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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Renée irreconhecível ou a mulher que não "envelhece bem"

Foto polêmica de Renée

Não deve ser fácil para Renée. "Irreconhecível". Foi como descreveram a série de fotos publicadas esta semana da atriz Renée Zellweger, de 45 anos, famosa por sua atuação como a encantadora Bridget Jones. Imediatamente, a internet e boa parte da mídia internacional de celebridades se dedicou a tecer todo tipo de julgamento. Algumas pessoas ficaram tristes por ela, outras com raiva, outras pessoas (creio que a maioria) acharam divertido rir de uma mulher famosa. Cirurgiões plásticos deram seu palpite. Pegaram a sua foto e traçaram linhas por cima, como se fosse um mapa de carne de boi no açougue, para explicar os supostos procedimentos. No fim, novamente a analogia do pedaço de carne cabe aqui, não pela objetificação sexual, mas pela objetificação em si. Um objeto de análise. Ela não foi a primeira, lembro-me também do quanto se falou (mal) da plástica da Nicole Kidman e de Courtney Cox. Em entrevista para a revista PEOPLE, Renée não negou diretamente a cirurgia, mas deu a entender que não houve nenhum procedimento. Renée também disse que está feliz.

Não sei se Renée disse a verdade ou não, mas sei que a maior parte das pessoas não ficou chocada porque ela supostamente fez uma cirurgia plástica facial, afinal, tantas atrizes fazem cirurgias plásticas, não é? Por exemplo, Scarlett Johanson e Jeniffer Aniston já fizeram cirurgias para afinar o nariz, Diane Krueger colocou próteses de silicone nos seios. Cirurgias plasticas e tratamentos estéticos são incentivados. O que choca as pessoas é o resultado insatisfatório, não a prática da intervenção. Por isso, parece que todo mundo está passando à quilômetros de distância da questão que deveríamos discutir: O direito da mulher a envelhecer.

No caso de Renée, acho que existe uma pressão que já a acompanha há um bom tempo porque ela precisou engordar para fazer o papel de Bridget Jones. Isso jogou os holofotes sobre seu corpo também. Este engorda-emagrece para entrar na personagem fez com que suas aparições fossem cercadas de comentários sobre o seu peso e sua aparência. Assim, mesmo uma mulher branca, loira, de olhos claros, cabelos lisos (muito enquadrada nos padrões de beleza) pode se sentir pressionada a estar sempre bonita e jovem.

A profissão de Renée também gera um impacto grande nas mulheres que envelhecem, já que Hollywood costuma dar somente aos homens o direito de envelhecer. Se o homem envelhecer, se engordar, se enrugar, vai continuar atuando, vai ser lembrado como um grande ator, que um dia foi também um galã. Já as mulheres precisam "envelhecer bem". Pode ter rugas, mas não pode ter muita. Pode ter cabelo branco, mas tem que ser magrinha. Ah, e faça o favor de cobrir os braços, porque pele sobrando debaixo do braço está proibido (quem se lembra das pessoas chocadas com o braço da Madonna?). Assim, exige-se que a mulher aceite sua idade, mas só até certo ponto, ela precisa "se cuidar". Regrinhas não vocalizadas, mas que podemos observar claramente. Afinal, quanto mais idade a mulher tem, menos quantidade e menos diversidade de papéis ela receberá, consequentemente, menos dinheiro também.

Outro dia, eu estava assistindo a série de TV True Detective. Um dos protagonistas, Marty, tem uma esposa, Maggie, e uma amante, Lisa. Marty me parece um homem entre os 40 e 50 anos de idade, mas tanto Maggie quanto Lisa são bem mais jovens. A TV, embora tenha se tornado um pouco mais democrática, ainda possui limitações quando o assunto é o envelhecimento de uma mulher. São raras as séries como Orange is the new black, onde a diversidade é parte crucial do entretenimento. Várias das séries de TV atuais tem como protagonistas homens de meia idade namorando mulheres com metade de sua idade. Juro que não é uma questão de moralismo, mas isso é fetichismo de quem produz e de quem consome esses produtos. As mulheres que tem papéis relevantes estão cada dia mais jovens.

Se Renée fez ou não uma cirurgia ou um tratamento, não importa. Não estamos no direito de julgar as atrizes por não se darem ao luxo de envelhecer sem cirurgia plástica, nem de exigir que envelheçam "bem", mas deveríamos sim exigir mais diversidade, para que nenhuma atriz se sinta pressionada a esconder suas ruguinhas e para que mais mulheres percam o medo de envelhecer.