medo. O grande problema dessa adaptação é que, diferente da adaptação de jogos vorazes, em que o foco está nas relações humanas e na tensão social, em Divergente o foco esteve em garantir ao espectador numerosas cenas de ação temperadas com romance.

Mas mesmo as cenas de ação não deixam o espectador temer pelos heróis. Não há a sensação de perigo iminente. E o romance com o quatro é morno. Deixa a desejar. A tensão que existe entre os dois sempre que estão sozinhos, não acontece no filme. Quem leu o livro sabe da expectativa que existe na cena em que os dois sobem a escada da roda gigante. Ou de como foi importante para o Quatro que a Tris passasse junto com ele por sua paisagem do medo. O filme não criou a expectativa do romance, não fez com que torcêssemos por eles.

Em resumo, a adaptação do livro está muito aquém do potencial, apesar da boa atuação da Shailene Woodley, que sinceramente me pareceu a única boa atuação de todo o elenco (Kate Winslet, o que houve, gata!?). Eu esperava bem mais.

Update: A Rafaela Paludo, que fez um ótimo comentário aqui mesmo nesse texto, deixou um link para a crítica que ela fez do filme, que está bem legal, descrevendo ponto a ponto as ~divergências~ entre livro e filme.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Ficção: Brasil, o país literário e mágico

Essa semana é daquelas em que as muitas contradições do Brasil se revelam. Fora do Brasil, uma delegação com setenta escritores foi levada à cidade de Frankfurt, para a Feira do Livro, cujo convidado de honra é o nosso país. Em um dos claros esforços de vender uma imagem de nação evoluída, levamos aqueles que representam o ápice da educação: As pessoas que escrevem os livros. Digo isso não porque os convidados sejam as pessoas mais cultas de nosso país, mas porque os livros, simbolicamente, representam a educação.

Porém, se voltarmos os olhos nesse momento para dentro do Brasil veremos um quadro com cores muito diferentes. Onde impera o vermelho-sangue que já pintou essa tela tantas vezes. Há professores saindo às ruas em busca de aumento de salário, reformas no plano de carreira, reformas na educação, mas também em busca do seu direito constitucional de ser grevista. Porque enquanto lá fora se veste a fantasia do país da literatura, aqui dentro ainda impera o país da tortura e da repressão. O país que bate em quem o desafia, que quer manter a todos de cabeça baixa. Enquanto essa realidade esteve encerrada dentro das comunidades pobres e marginais, ninguém se incomodou de fato. Enquanto sofriam os Amarildos e suas famílias, havia uma justificativa elitista e racial perfeitamente aceita para a violência.

Luiz Ruffato
A fantasia do país da literatura felizmente durou pouco. Um autor, cujos livros nunca li mas que já admiro imensamente pela coragem, falou na abertura do evento em Frankfurt sobre o nosso país. Não o país "literário e mágico", que a ministra Marta Suplicy esperava vender para o mundo. Mas do país degradado pelo genocídio, pela educação deficiente, pela hipocrisia, intolerância e machismo. O rei estava nu. Do seu lugar de fala de homem do povo, cuja mãe foi uma lavadeira de roupa analfabeta e o pai um pipoqueiro semianalfabeto, Luiz Rufatto mandou um papo sem curva sobre o desrespeito aos direitos humanos que se pratica no Brasil.

Paulo Coelho que me perdoe, mas esse sim é um protesto que ficou marcado na lembrança daqueles que estiveram na Feira de Frankfurt. Protestar porque algumas pessoas que você gostaria que participasse do evento não foram convidadas é válido (Embora seja injusto desqualificar 50 nomes porque você não os conhece), porém, protestar sobre as mazelas que atormentam o povo, é necessário. Especialmente nesse momento dramático que vivem os professores no Rio de Janeiro. Ziraldo, que uma vez defendeu abertamente Monteiro Lobato das acusações justas e comprovadas de racismo, disse que se Ruffato estava tão insatisfeito que saísse do país. Ziraldo, volte dez casas no jogo democrático. Eu pergunto: continua assim? Brasil, ame-o ou deixe-o, tal e qual era na ditadura militar? Quem está insatisfeito com o país merece o exílio? Não. A insatisfação crítica (não aquela que desmerece os poucos avanços que não se dirigem a quem já detém o privilégio) é o caminho para construir um país melhor. 

Se quiser ficar passadx e dobradx com a coragem e lucidez do escritor, leia abaixo o discurso na íntegra, que peguei emprestado daqui. :)


O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora?

Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas.

Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças. O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados elevados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução. O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década.

Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir.

Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra.

Aqui e agora.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Tris, a Insurgente.

Retomando a programação normal deste blog, chegou a hora de falar de "Insurgente", a segunda parte da trilogia da Veronica Roth. O texto está um pouco atrasado, uma vez que o livro já foi lançado há algum tempo? Sim. Mas foi o tempo necessário para eu entender se gostei ou não do livro. Vou logo adiantando que contém spoilers.


Não sei se é o momento do mundo interferindo na arte, mas está rolando uma tendência de histórias de luta contra Estados opressores, a exemplo de Jogos Vorazes. E isso é bom. São livros com idéias esquerdistas, com questionamento da ordem e viés social. Em insurgente, começamos o livro sabendo que os planos da facção Erudição, de tomar para si o controle político exercido pela Abnegação, usando os membros da Audácia, foram destruídos por Tris e Quatro. Porém, não exatamente. E agora, mais que nunca, os divergentes (pessoas que se identificam com várias facções e não são controladas pelas simulações) estão em perigo. Assim como os líderes da Abnegação, que estão sendo exterminados. E muitas pessoas determinadas a não se unir a erudição acabaram virando "sem facção".

- Marcus Eaton, a incógnita:

Marcus Eaton, o pai de Quatro, que conhecemos somente através da paisagem do medo empunhando um cinto contra o filho, continua sendo apenas isso. Em nenhum momento o personagem revelou um pouco mais de si mesmo, nem demonstrou ter mais tonalidades de cinza. Sou radicalmente contra bater em criança, fui criada sem palmada. E acho importante que a Veronica sutilmente questione mais uma dessas coisas que passam despercebidas numa sociedade doente: bater em criança é violência. Mas esperava mais do Marcus, nem que fosse mais vilanias. Parece que falta alguma coisa nessa história.

- Amizade, muito diferente do meu conceito:

Eu não sei quais são os amigos da Verônica, mas na minha visão, a amizade, enquanto conceito, não ficaria em cima do muro. Amizade é mais do que isso, tem a ver com identificação, carinho e também proteção. Não é amizade se você não toma partido, aí é diplomacia. Quem é amigo de todos, não é amigo de ninguém. Amizade é algo mais amplo e profundo do que não ter inimizades. A facção amizade se mostrou fraca e nada amiga. Quando eu penso em amizade, eu penso em Sororidade. Sororidade, para quem não sabe, é aquilo que existe entre Cristina e Tris, o sentimento de irmandade, que é tão forte entre as duas que fez com que Cristina perdoasse a Tris pelo assassinato do seu namorado, o Will. Que fez com que nem mesmo isso as colocasse em lugares diametralmente opostos. Para mim, ESSE é o relacionamento mais bonito do livro.

- Quatro e Tris:


Ok, isso será polêmico. Eu já disse no meu texto anterior sobre divergente que gosto do casal Q&T. Mas algo me incomodava que me incomodava no primeiro livro mudou E MUITO no segundo. No primeiro livro, eu ficava mais feliz em ler as partes em que o silêncio falava mais do que os dois personagens, e eu digo isso porque quando o Quatro abria a boca o relacionamento desequilibrava. Quatro estava lá para guiar a Tris. Na jornada do herói, pode-se dizer que ele era o tutor dela. Isso é bem paternalista. E gente, desculpa dizer, mas uma personagem feminina forte que é tutelada por um homem que é o seu par romântico perde parte de sua força. Digo isso porque numa sociedade machista, ter autonomia é importante. No primeiro livro, salvo algumas passagens, como quando a Tris sobe a roda gigante, ou ajuda o Quatro na paisagem do medo É ELE e não ela, quem dá as ordens, quem ensina, quem diz o que precisa ser feito e como (rola até liçãozinha de moral). No final de divergente, genialmente, é ela que tem maior grau de divergência e precisa salvá-lo e a todas as pessoas. Difícil saber se há um equilíbrio no primeiro livro, é quase como se eles dividissem o protagonismo.

Em insurgente, diferentemente do primeiro livro, a Tris questiona o Quatro. Ela desobedece, ela desiste dele pelo que acredita. E isso, amigos, é ter autonomia. É se desvincilhar daquele que é ao mesmo tempo tutor e príncipe encatando e dizer: "Estou tomando as rédeas da minha vida". É discordar. A Tris cresceu nesse livro quando discutiu e se afastou do Quatro. Ainda que seja doloroso vê-la sofrer.

- O que espero para "Allegiant", ou "O que eu quero, Mário Alberto?"

Me parece que vai ser uma alegoria do mito da caverna, de Platão. Quero saber o que está do lado de fora da cerca. 
Quero entender de vez em qual lado dança o Caleb. 
Quero saber quem é o Marcus Eaton .
Quero ver Cristina e Tris como grandes amigas.
Quero que o Quatro passe a ouvir a Tris, coisa que ele não fez durante todo o segundo livro (e quebrou a cara, né?).
Quero que chegue logo, porque eu realmente não faço a menor idéia do que virá e estou muito curiosa!

P.S.: Leia também o meu texto sobre o primeiro livro.

sábado, 27 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 6 - Cinna, o rebelde da Capital


CONTÉM SPOILERS

Jogos Vorazes é um entretenimento televisivo. Um reality show extremo. E como tal, os tributos precisam fazer o seu papel de divertir.  E isso inclui a aparência deles, também faz parte do espetáculo. Trazer dos distritos pessoas que mal tem comida na mesa e fazer com que elas pareçam bonitas, maquiadas, bem arrumadas em suas aparições públicas é um trabalho feito por uma equipe de preparação. Em casos drásticos, considera-se até a cirurgia plástica. Tudo pelas câmeras.



Cada tributo tem a sua equipe de preparação, composta por três integrantes, que darão banho, cortarão os cabelos, farão as unhas, uniformizarão a pele, depilarão os tributos e etc, e um estilista que é responsável por coordenar a equipe e vestir os tributos. Não é curioso que um estilista, profissão considerada fútil e elitista, nascido na Capital, seja um rebelde aliado aos distritos? Veja, não estou falando de alguém com planos de poder, mas de alguém que apesar de TODOS os seus privilégios, consegue se desvincilhar da pesada carga de alienação que permeia a Capital. Consegue olhar além de si.

Empatia é a palavra que define Cinna. Ele é capaz de sentir isso de forma tão sincera que põe a sua vida a favor de uma causa que não lhe favorecerá. E isso não passa despercebido por Katniss. Katniss que não simpatiza facilmente com as pessoas, que é desconfiada, desde o primeiro momento colocou Cinna entre os seus amigos. Como disse Finnick, Katniss tem uma capacidade notável de fazer bons julgamentos. 
Cinna pediu para ser o estilista do distrito 12, um distrito muito pobre, que apenas duas vezes em 73 anos conseguiu sair vitorioso da arena. E ele fez isso porque queria ajudar a mudar essa situação. Todos os looks que Cinna compõe para Katniss são cautelosamente estudados para uma situação específica. Por exemplo, quando Katniss e Peeta participam do desfile dos tributos e são apresentados à audiência, em vez de fazer uma roupa que meramente representasse o distrito de origem de Katniss, Cinna criou algo inesquecível. Ele escreveu a ferro e fogo de forma permanente a imagem de Katniss. E sei lá, mas acho possível que esse tenha sido um grande passo para ela se tornar o Tordo, símbolo da Revolução. Um passo que não veio dela, um presente de Cinna para que ela alcançasse a audiência, os patrocinadores e quem sabe, até para lhe dar um pouco de confiança. Se Madge deu à Katniss um nome, Tordo, Cinna foi profético ao lhe dar uma história: The Girl on Fire (traduzido como "A garota quente").

Há outros rebeldes oriundos da Capital, nem todos são desprendidos como Cinna. Uma das diversões de Katniss é ver como os rebeldes da capital se adaptam às dificuldades de viver em um distrito, em evitar o desperdício e não comer além da conta, pode parecer egoísta da parte de Katniss enxergar a graça nisso, mas é perfeitamente compreensível. Entretanto, Cinna jamais faria feio numa situação dessas, sua própria existência não seria mais importante do que unificar e libertar os distritos de Panem e antes mesmo da Rebelião começar, ele já estava na linha de frente.

domingo, 21 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 5 - Peeta, o garoto com o pão



CONTÉM SPOILERS


Tudo bem, provavelmente vou precisar de mais de um texto para falar sobre Peeta, esse personagem que amo tanto. Vou focar em falar do personagem nesse texto e falarei da relação dele com Katniss em outro momento. 

Peeta tem 16 anos e foi o tributo do distrito 12 escolhido para participar dos Jogos Vorazes junto com Katniss. Peeta é filho do padeiro do Distrito 12. E é apaixonado por Katniss desde que tinha 5 anos de idade. Apesar disso, ele e Katniss nunca tinham se falado, embora tivessem uma única história bonita para contar que aconteceu antes dos Jogos.


Em um dia particularmente difícil para Katniss, após a morte de seu pai, ela estava com muita fome e via a morte se aproximar dela e de sua família. Desesperada, ela revirou o lixo da família de Peeta, mas não encontrou nada. Peeta, na época também com 11 anos, queimou propositalmente parte de alguns pães, para que sua mãe os jogasse fora, já que não poderia vender pães queimados. O que ele queria mesmo era ajudar Katniss. E assim, pela primeira vez, Peeta a salvou da morte. E esse foi o momento que iniciou o ciclo de proteção entre Katniss e Peeta, um está sempre protegendo o outro, dos perigos da arena, do frio, da morte, dos pesadelos, da Capital e até de si mesmos.

Peeta não é um guerreiro, não é particularmente habilidoso com nenhuma arma. Sua maior habilidade é a força que adquiriu carregando sacos e sacos de farinha na padaria. Peeta é sensível, é artístico e pacifista. Seu talento em decoração de bolos e pinturas se provou importante para sua sobrevivência na arena, pois ele é realmente incrível em se camuflar na paisagem. 

Entrarei no campo obscuro dos achismos ao dizer que acredito que a sua paixão pela arte (e o seu fraco pelas coisas bonitas, no sentido mais amplo que a palavra beleza possui, não estou falando de "padrão de beleza") pode ter motivado seu amor por Katniss. Pois foi ao ouví-la cantar que ele se apaixonou. 

Os livros utilizam o recurso do narrador-personagem, o que significa que é Katniss que nos conta toda a história, são os olhos dela que nos guiam para Panem, para os jogos, para a Guerra e também para Peeta. E aos olhos de Katniss, Peeta não tem defeitos. É verdade. Até mesmo aquilo que seria um defeito, o fato de ele ser um excelente mentiroso é visto por ela como uma qualidade. Talvez outros olhos tivessem registrado nisso um personagem manipulador. Mas para Katniss, essa é só mais uma das qualidades de Peeta (E eu concordo com ela). Vou transcrever algumas  das muitas passagens interessantes em que Katniss descreve Peeta. 

"Gosto de observar suas mãos enquanto ele trabalha, fazendo uma página em branco florescer a partir do nanquim, adicionando toques de cor a nosso livro anteriormente preto e amarelado. Seu rosto adquire uma expressão especial quando ele se concentra. Seu semblante normalmente tranquilo é substituído por algo mais intenso e retraído que sugere a existência de todo um mundo trancado dentro dele."

"Olho para aqueles olhos azuis que nenhuma quantidade excessiva de maquiagem consegue deixar verdadeiramente mortíferos." 
"Então, Finnick sabe o que Haymitch e eu sabemos. A respeito de Peeta. A respeito de ele ser muito mais bondoso do que qualquer um de nós. (...) Atirei para matar quanto mirei Enobaria, Gloss e Brutus. Peeta teria pelo menos tentando fazer alguma negociação antes. Teria tentado ver se alguma aliança mais ampla não seria possível."  
"Certamente ele é corajoso, mas nós todos temos sido suficientemente corajosos para sobreviver aos Jogos. Há essa questão da bondade que é difícil relegar, mas ainda assim... e quando penso no assunto, o que será que Peeta consegue fazer tão melhor do que o resto de nós? Ele consegue usar as palavras. Ele ofuscou todos os outros tributos em ambas as entrevistas. E talvez seja por causa dessa bondade subjacente que ele consiga colocar uma multidão _ Não, um país inteiro _ a seu lado, proferindo uma simples sentença." (Katniss imaginando porque todos protegem Peeta) 
"A delicadeza, o equilíbrio, a afetuosidade que deixavam um inesperado rastro de calor humano." (Katniss ponderando sobre as qualidades de Peeta. A descrição que mais gosto) 
"Você é pintor. Você é padeiro. Você gosta de dormir de janela aberta. Nunca põe açúcar no chá. E dá dois nós nos cadarços." (Katniss, sobre os hábitos de Peeta) 
"Do dente-de-leão na primavera. Do amarelo vívido que significa renascimento em vez de destruição." (Katniss dizendo o que Peeta significa para ela)

Uma das coisas que admiro em Peeta além de sua sagacidade e caráter, é a sua capacidade de respeitar o limite de Katniss. Ele a ama sem cobrar retribuição. Ele oferece a ela a possibilidade de escolher livremente o destino que quiser, ele só quer que ela seja feliz. Ele ama e isso basta. 


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 4 - Katniss, a bestante do fogo


CONTÉM SPOILERS


Hoje quero apresentar a outra face de Katniss. Não aquela que defende aos inocentes e motiva multidões. A sua agenda pública já foi descrita nesse post. "Katniss, a sobrevivente" dá lugar a "Katniss, a bestante do fogo".


"Bestante" é o nome dado aos seres mortíferos geneticamente manipulados criados pela Capital. E Bestante de fogo é como Katniss se define após passar por todas as provações ao longo dos três livros. Com boa parte do corpo queimado, ela vê pedaços de sua pele retorcida, costurada, dolorida e desmontando. Porém, a verdadeira dor não está na superfície. Ela percebe que jamais conseguirá apagar o rastro de destruição que uma guerra traz, as marcas da guerra no mundo e dentro de Katniss são indeléveis. 

Mesmo insubordinada, mesmo recusando-se a fazer esse papel, Katniss foi usada como a peça que faltava no Jogo de alguém. Se por um lado, ela conseguiu ofuscar o poder da Capital graças às suas atitudes nos Jogos, por outro, os interesses políticos foram se moldando para que a personagem pudesse ser novamente um instrumento, difícil de ser manuseado, é verdade, mas necessário. Demorou muito para que ela entendesse isso plenamente. E custou muito caro. Katniss não conseguiu proteger quem amava dos interesses políticos que rondam toda a trama. A mesma personagem que tanto se ressente da mãe que entrou em depressão quando o pai dela morreu numa mina de carvão, agora se vê totalmente descrente de sua própria vida também, desejando a própria morte, para que haja um fim para o seu sofrimento.

O maravilhoso capítulo 25 do livro Esperança, talvez o meu capítulo preferido de todos os livros, retrata com tanta precisão o sofrimento da personagem através de um dos seus inúmeros pesadelos que eu não poderia tentar explicá-lo sem transcrever essa passagem que foi tão difícil de ler.

"Um bestante do fogo conhece apenas uma única sensação: Agonia. Nenhuma visão, nenhum som, nenhuma sensação além da implacável queimadura na carne. Talvez haja períodos de inconsciência, mas qual é a importância disso se não consigo encontrar refúgio neles? Sou o pássaro de Cinna, inflamado, voando freneticamente para escapar de algo inescapável. As penas flamejantes que crescem de meu corpo. O bater das asas faz com que as chamas se movam. Estou me consumindo, porém infinitamente.

Por fim, minhas asas começam a falhar, perco altura e a gravidade me impulsiona em direção a um mar da cor dos olhos de Finnick e cheio de espuma. Flutuo sobre minhas costas, que continuam queimando debaixo d'água, mas a agonia dá lugar à dor. Quando fico à deriva e incapaz de navegar é que eles aparecem. Os mortos.

Os que eu amava voam como pássaros no céu aberto acima de mim. Adejando, girando no ar, me chamando para que eu me junte a eles. Quero muito seguí-los, mas a água salgada satura minhas asas, tornando impossível levantá-las. Os que eu odiava foram para a água, horrendos seres cheios de escamas que estraçalham minha carne salgada com dentes pontudos. Mordendo sem dar descanso. Arrastando-me para o fundo."

Talvez algumas pessoas discordem de mim, mas na minha opinião, a trilogia que Suzanne Collins escreveu não tem final feliz. Aliás não tem um só minuto de plena felicidade. Mesmo na felicidade há uma dor lancinante. E Katniss nos envolve cada vez mais profundamente na sua escuridão, na sua tristeza. Quando o momento chega, ela também nos envolve no seu desejo de renovação, uma tarefa mais árdua que unificar todos os distritos de Panem. É muito contraditório que o Tordo, o pássaro que é o símbolo da rebelião, se sinta sempre aprisionado na gaiola que alguém criou, no Jogo de alguém que se sentou em uma sala com alguns dos seus e decidiu tomar a vida de pessoas inocentes, como Katniss, como Peeta, como todos os tributos e como todo o povo oprimido dos Distritos.

domingo, 14 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes - Parte 3: As regras do Jogo


CONTÉM SPOILERS

Parece bem simples entender como funcionam os Jogos, não é? Afinal o último que sobrevive é o vitorioso. Contudo, não é assim tão simples. Há regras explícitas e implícitas em cada etapa dos Jogos. Aqui eu listei algumas das que lembro:

A Colheita:

-A colheita é o ritual de seleção dos tributos;
-Os candidatos a tributos são todas as crianças entre 12 e 18 anos de um distrito;
-As crianças podem se candidatar às tésseras, ou seja colocar o seu nome mais vezes no sorteio para que sua família possa receber óleo e grãos;
-Quem recebe as tésseras acumula seu nome no sorteio até a última seleção;
-São escolhidos um tributo do sexo feminino e um do sexo masculino;
-É possível se voluntariar antes ou depois do pronunciamento do nome do tributo sorteado;
-Os tributos são confinados imediatamente após o sorteio, sendo permitido que seus familiares se despeçam deles.

O Confinamento:

-Os tributos possuem um mentor, um vitorioso do mesmo distrito;
-Os tributos possuem uma equipe de preparação: Um grupo de pessoas que farão tratamentos estéticos e um estilista;
-Há uma cerimônia de abertura em que os tributos desfilam trajando roupas ligadas às especialidades de seu distrito (pesca, agricultura, mineração e etc.);
-Os tributos precisam passar por uma etapa de treinamento que dura alguns dias. Lá eles aprendem técnicas de sobrevivência e praticam com armas;
-É proibido lutar antes da arena;
-É proibido falar com os Avox (escravos mudos, que tiveram suas línguas cortadas em retaliação);
-Há um teste para avaliar cada tributo, atribuindo-lhes notas que vão de 0 à 12. Isso é importante para chamar a atenção de possíveis patrocinadores;
-Há uma entrevista com o apresentador dos Jogos, etapa também importante para ganhar a atenção do público e dos patrocinadores.

A Arena:

-A regra geral é: o último que restar é o vitorioso;
-São colocados rastreadores nos tributos;
-É permitido entrar na Arena com um objeto de seu distrito, desde que não seja algo que trará vantagem sobre outros tributos (é proibido levar armas, por exemplo);
-São permitidas alianças;
-Não é permitido descer do prato (uma espécie de ponto de início para cada competidor) antes do gongo. Seria como queimar a largada em uma corrida, exceto que se o tributo descer do prato antes do tempo, ele aciona uma mina e morre;
-É permitido caçar, pescar, montar armadilhas e procurar abrigo na Arena;
-Os patrocinadores podem enviar dádivas aos seus tributos preferidos a qualquer tempo, contudo, quanto menos tributos vivos, mais caras são as dádivas;
-Os idealizadores dos jogos podem controlar todas as circunstâncias naturais dentro da Arena;
-O jogo dura enquanto houverem tributos, contudo os idealizadores dos jogos podem forçar os combates através de interferências pontuais no Jogos, tornando possível diminuir o tempo de duração.
-Os idealizadores dos jogos podem matar um tributo;
-Os idealizadores dos jogos podem mudar as regras do jogo a qualquer tempo;
-Não é bem aceita a prática do canibalismo.


Após a vitória:

-O vitorioso concede outra entrevista ao apresentador dos Jogos;
-O vitorioso recebe como prêmio uma casa na Aldeia dos Vitoriosos de seu distrito, além de uma grande soma mensal;
-O vitorioso precisa participar da turnê da vitória, passando de distrito em distrito, até chegar ao baile na Capital;
-O vitorioso será mentor de novos tributos;
-Os nomes dos vitoriosos são retirados das colheitas vindouras;
-Regra totalmente off the book: Vitoriosos podem integrar uma rede de prostituição, de acordo com interesses da Capital. Caso ele se negue, pode sofrer retaliações.


O Massacre Quartenário:

-A cada 25 anos é realizada uma edição especial dos Jogos Vorazes, chamada de massacre quartenário. As regras de cada massacre são especificadas meses antes do início dos jogos. E são mutáveis;
-No primeiro Massacre Quartenário, os cidadãos de cada distrito tiveram que votar em quais crianças mandariam como tributos;
-No segundo Massacre Quartenário, foram levados à arena o dobro de tributos, ou seja, 4 tributos para cada distrito;
-No terceiro Massacre Quartenário, os tributos foram sorteados entre o rol de vitoriosos vivos de cada distrito.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 2 - Katniss, a sobrevivente


Esse texto contém spoilers e talvez você queira começar por esse texto aqui, que explica o que são os Jogos Vorazes.

"É uma sobrevivente, aquela lá". Mãe de Peeta, sobre Katniss.

Morgana, de As Brumas de Avalon
Antes de sequer começar a falar da heroína de Jogos Vorazes, é preciso reforçar o fato de que não é comum que uma trama de guerra, seja centrada numa personagem feminina. A mulher é sempre parte secundária. Acho que no rol de personagens centrais de uma história sobre guerra e poder, me recordo de Morgana (de As Brumas de Avalon) e Katniss. Quando passamos então a distopias, katniss me parece ser única, pioneira, ou pelo menos muito rara na literatura. 

A heroína de Jogos Vorazes, e também a narradora do livro (que é contado em primeira pessoa) é Katniss. Tudo o que vemos e sabemos no livro é a partir do seu ponto de vista.


Katniss é uma moradora do bairro Costura, no Distrito 12 de Panem. E como muitos ali, não teve uma vida fácil. Aos 11 anos, perdeu seu pai em uma explosão numa mina de carvão. Sua mãe entrou em processo de depressão profunda e era incapaz de prover o sustento para a família. E assim, sua família passou enormes necessidades, a ponto de quase morrer de fome. Tão jovem, ela tomou as rédeas da situação e passou a caçar clandestinamente na floresta (crime punível com morte em Panem) e vender os animais no "Prego", uma espécie de mercado negro, tornando-se uma arqueira e caçadora admirável.

Além disso, katniss teve que se submeter à outra tortura que a capital inflige aos pobres. Candidatou-se às tésseras. Isso significa que ela colocou seu nome várias vezes na lista de candidatos à colheita, para conseguir óleo e grãos para sua família. Aos 16 anos, apenas 4 anos após sua iniciação na colheita, ela já tinha seu nome inscrito 20 vezes, uma vez que as inscrições são cumulativas. Mesmo assim, o nome sorteado para participar dos Jogos Vorazes é Prim, sua irmã caçula de 12 anos, estreante na colheita. Katniss se voluntaria para assumir o fardo de sua irmã. Dando nesse momento sua primeira prova de heroísmo. Assumir quase a promessa de uma morte certa para dar uma oportunidade de futuro à Prim.

Em dado momento da história, Katniss analisa como a sua irmã herdou as melhores qualidades da família. E como herança que ela forneceu à Prim, ela cita sua combatividade. Não creio que ela falava numa combatividade vazia, não creio que ela falava de combate no sentido mais estreito da palavra,em guerrear, em matar, em ir para campos de batalha. Acredito que ela se referia ao fato de que ela não se abaixa diante de um sistema, ainda que ela tente. E ela tentou se adaptar. Katniss é tão humana que muitas vezes se deixa abalar quando precisa decidir se vai ser a voz de uma rebelião que salvará muitos mas colocará aquelas pessoas próximas dela em risco. Esse é um conflito interno pelo qual a personagem passa durante quase toda a saga. É uma personagem com milhares de tons de cinza, que por vezes amamos e por vezes condenamos. 

Suas atitudes dentro dos jogos são totalmente o oposto do que se espera de um vitorioso. A Capital espera que um vitorioso seja alguém que luta pela própria vida, que seja impiedoso, que aja em seu próprio benefício. Mas cada atitude de Katniss contraria essa regra, ela não ultrapassa o seu limite moral. Matou sim, para se defender e àqueles que ela amava. E também matou por compaixão alguém que sofria para morrer lentamente. Quando ela foi forçada a matar alguém que amava, ela se recusou estoicamente. E no seu maior enfrentamento ao sistema opressor em que estava inserida, ela se tornou a voz de uma revolução. 
Katniss usando o sinal do distrito 12,
que significa um adeus a alguém que é amado

Vi algumas críticas chamando-a de passiva, por ela não ter clamado a morte das pessoas na arena, não ter ido para o combate. Mas quem critica não vê que de passiva, ela não tem absolutamente nada. Ao se recusar a matar deliberadamente, como faziam os tributos dos distritos 1 e 2, por exemplo, ela foi mais ativa que todos os outros tributos. Ela deixou de matar não apenas para se defender ou para fugir, mas porque matar seres humanos inocentes não é algo que ela consiga fazer sem pesar. Embora vez ou outra ela precise fazer.

Broche que Katniss ganha de Madge, sua amiga,
um símbolo do distrito 12, o pássaro tordo.
Suas ações não foram no sentido de gerar levantes do povo oprimido contra a capital, foi apenas a sua combatividade natural, sua rebeldia, seu rancor e seu ódio (Sim, amigos, Katniss também sente ódio) contra esse sistema, mostrando que a sua natureza não seria facilmente dobrada e ela não se tornaria uma mera peça dos jogos vorazes. E essa foi a fagulha necessária para que o povo tão assustado, tão oprimido, pudesse ter forças para lutar contra a tirania. Durante a guerra, Katniss não teve um alto posto de comando, ela era soldado. Contudo era seu rosto que ia para cada TV em Panem falar diretamente com os rebeldes. Tornou-se o tordo (um pássaro capaz de repetir melodias e que é símbolo do distrito 12) fazendo ecoar sua voz em todos os distritos.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 1 - A Sociedade


Estou escrevendo esse texto, o primeiro de muitos sobre Jogos Vorazes, como forma de extravasar mesmo, porque depois de ler a trilogia eu quis falar todas essas palavras para alguém, mas não conhecia ninguém que tivesse lido o livro e estivesse com a mesma disposição para debatê-lo comigo. Não preciso dizer que contém alguns spoilers, não é? Fãs de Hunger Games, em que fórum vocês estão? 

Obs.: Para perder completamente o fio da meada... a palavra "Voraz" sempre me lembra "A Terrível Besta Voraz de Traal", procure no guia do mochileiro das galáxias. 

Retomando de onde parei:

- Os Jogos Vorazes

AQUI tem um estudo sobre o mapa de Panem
A história se passa em Panem, um país formado pelo que sobrou da América do Norte, num futuro em que grande parte dela foi inundada. Panem era formada pela Capital e outros 13 distritos. Houve uma guerra entre a capital e os distritos, denominada Dias Escuros, da qual os distritos saíram derrotados, o distrito 13 foi extinto e a capital foi vitoriosa. Como forma de punição, a Capital criou os Jogos Vorazes.

Os Jogos Vorazes consistem em reunir um menino e uma menina, entre 12 e 18 anos, os tributos, de cada distrito para lutar até a morte em uma arena. De lá, apenas uma pessoa sairá vitoriosa. O jogo é transmitido para a Capital e para os distritos e encarado como a principal forma de entretenimento televisivo da Capital. Uma espécie de Reality Show.

- A questão social

A Capital
Há uma enorme tensão entre os distritos e a Capital. A Capital é extremamente rica, com enorme desenvolvimento de científico em armamento, naves, medicina e até mesmo em moda. Cinna, estilista de Katniss é capaz de fazer qualquer coisa com uma roupa, desde atear-lhe fogo falso sem que ela queime até transformá-la por completo em outra roupa, enfim.

Cenário do Bairro Costura - No Distrito 12

Os distritos, de forma geral, são muito pobres e vigiados por guardas chamados de pacificadores. Com um nome como esse, é normal que pensemos que eles estão lá para manter a segurança das pessoas, fazer de Panem um lugar tranquilo. Só que jamais. Os pacificadores são torturadores, alguns agem com crueldade, outros são um pouco mais piedosos, mas todos são repressores. A idéia de intimidar o povo está presente em cada pequena atitude da Capital.

Os alimentos e minérios que a Capital usufrui vem dos distritos. Em alguns distritos a produção do povo é racionada e proibida para os habitantes. Ou seja, eles trabalham e o fruto desse trabalho vai direto para a Capital. Ao povo do distrito apenas sobram os restos. Enquanto as pessoas morrem de fome por quase toda Panem, na capital eles possuem um líquido que é servido em jantares, para que as pessoas vomitem e continuem comendo.

E é claro, a pior de todas as intimidações, os Jogos. Os jogos são a forma da Capital manter os distritos completamente intimidados, o terror de ver suas crianças serem enviados para a morte. O enorme terror de vê-las morrer e vê-las destruir a si mesmas enquanto ceifam outras vidas. O terror de viver uma vida sem inocência, sem infância. Não é à toa que muitos dos tributos vitoriosos, retornam ao seu distrito, aos seus familiares, mas nunca retornam à sua vida. A vida como eles conheciam ficou para trás.

Não consigo deixar de relacionar nada ao nosso mundo atual. A forma como a tragédia nos atrai, como temos uma curiosidade mórbida em relação à vida (e à morte também) do outro. Acho até que não seria impossível acontecerem Jogos Vorazes num mundo como Panem, em que as desigualdades sociais são tão absurdas, tão cruéis. Elza Soares, a cantora, nos informa que a "carne mais barata é a carne negra". Querendo dizer com isso que os negros em nossa sociedade são párias. Eu diria que em panem a carne mais barata do mercado é a carne magra: A moeda de troca é a fome e a miséria. Que se reflete na realização dos jogos, uma vez que para conseguir mais grãos para sua família, as crianças precisam colocar mais vezes o seu nome no sorteio dos tributos, que é chamado de colheita. Uma medida que só visa prejudicar aqueles cujas vozes são as menos ouvidas, os famintos, os pobres, os desesperados. 

Quando eu digo que acredito na possibilidade de uma sociedade tão profundamente desigual ser o motivador para a criação de uma versão dos jogos vorazes eu não falo por falar, na nossa história já tivemos jogos que levaram até a morte. Na Roma Antiga, houve o Gladiador, um escravo que era lançado na arena para lutar até a morte. E também tivemos em nossa história recente, para que ninguém diga que é impossível acontecer, uma segunda guerra que vitimou milhões de pessoas. Pessoas "normais", como você e eu, estiveram ao lado de hitler. Há um filme sobre como o pensamento autocrático pode ser instalado, se chama "A Onda". Quem não assistiu ainda, deveria. No vídeo abaixo, o Jean Wyllys fala sobre o filme "A Onda":





Em um diálogo que só ocorreu no filme do primeiro livro (não existe no livro), mas que é profundamente essencial para entender a dinâmica dos Jogos, o presidente Snow, tirano de Panem, conversa com Seneca Crane, idealizor da edição 74 dos Jogos (quase um Boninho). A conversa gira em torno dos "underdogs", que é como o presidente chama os desesperados-famintos dos distritos. Snow pergunta à Crane porque ele acha que existe um vitorioso. Crane não responde e Snow explica. Porque é preciso dar ao povo esperança, mas nunca em grande quantidade, apenas o suficiente para mantê-los conformados. E não é assim com a nossa política também? Que nos fornece medidas paliativas para os problemas, que entrega uma camiseta com 200 reais escondidos em troca de voto, que joga sobre as costas de um grupo alijado de seus direitos a culpa por ser oprimido.

A autora afirma que teve a idéia enquanto zapeava por canais aleatórios na TV, em um canal, um reality show, no outro notícias sobre a guerra do Iraque. Temos de um lado o entretenimento que coisifica o ser humano e do outro o horror que dizima. Essa é a origem e a essência dos Jogos Vorazes.