segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Representatividade importa: A diversidade de corpos em Orange is the new black


Contem spoilers, a maioria são pouco relevantes

Se você costuma visitar este blog com alguma frequência, já sabe que eu sou fã de Orange is the new black (doravante OITNB). A série é baseada no livro autobiográfico homônimo de Piper Kerman. Conta a história da personagem Piper Chapman, que está cumprindo pena de 15 meses de prisão na penitenciária feminina de Litchfield. A série acompanha o dia-a-dia na penitenciária e paralelamente conta as histórias das presidiárias em flashback. OITNB é uma série admirável por mostrar uma história inteiramente contada por mulheres cujos perfis são diversos em muitos aspectos. 

Na questão racial, podemos observar que as detentas são especialmente mulheres brancas, negras, latinas e asiáticas. Quanto à orientação sexual, as mulheres são heterossexuais, lésbicas e bissexuais. Há diversidade de identidade de gênero, uma vez que existe no rol de personagens uma mulher transexual (interpretada por uma mulher transexual. O quão raro é isso na tv?). As personagem são de diferentes camadas sociais. E, é claro há também a diversidade etária. Todas as mulheres são adultas, mas há de mulheres jovens à mulheres idosas.

OITNB também trouxe para a TV algo novo: Uma diversidade incomum de corpos e a quebra de muitos estereótipos gordofóbicos, especialmente no tocante aos relacionamentos afetivos, à sexualidade e à não-representação das mulheres gordas como personagens cômicos. O texto de personagens gordas em outras séries, em geral, coloca o corpo em evidência negativa ao fazer piadas gordofóbicas consigo mesmo, reafirmando uma série de estereótipos, como o que diz que toda pessoa gorda come muito ou é relaxada. As mulheres nesta série, por virem de situações tão distintas e únicas, têm uma atitude muito natural com os seus próprios corpos. Em OITNB, os corpos das mulheres não são o centro da conversa que a série elabora com seus fãs e talvez este seja o grande trunfo para tratar de um assunto que nos aflige muito: como estamos desconfortáveis dentro dos nossos próprios corpos, mas não deveríamos estar.

Em muitas outras séries e filmes, não há a presença de mulheres gordas. Em nossa ausência há um posicionamento ideológico forte: num mundo ideal (no sentido de idealizado, criado por alguém) sequer existiríamos. Somos dispensáveis. Ou, para meu desespero, há a concessão para aqueles entre nós que aceitam uma posição menos relevante: se tornar mera diversão, ser ridículo, fazer rir. O que costumo chamar de condição do ridículo.

OITNB coloca para discussão o corpo da mulher, sim. Porém, faz isto de forma orgânica, muitas vezes ao não colocar a discussão na superfície, mas nas entrelinhas. Para exemplificar isto, há muitas personagens das quais eu poderia falar, porque além da diversidade corporal de mulheres gordas/magras, há também a diversidade etária, muito importante e geralmente invisibilizada, mas resolvi me ater a quatro casos específicos:

Dayanara Diaz, a Daya, é uma personagem que representa isto perfeitamente. Daya mantém um relacionamento afetivo com um dos guardas da cadeia, o John Bennett. O primeiro estereótipo quebrado é que Daya não foi para Bennett uma segunda escolha. Num universo dominado por mulheres, muitas delas magras e perfeitamente enquadradas no padrão de beleza eurocêntrico vigente, é por Daya que Bennett se apaixona. A agência do relacionamento veio dos dois, houve reciprocidade, troca de olhares, conversas secretas, bilhetes e desenhos trocados. Ninguém forçou a barra, foi mútuo. Daya também tramou contra George Mendez. Ela o seduziu para que ele fosse culpado por sua gravidez (inocentando Bennett), o que gerou uma espécie de triângulo amoroso inusitado na série. Histórias sobre triângulos amorosos são comuns na ficção, mas quantos colocam em seu centro uma mulher gorda? Uma mulher gorda desejada? disputada? No mínimo, raro. 

Tasha Jefferson, a Taystee, é, talvez, a personagem mais inteligente e empreendedora da série. Piper, de seu papel privilegiado, fala muito em "escolhas ruins". No caso de Taystee, não houve escolha. Ser pobre, negra e gorda foram fatores determinantes em seu destino. Se houve um momento em que o corpo de alguém foi discutido, foi o de Taystee. Por exemplo, durante a simulação de uma feira de empregos, as detentas tiveram que passar por uma série de entrevistas profissionais. Para isso, receberam cabideiros para escolherem uma roupa apropriada para a ocasião. Enquanto todas puderam escolher a roupa que queriam, Taystee precisou usar "o que coube". Taystee nos mostra o quanto as mulheres com o seu perfil são injustiçadas no mercado de trabalho, pois ela acabou ganhando a vaga hipotética da feira de empregos, mas as vagas profissionais reais nunca foram oferecidas em sua vida pregressa. Além disto, Poussey, a melhor amiga de Taystee, também já demonstrou ter um interesse romântico por ela. Assim como Daya, Taystee também faz parte do grupo de personagens com arcos dramáticos que envolvem afetividade, entretanto é Taystee que evita ultrapassar a linha da amizade, a prerrogativa de aceitar ou não o afeto da mulher magra é da mulher gorda.

Carrie Black, a Big Boo, é a lésbica grande e gorda, que as pessoas gostam de chamar de "masculina". Na segunda temporada, Boo e Nicky (outra mulher lésbica, porém magra)criam um jogo em que as detentas recebem notas. Sempre que elas fazem sexo com as mulheres, elas vão pontuando. Horrível. Mas o importante aqui é: As duas, a gorda e a magra, se vêem como adversárias e iguais, não é porque Nicky é mais magra que é melhor, ou tem mais vantagens que Boo. Aqui eu faço uma ressalva quanto às cenas de sexo mostradas na série: Tanto sexo lésbico já foi retratado, mas ainda não houve nenhuma cena com Boo. Será porque ela é gorda?

Yvonne Parker, a Vee, não poderia ficar fora da lista. Ela é a vilã que veio para sacudir a disputa pelo poder em Lichfield. Em um mundo menos louco, Vee não seria vista como uma mulher gorda. Na verdade, ela não é. Mas é uma mulher curvilínea e que já não é nenhuma garotinha. Mesmo assim, uma das cenas mais belas e maldosas de Vee (e talvez de toda a série) é quando a vemos em nudez parcial. Seus seios caídos à mostra, acompanhados de um maroto sorriso pós-sexo. Achei maravilhoso ver uma mulher que não tem seios pequeninos, durinhos e jovens protagonizando esta cena. Vee é uma mulher empoderada, orgulhosa de si.

É para se refletir também sobre a perspectiva da liberdade da mulher gorda e como há relação com a mulher aprisionada  (resguardadas as proporções, espero que entendam que estou apenas usando uma metáfora). A mulher gorda muitas vezes passa todos os momentos de sua vida aguardando o dia em que se tornará magra, para então conseguir viver a sua vida plenamente. "Quando eu emagrecer, vou conseguir um emprego melhor". "Quando eu emagrecer, conseguirei ser uma mãe melhor, me tornarei um exemplo melhor para os meus filhos". "Quando eu emagrecer, as pessoas gostarão mais de mim". "Quando eu emagrecer, serei livre". Afinal, o que estamos fazendo de nossas vidas enquanto não emagrecemos o suficiente? Tudo isto me leva a crer que as mulheres estão aprisionadas em seus corpos, cotidianamente, sofrendo abusos e perseguições da mídia, de desconhecidos, de empregadores, da família e de amigos. 

OITNB é uma das poucas séries que não pratica o abuso midiático gordofóbico. A autoestima da mulher gorda é muito abalada pela influência da mídia em nossas vidas. A importância destas personagens é tremenda, porque há uma enorme desumanização da pessoa gorda na TV. OITNB está indo contra a maré ao nos afirmar que nosso corpo pode ser motivo de orgulho, que podemos ser desejadas, que não precisamos nos desculpar por sentir desejo e tampouco somos menos capazes por não vestir manequim 38. Em Orange is the new black estas mulheres estão sendo representadas e compreendidas como personagens tridimensionais. Seus corpos são apenas parte daquilo que vemos, admiramos ou odiamos em cada uma delas.

3 comentários:

  1. Acabei de ler mesmo não tendo visto nenhum episódio da série e decidi que assim que passar a prova da Anatel, eu começo a ver.

    Acho incrível que uma série que tenha tantas mulheres e que seja plural de fato, sem apelar para os clichês das séries tradicionais de desumanização de mulheres. Acho importante destacar que quase todas as séries de humor que fazem sucesso fazem piada com mulheres gordas, de cara consigo lembrar de How I met you mother e The Big Bang Theory. É legal demais ver que finalmente séries em que mulheres são mais do que um clichê com apenas um aspecto da personalidade abordado fazendo sucesso assim.

    Fiquei curiosa pra saber o que você acha de Drop Dead Diva. Você chegou a assistir? Eu assistia sem dar continuidade e achava uma série divertida.

    Mais um texto ótimo. :D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Thaisinha assisti Drop Dead Diva até a quarta temporada, estou aguardando o Netflix liberar mais episódios. Eu pretendo escrever sobre todas as séries protagonizadas por mulheres gordas. Tem Drop Dead Diva, My Mad Fat Diary, Mike & Molly e também Super Fun Night. Mas eu sou uma só e é série demais para mim. Então com bastaaaaante calma nessa hora. Mas vai sair mais cedo ou mais tarde. Obrigada por ser uma leitora tão assídua do meu bloguinho e uma amiga tão querida. Beijos

      Excluir
  2. Adorei o texto! Amo a série e nunca havia pensado nela dessa forma!

    ResponderExcluir

Olá! os comentários do blog são moderados, por isso não se assuste se demorar um pouco até o seu comentário ser aceito! :)