Há algum tempo eu queria falar desse assunto, e não sabia bem por onde começar mas por ocasião do dia de ontem, 25 de julho, dia da mulher negra latinoamericana e caribenha, e dos textos da Liliane Gusmão e da Bianca Cardoso, que serviram de insight, de empurrão, estou me sentindo mais corajosa para tocar num assunto delicado: a minha afrodescendência perdida.
Voltando um pouco (bem pouco, até) na minha ancestralidade, meu avô materno é negro, minha avó materna é filha de indígena. De um lado um homem negro, do outro uma mulher de pele clara (embora não branca) e cabelos lisos e negros. Eles geraram 8 filhos, um homem que não conheci e sete mulheres. Seis delas negras de cabelos lisos e negros, resquício da descendência indígena. Minha mãe foi a única dentre as irmãs que nasceu com a pele clara, mas de nariz largo, rosto com traços expressivos, sabe?
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| Euzinha |
Sou parecida com a minha mãe. Se você me conhecer agora, verá uma pessoa branca, de cabelos ondulados, quase lisos. Meus traços não são ~~delicados~~, eu tenho um nariz arredondado, lábios grossos e um rosto que não transparece exatamente descendência européia. Não, definitivamente eu não me identifico com as pessoas que afirmam que são descendentes de europeus. Eu, branca, não me sinto assim.
Durante anos e anos da minha vida eu não parei para imaginar porque a minha mãe foi a única das irmãs que conseguiu estudar, porque ela foi a mulher que conseguiu vencer a pobreza, enquanto as minhas tias ainda estão em posição social difícil. E, apesar da grande determinação e espírito empreendedor da minha mãe, e de saber que não foi moleza para ela conseguir mudar a sua realidade social, está claro que o racismo é fator decisivo na perpetuação da pobreza na minha família.
Até os meus 5 anos de vida, eu tinha cabelos lisos e loiros. Minha mãe, na época professora, me ensinou a ler em casa. Eu fui a melhor aluna do pré-escolar. Como estímulo à minha educação, me fizeram pular a primeira série do ensino fundamental. Eu fui direto para a segunda série. Os privilégios de ser uma mulher branca começam muito cedo. Enquanto há mulheres que se perguntam porque a professora do primário sequer encostava nelas, eu era querida e celebrada na escola. Ao mesmo tempo, quando adolescente, meu cabelo tinha escurecido, e havia mudado de compleição. Estavam mais cheios e não tinham o aspecto sedoso característico da eurodescendência. Meu cabelo tinha uma textura intermediária. E eu sofri algum bullying por causa disso.
Essa foi a primeira dica que eu tive de que não era uma mulher inteiramente branca. Acho bem tranquilo me assumir como afrodescendente, pois a negritude do meu avô foi determinante para a minha família toda viver o racismo, inclusive a minha mãe branca. Só para dar um exemplo, até pouco tempo atrás, minha mãe não tirava fotografias, porque tinha vergonha do próprio nariz, que era o aspecto mais marcante da sua afrodescendência. Chegou a fazer uma cirurgia plástica para deixá-lo mais afilado. Quando saio de casa não tenho medo de ser confundida com bandido, ninguém me olha com suspeita quando eu ando por aí. Eu não estou sujeita aos índices bárbaros de violência contra os negros, eu não sou rejeitada em entrevistas de emprego, as orportunidades não rarearam para mim por causa do tom da minha pele. Mas foi a negritude da minha família que sofreu o racismo que encerrou a todos num estado de pobreza, que botou dificuldades imensas para o meu avô alimentar uma família numerosa e que até hoje se recusa a garantir para as minhas tias o acesso aos serviços básicos do Estado (pois sabemos existir o racismo institucionalizado). Foi o racismo que fez com que uma parte da família do meu pai rejeitasse a minha mãe nos primeiros anos de seu relacionamento, embora a própria família do meu pai também seja afrodescendente. São muitas as histórias de apagamento.
As coisas não são tão claras quando o assunto é afrodescendência, nós não estudamos sobre, não conhecemos e não identificamos a negritude para além do fenótipo, entrando em outras questões, como por exemplo o quanto a afrodescendência é alvo de um racismo mascarado. Uma amiga querida, afrodescendente, uma vez disse que todos falavam que ela era apenas moreninha, até que ela fazia alguma coisa errada, aí alguém lembrava que era porque ela tinha ~~um pé na senzala~~. Sigo sem saber como me identificar (é possível se identificar como branca, já que não sofro o racismo direto, mas afrodescendente por causa do histórico da minha família? Ainda não tenho uma resposta e é tudo muito nebuloso, não chego a uma conclusão), mas fica cada dia mais evidente que não dá para continuar sem fazer essa reflexão. Porque o nosso fenótipo instintivamente nos leva a acreditar que somos brancos e ponto final? Apagando toda a nossa história pregressa? qual o interesse em nos fazer esquecer das nossas raízes?


Gi, acho que é possível assumir ser afrodescentente e branca ao mesmo tempo. Porque isso faz parte de sua história, de suas raízes.
ResponderExcluirFico muito feliz que tanta gente tenha refletido sobre isso nessa semana da Mulher Afrolatinaamericana e caribenha. Porque num país miscigenado como o nosso é mais fácil negarmos o racismo em busca de um embranquecimento da população, especialmente de quem está nas camadas mais privilegiadas.
ótima reflexão, seguimos juntas nessa.
Concordo plenamente com a Bia. Adorei seu texto e achei muito interessante você ter falado da diferença entre os caminhos das suas tias e da sua mãe, incrível como isso ainda é forte e invisível pras pessoas, essas pessoas que são convictas contra cotas não entendem como pessoas com histórias idênticas podem ter oportunidades diferentes e caminhos completamente diferentes simplesmente por seu fenótipo, seu tom de pele. Sua mãe ter vergonha do nariz dela também diz muito, diz o que a gente já sabe, são das características negras que as pessoas tem vergonha, brasileiros adoram bradar descendência européia quando a tem, mas tem vergonha e fazem de tudo pra anular a própria afrodescendência. É fundamental sim que afrodescendentes se definam como tal, e reflitam, assim como você refletiu, sobre a história da própria família, a diferença entre sua história particular e a de quem é fenotipicamente negrx. Brasileiros adoram clamar que o país não é racista porque é mestiço, sendo que as pessoas tentam anular ao máximo a própria afrodescendência e a do outro ("você não é negra não, você é moreninha, imagina, você negra?"), e a mídia brasileira faz parecer que estamos em um país majoritariamente europeu, invisibiliza negrxs e afrodescendentes até não poder mais.
ResponderExcluirEu sou negra, meu irmão saiu branco com traços negróides (ele nasceu loiro, depois escureceu). E eu ouvi durante toda a minha vida sobre como o cabelo dele é lindo, como ele teve sorte e etc. (pois o cabelo dele não é crespo como o meu, é cacheado). E quando discuto com ele questões raciais e o vejo falando sobre, se vê a diferença dele pra mim, o privilégio dele, que nos afasta na questão da experiência e de noções, sendo que somos irmãos, de pai e mãe! Por outro lado, ele ouviu muitas piadas sobre o nariz dele durante a vida.
Refletir sobre a própria afrodescendência é tão importante quanto refletir sobre os privilégios que se teve/tem por ser uma afrodescendente fenotipicamente branca. Você o fez lindamente, continue fazendo. ;)
Beijos <3 :)
Verônica
Adorei o texto, palmas, palmas, palmas!!
ResponderExcluirsosgirls.com.br
O PROTESTO 1955 / 2O15. 60 ANOS do Poeta CARLOS DE ASSUMPÇÃO o mestre que completa 88 anos de muitos parabéns num sábado de muita luz 23 de maio glorioso que realça valoriza nossa luta a historia sempre viva do poeta guerreiro Cassump de Ébano como disse o herói poeta angolano Agostinho Neto.
ResponderExcluirCARLOS DE ASSUMPÇÃO seu nome esta realçado entre os maiores poetas do mundo e assim no Brasil nas principais obras da cultura afro brasileiro"A Mão Afro-Brasileira" Emanoel Araújo. “Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana” Nei Lopes. “Enciclopédia Quem é quem na negritude brasileira” Eduardo de Oliveira.Enciclopédia“África Mãe dos Gênios Negros Afros Brasileiros” Jorge J. Oliveira entre outras obras. Os Dizeres dos grandes mestres sobre Carlos Assumpção diz Abdias do Nascimento é o meu poeta, Solano Trindade Protesto é minha alma, Geraldo Filme me arrepia, Clovis Moura a lira de nossas revoltas, Barbosa sinto cada letra, Prof. Eduardo Oliveira minha inspiração, Luís Carlos da Vilaa alma da Kizomba,Tião Carreiro uma alegria triste, Milton Santos Diz tudo, Grande Otelo é o Poema Hino Nacional da luta da Consciência e Resistencia Negra Afro-brasileira.
CARLOS DE ASSUMPÇÃO – O maior poeta da militância negra da historia do Brasil autor do poema o PROTESTO Hino Nacional da luta da Consciência eResistencia Negra Afro-brasileira. O poetaAssumpção é o maior ícone das lideranças e dos movimentos negrose afros brasileiras e uma das maiores referencias do mundo dos ativistas e humanistasem celebração completa 88 anos de vida. CARLOS DE ASSUMPÇÃO nasceu 23 de maio de 1927 em Tiete - SP. Por graças e as benções de Olorum 88 anos de vida com sua família, amigos e nós da ORGANIZAÇÃO NEGRA NACIONAL QUILOMBO O. N. N. Q. FUNDADO 20/11/1970 (E diversas entidades e admiradores parabenizam o aniversario de 88 anos do mestre poeta negro Carlos Assumpção) temos a honra orgulho e satisfação de ligar para a histórica pessoa desejando felicidades, saúde e agradecer a Carlos de Assunpção pela sua obra gigante, em especial o poema escrito em 1955 o Protesto que para muitos é o maior e o mais significante poema dos afros brasileiros o Hino Nacional dos negros. “O Protesto” é o poema mais emblemático dos Afros Brasileiros e uns das América Negra, a escravidão em sua dor e as cicatrizes contemporâneas da inconsciência pragmática da alta sociedade permanente perversa no Poema “O Protesto” foi lançado 1958, na alegria do Brasil campeão de futebol, mas havia impropriedades e povo brasileiro era mal condicionado e hoje na Copa Mundial de Futebol no Brasil 2014 o poema “O Protesto” de Carlos de Assunpção está mais vivo com o povo na revolução para (Queda da Bas. Brasil.tilha) as manifestações reivindicatórias por justiça social econômica do povo brasileiro que desperta na reflexão do vivo protesto.
O mestre Milton Santos dizia os versos do Protesto e o discurso de Martin Luther King, Jr. em Washington, D.C., a capital dos Estados Unidos da América, em 28 de Agosto de 1963, após a Marcha para Washington. «I have a Dream» (Eu tenho um sonho) foram os dois maiores clamores pela liberdade, direitos, paz e justiça dos afros americanos. São centenas de jornalistas, críticos e intelectuais do Brasil e de todo mundo que elogia a (O Protesto) (Manifestação que é negra essência poderosa na transformação dos ideais do povo) obra enaltece com eloquência o divisor de águas inquestionável do racismo e cordialidade vigente do Brasil Mas a ditadura e o monopólio da mídia e manipulação das elites que dominam o Brasil censuram o poema Protesto de Carlos de Assunpção que é nosso protesto histórico e renasce e manifesta e congregam os negros e todos os oprimidos, injustiçados desta nação que faz a Copa do Mundo gastando bilhões para uma ilusão de um mês que poderá ser triste ou alegre para o povo brasileiro este mesmo que às vezes não tem ou economiza centavos para as necessidades básicas e até para sua sobrevivência e dos seus. No Brasil
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Organização Negra Nacional Quilombo ONNQ 20/11/1970 –
quilombonnq@bol.com.br
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Poema. Protesto de Carlos de Assunpção
Mesmo que voltem as costas
Às minhas palavras de fogo
Não pararei de gritar
Não pararei
Não pararei de gritar
Senhores
Eu fui enviado ao mundo
Para protestar
Mentiras ouropéis nada
Nada me fará calar
Senhores
Atrás do muro da noite
Sem que ninguém o perceba
Muitos dos meus ancestrais
Já mortos há muito tempo
Reúnem-se em minha casa
E nos pomos a conversar
Sobre coisas amargas
Sobre grilhões e correntes
Que no passado eram visíveis
Sobre grilhões e correntes
Que no presente são invisíveis
Invisíveis mas existentes
Nos braços no pensamento
Nos passos nos sonhos na vida
De cada um dos que vivem
Juntos comigo enjeitados da Pátria
Senhores
O sangue dos meus avós
Que corre nas minhas veias
São gritos de rebeldia
Um dia talvez alguém perguntará
Comovido ante meu sofrimento
Quem é que esta gritando
Quem é que lamenta assim
Quem é
E eu responderei
Sou eu irmão
Irmão tu me desconheces
Sou eu aquele que se tornara
Vitima dos homens
Sou eu aquele que sendo homem
Foi vendido pelos homens
Em leilões em praça pública
Que foi vendido ou trocado
Como instrumento qualquer
Sou eu aquele que plantara
Os canaviais e cafezais
E os regou com suor e sangue
Aquele que sustentou
Sobre os ombros negros e fortes
O progresso do País
O que sofrera mil torturas
O que chorara inutilmente
O que dera tudo o que tinha
E hoje em dia não tem nada
Mas hoje grito não é
Pelo que já se passou
Que se passou é passado
Meu coração já perdoou
Hoje grito meu irmão
É porque depois de tudo
A justiça não chegou
Sou eu quem grita sou eu
O enganado no passado
Preterido no presente
Sou eu quem grita sou eu
Sou eu meu irmão aquele
Que viveu na prisão
Que trabalhou na prisão
Que sofreu na prisão
Para que fosse construído
O alicerce da nação
O alicerce da nação
Tem as pedras dos meus braços
Tem a cal das minhas lágrima
Por isso a nação é triste
É muito grande mas triste
É entre tanta gente triste
Irmão sou eu o mais triste
A minha história é contada
Com tintas de amargura
Um dia sob ovações e rosas de alegria
Jogaram-me de repente
Da prisão em que me achava
Para uma prisão mais ampla
Foi um cavalo de Tróia
A liberdade que me deram
Havia serpentes futuras
Sob o manto do entusiasmo
Um dia jogaram-me de repente
Como bagaços de cana
Como palhas de café
Como coisa imprestável
Que não servia mais pra nada
Um dia jogaram-me de repente
Nas sarjetas da rua do desamparo
Sob ovações e rosas de alegria
Sempre sonhara com a liberdade
Mas a liberdade que me deram
Foi mais ilusão que liberdade
Irmão sou eu quem grita
Eu tenho fortes razões
Irmão sou eu quem grita
Tenho mais necessidade
De gritar que de respirar
Mas irmão fica sabendo
Piedade não é o que eu quero
Piedade não me interessa
Os fracos pedem piedade
Eu quero coisa melhor
Eu não quero mais viver
No porão da sociedade
Não quero ser marginal
Quero entrar em toda parte
Quero ser bem recebido
Basta de humilhações
Minh'alma já está cansada
Eu quero o sol que é de todos
Ou alcanço tudo o que eu quero
Ou gritarei a noite inteira
Como gritam os vulcões
Como gritam os vendavais
Como grita o mar
E nem a morte terá força
Para me fazer calar.
Organização Negra Nacional Quilombo ONNQ 20/11/1970 –
quilombonnq@bol.com.br