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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Saúde, o argumento velado da discriminação


Eu tenho apenas 29 anos de idade e já vejo a mudança na forma da discriminação das pessoas que não se enquadram no padrão de beleza eurocêntrico e gordofóbico. Em vez de dizer, como já escutei antes, "você é feio" as pessoas dizem "você não é saudável/limpo". O problema é que aquilo que normalmente se chama de "saúde" é um conjunto de normas que tornam possível esse padrão de beleza.  

Na história de opressão que viveu e vive a mulher, constantemente ela é considerada suja, impura. E ainda hoje isso se reflete em alguns momentos. Veja a ditadura da depilação, por exemplo. "Nojenta" é a mulher que não se depila. Mas para o homem, ter pêlos é apenas natural. Veja só a diferença de tratamentos. Para a mulher, existem sabonetes íntimos, clareadores de axilas, maquiagem para esconder marcas e etc. A higienização da figura da mulher está muito relacionada ao preconceito machista. 

Cadivéu e sua campanha racista
Para a nossa sociedade, um cabelo com aspecto saudável e/ou limpo é aquele caracterizado pelo adjetivo "sedoso". Eu, que tenho o cabelo ondulado e um tanto arrepiado (o chamado "frizz"), me sinto tentada a alisá-lo por achar que o problema está em mim. E eu sou branca. As mulheres negras são acusadas de não serem "limpas". Em entrevistas de emprego, um cabelo crespo pode ser a diferença entre um sim e um não. Muitas vezes, alisar o cabelo não é uma escolha, é uma imposição marcada pelas palavras pejorativas repetidas à exaustão: "Cabelo ruim". O cabelo crespo é alvo das mais diversas piadas, desde afirmar que ele é impermeável, até dizer que é um ninho, que é cheio de piolhos e etc. Todo o preconceito destilado em nome dessa mentira que acreditam ser a tal higiene.

A compleição do cabelo crespo não é sinônimo de sujeira. Grande parte de quem diz que é, SABE que não é, apenas usa o argumento inválido como desculpa para justificar seu veneno racista.


O argumento "saúde" está presente em todas as demonstrações de gordofobia. A saúde do gordo é sempre a maior preocupação dos gordofóbicos, só que não. O que o gordofóbico de verdade quer é acalantar seu ego diminuindo alguém que a sociedade tornou vulnerável. Há estudos, constantemente ignorados, indicando que o gordo ativo é tão saudável quanto o magro. De um lado temos a pessoa gorda e saudável e de outro a pessoa magra que sofre de transtorno alimentar e as duas sofrem pelo mesmo preconceito: a gordofobia. A pessoa que sofre um transtorno alimentar muitas vezes (pois a questão é multifatorial) tem um medo muito grande de engordar. Essa falsa demanda de saúde (que passa longe de ser saúde de verdade) está criando uma geração de pessoas que, psicologicamente, não estão saudáveis.

A obesidade é constantemente patologizada ou vista como desleixo, quando ela na verdade possui vários espectros diferentes não abordados pela maioria dos gordofóbicos, que querem acreditar numa meritocracia da saúde que simplesmente não existe. A obesidade não é apenas comportamental, ela não se desenvolve apenas no indivíduo que come muito e não pratica exercício. E mesmo que fosse assim, não estou vendo a patrulha gordofóbica censurar quem tem comportamentos pouco saudáveis como comer fastfood, fumar cigarros, beber (muito ou socialmente) e etc, se a pessoa é magra, está liberado. Não estou vendo as mesmas pessoas pressionarem os governos para fazerem campanha de conscientização sobre alimentação saudável e nem sobre a importância da prática de exercícios. Não estou vendo essas pessoas se importarem com algo que vá além da aparência física dos outros. Para os gordofóbicos o que determina onde a saúde deve residir é a aparência.