CONTÉM SPOILERS
Panem é um país curioso. Sua organização política como um Estado autocrático, ditador, nos faz pensar em como seria absolutamente horrível viver naquela realidade. De fato, seria. Porém, há alguns indícios de evolução quanto às questões de raça e gênero que em nosso mundo não-fictício, na realidade que nos cerca, ainda não alcançamos.
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| Katniss, na arena de Em Chamas |
O primeiro aspecto visível é a forma como mulheres são lidas como pessoas competentes. Em cada distrito, são escolhidos dois tributos, um de cada gênero. Há casos em que se afirma até mesmo que a mulher é a maior ameaça. Katniss nunca foi minimizada por seus opositores, ela sempre foi temida. Mesmo a pequena Rue, do distrito 11, que possui apenas 12 anos, é analisada como ágil e esperta. Em sua narrativa, a autora Suzanne Collins atribuiu às mulheres muito mais do que a dualidade beleza/inteligência. E é exatamente isso que possibilita que as enxerguemos como seres humanos dotados de muitas habilidades distintas. Coisa que não vejo muito nas cobranças da nossa sociedade na vida real. Aqui, nesse planetinha patriarcal, a mulher vive sob o estigma da beleza e da inteligência (isso se levarmos em conta o que é a inteligência para o patriarcado).
Apesar de tudo, me parece que em alguns momentos ainda há algum resquício de paternalismo. Um exemplo, que soa até mesmo contraditório, é que aparentemente, apenas homens trabalham nas minas de carvão. Suas filhas e esposas estão presas ao trabalho doméstico e ao comércio, no distrito 12. O trabalho mais pesado parece ser masculino. Há também a forte presença da monogamia. A Katniss teria se martirizado bem menos ao longo do livro se conseguisse se livrar desse conceito, pois está claro que ela ama aos dois rapazes, Peeta e Gale, em formas e intensidades que nem ela consegue medir. Katniss não é monogâmica, mas Panem sim. E foi também por influência desse traço cultural que ela precisou fazer uma escolha. E, enfim, apesar de representar minorias oprimidas, o livro (como a maioria dos livros publicados) não apresenta qualquer personagem com orientação sexual não-heterossexual ou identidade trans.
Com relação às mulheres, são muitos os exemplos positivos. Além da própria Katniss, há mulheres comandando militarmente, como a Comandante Lyme e a comandante Paylor, que presidem o próprio distrito, como a Presidente Coin e um número grande de mulheres que foram tributos e saíram vitoriosas. Se não contarmos também aquelas mulheres em profissões tradicionalmente femininas, mas que são reconhecidas por sua habilidade, como por exemplo a mãe de Katniss e sua irmã Prim. Até mesmo Cressilda, que é do time de cinegrafistas, é de enorme coragem, colocando-se na linha de frente durante a guerra para fazer bem o seu trabalho.
Há também a questão racial. A autora descreve vagamente seus personagens e eu acredito que seja intencional. Vez ou outra ela fala abertamente sobre a cor de pele, como no caso de Katniss cuja pele é tom de oliva. E também de Thresh e Rue que são negros. Não é à toa que existe um grande chororô branco em volta da série adaptada para o cinema, uma vez que a autora não define claramente a raça de seus personagens, os leitores acabam levando seus próprios preconceitos para dentro de sua imaginação. A branquitude, para muitos, é normativa.
Collins costuma participar da seleção do elenco para os filmes, podemos compreender portanto que essas escolhas não são totalmente descoladas do livro. Infelizmente, Katniss foi interpretada por uma atriz branca (compreendo que a atriz é sensacional, a crítica é restrita à questão racial), mas há também algumas gratas surpresas. O elenco negro de Jogos Vorazes incluem os dois tributos do distrito 11 na primeira arena, Thresh e Rue. Dois personagens importantes para a saga, que trouxeram consigo as características de humanidade, de compaixão, de solidariedade. Eles foram fiéis aos seus princípios ainda que isso custasse suas vidas. O estilista de Katniss, Cinna, também é interpretado por um ator negro. Compreendo essa escolha quase como política, pois é bastante significativo que um habitante da capital, que vive cercado por aquela realidade alienadora e sem empatia, consiga entender seus privilégios e alinhar-se politicamente às pessoas oprimidas dos distritos.
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| Patina Miller, atriz escolhida para interpretar a Comandante Paylor no filme "A Esperança" |
No segundo filme, Em Chamas, apareceram novos personagens negros. Como o tributo vitorioso Beetee que é um cientista. É raro vermos pessoas negras representadas num rol de profissões que exigem alto grau de especialização. Como antagonista, existe ainda Enobaria, uma personagem de quem não sabemos muito. Em "A esperança" haverá também a comandante Paylor, uma mulher que é crucial para o destino de Panem e será interpretada por uma atriz negra. No somatório de personagens negros há uma diversidade de pessoas em posições de comando, como símbolos de vitória, humanidade e até mesmo de subversão.
Notem também que o maior vilão da série é um homem branco e rico. Ele personaliza o inimigo. esse fato importa porque na nossa sociedade esse é o perfil que mais acumula privilégios. Assim, jogos vorazes se estabelece como uma saga literária adaptada para o cinema que traz consigo uma característica marcante: O respeito a minorias historicamente oprimidas.
Bons Links:
We Can Cast It - Mulheres na Ficção Científica, Gravidade e Jogos Vorazes., por Gizelli Sousa (eu), Aline Valek e Lady Sybylla.
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We Can Cast It - Mulheres na Ficção Científica, Gravidade e Jogos Vorazes., por Gizelli Sousa (eu), Aline Valek e Lady Sybylla.



Olá Gizelli,
ResponderExcluirVocê foi uma das poucas que percebi fazer esse tipo de análise, e fiquei bem contente, porque também havia percebido esses pontos que você levantou :)
Esse foi um dos primeiros motivos que me fizeram iniciar a leitura com bons olhos. Ter uma protagonista mulher, empunhando um arco e flecha, sustentando uma família e salvando uma nação? E o melhor, sem estar em uma relação de amor em que espera ser salva? Foi uma delícia ler esse livro. Afinal, em tempos de 50 Tons de Cinza, foi um alívio perceber que existem best-sellers que nos representam. O único detalhe é que o livro menciona uma Katniss "cor de oliva", enquanto a atriz no filme é branca de olhos claros... Nem tudo é perfeito :/
Abraços,
Ariana (estradaaberta.blogspot.com.br)