Lamentável. Não tem outra forma de definir o final de Kingsman.
O resto do filme é ótimo e muito divertido. Enquanto eu assistia, já pensava no texto que postaria aqui, falando da personagem Gazelle, uma mulher não-branca, com as duas pernas amputadas na altura do joelho, que usa suas próteses como armas letais. Eu queria vir aqui hoje celebrar essa personagem, dizer que eu adoro o Colin Firth, que achei interessante terem colocado trama de fundo com violência doméstica. Enfim, muitas coisas para falar mas, sinceramente, tudo ficou meio enevoado depois do final LAMENTÁVEL.
O filme conta a história do personagem Eggsy Unwin que participa de uma seleção para ocupar a vaga de um agente kingsman, um grupo britânico ultra secreto. No caminho se depara com um vilão que tem um plano para diminuir drasticamente a população mundial, para que a Terra se recupere dos danos causados pelos seres humanos. Conta com atores incríveis, como Colin Firth e Samuel L. Jackson.
O enorme problema é que há uma personagem no filme, a princesa Tilde, que existe unicamente para que haja uma piada misógina ao final. Explicando a cena: Ela está presa em uma cela. O herói do filme a encontra e diz (em tom de brincadeira) que só vai tirá-la se ela der um beijo nele, pois ele sempre quis beijar uma princesa. Ela responde que se ele tirá-la de lá, vai dar muito mais que isso. Quando ele diz que vai salvar o mundo, ela diz que vai até deixá-lo usar a "Porta dos fundos". Quando ele conclui a tarefa, ele vai até a cela dela, onde ela o espera com a bunda de fora, aliás a câmera dá um close na bunda dela. ISSO MESMO. Fecha o filme com essa gag.
Em nenhum outro momento do filme existe qualquer tom misógino, o personagem principal é um jovem rapaz que se solidariza com a sua mãe, Michelle, porque ela está em um relacionamento abusivo, é carinhoso com sua irmãzinha mais nova, tem uma concorrente e amiga, a Roxy, que ele trata com respeito durante todo o filme. Ele vê a Gazelle como uma ameaça, ele não a subestima em nenhum momento. Portanto, a piada nem sequer faz sentido com o personagem que foi apresentado. Até então, o filme tinha a minha confiança. Eu havia embarcado completamente naquela história e sentia que era um bom filme para as mulheres (não seria ótimo porque, convenhamos, é apenas mais um herói-homem-hetero-branco). Portanto, a piada ficou ainda mais rasteira, mais gratuita.
Depois quando nós falamos o quanto o universo pop e de quadrinhos está claramente afogado no machismo, nós é que somos chatas. Foi isso o que Matthew Vaughn, diretor do filme, disse. Nós, as feministas, é que não sabemos rir. Ele argumentou que a agência de sugerir o sexo foi da mulher, por isso a piada seria até mesmo empoderadora e que ele não era misógino.
Acho tão significativo que a personagem em questão seja uma princesa, tradicionalmente princesas aprisionadas servem de motivação para o herói. A piada aqui é óbvia, muito requentada. Mas piora. Sendo mulher e me imaginando na situação dela, há dias presa, sabendo que o mundo como ela conhecia estava prestes a acabar, eu jamais teria desejo de fazer sexo com um total desconhecido, como se em vez de estar aprisionada, ela estivesse numa balada procurando um parceiro, sabe? As emoções da personagem foram completamente desconsideradas.
A princesa Tilde tem uma cena empoderadora. Ela estava presa porque se negou corajosamente a ajudar o Valentine, vilão do filme. Depois de presa, ela negou novamente participar dos planos dele. Isso é empoderamento. Mas ao torná-la a recompensa do herói. A "Bond" Girl do Kingsman, ele retirou essa força da personagem. Se ele queria empoderar uma mulher sexualmente, porque não subverter essa lógica de que o herói salva a mocinha em troca do seu amor, e pensasse na Roxy como protagonista dessa cena? E se ela fosse recompensada sexualmente? E o que acharia a audiência de um nu masculino sexualizado? Tenho certeza de que não seria tão bem recebido quanto o close na bunda da princesa, mas afinal não é disso que se trata uma sátira? Mesmo assim, não tenho a certeza de que seria uma boa idéia, porque um homem estranho oferecendo-se sexualmente para uma mulher costuma ser puro assédio. O ideal mesmo seria cortar esta cena, não apenas do filme, mas do imaginário nerd.
O filme deveria se chamar "Kingsmansplaining". Para quem não conhece o termo "mansplaining", ele pode ser definido como a mania que os homens tem de explicar para as mulheres algo que elas sabem o que é, às vezes muito melhor do que eles. Acontece muito com mulheres feministas. O autor afirma que não é misógino mas, para começar, ele não é mulher. Não está em suas mãos definir o que é ou não ofensivo para as mulheres. Mesmo que não tenha sido sua intenção, misoginia não intencional ainda é misoginia. Embora eu acredite que, depois de tanto se falar em machismo nerd, fica difícil supor que houve misoginia não intencional. Na minha opinião, o diretor marcou seu ponto de vista com a piadinha. Ele vê as mulheres das mesma forma que as retrata: Ele até entende que elas são inteligentes como a Roxy, que elas são fortes e determinadas, como a Gazelle, firmes, como a Tilde e às vezes vulneráveis, como Michelle, mas no final do dia, elas vão mesmo é servir para aquecer a cama do herói, para ser mais um nome na sua listinha de recompensas e motivações. No fim, é sempre a visão masculina que prevalece. É como se ele observasse a discussão em torno do machismo nerd de fora e dissesse: Até posso ceder em um ou outro ponto, mas não quero perder de vez o meu privilégio de objetificar mulheres.










