segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A representação feminina em Interestelar



Interestelar, novo filme de Christopher Nolan, é um daqueles filmes que ficam se repetindo na memória. Você sai do cinema ainda cheio de reflexões para amadurecer, talvez por isso eu tenha demorado um bocado para escrever este texto. O filme é grandioso, emocionante. Como fã de ficção científica, posso dizer que Interestelar é maravilhoso. É um filme corajoso, que devolve ao cinema o tema da exploração espacial e gera perguntas fundamentais para nós, que hoje vivemos aqui na Terra. Como feminista, conhecendo um pouco sobre o debate da representação feminina, afirmo que o filme poderia ter sido melhor se houvesse um pouco mais de cuidado no roteiro. Sabe aquela sensação de bola na trave?

Spoilers leves

Em Interestelar, descobrimos que a Terra está devastada devido  às mudanças climáticas. Tempestades de areia são comuns e provocam graves doenças respiratórias. Há pragas que praticamente destruíram a capacidade do ser humano de produzir alimentos. Todos os recursos do planeta estão direcionados para o plantio de alimentos. No filme, acompanhamos Cooper (Interpretado por Matthew McConaughey), ex-engenheiro e ex-piloto da NASA, que como a maior parte das pessoas, se tornou fazendeiro. Cooper é viúvo e tem dois filhos, o Tom e a Murph. Cooper acaba se tornando o piloto de um missão cujo "plano A" é encontrar um novo planeta habitável para os seres humanos e transportá-los até lá e o "plano B" é levar material genético para perpetuar a espécie neste outro planeta. 

Houve uma expedição anterior que levou um primeiro grupo de cientistas para explorar três planetas potenciais, a missão de Cooper é descobrir qual planeta é o mais apropriado para a sobrevivência da espécie, enquanto isso, na terra, a base tentaria descobrir uma maneira de transportar os seres humanos para o planeta escolhido.

Além de toda a ciência envolvida, de todas as teorias explicadas e desenvolvidas em tela, o filme gera uma reflexão simples: Este é o planeta que nós vivemos. Você consegue imaginar uma realidade em que nada mais importa, além da produção de alimentos? Imagine o desespero de ver todas as culturas sendo uma a uma devastada por pragas, até que só sobre milho. Mais nada. Que todos os recursos tenham se esgotado e a única esperança é viajar para uma galáxia distante. Agora se lembre que estamos no meio de uma crise hídrica no Brasil, que o Cerrado está extinto, que a Amazônia está sendo desmatada, que o clima está evidentemente mais quente a cada ano, que grande parte de nossos políticos e gestores não está interessada em manter, apenas em usufruir. O Nosso planeta é um recurso que precisa ser gerido de forma mais responsável. Talvez seja este o ponto forte do filme, como uma boa distopia, ele nos faz observar os rumos que estamos tomando no momento presente.

Spoilers severos

Há duas mulheres em papéis importantes na trama: A Dr. Brand, cientista da NASA, interpretada por Anne Hathaway e Murph, a filha de Cooper, interpretada por três atrizes em diferentes fases da vida (Mackenzie Foy quando criança, Jessica Chanstain quando adulta e Ellen Burstyn, quando idosa). A existência destas personagens, em si, é um avanço representativo já que, apesar de encontrarmos grandes personagens na ficção científica, como Ellen Ripley (Alien), Ellie Arroway (Contato), Ryan Stone (Gravidade), Katniss Everdeen (Jogos Vorazes) entre outras, este ainda é um gênero substancialmente masculino. Mesmo entre estas, apenas duas são cientistas. Fato que espelha uma realidade avassaladora, uma enorme disparidade de gênero no ensino de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). O fato do filme colocar não uma, mas duas personagens mulheres muito importantes para a trama é digno de nota.

Dr. Amelia Brand:



Brand é a cientista encumbida de garantir o plano B: transportar o material genético humano para o planeta escolhido. O plano B me incomoda um bocado. No plano B, as mulheres teriam a função de repovoar a terra através de inseminação artificial, o que lembra muito o conto escrito pela Aline Valek, para a coletânea Universo Desconstruído. No conto "Eu, incubadora" a maternidade é compulsória, as mulheres são verdadeiras incubadoras já que os direitos do nascituro são mais abrangentes do que os da mulher. As mulheres são incentivadas a terem mais filhos e o aborto é terminantemente proibido (Alguma semelhança com a realidade?). Pois bem, eu temo que num futuro proporcionado pelo plano B as mulheres seriam vítimas de enormes violações de direitos humanos em nome da perpetuação da espécie, claro que ninguém menciona este aspecto problemático no plano B durante o filme.

Enfim, o plano B foi cair justamente nas mãos de uma mulher. Coincidência? Eu acho que é uma metáfora para a própria maternidade. A mulher é claro, é antes de tudo a mãe. É a cientista, mas também a mãe. Aquela sob quem residirá a tarefa de perpetuar a espécie.

Me incomodou bastante que Brand tenha grande responsabilidade na falha da missão. Ao tentar recuperar os dados no planeta submerso e não obedecer a ordem de Cooper, ela fez com que eles gastassem muito tempo em gravidade severa, causando um enorme lapso temporal entre os cientistas e os sobreviventes na Terra. Em outras palavras, ela foi a responsável por Cooper não ter acompanhado os seus filhos crescerem. 

Além disso, há um momento em que eles precisam fazer uma escolha dramática: Eles já foram ao planeta submerso e perderam muito tempo e combustível (por causa de Brand). Agora eles precisam optar, se quiserem retornar à Terra, ou vão para o planeta do Dr. Mann, ou para o planeta do Dr. Edmunds. Ir para os dois planetas significaria uma missão sem volta. Amelia faz uma defesa do planeta do Dr. Edmunds, não porque este é o melhor planeta, mas porque segundo ela: " O amor não é algo inventado. É observável, poderoso, e tem que significar alguma coisa... O amor é a única coisa que somos capazes de perceber que transcende o tempo e o espaço". Sim, ela era apaixonada pelo Dr. Edmunds. Achei que foi um reforço do estereótipo da sensibilidade feminina, da mulher como ser emotivo, pouco racional. Talvez se outro personagem estivesse na situação dela, eu não teria achado o discurso ruim, porém, quando dito por uma personagem mulher, soa apenas como mais do mesmo. 

Murph Cooper:



Murph começa o filme como uma garotinha de uns 10 anos que percebe uma anomalia em seu quarto, que ela chama de "fantasma". Os livros de sua estante constantemente caem sem que ninguém os toque. Murph é incentivada por seu pai a analisar o fenômeno criticamente, observar e fazer anotações. Pessoalmente, achei este momento incrível, já que meninas em geral não são estimuladas a desenvolver habilidades científicas, matemáticas, espaciais e etc.

Imagine só o tipo de brincadeiras que são associadas às meninas: Todos os caminhos levam ao lar e à maternidade. Enquanto os meninos são exploradores, bombeiros, cientistas e etc. Ao brincar de carrinho, um menino desenvolve habilidades matemáticas, ele entende a noção básica por exemplo, de velocidade, acelaração, atrito e etc. Até mesmo Lego, um brinquedo que pode ser considerado neutro, e que desenvolve habilidades espaciais, há mais de 30 anos faz publicidade para meninos. Portanto, quando Cooper incentiva a sua filha a desenvolver a inclinação que ela já possuía para a ciência, ele nos mostra que sim, mulheres podem ser cientistas. É maravilhoso que o filme tenha a sensibilidade de escolher Murph e não o seu irmão Tom, como aquela que seguirá uma carreira científica, enquanto seu irmão escolhe viver na fazenda, com esposa e filhos. Murph e Tom representam as duas facetas da humanidade: A que luta pelo futuro e a que se acomodou com a  dura realidade.



Quando cresce, Murphy, agora cientista, descobre que o "fantasma" do seu quarto, na verdade era seu pai, que encontrava-se em uma espécie de quinta dimensão. Através dos dados fornecidos por Cooper, ela é capaz de criar o modelo de estação espacial que salvará os seres humanos. Ela celebra o fato dando um beijo em um colega cientista. Veja, o único beijo do filme, é dado por uma mulher, para celebrar uma conquista científica. Super normal, né, gente? Novamente, uma sutil romantização da mulher. O filme teria passado tão melhor sem isso.

Quando finalmente Cooper retorna de sua missão, sua filha, agora idosa, explica para ele que ela não é importante, que ele é que foi o grande cientista que possibilitou todo o avanço tecnológico e a salvação da humanidade. Ela inclusive diz que ele tem coisa mais importante para fazer do que ficar ali com ela, que ele deveria voltar e encontrar a Doutora Brand, que estaria sozinha em um planeta em outra galáxia. Nessa hora eu me pergunto: Qual a necessidade disso? Bastaria que os dois se encontrassem, que palavras de amor entre pai e filha fossem trocadas e pronto. Eu vi esta cena como um apagamento de uma vida inteira como cientista. A própria cientista descreditou o seu trabalho.

Isto é muito problemático, pois sabemos que o apagamento das mulheres cientistas é um fato. Mulheres cientistas costumeiramente foram esquecidas, apagadas da história, seu trabalho muitas vezes foi creditado a homens que tiveram carreiras visíveis, foram laureados com prêmios e etc. Na minha opinião, este é o maior erro de representação feminina em Interestelar. 

Por tudo isso, concluo que as mulheres desse filme são inteligentes, são assertivas, são inspiradoras. Porém, este filme é sobre a jornada de Cooper, ele é o herói motivado pela sobrevivência de seus filhos, ele tem os ideais elevados e são os seus atos que realmente influenciam toda a história, que se fecha num círculo em volta de Cooper. Ele, ele, ele. O filme é bom, sim. Melhor que bom, é ótimo. Mas não vá ao cinema esperando um tratado de feminismo, pois ainda não foi desta vez.

Mais sobre o assunto:

As mulheres de Interestelar

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Valorize As Minas: Ofensas masculinas e seus pedidos de desculpas

Matt Taylor e sua camisa ridícula

Quero comentar rapidamente três casos de homens, suas ofensas e seus pedidos (ou não) de desculpas. O primeiro de todos é o tal do Julien Blanc, que após ter seu visto negado pelo Brasil resolveu se desculpar em entrevista na CNN. Julien Blanc é um sujeito que dá palestras que ensinam os homens a "pegar mulher" usando técnicas abusivas e coercitivas. Resolvi postar o link para essa entrevista por causa da direção que deu o entrevistador. Enquanto Julien disse basicamente que não foi sua intenção ofender ninguém e que era tudo brincadeirinha, o apresentador apontou que este era um padrão de comportamento e não uma questão pontual. Julien nega o conteúdo de suas palestras, nega que tenha ensinado homens a abusarem de mulheres. Ele se desculpa enquanto nega absolutamente tudo.

O segundo caso é o do cientista Matt Taylor. Matt é um dos cientistas que pousaram a sonda Philae em um cometa, um fato histórico a ser celebrado. Na entrevista coletiva, Matt usou uma camisa cheia de mulheres objetificadas. É a evolução da gravata de mulher pelada do Didi, lembram? Pois é. Sabemos que a ciência ainda é um ramo do conhecimento dominado por homens e que mulheres são desestimuladas a iniciar carreiras científicas desde cedo. De alguma forma, a camisa dele é um lembrete de quais são as funções oferecidas aos homens e às mulheres no mundo. Me chamou a atenção que a maior parte daqueles que se sentem desconfortáveis com essa crítica argumentam que "é só uma camisa". É curioso porque as mulheres são julgadas o tempo todo por aquilo que vestem, sua imagem é milimetricamente examinada em todas as situações. Imaginem que fosse uma cientista na entrevista usando uma roupa curta. Seria ridicularizada, exposta, objetificada. Mas a roupa de um homem é só uma roupa. Enfim, Matt, arrependido, pede desculpas e chora, diz que foi um erro usar aquela camisa. Foi um erro, sim. 

Também esta semana tivemos uma figura querida pelos movimentos sociais falando merda. Jean Wyllys, considerado por muitos de nós um dos melhores deputados do Brasil, resolveu apoiar o Miguel Falabella no caso do Sexo e As Negas, minissérie que estereotipa as mulheres negras (Quem não está a par do assunto, vou deixar alguns links aí embaixo). Em suma, ele disse que é um grupo radical dentro do movimento negro que sustenta as críticas. Jean não teve a sensibilidade de perceber quem forma este grupo: Mulheres negras. As mulheres que se sentem ofendidas, vilipendiadas pelo programa de Miguel Falabella, algumas das quais tem sido perseguidas por expor suas opiniões sobre racismo. Jean não pensou que talvez endossar Miguel Falabella significa virar as costas para quem, em geral, sofre mais violência sexual, está na base da nossa pirâmide social e econômica, sofre preconceito institucional. A violência simbólica do corpo negro como corpo unicamente sexual reforça e dá margem para o estabelecimento da violência física e do cerceamento da liberdade, inclusive da liberdade sexual e reprodutiva. Jean não está arrependido e nem acredito que pedirá desculpas.

Está claro que Julien não se arrepende, já que nega ter qualquer comportamento abusivo. Ele se arrepende de ter sido descuidado o suficiente para ser apontado como abusador. Eu acredito na sinceridade do choro de Matt, mas não na concretude de suas ações, em geral as pessoas não querem observar que há algo de Julien dentro de si, que o machismo que fundamenta as ações de Julien é apoiado por pequenas ações simbólicas também, como por exemplo, representar um grande avanço científico usando uma camisa objetificadora. Ou mesmo trabalhar em qualquer situação com uma camisa que pode ofender as suas companheiras de trabalho. Sobre o Jean, estarei ao seu lado para defender os direitos da população LGBT, mas antes ouvirei o que ele, que é gay, tem a dizer sobre a sua causa especificamente. Jean deveria fazer o mesmo com aquilo que não diz lhe respeito: ouvir as mulheres negras, pois o que elas estão dizendo é muito mais profundo e relevante do que a contra-crítica que ele fez.

Apontar nomes, criticar discursos, exigir retratação e atitudes concretas de pessoas como Julien, Matt e Jean não significa que estamos colocando todos eles na mesma posição. Nem que esquecemos que o mundo é maior e que precisamos de mudanças estruturais. Não é possível limitar o feminismo a uma única estratégia de ação. Não somos nós, mulheres e feministas, que estamos agindo para "destruir reputações", estamos apenas tentando fazer deste um mundo mais justo e seguro para todas as mulheres. Sabemos que os discursos e ações destes homens não são exclusividade deles. Nem sempre a estratégia do apontamento é a melhor, nestes três casos específicos, ela ajuda estabelecer o elo simbólico: Do homem que ensina outros homens a abusar de mulheres (como acontece naturalmente em nossa sociedade e ninguém precisa pagar rios de dinheiro para adquirir esse conhecimento), do cientista insensível à forma como as mulheres são percebidas, inclusive por ele mesmo, em seu campo de atuação (que hoje tem um gap de 80-20!), e do aliado que tem limitações e não consegue representar plenamente a todos. 

Chega de textão! Vamos aos links da semana!

Sexo e As Nêgas: 

Ainda precisamos debater sobre Sexo e as Nêgas: A autora analisa as recentes atualizações do caso Sexo e as Nêgas, em que Miguel Falabella convocou as pessoas a se declararem a favor da série.

A página "Mães de Maio" fez uma resposta incrível ao vídeo de apoio do Jean Wyllys ao Miguel Falabella.

Mulheres Notáveis: 

Mulheres maravilhosas: Flora Matos :  Eu conheci a música da Flora já tem algum tempo. Se você não conhece, deveria parar um pouquinho o que você está fazendo e ouvir, ela é incrível.

Gordofobia: 

Mulheres Maravilhosas: Loey Lane :  Loey Lane é uma mulher gorda e ela gravou uma mensagem muito linda sobre o que ela sente a respeito do seu próprio corpo.

Documentário: Feminismo, Gordofobia e Plus Size DF :  Pequeno documentário em que mulheres gordas aqui da minha cidade (maravilhosas, cadê vocês na minha vida? me adiciona, me manda um telegrama, uma carta de amô), Brasília, contam suas experiências como mulheres gordas.

Raça:

A capa de Kim Kardashian tem uma questão racial da qual ninguém está falando : Tradução de um texto muito bom que mostra como a capa da Kim Kardashian é uma releitura de uma piada histórica que tem como alvo as mulheres negras.

Do luto, das letras, à luta : Editorial da Revista Geni deste mês, temático do mês da Consciência Negra. Tem link para todos os textos, que estão maravilhosos, gostei especialmente do texto sobre Carolina Maria de Jesus.

Representatividade:

Why 'Interstellar' Is Great for Women in STEM : Eu tenho algumas críticas a fazer sobre representação feminina em Interstellar, porém é inegável que o fato de vermos duas cientistas em papéis importantes para o filme e relevantes para o desenvolvimento da história é algo raro. E necessário para ajudar a diminuir o gap em STEM (Sigla que representa o ensino de ciência, tecnologia, engenharia e matemática).

Katniss e os novos arquétipos femininos : Acho que estamos todos de acordo que a Katniss é foda.

Apóie as Minas:

Documentário Chega de fiu fiu : Que tal apoiar as minas para a realização de um documentário sobre o assédio de rua no Brasil? A meta final é conseguir 80 mil. A primeira fase do financiamento já foi alcançada em 24 horas (os primeiros 20 mil). 


Relatos tocantes:


"Orange is the new black" actress remembers coming home from school to learn that her family had been deported: Imagine só você chegar em casa depois da escola e descobrir que seus pais foram deportados. Foi essa a experiência de Diane Guerreiro, atriz americana, cujos pais e seu irmão mais velho são Colombianos.

Sofri um estupro, um aborto induzido e o julgamento de todos (TW estupro, aborto) : Infelizmente é a história de uma e também a realidade de muitas mulheres.

O que eu escrevi?

O companheirismo a toda prova de Harry e Hermione : Um texto sobre porque eu acho que o relacionamento de Harry e Hermione é o mais bem desenvolvido dos livros.

"Gorda serve apenas como ponto de referência" : Uma resposta às horríveis ofensas gordofóbicas de um PM aqui de Brasília.

Você gostou da seleção de links de hoje? Então volte sempre, toda semana eu faço uma lista das minhas leituras preferidas da semana! :)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O companheirismo a toda prova de Harry e Hermione



Sei que estou anos atrasada. Também sei que este texto não é novidade para ninguém. No início deste ano, a autora J.K. Rowling, confessou à revista "Wonderland", em entrevista conduzida pela atriz Emma Watson (que interpretou Hermione Granger nos oito filmes da série), que acredita que Hermione e Harry deveriam ter ficado juntos no fim. Segundo Rowling:

"Eu escrevi a relação de Hermione e Ron como uma forma de realização de um desejo. Por razões que têm pouco a ver com a literatura e muito mais comigo, e meu apego à trama que havia imaginado, Hermione terminou com Ron (...) Eu sei, me desculpe, eu posso ouvir a raiva e a fúria que isso pode causar em alguns fãs, mas estou sendo absolutamente honesta, a distância me deu uma perspectiva sobre isso. Foi uma escolha que eu fiz por razões pessoais, não por razões de credibilidade."

Na verdade, eu não concordo inteiramente com a J.K.Rowling, acho que ela está dando muito pouco crédito ao Ron. Porém, eu compreendo que a distância que ela se refere, mostrou que ela estreitou muito mais os laços entre Hermione e Harry ao longo da série que entre Harry e Ron ou mesmo entre Ron e Hermione.

Uma das coisas que une Harry e Hermione (e que Ron jamais compreenderá) é o fato de que os dois foram criados por trouxas, por pessoas que não possuem poderes bruxos. Os dois entraram em Hogwarts sem dar conta do que significa ser bruxo e estão se redescobrindo neste mundo, se percebendo pessoas diferentes daquelas que imaginaram. Os dois são filhos únicos e não viveram em uma casa cheia de outras crianças, como Ron. Embora Harry tivesse seu primo Dudley por perto, eles nunca foram próximos, e sua tia Petúnia fez questão de deixar claro que Harry não era bem vindo, não era parte da família. 

Petúnia é irmã trouxa de Lily (mãe de Harry). As duas nasceram em uma família trouxa. Na trama, vir de uma família trouxa (os chamados muggleborns), ou ser mestiço (fruto da união de bruxos e trouxas), ter algum descendente trouxa, faz com que você não seja considerado um bruxo "puro sangue"(ou ainda pior, ser um "aborto", uma pessoa que veio de uma família bruxa, mas não tem poderes). Significa sofrer preconceito por parte de uma parcela da população bruxa. Harry e principalmente Hermione sofrem isso na pele. Não sei se foi este o motivo, mas Hermione se torna uma pessoa extremamente empática ao outro. Ela tem "o coração no lugar certo", como diz Hagrid.


No primeiro livro, eu percebo que a amizade mais forte é entre Harry e Ron.Mas aos poucos, Hermione se torna o braço direito de Harry e seu maior conforto em meio à dor. Não pretendo enumerar todos os momentos em que a amizade deles foi focalizada, mas é sempre bom relembrar de alguns fatos.

Hermione percebe como Harry se sente em relação à Cho Chang e depois, em relação à Gina. É muito curioso este momento em que, de um lado Ron ignora Hermione e começa a namorar Lilá e de outro Harry começa a perceber Gina, que já está em outro relacionamento. Os dois estão passando novamente por sentimentos muito parecidos e sem muitas explicações, eles se entendem. Harry e Hermione se entendem sem palavras. A habilidade deles em se comunicar sem usar palavras está espalhada por todos os livros. 


Quem não se lembra de quando Harry, mesmo apaixonado por Cho Chang, defendeu Hermione e com isso pôs fim a qualquer possibilidade de relacionamento com Cho? O incrível é que a mesma escolha é exigida de Hermione. Hermione é indispensável na trajetória de Harry. Ela sabe disso e por todos os livros ela se manteve fiel a esse compromisso (novamente, um compromisso sem palavras), mesmo sob o risco de perder o amor de Ron.

Harry e Hermione se vêem como iguais. Harry não se cansa de elogiar a inteligência de Hermione, enquanto o fato de harry ser famoso ou ser o escolhido jamais foi motivo para Hermione se sentir diminuída. Diferente de Ron, que sempre se viu como o elo fraco do grupo, que sentiu ciúmes incontroláveis tanto da fama de Harry, quanto da crescente lealdade de Hermione e Harry, frequentemente confundida inclusive por outros personagens dos livros como amor romântico. A impressão que tenho é que nos filmes este aspecto é ainda mais evidenciado, já que não é raro vê-los de mãos dadas, trocando abraços carinhosos, como apenas duas pessoas que tem muita intimidade poderiam fazer.



Outro aspecto importante da amizade entre Harry e Hermione é que eles tendem a resolver rapidamente seus conflitos, eles são muito assertivos e francos um com o outro. Já Ron tende a ser muito mais instável, ele coloca o orgulho à frente da razão e é capaz de passar longos períodos longe de seus melhores amigos. Em HP & Relíquias da morte, uma dessas ausências de Ron motivadas por ciúme e num momento tão crítico, deu um espaço ainda maior para que o relacionamento de Harry e Hermione evoluísse. Quem não se emociona quando Harry e Hermione passeiam de braços dados por Godric's Hollow e se abraçam discretamente em frente ao túmulo dos pais de Harry? Ron deixou para trás a possibilidade de viver estes momentos ao lado deles.



Na minha opinião, a amizade entre Hermione e Harry foi melhor construída, solidificada, porque estes personagens amadureceram rapidamente. Se em HP & as Relíquias da morte, Harry está consciente de sua missão e resolve partir sabendo que este pode ser o seu fim, Hermione não sai com menos. Imagine o peso da decisão de se apagar da memória das pessoas que você ama. Foi o que Hermione fez com os seus pais, pelo bem deles. Imagine só o tamanho da dor que ela deve ter sentido. Escolhas que Ron não fez, horrores pelos quais ele não passou. O fato de, em boa parte do tempo em Relíquias da Morte, Harry e Hermione estarem juntos no meio do nada é porque eles só tem um ao outro, somente um compreende a solidão do outro.

Termino este texto com esta cena lindíssima e agridoce de Relíquias da Morte - Parte 1 que não existe nos livros, mas que foi a melhor inserção realizada em toda a saga, pois sintetiza a relação entre esses dois personagens. A cena da dança no acampamento, um pequeno momento de fuga em que eles puderam ser apenas dois adolescentes, em que tentaram esquecer que o mundo lá fora estava um caos e que tinham uma pesada missão nas costas.


Então, esse post não é para dizer com que Hermione deveria ficar no final, a personagem teve a autonomia para decidir isso, é apenas para dizer que ainda que Ron e Hermione tenham se casado, que estejam apaixonados, na minha opinião o relacionamento mais bonito do filme, o mais amadurecido é a amizade entre Harry e Hermione.

#ValorizeAsMinas: Angela Chase & Carrie Mathison

Esta semana reparei em uma coincidência, dois dos links que escolhi falam de personagens diferentes da Claire Danes, que de certa forma me marcaram em momentos diferentes da minha vida, A Angela Chase, de My So Called Life e a Carrie Mathison, de Homeland.

Angela Chase e Carrie Mathison
Acho que me identificava muito com a Angela Chase por todas as coisas (lindas e horríveis) que ela falava/pensava, sobre como ela ficava com raiva da mãe dela, como ela era uma ótima aluna e filha, e de repente cansou de tentar agradar. Eu passei por tudo isso também. Já a Carrie Mathison é outro nível, não de identificação, mas de admiração. Não posso dizer que gosto pessoalmente de nenhuma das duas personagens, como pessoas sei que elas são cheias de falhas profundas. Mas talvez seja exatamente isso que as tornam palpáveis, as tornam reais para mim.

E vamos lá, aos links da semana!

1. Mulheres Notáveis

Laerte, que mulher! Um texto sobre Laerte e seu feminismo. No fim um vídeo para a entrevista do Rafucko com Laerte, falando de feminismo, publicidade infantil, gênero e outros assuntos.

"Para cada 'trepadeira' lançada, há mil raps feministas empoderadores" : A pesquisadora e feminista negra Bianca Gonçalves, graduanda do curso de Letras pela USP, fala sobre empoderamento feminino no Hip Hop.

2. Comportamento

Da série: você não é obrigada : Não você não é obrigada a amar ninguém, nem mesmo seu pai ou sua mãe.

What Does It Mean To Be A ‘Good Woman’? : Eu amei este texto sobre o que é ser uma boa mulher, que termina falando um pouco sobre a série Homeland e sobre uma das minhas personagens favoritas, a protagonista, Carrie.

3. Maternidade e Infância

10 livros infantis que abordam os direitos humanos : Fiquei com vontade de ler todos eles!


4. Crítica

Eu que me odeio tanto : Crítica do primeiro episódio exibido pelo Fantástico da série "Eu que amo tanto". Um clássico caso de Nenvy & Nenverey.

5. Playlist

Friday Playlist: Hanging Out With Angela Chase and Rayanne Graff : Vocês que são 9vinhos talvez não conheçam Angela Chase e Rayanne Graff. Mas gente. GENTE. <3 Havia uma série adolescente maravilhosa nos anos 90, se chamava "My so called life", foi exibida no SBT com o nome de "Minha vida de cão", algo assim. Um título que não faz jus à série. Infelizmente, só foi produzida uma temporada, apesar das críticas entusiasmadas na época. O público americano não acompanhou uma série de adolescente que ia além de "Parker Lewis can't loose". Fica aí essa ótima playlist, cuja primeira parte foi feita pensando em Rayanne e a segunda parte na amizade de Rayanne e Angela.

6. Ciência

Lead ESA Scientist Wears Shirt Covered in Gratuitous Sexy Chicks For Comet Landing Livestream : Sabe a sonda que pousou no cometa? Maneiríssimo. Mas veja como o cientista estava vestido para a entrevista. É assim que as mulheres são super bem recebidas no meio científico, sabe?

O que é ser inteligente? As múltiplas dimensões da inteligência : Você sabe responder o que é a inteligência ou como ela é mensurada/ qualificada?

7. Estupro

Violência sexual, castigos físicos e preconceito na Faculdade de Medicina da USP (TW Estupro) : Várias denúncias escabrosas de casos ocorridos cotidianamente nas festas da Medicina da USP. O que esperar destes profissionais que estarão em poucos anos lidando diariamente a com a vida das pessoas, muitas vezes com pessoas vulneráveis, que poderão atender mulheres vítimas de estupro tais quais aquelas que eles vitimaram? O que esperar de um curso quase que inteiramente branco, quase que inteiramente formado por indivíduos da elite brasileira?

8. Panorama mundial

7 reasons to end immigrant detenction yesterday : Uma questão muito presente no feminismo americano é a interseccionalidade das culturas imigrantes, especialmente as latinas. Neste texto a autora expõe sete motivos pelos quais é errado manter centros de detenções para imigrantes.

9. O que eu escrevi

Nossa, você é super bem resolvida! : Meu texto sobre gordofobia da semana tenta nos livrar de toda a culpa por não ser essa pessoa tão ok consigo mesmo quanto as pessoas gostariam que você fosse :)

Gostou dos links de hoje? Então volte sempre, toda quinta-feira eu faço uma seleção dos textos que li e gostei.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Valorize as Minas: Curtinho, para não passar em branco!

Oi, gente. Este #ValorizeAsMinas saiu com atraso porque eu tive pouco tempo para ler e escrever esta semana. Na verdade eu até me afastei um pouco da internet. Então, vai ser bem curtinho mesmo, viu? Mas que tal começar com esta música aqui que eu não parei de ouvir a semana toda?


E vamos aos links da semana!

Vocês se lembram do #ValorizeAsMinas da semana passada, em que eu falei da Mo'ne Davis? Pois é, assisti um vídeo antiguinho do MythBusters detonando o mito "Arremessar como uma garota". Não deixe de ver!

Por que não se pode elogiar a gorda? Uma pergunta que sempre me faço. As minhas amigas costumam elogiar o meu estilo, minha "elegância", mas é raro alguém dizer que eu sou "linda". É totalmente subconsciente, as pessoas não elogiam a beleza da gorda, é como se fosse proibido, sabe? Aliás, elogiam sim, elogiam quando a gente emagrece. Quantas vezes eu ouvi "Você emagreceu! Está linda!".

Não pode: gostar de Exatas : Spoiler: Pode sim.

Conceição Evaristo: literatura e consciência negra : Questiona os motivos pelos quais Conceição Evaristo não figura nas prateleiras das grandes livrarias.

E Dandara dos Palmares, você sabe quem foi? : Mulheres são apagadas da histórias, mulheres negras ainda mais.

GamerGate e a guerra contra mulheres nos videogames : Já postei vários textos sobre o caso do assédio virtual contra as mulheres que estão na indústria de games, seja produzindo, jogando ou criticando. Mas vou recomendar novamente pois este texto está muito explicativo e em português.

Orphan Black: é possível fazer diferente : Texto muito bacana que mostra porque Orphan Black é uma série que avançou muito em termos de representação feminina e como a série tem uma analogia direta com a questão da pauta feminista da autonomia do corpo da mulher.


Transfeminismo: Teorias e Práticas Foi lançado o primeiro livro nacional sobre transfeminismo, escrito pela querida Jaqueline Gomes de Jesus e colaboradores. O livro já está à venda (Obs.: eu não ganho nenhum centavo pela indicação, eu só acredito muito na Jaque e na causa).

Gostou dos links da semana? Então volte que na quinta-feira que vem tem mais!





quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Valorize As Minas : Hoje não tem!

Oi, gente! Hoje não poderei publicar o Valorize As Minas, não tive tempo durante a semana para escrevê-lo. Vai ficar para amanhã :)

Grande abraço e até lá.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

#ValorizeAsMinas: Mo'ne Davis, uma promessa do esporte

Mo'ne Davis

Você conhece Mo'ne Davis? Essa garotinha aí da foto foi o tema de um curto documentário dirigido por Spike Lee. Mo'ne é uma menina de 13 anos que é a lançadora do time de baseball na Little league World Series. Ela é a única menina do time (é um esporte misto) e é um fenômeno. A minha parte preferida é quando dizem que dois meninos estavam jogando e um falou para o outro "tá bem, eu quero ser a Mo'ne" e o outro disse "Não! Eu sou a Mo'ne!". Isto é fantástico. Num mundo em que existe a expressão pejorativa "fazer algo como uma mulherzinha", os meninos estão se sentindo inspirados por uma menina, veja só.

Vamos aos links da semana!

1. Mulheres Notáveis

'Globo nunca me deu importância', diz Beatriz Segall, 88, desempregada :  A situação triste das atrizes idosas no Brasil. Da última vez, soubemos o que aconteceu com a maravilhosa Neuza Borges. Desta vez, Beatriz Segall. Curiosidade: O primeiro pesadelo que me lembro de ter na vida aconteceu por causa da cena da morte de Odete Roittman. hahaha. Eu era criança e fiquei impressionada com a cena. Outros tempos.

Watch: A short documentary about Mo’ne Davis : Não deixe de assistir esse documentário! Essa menina é poderosíssima.

2. Literatura

Amy Poehler's Book 'Yes Please' Will Give You All The Life Advice You Need On Every Subject : Amy Poehler é a molière da minha vida. Este link fala de alguns ótimos conselhos que ela deu em seu livro "Yes, please".

40 escritoras para ler antes de morrer : O texto que bombou essa semana. Pode colocar uma prateleira a mais na sua casa, porque esse post está cheio de dicas maravilhosas.

Valorizando as Minas : Indicações de escritoras, sites sobre feminismo, blogueiras e dicas de lojas feministas e geeks. amei muito.

3. Cinema

Female Captain Marvel to get her own movie : Finalmente a Marvel vai lançar um filme com uma protagonista, a Capitã Marvel. A estréia está prevista para 2018.

4. Infância & Maternidade

Linda. Como você é linda! ( #PadrõesDeBeleza , #Racismo, #Infância #Interseccionalidade): Elogiar a beleza das meninas pode ser algo machista, mas também pode não ser. Pode ser necessário. Pode ser transformador se essa menina for negra, por exemplo.

Mother daughter love in Dia de los Muertos short film : Um curta sobre o dia dos mortos e o amor de mãe e filha, não tem diálogos, pode assistir na boa.

5. Comportamento

23 things you don’t have to apologize for: Você não precisa se desculpar por tudo. Veja aqui 23 coisas que estão liberadas.

6. Sexualidade

O que podemos aprender com o vibrador de Luana : Luana Piovani tirou uma selfie para mostrar uma espinha para seus seguidores no Instagram. No fundo da foto, um vibrador, um pau de borracha, desses que devem ficar para todo o sempre escondidos, né? um simples vibrador revela o quanto a sexualidade feminina ainda é tabu.

Sobre aquelas que não são Suzane Von Richthofen e Elize Matsunaga: Texto muito bacana sobre sexualidade, orientação e afetividade de mulheres encarceradas.

7. Business

5 Maleficent business lessons : Sabe o filme Malévola? Pois é, ele ensina um pouco sobre business também.

8. Eleições

O PT derrota a imprensa e a elite (pela quarta vez) Com a força do povo : Texto muito bom sobre a reeleição de Dilma, que explica o erro na falácia de que "O PT inventou a luta de classes".

A estratégia feminista de Dilma e a cobrança dos movimentos de mulheres : texto sobre a atuação do movimento feminista na campanha de Dilma, cobranças e expectativas para o novo governo.

9. Exposições

São Paulo ganha exposição sobre o incrível mundo da personagem Mafalda : Pelamordedels não vá me dizer que você mora em São Paulo e não vai nessa exposição, viu?

10. Financie as Minas

Você gosta do site Lugar de Mulher? Que tal ajudar as autoras a se manter financeiramente? Saiba como.

Conhece o Girls Rock Camp Brasil? Segundo a descrição do site é um acampamento musical diurno exclusivo para meninas, que visa"empoderar e promover a autoestima de meninas e mulheres por meio da educação musical, criatividade, pensamento crítico e colaboração." Você pode apoiar o projeto no Catarse.

11. O que escrevi?

O problema do argumento do "inimigo comum" : Eu escrevi este texto pensando nas muitas vezes em que silenciei e fui silenciada por este argumento. Talvez seja a hora de reconhecer que ele não é necessário para nós.

O jornalismo e o aborto : Escrevi sobre a abordagem equivocada (para dizer o mínimo) adotada pelo profissão reporter para falar de aborto.

Toda quinta feira é dia de #ValorizeAsMinas, se você gostou da seleção de hoje, volte sempre!