sexta-feira, 28 de março de 2014

Epidemia é de gripe A, assédio é outra coisa!

Quadro humorístico misógino que faz piada
com o assédio no transporte público

Essa semana a questão da violência contra a mulher foi central no jornalismo brasileiro. Foram várias as notícias relacionadas. A começar pela reportagem do fantástico sobre os encoxadores do metrô de São Paulo, houve também a propaganda ridícula do metrô de São Paulo veiculada na Transamérica, passando pela condenação do deputado acusado de trocar votos por laqueaduras e finalizamos a semana com a pesquisa do IPEA sobre tolerância a respeito da violência contra a mulher, que atestou um fato notório: A violência contra a mulher está naturalizada.

O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ayres Britto, por ocasião do julgamento da constitucionalidade do aborto de fetos anencéfalos, disse que o grau de civilização de uma sociedade pode ser medido pela forma como as mulheres são tratadas. Se levarmos em consideração a pesquisa do IPEA, vivemos em um Brasil pré-civilizatório.

O que achei bastante curiosa foi a reação de espanto de boa parte da mídia. A mesma mídia que desde o início dessa semana tem falado em "epidemia" de assédio no transporte público. Isso só revela o quanto o jornalismo está descolado da sociedade. Qualquer mulher que use o transporte público coletivo ou de massas, em qualquer cidade do país, sabe muito bem que não se trata de uma epidemia. Não é um fato que tenha se iniciado ontem, não é uma doença que veio do animal e passou para o ser humano, não adianta pesquisar uma vacina, não adianta colocar todo mundo em quarentena. Não é uma epidemia. Epidemia é de Gripe A. Assédio no transporte público é fruto de uma sociedade profundamente machista e SEMPRE EXISTIU.

Eu já escrevi aqui mesmo, neste blog, como o jornalismo é conivente com a violência de gênero. E esse novo termo que está sendo difundido no jornalismo e na política, a tal "epidemia", é um eufemismo cruel que apenas evidencia o privilégio de setores da sociedade. Está na hora de começar a nomear o fato pelo que ele é: Misoginia estrutural, do contrário estão apenas tapando o sol com a peneira ou até mesmo contribuindo indiretamente para a perpetuação dessa violência.

O que quero dizer é que não adianta dizer-se assustado com a naturalidade com que se tolera a violência contra a mulher quando a cada notícia de estupro a vítima é sempre vista como uma provável mentirosa. Nem diminuir mulheres à beleza, chamando-as de musas, quando elas estão cortando um dobrado para conquistar espaços dominados por homens. Não ajuda em nada tratar as travestis no masculino, como se elas não tivessem direito a ser e existir conforme se sentem bem, isso também ajuda no índice alarmante de assassinatos e suicídios de travestis e pessoas trans. Tampouco adianta falar em crime passional, quando o que vivemos é um verdadeiro extermínio, um feminicídio por vez. Tudo isso também é violência contra a mulher.

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