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terça-feira, 17 de setembro de 2013

A cultura do estupro debaixo do tapete da grande mídia

Se você acompanha esse blog é muito possível que já tenha lido o meu texto sobre o silêncio da mídia durante a primeira retomada do julgamento do caso New Hit, que ocorreu no dia 3 de setembro passado (a segunda retomada do julgamento começa hoje, dia 17 de setembro, fiquem de olho). Mais gente escreveu sobre o mesmo assunto. No meu texto, eu abordei o descaso da grande mídia com um crime cuja natureza causa horror no mundo inteiro, contudo parece ser um horror momentâneo, prestes a dar lugar à próxima tragédia. No último dia 3 de setembro, foi assombroso assistir à falta de informação que gere a nossa imprensa. Seja ela de esquerda ou de direita, partidária ou não.

Imagem daqui

O problema do horror é que ele acontece de forma enviesada. É contraditório que o estupro nos cause horror, mas passados alguns dias ele caia no esquecimento. Acho que em grande parte devemos isso à maneira como ele é informado. Não se debate o estupro na grande mídia, apenas se recita manchetes. O estupro é um assunto que tem a superficialidade de uma manchete, ele assim é tratado e lembrado. A grande mídia falha em retratá-lo pois jamais vai além da informação seca, bruta, do fato puro e simples. É sempre: "Homem é suspeito de estuprar mulher", ou "mulher é estuprada em algum lugar". Mas os porquês não surgem. 

A informação é completamente acrítica, dotada de uma ignorância abissal sobre o que é a violência contra a mulher. Esse tipo de notícia faz parecer que a violência contra a mulher é apenas a mão que bate, fere e mata. Ou que é apenas a penetração não consensual. Ou ainda que o homem e o monstro não coexistem. "Homens de verdade não estupram". Essa é uma informação que não compreende os meandros do machismo, que extrapolam a agressão física em todas as suas formas e adentram o nosso cotidiano.

Nas notícias sobre violência sexual falta abordar o entitlement, por exemplo. Palavra usada para descrever o sentimento que muitos homens tem sobre as mulheres, o sentimento de ter a garantia e o direito sobre elas. É uma relação desequilibrada de poder que se revela ainda na infância. O entitlement é fruto de outra expressão que passa longe da grande mídia: "cultura do estupro".

A cultura do estupro é o meio pelo qual normalizamos e/ou relativizamos a violência sexual, é todo o sistema pelo qual o estupro é aceito. E ele é. Dentre todos os casos de estupro, apenas 2% deles levam à condenação. Esse é um número que fala por si. É pouquíssimo, haja vista ser um crime tão comum. É sintomático que não se fale abertamente em cultura do estupro.  

É a cultura do estupro que permite que a mulher seja alvo de investigação e não o estuprador. Não se trata de direito à ampla defesa e contraditório, porque isso não será negado ao acusado, mas da tentativa indiscriminada de deslegitimação da denúncia através da sexualidade feminina, às vezes expressa numa roupa curta, ao ambiente onde o crime ocorreu ou simplesmente ao fato de ser mulher e ousar dizer não.

A ousadia do não é o principal argumento para a deslegitimação do estupro doméstico. Aquele praticado pelos próprios companheiros. O estupro não é exclusividade do estranho na balada, no beco escuro, na rua. Não. O estupro é uma realidade doméstica, que acontece no seio da família, e gera uma zona cinzenta de incertezas, constrangimento e medo. 

Então, chega de falar sobre o estupro como se ele fosse um evento isolado, uma tragédia. Devemos tratar dele como um horror, sim, mas um horror do cotidiano, reiterado por propagandas na TV aberta, legitimado pelas cantadas nas ruas, pela passada de mão no metrô lotado, pela insistência em fazer sexo com a companheira até que ela ceda à pressão. Não espere essa abordagem na grande mídia, porque a quem interessa reconhecer o monstro interior? o ser humano mais pacífico carrega consigo uma carga de informações que recebe da sua vida em sociedade e é aí que se flerta com o monstro, sem se dar conta. Ninguém quer entender que o monstro não é o outro, ele vive dentro de si.



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O silêncio da mídia durante o julgamento do caso New Hit

Não sei se vocês se recordam, em dezembro de 2012 chegou até os nossos telejornais mais assistidos a notícia de que a uma mulher indiana teria sido estuprada coletivamente dentro de um ônibus, na Índia. Ora, estupros acontecem todos os dias e não são noticiados. Porque esse caso foi diferente? Porque ele foi de tal brutalidade que expôs a ferida aberta de um país. O choque, a indignação foi tão grande que atravessou o oceano. Chegou até nós. Nós, o povo brasileiro. Nós tivemos empatia por aquela mulher. Ela lá, nós aqui. Criticamos o machismo na Índia. Nós falamos mal de um cultura que não conhecemos. Por indignação, justa, compreensível. Esse crime, e sua repercussão dentro e fora da Índia mobilizou o povo a pressionar o governo para fazer mais pelas mulheres.

Mas nós, que tanto criticamos a Índia por não proteger suas mulheres, aqui estamos, fazendo bem pouco por duas meninas que tiveram o mesmo destino da jovem indiana, o que mostra que o nosso gigante acordou, mas é machista. Ontem, teve reinício o julgamento de um crime que aconteceu em Ruy Barbosa, na Bahia. Um crime brutal. Imagine só que duas adolescentes foram até o ônibus de uma banda que elas admiravam e foram estupradas seguidamente por OITO homens, segundo laudo pericial, enquanto apanhavam e eram agredidas verbalmente.


Eu me lembro de quando eu era adolescente. As minhas bandas preferidas faziam parte do meu dia-a-dia. Eu cantava suas canções, eu as aplicava nas situações do meu cotidiano. Se eu conhecesse os meus ídolos e eles me chamassem para dentro do ônibus da banda, eu iria feliz e contente, esperando fazer algumas memórias felizes. Algumas recordações para aproximar a banda ainda mais de mim. Eu jamais desconfiaria que poderia ser vítima do HORROR que essas meninas sofreram. 

Elas descobriram da forma mais dilacerante a força do patriarcado sobre nós. A crueldade da cultura do estupro. Uma cultura que diz que duas adolescentes que entram em um ônibus de banda, só poderiam estar PEDINDO pelo estupro. É sintomático da cultura do estupro que praticamente apenas feministas (Especialmente a página "Repúdio ao New Hit: Acusados de estupro" e o "Núcleo Negra Zeferina"), e alguns noticiários locais estejam falando sobre isso. Os grandes portais de notícia, os maiores telejornais do Brasil, os trending topics do twitter (sim, eles importam), a mídia independente (alow, mídia ninja???), os anonymous, não deram muita atenção. Ninguém mais (seja de esquerda ou de direita) se importa. Ninguém mais liga para as nossas meninas, nem para as nossas mulheres. 

O que é preciso para que uma mulher agredida seja lembrada pela mídia? que ela seja famosa. Hoje temos até lei com nome de atriz da globo, a lei Carolina Dieckman. Tudo muito bonito (sério, essa lei é um avanço), mas precisa ser atriz da globo para que possamos debater o machismo, a cultura do estupro, a violência contra a mulher? Ou quem sabe ser picada e oferecida aos cães por um jogador de futebol famoso (Eliza Samúdio)? Ou ainda ser morta em rede nacional por um ex-namorado (Eloá Pimentel)? Há um circo montado nesses casos, onde se leva ao outro extremo: o sensacionalismo, que invade a vida privada da vítima, que não se coloca no lugar dela e nem lhe dá voz, o jornalismo que quer transformar suas vidas num filme de mau gosto, um entretenimento macabro. Para as muitas vítimas anônimas só resta o silêncio.

É vergonhoso e escandaloso o silêncio do nosso país sobre esse caso. A todo jornalista eu só gostaria de dizer que poderia ser a sua filha. Poderia ser a filha, a irmã, a mãe, a avó, a amiga de qualquer uma de nós. Pode ser qualquer uma de nós. Eu acho patético precisar repetir essa frase a cada nova violência contra a mulher para que sintam empatia por nós e nos ouçam. É lamentável que uma notícia dessas se torne APENAS uma nota sem profundidade que vai embora junto com um monte de notícias vazias sobre a musa da vez, sobre a celulite de alguém, sobre o trânsito, sobre qualquer coisa. 

Esse é o tipo de notícia que deveria parar o nosso dia: Acompanhar o julgamento da banda New Hit. O silêncio da mídia é também o silêncio da vítima, que não tem espaço no mundo para que ouçam sua voz. Não é à toa que quando acontece um crime de estupro se entreviste o estuprador, a família dele, a mãe, o pai, o delegado e todo mundo ao redor, menos a vítima. Não é à toa que o jornalismo sempre trate as vítimas de estupro como supostas vítimas, como mentirosas em potencial. E principalmente, nesse caso, não é à toa que as vítimas estão presas dentro de casa ou em abrigos, enquanto os estupradores estão soltos, fazendo shows, sendo patrocinados por marcas famosas. 

Mesmo que o New Hit saia condenado do tribunal, a cultura do estupro já foi perdoada. As pessoas e a mídia já viraram as costas para o assunto, já se esqueceram, normalizaram. Seguiram suas vidas como se nada demais houvesse acontecido.

P.S.: Essas jovens merecem toda a nossa admiração por, com tão pouca idade, terem decidido passar por cima desse gigante machista que é o nosso país. A coragem delas me inspira como feminista e como mulher a continuar acreditando que é possível virar a mesa e denunciar a cultura do estupro a cada vez que ela se apresenta.

P.S. 2: O julgamento foi suspenso e deverá retornar nos dias 17, 18 e 19 deste mês. Até lá espero que algo mude na cobertura midiática (se é que podemos chamar assim) do caso.

P.S. 3: Link sobre clichês machistas do jornalismo: "Como o jornalismo reflete e alimenta o machismo"

UPDATE: Será que não existe também um componente de preconceito regional? E se o mesmo caso acontecesse no sul/sudeste do país? A mídia também estaria calada? Eu acho que haveria maior possibilidade da mídia se manifestar.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A TV transfóbica de cada dia

Não sou uma feminista acadêmica. Minhas maiores referências de feminismo estão crescendo junto comigo, são as muitas amigas que fiz nos últimos anos, seus blogs, suas postagens, seus embates políticos, as marchas que acontecem em várias cidades do país e muitos artigos. Resumindo, horas e horas de leitura na internet e conversas diárias. Tirando um ou outro livro clássico sobre feminismo, no geral, careço de fontes. No entanto, não acredito que isso me desmereça enquanto feminista, porque as experiências que vivi e aquelas que foram compartilhadas comigo também são enriquecedoras. 

E talvez seja por isso que demorei tanto para falar sobre travestis e transexuais. Porque eu AINDA não me debrucei sobre a teoria e isso é um grande empecilho na hora de comentar um assunto que no dia-a-dia é totalmente invisibilizado. Ainda agora, estou pisando em ovos. Por "invisibilidade" entendo não somente aos momentos em que as pessoas trans não aparecem nas nossas vidas, mas também aos momentos em que aparecem e são tratadas como uma aberração de circo, totalmente desumanizadas.

Cena de "Amor a Vida" em que
Valdirene discute com uma travesti
Quando uma pessoa trans ousa aparecer na TV, o primeiro recurso é sempre o do humor. Fazem questão de mostrar para o público que aquela pessoa é artificial e risível: O seio é de silicone, o batom é forte, a roupa é curta, a voz é sempre bem grossa, um jeito peculiar de falar ("falam errado"), é barraqueira e, muitas vezes, a pele é negra. Nenhuma dessas características é um problema, claro que não. O problema é aquilo que apreendemos delas. A questão é primeiramente o perfil único apresentado, e o depois, obviamente, problema está na transfobia, elitismo, machismo e racismo de rir dessas características.

Na TV a pessoa trans não tem família, não tem amigos, não namora, não vai ao cinema, não lê, não trabalha, não cozinha, não ama, não sofre e não existe enquanto ser humano. É apenas um momento de diversão para a família brasileira. Não há representação da pessoa trans, ninguém fala, por exemplo, de violência. A violência transfóbica mata todos os dias, mas aqui estamos nós, pessoas cis (ou seja, as pessoas que não são trans), rindo, sem nos dar conta que com isso contribuímos para que mais gente sofra violência.

Kadu (agressor de mulher) Moliterno e Evandro
Mesquita em cena de Bangbang, Personagens
eram homens cis que fingiam ser mulheres cis.
Tão horrível quanto isso, são as novelas e filmes em que homens cis se disfarçam de mulheres cis. O que também ajuda a formar uma visão distorcida do assunto, embora sejam coisas diferentes. Passamos a entender que homens que se vestem de mulheres são isso mesmo: homens cis e heterossexuais que fingem. Passamos a achar que são homens tentando invadir os espaços íntimos das mulheres. Que enquanto ele passa por mulher, tentará violentar-nos, nos ver em trajes íntimos enquanto inocentemente achamos que eles são elas, que eles obtém prazer não consensual em fingir ser como nós. E é exatamente por esse entendimento que há tanta polêmica em relação aos banheiros públicos, um espaço extremamente hostil para as pessoas transexuais e travestis. E isso é muito prejudicial.

Ao recusar a forma como a pessoa se identifica, negaremos tudo. Assim fazemos com que ela seja preterida em oportunidades de emprego, segregada dentro da própria família, objetificada na sociedade e, em última instância, vítima de crimes de ódio que podem chegar ao assassinato.

Há alguns dias, Walcyr Carrasco, autor da novela "Amor à vida" e gay, colocou no ar uma cena em que uma travesti era chamada de "traveca". Em meio às críticas, me recordei que Walcyr Carrasco é reincidente quando o assunto é preconceito transfóbico. Lembrei-me de ter lido um texto escrito por ele, certa vez, em que ele tratava travestis no masculino, criminalizava o tratamento hormonal precoce, e era extremamente autoritário e raso em toda a análise, mostrando que mesmo alguém que está debaixo do guarda-chuva LGBT pode ser muito ignorante quando o assunto é a sigla "T".

Teena Brandon, personagem de
Hillary Swank em "Meninos não choram"
A minha visão tolhida por anos e anos de desinformação começou a mudar lá no início dos anos 2000, quando eu assisti ao filme "Meninos não choram", baseado na história real de Teena Brandon, um homem trans que foi vítima de estupro corretivo e assassinato brutal motivado por transfobia. Infelizmente o filme não fala exatamente essa palavra: "transfobia". Eu, ignorante, achei que Teena era uma lésbica que queria ser homem. Confundi identidade e orientação sexual. Mesmo com essa visão limitada e muito errada, acabei percebendo que existe mais histórias do que insistem em nos mostrar na TV. E após conhecer pessoas realmente fantásticas, eu aprendi muito. Acho que somente o contato (e a pesquisa acadêmica) pode nos trazer mais conhecimento, pois se depender da grande mídia, FODEO.

São poucas as representações minimamente humanizadoras na TV. Houve uma novela recente, chamada "Aquele Beijo", em que havia uma personagem chamada "Ana Girafa" (porque ela não podia ter um nome normal, eu não sei). Ao menos essa novela mostrou o drama de ter uma mãe que rejeita a identidade da filha e um romance meramente insinuado, sem beijo e sem toque. E sempre que há algum grau de humanização a personagem é branca. Então fica a dica, transfobia, racismo, machismo e elitismo andam de mãos dadas. Travesti e transexual só entram na casa da família brasileira (essa instituição atrasada) se for para fazer rir ou em programa policial.

Bons Links:

Alegria Falhada
Transexualismo da depressão
Transfeminismo





sexta-feira, 14 de junho de 2013

Remember, remember, the 13th of june

Eu quero falar de revolução. Quero falar dos protestos em São Paulo mas também quero falar de Zumbi. Você certamente já ouviu falar de Zumbi dos Palmares, talvez você tenha muito mais informação sobre ele do que eu. Mas se você, assim como eu até pouco tempo atrás, o conhece apenas dos livros de História do ensino médio, então você deveria pesquisar um pouco mais. Quer ver como você (provavelmente) sabe pouco? Aqui vão dois Zumbi Facts.

- Zumbi é neto de Aqualtune.

Aqualtune foi uma princesa africana, que em uma guerra entre reinos foi derrotada e transformada em escrava, veio ao Brasil em um Navio Negreiro e desceu no porto de Recife. Vendida como escrava reprodutora. Ao saber de sua origem e que alguns escravos a veneravam, o homem que a comprou a entregou aos seus homens para que a estuprassem. O estupro, desde os tempos mais remotos é uma arma de guerra eficaz no propósito de controlar e aterrorizar. Mesmo nessa realidade intolerável, ela fugiu para o "Reino dos Palmares", que já existia desde 1606. É bom falar disso porque as mulheres são inegavelmente apagadas da história. Deixadas de lado.

- Zumbi nasceu mais de 200 anos antes da assinatura da Lei Áurea

Sabe o que isso significa? que mentiram para você. Não foi uma nobre branca e rica que magicamente acabou com a escravidão. A escravidão sempre encontrou resistência nos negros que aqui viviam. MAIS DE DUZENTOS ANOS ANTES, um quilombo vencia inúmeras batalhas contra a opressão racista da capitania e abrigava mais de 30 mil negros sob a liderançã de Zumbi. A assinatura da Lei Áurea não foi favor nenhum, foi apenas a constatação da elite que a escravidão já tinha seus dias contados.

Aqui em casa, temos uma máscara do Guy Fawkes. Aquele cara que queria detonar um parlamento. Que tornou-se popular com os quadrinhos do Alan Moore e posteriormente virou até filme. Aquele cara que simboliza a face da revolução anônima. Pois é, numa nação em que a história não fosse contada de forma tão unilateral (ao menos dentro das escolas). A face da nossa revolução poderia ser Zumbi. Fiz toda essa digressão para falar que o apagamento da insurgência é comum no Brasil. Parece que tudo aqui veio como uma permissão da boa elite: Foi a boa elite que libertou os escravos, que garantiu a independência do Brasil, que concedeu às mulheres o direito de votar. Enfim, sempre as elites olhando de cima para baixo com um olhar paternalista.

Só que não é assim. Elite nenhuma quis dar direitos ao trabalhador. Esses direitos foram conquistados. Parece óbvio, mas não é. Quantas vezes eu precisei argumentar em discussões com pessoas que acreditam que os seus direitos cairiam dos céus sobre seus colos apenas porque eles fizeram o favor de existir? Muitas. "Mas por quê?" eu me perguntei. E cheguei a um dos possíveis motivos: a informação não fluía. Estávamos presos no quadradinho da mídia tradicional antes da chegada da internet e das redes sociais. Um modelo defasado de informação que se concentra na mão de mais ou menos uma dezena e meia de famílias. Tudo o que entendíamos do mundo era filtrado por essas vozes. As pessoas falam em "formadores de opinião" sem compreender o quanto isso é profundo. São muito. São demais. E eram muito mais ainda antes. 

Dizem que o brasileiro é acomodado, que não luta. Bom, vou falar da minha experiência. Na época em que a minha visão de mundo se resumia a ler um jornal e assistir TV nos poucos canais abertos eu não sabia o que era o feminismo. Eu acreditava que era um movimento de gente carrancuda, que era tão ruim quanto ser machista (e eu sequer imaginava o quanto eu era machista!). E hoje, se não fosse a internet que me mudou por inteiro, eu poderia acreditar que o que está acontecendo no Brasil é obra de vândalos. A História continua sendo contada por uma boa elite que quer salvar o cidadão de bem da violência e do vandalismo. Que chama manifestante de bandido, que chama ocupação de invasão. E tudo isso é importante para manter um discurso hierarquizado e higienista. Em que existe um "eu" e um "eles" (bem separados, por favor), mas nunca um "nós" (Nota: Leia aqui um texto legal da Charô sobre como ela se sente assistindo o programa do Datena).

O brasileiro antes de ser acomodado, era mal informado. E não é mais. Existe aí uma juventude inconformada que não está atrás apenas de 20 centavos, mas de justiça social. Um pessoal que questiona o que é o vandalismo quando ele vem como reação à um Estado opressor e que percebe a realidade à sua volta de maneira muito nítida e a compartilha. criam elos, geram o "nós". Sempre houve insurgência, o que não havia era informação circulando com liberdade (ainda que vez ou outra censurada no facebook). O que não havia era uma troca tão massiva. Agora existe e isso está decretando uma mudança necessária na nossa forma de reinvindicar os nossos direitos. 

imagem dessa página aqui
Assim como a escravidão teve o seu fim (apesar de ainda convivermos com o racismo e as reminiscências desse período doloroso da nossa história) a mídia tradicional também começa a ser demolida. Afogando-se em suas próprias contradições. A editora Abril que o diga. E isso, queridos, é mais um passo na construção de uma sociedade mais justa e horizontalmente organizada. 

Malcolm X disse: "Se você não for cuidadoso os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar aquelas que estão oprimindo". E é por isso que a revolução não será televisionada, ela será compartilhada e retuitada.