Eu quero falar de revolução. Quero falar dos protestos em São Paulo mas também quero falar de Zumbi. Você certamente já ouviu falar de Zumbi dos Palmares, talvez você tenha muito mais informação sobre ele do que eu. Mas se você, assim como eu até pouco tempo atrás, o conhece apenas dos livros de História do ensino médio, então você deveria pesquisar um pouco mais. Quer ver como você (provavelmente) sabe pouco? Aqui vão dois Zumbi Facts.
- Zumbi é neto de Aqualtune.
Aqualtune foi uma princesa africana, que em uma guerra entre reinos foi derrotada e transformada em escrava, veio ao Brasil em um Navio Negreiro e desceu no porto de Recife. Vendida como escrava reprodutora. Ao saber de sua origem e que alguns escravos a veneravam, o homem que a comprou a entregou aos seus homens para que a estuprassem. O estupro, desde os tempos mais remotos é uma arma de guerra eficaz no propósito de controlar e aterrorizar. Mesmo nessa realidade intolerável, ela fugiu para o "Reino dos Palmares", que já existia desde 1606. É bom falar disso porque as mulheres são inegavelmente apagadas da história. Deixadas de lado.
- Zumbi nasceu mais de 200 anos antes da assinatura da Lei Áurea
Sabe o que isso significa? que mentiram para você. Não foi uma nobre branca e rica que magicamente acabou com a escravidão. A escravidão sempre encontrou resistência nos negros que aqui viviam. MAIS DE DUZENTOS ANOS ANTES, um quilombo vencia inúmeras batalhas contra a opressão racista da capitania e abrigava mais de 30 mil negros sob a liderançã de Zumbi. A assinatura da Lei Áurea não foi favor nenhum, foi apenas a constatação da elite que a escravidão já tinha seus dias contados.
Aqui em casa, temos uma máscara do Guy Fawkes. Aquele cara que queria detonar um parlamento. Que tornou-se popular com os quadrinhos do Alan Moore e posteriormente virou até filme. Aquele cara que simboliza a face da revolução anônima. Pois é, numa nação em que a história não fosse contada de forma tão unilateral (ao menos dentro das escolas). A face da nossa revolução poderia ser Zumbi. Fiz toda essa digressão para falar que o apagamento da insurgência é comum no Brasil. Parece que tudo aqui veio como uma permissão da boa elite: Foi a boa elite que libertou os escravos, que garantiu a independência do Brasil, que concedeu às mulheres o direito de votar. Enfim, sempre as elites olhando de cima para baixo com um olhar paternalista.
Só que não é assim. Elite nenhuma quis dar direitos ao trabalhador. Esses direitos foram conquistados. Parece óbvio, mas não é. Quantas vezes eu precisei argumentar em discussões com pessoas que acreditam que os seus direitos cairiam dos céus sobre seus colos apenas porque eles fizeram o favor de existir? Muitas. "Mas por quê?" eu me perguntei. E cheguei a um dos possíveis motivos: a informação não fluía. Estávamos presos no quadradinho da mídia tradicional antes da chegada da internet e das redes sociais. Um modelo defasado de informação que se concentra na mão de mais ou menos uma dezena e meia de famílias. Tudo o que entendíamos do mundo era filtrado por essas vozes. As pessoas falam em "formadores de opinião" sem compreender o quanto isso é profundo. São muito. São demais. E eram muito mais ainda antes.
Dizem que o brasileiro é acomodado, que não luta. Bom, vou falar da minha experiência. Na época em que a minha visão de mundo se resumia a ler um jornal e assistir TV nos poucos canais abertos eu não sabia o que era o feminismo. Eu acreditava que era um movimento de gente carrancuda, que era tão ruim quanto ser machista (e eu sequer imaginava o quanto eu era machista!). E hoje, se não fosse a internet que me mudou por inteiro, eu poderia acreditar que o que está acontecendo no Brasil é obra de vândalos. A História continua sendo contada por uma boa elite que quer salvar o cidadão de bem da violência e do vandalismo. Que chama manifestante de bandido, que chama ocupação de invasão. E tudo isso é importante para manter um discurso hierarquizado e higienista. Em que existe um "eu" e um "eles" (bem separados, por favor), mas nunca um "nós" (Nota: Leia aqui um texto legal da Charô sobre como ela se sente assistindo o programa do Datena).
O brasileiro antes de ser acomodado, era mal informado. E não é mais. Existe aí uma juventude inconformada que não está atrás apenas de 20 centavos, mas de justiça social. Um pessoal que questiona o que é o vandalismo quando ele vem como reação à um Estado opressor e que percebe a realidade à sua volta de maneira muito nítida e a compartilha. criam elos, geram o "nós". Sempre houve insurgência, o que não havia era informação circulando com liberdade (ainda que vez ou outra censurada no facebook). O que não havia era uma troca tão massiva. Agora existe e isso está decretando uma mudança necessária na nossa forma de reinvindicar os nossos direitos.
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Assim como a escravidão teve o seu fim (apesar de ainda convivermos com o racismo e as reminiscências desse período doloroso da nossa história) a mídia tradicional também começa a ser demolida. Afogando-se em suas próprias contradições. A editora Abril que o diga. E isso, queridos, é mais um passo na construção de uma sociedade mais justa e horizontalmente organizada.
Malcolm X disse: "Se você não for cuidadoso os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar aquelas que estão oprimindo". E é por isso que a revolução não será televisionada, ela será compartilhada e retuitada.


