Essa semana aconteceu a Marcha das Vadias no RJ (Doravante, MDVRJ). A marcha das Vadias já se tornou um evento oficial do nosso calendário feminista. Porque consegue reunir pessoas no Brasil todo. O primeiro tópico questionado na marcha foi a questão da violência sexual, porém, hoje ela tem um teor muito político. As pessoas que se unem contra uma série de opressões distintas contra as mulheres e os LGBTs, afinal, muita da opressão que recai sobre eles tem origem na mesma questão: machismo.
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| Imagem da MDVRJ 2013 |
Esse ano, como era de se esperar de uma manifestação política, ela veio questionar o status quo. Enquanto acontece a JMJ, Jornada Mundial da Juventude (que poderia se chamar JMJC, Jornada Mundial da Juventude Conservadora), acontece também a MDVRJ. Durante o protesto, alguns manifestantes realizaram um ato simbólico que eu nem sei se foi um ato da organização da marcha ou não, mas na verdade não importa muito, porque o feminismo é plural. O ato em questão foi a destruição de estátuas da religião católica. Eu preciso explicar a relação simbólica? Quebrar uma imagem significa: "Não nos submeteremos aos seus santos, aos seus credos, não acreditamos em vocês, não queremos que regulem nossas vidas" ou até mesmo:
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| Não regule os nossos ovários |
Pois é, ato político não é feito para todo mundo gostar. Não é feito para ser essencialmente pacífico. Muitas vezes ele vem para marcar uma posição. E isso é importante porque a igreja vandaliza as nossas vidas diariamente, influenciando em Estados para evitar que pessoas do mesmo sexo sejam vistos como cidadãos comuns e insuflando a violência contra grupos LGBTs enquanto diz que Deus ama a ~~todos~~, regulando a sexualidade da mulher, condenando o divórcio, proibindo o uso de anticoncepcionais, insistindo num modelo de família que não representa boa parte da população, além, é claro de proibir o aborto e MATAR milhares de mulheres no mundo TODOS OS DIAS (isso para falar o mínimo, porque as opressões da igreja católica NÃO TÊM FIM).
Me choca mais o corpo dilacerado de uma mulher vítima de um aborto clandestino do que a imagem quebrada de um santo. Quem se choca com o santo quebrado, está confundindo a violência do opressor e a reação do oprimido. Nesse caso em específico, há oceanos de diferença entre um ato simbólico e um ato de violência. Se houve um ato simbólico que realmente impulsiona a violência foi a distribuição de bonequinhos em forma de feto, realizado pela própria igreja católica durante a JMJC. Isso sim gera o assassinato de milhões de pessoas.
Citando a Nádia Lapa, vocês repararam que os fetinhos distribuidos na JMJC são sempre brancos? Pois é, a igreja está cagando para as mulheres negras e pobres que estão em vulnerabilidade social muito maior que a mulher branca. Não adianta me dizer que a igreja merece respeito, que a religião católica deveria ser respeitada. Não deve. Eu não devo nada à uma religião que não se importa se eu acabar morrendo nas mãos de um açougueiro qualquer e que me nega o direito à humanidade plena. Isso sem contar o desrespeito sistemático da igreja católica (e evangélica) contra as religiões de matriz afro. Procure aí no google quantas imagens de umbanda já foram quebradas em nome das religiões cristãs. Seletivos esses críticos, não? Imagem de umbanda pode quebrar?
Sabe outra coisa que achei muito simbólica? Essa imagem aqui:
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| O papa é bope, o bope não poupa ninguém. |
Amor cristão é ilusão (Tá aí, acho que na próxima marcha eu vou usar essa frase!). Não existe, nunca existiu. Uma instituição que sempre foi capitaneada por homens brancos, evidenciando seu caráter machista e racista, não merece respeito algum. Que se quebrem os santos e que sejam livres a sexualidade, as identidades de gênero, as relações, o ventre e a religiosidade (ou a falta dela).
Eu fico com a Luana Hansen:
"Hipocrisia, pra desconhecida é a punição
Mas se for da família é só tratar com discrição"Hipocrisia, pra desconhecida é a punição
Morre negra, morre jovem
Morre gente da favela,
Morre o povo que é carente
Que não passa na novela"
UPDATE: Se você é um manifestante que defende a depredação do patrimônio do Estado e das empresas que oprimem e lucram em cima do cidadão comum mas condena a destruição da imagem, você não é coerente. A religião cristã é tão ou mais opressora do que Estados e empresas. E você provavelmente é incapaz de questionar o próprio machismo.
UPDATE 2: Não sei a vericidade da informação, mas me disseram que o casal que quebrou a estátua era um casal indígena. Mais um peso simbólico, pois além de representar todas as coisas que falei, uma vez que foi um ato dentro da marcha das vadias, também simboliza a destruição da cultura indígena por parte da religião cristã. E mesmo que o casal não fosse indígena, esse tema NÃO DEVE ser descartado. As outras religiões também são alvo do vandalismo do cristianismo.





Fantástico. Assinei embaixo cada palavra!
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