quinta-feira, 30 de outubro de 2014

#ValorizeAsMinas: Mo'ne Davis, uma promessa do esporte

Mo'ne Davis

Você conhece Mo'ne Davis? Essa garotinha aí da foto foi o tema de um curto documentário dirigido por Spike Lee. Mo'ne é uma menina de 13 anos que é a lançadora do time de baseball na Little league World Series. Ela é a única menina do time (é um esporte misto) e é um fenômeno. A minha parte preferida é quando dizem que dois meninos estavam jogando e um falou para o outro "tá bem, eu quero ser a Mo'ne" e o outro disse "Não! Eu sou a Mo'ne!". Isto é fantástico. Num mundo em que existe a expressão pejorativa "fazer algo como uma mulherzinha", os meninos estão se sentindo inspirados por uma menina, veja só.

Vamos aos links da semana!

1. Mulheres Notáveis

'Globo nunca me deu importância', diz Beatriz Segall, 88, desempregada :  A situação triste das atrizes idosas no Brasil. Da última vez, soubemos o que aconteceu com a maravilhosa Neuza Borges. Desta vez, Beatriz Segall. Curiosidade: O primeiro pesadelo que me lembro de ter na vida aconteceu por causa da cena da morte de Odete Roittman. hahaha. Eu era criança e fiquei impressionada com a cena. Outros tempos.

Watch: A short documentary about Mo’ne Davis : Não deixe de assistir esse documentário! Essa menina é poderosíssima.

2. Literatura

Amy Poehler's Book 'Yes Please' Will Give You All The Life Advice You Need On Every Subject : Amy Poehler é a molière da minha vida. Este link fala de alguns ótimos conselhos que ela deu em seu livro "Yes, please".

40 escritoras para ler antes de morrer : O texto que bombou essa semana. Pode colocar uma prateleira a mais na sua casa, porque esse post está cheio de dicas maravilhosas.

Valorizando as Minas : Indicações de escritoras, sites sobre feminismo, blogueiras e dicas de lojas feministas e geeks. amei muito.

3. Cinema

Female Captain Marvel to get her own movie : Finalmente a Marvel vai lançar um filme com uma protagonista, a Capitã Marvel. A estréia está prevista para 2018.

4. Infância & Maternidade

Linda. Como você é linda! ( #PadrõesDeBeleza , #Racismo, #Infância #Interseccionalidade): Elogiar a beleza das meninas pode ser algo machista, mas também pode não ser. Pode ser necessário. Pode ser transformador se essa menina for negra, por exemplo.

Mother daughter love in Dia de los Muertos short film : Um curta sobre o dia dos mortos e o amor de mãe e filha, não tem diálogos, pode assistir na boa.

5. Comportamento

23 things you don’t have to apologize for: Você não precisa se desculpar por tudo. Veja aqui 23 coisas que estão liberadas.

6. Sexualidade

O que podemos aprender com o vibrador de Luana : Luana Piovani tirou uma selfie para mostrar uma espinha para seus seguidores no Instagram. No fundo da foto, um vibrador, um pau de borracha, desses que devem ficar para todo o sempre escondidos, né? um simples vibrador revela o quanto a sexualidade feminina ainda é tabu.

Sobre aquelas que não são Suzane Von Richthofen e Elize Matsunaga: Texto muito bacana sobre sexualidade, orientação e afetividade de mulheres encarceradas.

7. Business

5 Maleficent business lessons : Sabe o filme Malévola? Pois é, ele ensina um pouco sobre business também.

8. Eleições

O PT derrota a imprensa e a elite (pela quarta vez) Com a força do povo : Texto muito bom sobre a reeleição de Dilma, que explica o erro na falácia de que "O PT inventou a luta de classes".

A estratégia feminista de Dilma e a cobrança dos movimentos de mulheres : texto sobre a atuação do movimento feminista na campanha de Dilma, cobranças e expectativas para o novo governo.

9. Exposições

São Paulo ganha exposição sobre o incrível mundo da personagem Mafalda : Pelamordedels não vá me dizer que você mora em São Paulo e não vai nessa exposição, viu?

10. Financie as Minas

Você gosta do site Lugar de Mulher? Que tal ajudar as autoras a se manter financeiramente? Saiba como.

Conhece o Girls Rock Camp Brasil? Segundo a descrição do site é um acampamento musical diurno exclusivo para meninas, que visa"empoderar e promover a autoestima de meninas e mulheres por meio da educação musical, criatividade, pensamento crítico e colaboração." Você pode apoiar o projeto no Catarse.

11. O que escrevi?

O problema do argumento do "inimigo comum" : Eu escrevi este texto pensando nas muitas vezes em que silenciei e fui silenciada por este argumento. Talvez seja a hora de reconhecer que ele não é necessário para nós.

O jornalismo e o aborto : Escrevi sobre a abordagem equivocada (para dizer o mínimo) adotada pelo profissão reporter para falar de aborto.

Toda quinta feira é dia de #ValorizeAsMinas, se você gostou da seleção de hoje, volte sempre!

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O Jornalismo e o aborto


Ontem foi ao ar o "Profissão repórter" sobre aborto. E através dele é possível entender como a mídia tradicionalmente lida com a questão do aborto: a abordagem adotada foi impregnada de culpabilização das vítimas

No primeiro bloco, ouviram os familiares de Elizângela Barbosa e Jandira Cruz, duas mulheres que viraram notícia por entrar para as estatísticas de morte por aborto no Brasil. Segundo a repórter, a intenção era investigar o que levou Jandira e Elizângela a realizarem abortos clandestinos. Na prática não foi o que aconteceu. A abordagem foi inicialmente sensacionalista, uma tentativa de causar comoção com a dor das pessoas próximas a essas mulheres. Entretanto, a dor não é sempre a melhor conselheira. 

Na dor de perder alguém que amamos, tentamos encontrar o erro, contudo, resposta pode não ser a mais óbvia. A mãe e a irmã de Jandira pediram que ela não fizesse o aborto, mas Jandira decidiu fazer mesmo assim e morreu. Subentende-se que sua mãe e irmã estavam corretas e Jandira estava errada. Esta é a resposta simples, mas não é bem assim. Jandira deveria ter o direito de realizar um aborto legal, seguro e gratuito. Sua vida estaria salva se o aborto fosse legalizado no Brasil. Não satisfeitos em levar ao ar os trechos culpabilizadores da entrevista, fizeram pior: mostraram as cenas do enterro de Jandira, onde um pastor derrama discurso anti-escolha em cima de seu caixão. O horror, o horror.

Em outro momento, um repórter acompanha um delegado na casa onde Elizângela fez o aborto. Esse viés policial em reportagens sobre aborto não existe para que observemos a barbárie a que essas mulheres são submetidas. Quando não se pontua que a legalização seria o caminho seguro, tudo o que estão fazendo é colocar mais medo e culpa na cabeça das mulheres que optam pelo aborto. É uma abordagem criminalizadora.

Em um dos pontos mais baixos de uma reportagem que já estava muito ruim, o repórter vai atrás de duas mulheres que foram flagradas durante uma operação policial ao buscar um aborto clandestino. O amadorismo do jornalista foi impressionante. A primeira mulher que ele localizou desistiu de abortar. O jornalista bateu na porta da mulher e quem atendeu foi o marido. Ele tentou se explicar sem dizer exatamente o motivo pelo qual desejava falar com a esposa dele. Por sorte, o marido sabia da situação, mas e se não soubesse e tivesse percebido do que se tratava? Ele não apenas violou a privacidade dela, sua atitude poderia colocar não apenas um casamento em risco, mas a vida de uma mulher. Afinal, como ele poderia saber da índole desse marido? Se ele reagiria com violência? Uma TOTAL irresponsabilidade.

Apenas aos 17:30 de uma reportagem de 25 minutos é que temos a oportunidade de ouvir a outra mulher localizada. A primeira mulher entrevistada que de fato ESCOLHEU realizar um aborto e sobreviveu. O discurso mais politizado até então. O problema é que logo no início do bloco seguinte, colocam novamente o discurso religioso anti-escolha, desta vez um grupo de freiras que convencem mulheres a não realizar abortos. O que ninguém perguntou para elas é quem vai cuidar dessas crianças quando elas nascerem? Quem vai cuidar psicologicamente dessa mulher que vai ficar nove meses esperando uma criança que ela não deseja? Quem vai dar para essa mulher as oportunidades de trabalho e emprego que ela pode perder por estar grávida? A verdade é que as freiras não estão interessadas nas implicações da gravidez para a mulher, mas disto a reportagem não tratou.

Finalmente, entrevistaram mais uma mulher que tentou realizar aborto e falhou, ela diz que deu a criança para adoção porque não se considerava digna de ficar com ela. Veja bem, de toda a entrevista que a mulher deu, é este o trecho escolhido para ir ao ar, pois fala da culpa. Apenas no finalzinho do programa, entrevistaram Renata Correa, a documentarista de "Clandestinas". A única parte informativa sobre o tema. Reparei na falta de especialistas sobre o assunto, de mulheres do movimento feminista, de médicos como o Dr. Dráuzio Varella que é da casa e é abertamente a favor do aborto, de religiosos que são favoráveis ao aborto e de estatísticas mais completas. Enfim, informações relevantes que poderiam delinear melhor o tema para o expectador. Imagino que esta não foi a intenção.

É importante notar que apenas duas mulheres que optaram pelo aborto foram entrevistadas. Destas, apenas uma foi bem sucedida. A outra desistiu e deu a criança para adoção. Ou seja, uma única mulher em toda a reportagem realizou um aborto e ela teve apenas SEGUNDOS para contar sua história. O programa deu muito mais tempo para os discursos anti-escolha. Para religiosos, mulheres que optaram pela maternidade, pessoas que não apoiam o aborto e estão sofrendo em luto. Mas mesmo que o tempo dado aos dois lados do debate fosse igual, continuaria achando que é uma covardia enorme dar voz ao lugar comum e para posar de "neutros" colocar um pouquinho das opiniões divergentes. Não existe neutralidade quando a opinião majoritária é opressora. Ser neutro é oprimir. Para garantir a discussão sobre aborto, é preciso ouvir quem é a favor dele, porque quem é contra já tem palanque, palco, púlpito, voz. 

Por fim, tirando a entrevista com a família de Jandira, toda a reportagem teve um homem como entrevistador. Não é que homem não possa fazer entrevistas sobre aborto, mas seria sensível por parte da produção que um tema que está tão relacionado ao machismo e ao controle do corpo da mulher, fosse conduzido por outra mulher, que certamente estaria mais a par da realidade, já que uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já realizaram um aborto. Ela certamente conhece histórias sussurradas por outras mulheres em sua família ou por amigas, é uma questão de empatia.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

#ValorizeAsMinas: Finalmente, o segundo turno!

Como eu me sinto no segundo turno das eleições 2014 (imagem retirada daqui)

Acho que já está todo mundo emocionalmente cansado com este ano de 2014. Eu sei que eu estou. Felizmente, domingo é dia de segundo turno e vamos poder respirar um pouco do que seria um ano normal. Espero que a partir da próxima semana eu consiga diversificar mais os temas do #ValorizeAsMinas, porque agora praticamente tudo o que leio é sobre eleições. E o pior, não tenho lido nada de novo.

Meu recadinho hoje é para aqueles que não votam em Laércio. Votar nulo ou votar criticamente em Dilma são posições válidas. Não acho justo usar o argumento de que o voto nulo é falta de cidadania para dissuadir os eleitores a votar no seu candidato. E para quem vota nulo, acho injusto exigir que os eleitores críticos da Dilma sejam mais críticos (e por consequência votem nulo). Para começar, isso é muito arrogante, é partir do princípio de que sua crítica é melhor que a dos outros e é tão arrogante quanto FHC dizer que quem vota no PT é desinformado.

Então, que venha o segundo turno. Podem aguardar o #ValorizeAsMinas da depressão na semana que vem, caso o Laércio ganhe. hahaha. Vamos aos links da semana (e sem falar sobre eleições, pois acho que não há nenhum fato novo)!

1. Padrão de Beleza e Gordofobia

Esta semana, a mídia de celebridades e as redes sociais ficaram chocados com a aparência de uma mulher, Renée Zellweger, atriz de 45 anos. Sugiro a leitura de três textos sobre o assunto, Renée irreconhecível ou a mulher que não "envelhece bem" , de minha autoria; O Que Aconteceu Com Renée Zellweger?, no Biscate Social Club e Envelhecendo em público, no Lugar de Mulher.

Gordofobia e a mãe: Já reparou que logo após o parto, ou até antes mesmo, as pessoas cobram para que a mãe "se cuide"? veja o que isso realmente significa.

2. Violência contra a mulher

Mais uma : Um texto sobre a condenação de Oscar Pistorius a míseros CINCO ANOS de cadeia, por assassinar friamente sua namora Reeva Steenkamp. Na verdade, na prática o Júri o eximiu do crime de feminicídio, passou a tratar o caso como um assassinato culposo, já que considerou todos os depoimentos de Pistorius e desconsiderou todas as evidências em contrário.

5 aplicativos contra a violência sexual feminina :  Porque precisamos de mais mulheres nas áreas de tecnologia, desenvolvimento de aplicativos? está aí a resposta.

3. Mulheres Notáveis

Alunas brasileiras vencem concurso de ideias inovadoras de Harvard : As mulheres brasileiras estão A HA ZAN DO em pesquisa e inovação este ano.

4. Saúde da Mulher

Closed for Business : Relato de uma garota que descobriu ter vaginismo. Quem não sabe do que se trata: é uma condição em que a vagina se contrai em espasmos dolorosos durante a penetração. É uma condição que gera muita vergonha e frustração e da qual pouco se fala.

5. Literatura

Harriet the Spy Turns 50! Chatting With Editor Beverly Horowitz About Harriet, Feminism, and Classic Books: O livro escrito em 1964, por Louise Fitzhugh é sobre Harriet  M. Welsch, uma garota de 11 anos que quer se tornar uma escritora. Ela decide ser uma espiã e começa a anotar num diário observações muito honestas sobre as pessoas que a cercam. Sabiam que o livro não teve uma recepção tão boa? Muita gente achou que Harriet tinha um comportamento errado para uma menina. Mais um motivo para ler, não é mesmo?

Uma lista de todas as publicações da @Alliahverso para ler, baixar e/ou comprar.  E não deixe de ler este texto incrível dela, que serve para escritores, mas também para blogueiros, porque de vez em quando dá vontade de ir atrás dos haters, sim, entenda porque não devemos fazer isso. E também faça o favor de assinar a newsletter :)

Lendo mulheres em 2014 : Você já parou para pensar em quantos livros escritos por mulheres você já leu? E escritos por homens? A escritora Thaís Bravo, ao perceber a desigualdade, resolveu que este ano leria livros escritos por mulheres. Você pode acompanhar neste tumblr.

Um trecho do livro Toureando o Diabo, que a @claraaverbuck está escrevendo e eu já estou ansiosa para ler. 

Turma da Mônica: A decepção : Maurício de Souza há muito tempo deixou de ser um ídolo da minha infância para ser apenas mais um babaca.

6. Facebook

Duas páginas para seguir:

A Mighty girl, que posta muita informação bacana sobre meninas e infância

Entre Luma e Frida, amo esta página, uma das minhas preferidas no facebook :)

7. LGBT

A importância do ingresso e resistência de pessoas trans no mundo acadêmico : Maria Clara, 18 anos, mulher trans, explica como é importante que as pessoas trans façam parte do mundo acadêmico.

11 Things Not to Say to a Bisexual Woman : Não, você não pode assistir.

Aline Freitas: "Eu critico o silenciamento das demandas trans": Entrevista maravilhosa com Aline Freitas, não deixe de ler. Aline fala sobre a invisibilização das pautas trans dentro do movimento LGBT, fala sobre como o assunto é abordado pelos governos federal e estadual de São Paulo, entre outros assuntos.

8. Racismo

I'm a Black Journalist. I'm Quitting Because I'm Tired of Newsroom Racism : Rebecca Caroll conta os percalços (racistas) que encontrou como jornalista negra na mídia mainstream.

9. Indígenas

Índia Yawanawá vence preconceito e faz revolução feminina na floresta : Que texto incrível, relata a história de uma mulher indígena que venceu o preconceito e galgou o posto de pajé, antes oferecido apenas aos homens.

“Índio é nós”: Motivos para a mobilização em prol dos direitos e das terras dos povos indígenas : Um ótimo texto que explica muito a problemática indígena com o congresso ruralista e a (falta de) política do governo Dilma.

Gostou dos textos que indiquei esta semana? Volte sempre, que toda quinta eu preparo uma seleção com as minhas leituras preferidas. São textos escritos por mulheres (com uma ou outra exceção), e/ou sobre feminismo e assuntos correlatos.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Renée irreconhecível ou a mulher que não "envelhece bem"

Foto polêmica de Renée

Não deve ser fácil para Renée. "Irreconhecível". Foi como descreveram a série de fotos publicadas esta semana da atriz Renée Zellweger, de 45 anos, famosa por sua atuação como a encantadora Bridget Jones. Imediatamente, a internet e boa parte da mídia internacional de celebridades se dedicou a tecer todo tipo de julgamento. Algumas pessoas ficaram tristes por ela, outras com raiva, outras pessoas (creio que a maioria) acharam divertido rir de uma mulher famosa. Cirurgiões plásticos deram seu palpite. Pegaram a sua foto e traçaram linhas por cima, como se fosse um mapa de carne de boi no açougue, para explicar os supostos procedimentos. No fim, novamente a analogia do pedaço de carne cabe aqui, não pela objetificação sexual, mas pela objetificação em si. Um objeto de análise. Ela não foi a primeira, lembro-me também do quanto se falou (mal) da plástica da Nicole Kidman e de Courtney Cox. Em entrevista para a revista PEOPLE, Renée não negou diretamente a cirurgia, mas deu a entender que não houve nenhum procedimento. Renée também disse que está feliz.

Não sei se Renée disse a verdade ou não, mas sei que a maior parte das pessoas não ficou chocada porque ela supostamente fez uma cirurgia plástica facial, afinal, tantas atrizes fazem cirurgias plásticas, não é? Por exemplo, Scarlett Johanson e Jeniffer Aniston já fizeram cirurgias para afinar o nariz, Diane Krueger colocou próteses de silicone nos seios. Cirurgias plasticas e tratamentos estéticos são incentivados. O que choca as pessoas é o resultado insatisfatório, não a prática da intervenção. Por isso, parece que todo mundo está passando à quilômetros de distância da questão que deveríamos discutir: O direito da mulher a envelhecer.

No caso de Renée, acho que existe uma pressão que já a acompanha há um bom tempo porque ela precisou engordar para fazer o papel de Bridget Jones. Isso jogou os holofotes sobre seu corpo também. Este engorda-emagrece para entrar na personagem fez com que suas aparições fossem cercadas de comentários sobre o seu peso e sua aparência. Assim, mesmo uma mulher branca, loira, de olhos claros, cabelos lisos (muito enquadrada nos padrões de beleza) pode se sentir pressionada a estar sempre bonita e jovem.

A profissão de Renée também gera um impacto grande nas mulheres que envelhecem, já que Hollywood costuma dar somente aos homens o direito de envelhecer. Se o homem envelhecer, se engordar, se enrugar, vai continuar atuando, vai ser lembrado como um grande ator, que um dia foi também um galã. Já as mulheres precisam "envelhecer bem". Pode ter rugas, mas não pode ter muita. Pode ter cabelo branco, mas tem que ser magrinha. Ah, e faça o favor de cobrir os braços, porque pele sobrando debaixo do braço está proibido (quem se lembra das pessoas chocadas com o braço da Madonna?). Assim, exige-se que a mulher aceite sua idade, mas só até certo ponto, ela precisa "se cuidar". Regrinhas não vocalizadas, mas que podemos observar claramente. Afinal, quanto mais idade a mulher tem, menos quantidade e menos diversidade de papéis ela receberá, consequentemente, menos dinheiro também.

Outro dia, eu estava assistindo a série de TV True Detective. Um dos protagonistas, Marty, tem uma esposa, Maggie, e uma amante, Lisa. Marty me parece um homem entre os 40 e 50 anos de idade, mas tanto Maggie quanto Lisa são bem mais jovens. A TV, embora tenha se tornado um pouco mais democrática, ainda possui limitações quando o assunto é o envelhecimento de uma mulher. São raras as séries como Orange is the new black, onde a diversidade é parte crucial do entretenimento. Várias das séries de TV atuais tem como protagonistas homens de meia idade namorando mulheres com metade de sua idade. Juro que não é uma questão de moralismo, mas isso é fetichismo de quem produz e de quem consome esses produtos. As mulheres que tem papéis relevantes estão cada dia mais jovens.

Se Renée fez ou não uma cirurgia ou um tratamento, não importa. Não estamos no direito de julgar as atrizes por não se darem ao luxo de envelhecer sem cirurgia plástica, nem de exigir que envelheçam "bem", mas deveríamos sim exigir mais diversidade, para que nenhuma atriz se sinta pressionada a esconder suas ruguinhas e para que mais mulheres percam o medo de envelhecer.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Valorize As Minas: Malala, prêmio Nobel da Paz 2014

As eleições estão me deixando emocionalmente desgastada. Junte-se a isso um final de semana corrido, uma semana atarefada, estou exausta. Por isso, não vou escrever texto introdutório para os links de hoje. Fiquem apenas com o discurso de agradecimento da Malala, a mais jovem ganhadora do Nobel da Paz.


Uma boa semana para vocês!

1. Música

Girls in Country Songs: Muito legal esse clipe de uma dupla de cantora country criticando a imagem da mulher no meio, que é muito masculino (Vejam, gente, é muito engraçado!).

2. Comportamento

10 Things Childfree Women Are Tired Of Hearing : Você já revirou os olhinhos hoje?

Asneiras que mulheres que querem parto natural escutam : Espera que tem mais. Pode continuar revirando os olhinhos.

3. Outubro Rosa

Outubro rosa: seios além da erotização : Para refletir sobre como a nossa sociedade erotiza os seios o tempo todo.

Câncer de mama: uma crítica à saúde pública : A Dra. Ana Luiza Antunes Faria fala sobre sua experiência como ginecologista e mastologista e aponta as falhas da saúde pública voltada para a mulher.

4. Questões raciais

Só o amor afrocentrado cura e liberta?: Reflexão sobre como combater a solidão da mulher negra.

Map, Illustration Meant to Prompt Dialogue About Missing, Murdered Indigenous Women : Um mapa colaborativo para mostrar os casos de desaparecimento e assassinato de mulheres indígenas americanas.

5. Aborto

As blogueiras feministas fizeram uma sequência de posts muito bons sobre aborto: Aborto e o controle social dos corpos , Só engravida quem quer? , É só dar para adoção? São só nove meses?

6. Eleições

Um candidato machista para ninguém botar defeito : Você, mulher, já foi desqualificada por um homem durante um debate? já foi chamada de confusa? algum deles já levantou a voz para você? Te chamou de mentirosa? Ele tentou te intimidar usando tom de voz, olhar intimidador? tentou fazer parecer que você não sabia do que estava falando? Toda mulher já passou por algo parecido. A presidenta Dilma teve que aguentar essa palhaçada no último debate.

Dilma: a vingança de Vargas contra Carlos Lacerda : Incrível como esse momento político reflete o passado. O autor mostra as semelhanças entre Aécio Neves e Carlos Lacerda.

No Piauí, razões para voto em Dilma vão muito além do Bolsa Família : É preciso sair um pouco da sua bolhinha de privilégio para entender que o Brasil é grande, é enorme, e há muito mais gente precisando de cuidados do que você pensa. 

Por que Aécio Neves nunca processou Juca Kfouri : Sobre Aécio, o agressor de mulheres.

Today in 1918: Suffragists Occupy the Senate : Já que estamos falando de eleições, achei esse texto sobre um evento em que sufragistas ocuparam o senado americano. 

7. Bullying

Overcoming the Bully: My Life With Tourette Syndrome : Um relato sobre como é conviver com a síndrome de Tourette.

8. Estupro

Kesha Sues Producer Dr. Luke for Sexual Assault and Battery (Trigger Warning): Kesha está processando o seu produtor por anos de abuso físico, psicológico e estupro. 

9. Games e terrorismo

Está acontecendo uma coisa muito séria nos Estados Unidos. Provavelmente quem não se interessa em cultura pop ou games não está ligado. O assédio contra a feminista Anita Sarkeesian, que lançou um projeto para investigar o machismo nos games, oficialmente se tornou terrorismo. Ela daria uma palestra numa universidade, mas houve uma ameaça de chacina, ou como eles falam "shooting", que é aquele hábito de omizinho branco americano de classe média de invadir escolas e atirar em todo mundo. Somente porque, veja só, a Anita quer uma indústria de games que não seja machista. É isso, como são legais os nerds, né? São realmente muito fofinhos e inofensivos.

Does Someone have to actually die before gamergate calms down? : Explica um pouco sobre o que está acontecendo, sobre o bullying contra as mulheres.

A point about harm: Uma resposta ao texto anterior (que pergunta se alguém terá que morrer para que o gamergate se acalme) . A autora diz que, na verdade, alguém já se machucou.

Online Threats Against Women Now Officially Terrorism Ainda sobre a ameaça de atentado terrorista.
Após ameaça terrorista, crítica feminista de videogames cancela palestra na Universidade de Utah : Em português, um breve resumo da situação.

10. O que escrevi esta semana?

Nobel da Paz 2014: Malala e o direito das meninas à educação : Escrevi um texto sobre os desafios que barram os direitos das meninas à educação no mundo e a importância de Malala.

3 exemplos da gordofobia cordial : Como a gordofobia se apresenta no dia-a-dia, cordialmente, sem intenção de magora, porém spoiler: magoa, sim.

Você gostou da postagem de hoje? Volte, que toda quinta-feira eu seleciono as minhas leituras preferidas da semana!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Valorize As Minas: O tema mais ignorado do primeiro turno

No primeiro turno, votei em Luciana Genro. Pesou para a minha decisão de voto um sentimento de indignação com o abandono de pautas de direitos humanos por parte do PT, mas agora precisei rever essa escolha. Eu nasci em uma família petista, ou como prefiro dizer, petralha. Minha mãe é fã de Roberto Carlos, mas é a foto autografada do Lula que ela guarda com carinho. 

Ela, minha mãe, nascida no interior (do interior) do Piauí, sabe o que significa passar fome. Uma das histórias que ela conta, é a lembrança de receber da minha avó um caldo ralo de feijão (que era tudo o que tinha para comer) no qual ela catava os carocinhos de feijão como se fosse carne, tamanha era a fome. Durante a minha infância eu vi meu avô e minha avó maternos viverem em uma casa de taipa com chão de terra batida e sem água encanada. Era para onde eu viajava nas férias. Isso mudou drasticamente. Meu avô hoje vive numa boa casa de alvenaria de dois quartos e nada falta a ele. Eu fico revoltada quando ouço alguém falar mal dos programas sociais do governo, ou dizer que a inclusão do governo é meramente pelo consumo. Já reparou como apenas se critica o consumo do pobre, nunca o consumo do rico? Acho hipócrita. 

Em um de seus programas eleitorais, vi um discurso emocionado de Marina Silva contando uma história semelhante a de minha mãe. Marina disse que quando era criança sua mãe ofereceu para ela um pouco de comida (uma comida bem simples, não me lembro agora o que era) e ela perguntou ao pais: "Vocês não vão comer?" e eles responderam que não estavam com fome. Marina disse que quando cresceu, percebeu que na verdade, eles não tinham o que comer. Marina concluiu, com os olhos marejados, que quem viveu uma situação dessas, jamais acabaria com o Bolsa Família. Eu vejo sinceridade nesta declaração.

Pensei em votar nulo nessas eleições, mas por ter visto as transformações que aconteceram na gestão petista, eu não conseguiria. Sei que hoje o bolsa família e demais políticas sociais empregadas pelo PT são políticas públicas de Estado, não mais de governo. Hoje são. Porém, com o fortalecimento da direita no Brasil, eu não tenho tanta certeza que será assim sempre. Os eleitores de candidatos do PSDB que sempre chamaram o Bolsa Família de Bolsa Esmola, de uma hora para outra, passaram a defender. Achei muito estranho, suspeito que seja apenas a estratégia para chegar ao poder. Mas quando chegarem, com o tempo, voltarão a falar em Bolsa Esmola e continuarão chamando trabalhadores de Vagabundos. É por isso que, dado o desenho deste segundo turno, petralharei. Ainda que digam que é uma batalha perdida, pois há um anti-petismo crescente (às vezes justificado, às vezes não).

Eu e minha mãe nas margens do Rio Xingu
Não significa que concordo com o PT em suas posturas mais recentes. Eu nasci em Altamira, no Pará. A cidade do momento, por causa de Belo Monte. Quando criança, eu tive a sorte de viver nessa cidade pela qual circulavam muitos indígenas. Essa presença cotidiana, mesmo que não muito próxima, me fez ver o índio como um ser humano, não como uma figura folclórica, uma data no calendário estudantil. Além disso, minha avó, de quem falei no começo do texto era filha de índia. Todas as minhas tias são negras como o meu avô (minha mãe foi a única filha de pele clara), mas com cabelos lisíssimos e traços indígenas. Infelizmente a aparência foi tudo o que sobrou, a cultura foi apagada de nossa história familiar. Este apagamento está ligado também à forma como governo após governo os índios são convenientemente esquecidos. Lamento profundamente a covardia do governo petista em relação aos indígenas. 

Aliás, toda a campanha eleitoral foi marcada pela ausência deste tema. 

Quando Marina Silva, ex-ministra do meio ambiente, nascida na região amazônica, pobre e negra, ingressou na campanha, as primeiras perguntas que me fiz a respeito dela foram: Será que ela terá um posicionamento humanitário em relação aos indígenas? Será que apóia as demarcações? Será que vai barrar os avanços dos ruralistas? As respostas que ouvi foram contraditórias. Em entrevista à CBN, o jornalista Milton Yung propôs um cenário de conflito entre indígenas e madereiros e perguntou como ela resolveria. Ela disse que os conflitos existem porque o governo não está presente e se posicionou a favor dos indígenas. Mas em outras ocasiões quis agradar os ruralistas ao dizer que não era contra os transgênicos, acenou para um relaxamento da lei do trabalho escravo e ainda tinha um vice ligado ao agronegócio. Não dá para agradar todo mundo, como disse Luciana Genro, Marina precisava escolher uma lado. Tudo isso me fez ver que Marina possivelmente faria como Dilma, fecharia os olhos em nome da governabilidade. 

E Aécio? Bom, este nem lembra que os Índios existem, inclusive deve preferir que não existam. Ele quer acabar com a hegemonia de demarcação da FUNAI. Isso é muito grave. Dividir essa função com um congresso extremamente conservador e ruralista é um retrocesso enorme. Os pequenos, entre eles a candidata que escolhi, mal tinham tempo para falar das suas bandeiras prioritárias (como aborto, direitos LGBT e combate ao tráfico), contudo ainda vejo como um erro enorme não ceder tempo algum para falar da questão indígena brasileira. Até quando vamos ignorar? Até que não sobre mais um índio sequer no Brasil? O que é preciso para que o PT retome esta pauta histórica? Será que neste segundo turno há a chance deste tema crescer? 

Recomendo a leitura:

Liderança Guarani Kaiowá ameaçada de morte denuncia Estado brasileiro ao Conselho de Direitos Humanos da ONU : Um número me deixou chocada. os índices de homicídio em algumas reservas Guarani Kaiowá chegam a 590% em relação média brasileira.

Marina, o PT e os Índios : Sobre como esta pauta histórica do PT foi abandonada.

E vamos ao demais links da semana!

1. Mulheres Notáveis

18 mulheres brasileiras que fizeram a diferença – Parte 1 e Parte 2: De Maria Quitéria à Dilma Rousseff.

Brasileira semianalfabeta vira fotógrafa para vencer a depressão : Conheça o trabalho fantástico de Tina Gomes.

2. Quotes

Everyone Needs to Read Jennifer Lawrence's Powerful Statement on Her Nude Photos : Nada como dar voz para a vítima, não é mesmo? 

Jennifer Aniston's Thoughts On Marriage: Link antiguinho mas eu só vi esta semana. Acho muito lindo ver uma atriz dizer que não se importa em não casar ou ter filhos, que isso não define seu valor como mulher. Não é maravilhosa?

Gillian Anderson on the "Intolerable" Sexism in Hollywood, Society : A eterníssima Dana Scully fala brevemente sobre como o machismo atuou e ainda atua sobre sua carreira.

3. Comportamento

Swooning, Screaming, and Sociology: Girls’ Behavior at a One Direction Concert is a Feminist Issue : Afinal, porque gritam as meninas em shows do One Direction? É pura libertação sexual ou tem mais coisa por trás deste comportamento? Eu não sei se concordo com as conclusões deste texto, mas dá uma boa reflexão!

Um sentimento que tenho o tempo todo,

Outsiders : Uma seleção de livros sobre ser alguém que não se encaixa.

4. Filmes & Séries

Gone Girl's Rape Problem (Spoilers): Tá rolando um filme novo aí que eu estou querendo assistir, o tal do "Gone Girl", ou "Garota exemplar". Não existe consenso se o filme critica ou reforça estereótipos sobre as mulheres. Esta crítica em particular, acredita que a história é um avanço em termos de representação feminina, porém, tem um problema sério: Uma falsa alegação de estupro.

I'm Blond, Blue-Eyed, and the New Face of Diversity : Um pouquinho sobre a importância da diversidade dentro e fora das telas.

Por que Game Of Thrones cortou a personagem mais feminista da próxima temporada? : Estou pensando muito seriamente em abandonar GoT.

5. Esporte

Top Women’s Soccer Players File Gender Discrimination Lawsuit Against FIFA: Imagina a situação: A Fifa resolve que a copa do mundo de futebol masculino será realizada apenas em campos de grama artificial, notoriamente mais perigosos para os atletas. Cenário impossível, não é? Para as mulheres, não. Algumas das maiores jogadoras de futebol estão entrando com um processo contra a Fifa e a Canadian Soccer Association por discriminação de gênero. Quanta mina firmeza no futebol, gente. <3

6. Tá pouco de feminista, manda mais!

Michelle Monaghan On Sexist Double Standards And Why She's Absolutely A Feminist : Mais uma celebridade que se declara feminista :) Vamos dominar o mundo, sim.

O elenco de Parks & Recreation, uma das minhas séries queridinhas do coração, é firmeza demais! Dessa vez o Aziz Ansari se declarou feminista (de forma hilária) no David Letterman.



7. Raça, Feminismo Negro e capacitismo

The Price of Black Ambition : A autora de Bad Feminist, Roxane Grey, conta um pouco sobre sua trajetória como mulher negra e ambiciosa. Ela mostra como a sociedade é condescendente com as pessoas negras que "alcançaram o seu momento" através da "meritocracia". Muito bom, vale demais a leitura!

O feio conflito interno do feminismo: porque o seu futuro não depende das mulheres brancas: Texto muito interessante sobre uma diferença fundamental que norteia os feminismos das mulheres brancas e das mulheres negras. As primeiras buscam igualdade e o direito de se inserir plenamente, as segundas buscam justiça e mudanças estruturais no sistema. Não deixe passar este texto.

Angry About The White Lesbians Suing For Having A Black Child? You’re Missing Something : Sabe aquela notícia das lésbicas brancas que processaram o banco de esperma porque o doador era negro? Então, o texto mostra a relação entre o racismo deste caso e o capacitismo.

8. Aborto

Excelente programa do Observatório da Imprensa sobre Aborto.

9. Apagamento

Porque a arquitetura tem que ouvir suas mulheres esquecidas: Amigas arquitetas, vamos ler um pouco sobre como o Pritzker, maior premiação da nossa área tem "esquecido" das mulheres arquitetas?

The Forgotten Female Programmers Who Created Modern Tech : Engraçado como mais uma vez usaram a palavra "esquecidas" para se referir às mulheres de determinada área de conhecimento. Dessa vez, da área de programação. Eu diria que talvez a melhor palavra fosse "apagadas", porque o esquecimento é muitas vezes involuntário, o apagamento é ativo, cheio das piores intenções.

10. Violência contra a mulher

An open letter to President Bollinger and the board of trustees (TW-Estupro): Vocês se lembram de Emma Sulkowicz? a moça estuprada dentro do Campus da Universidade Columbia, que como forma de protesto carrega consigo um colchão, para lembrar a todos da barbárie da qual foi vítima? Pois bem, seus pais divulgaram uma carta aberta ao presidente da Universidade.

11. Panorama Mundial

Teachers Under Attack: A fundação Malala nos lembra dos professores que estão sendo atacados pelo mundo, principalmente por serem vetor de transformação na vida das meninas. 

One-Third of the World's Women in Prison Have One Striking Thing in Common : Um terço das mulheres encarceradas no mundo tem uma coisa em comum: Elas são dos Estados Unidos. EUA é o país que mais encarcera mulheres, o link faz uma análise das causas e dos resultados disso.

12. Eleições

A outra política : Favor não confundir com a "nova política". Uma reflexão sobre o que quer dizer um índice tão alto de abstenções, votos e nulos e brancos?

Representação feminina nas Eleições 2014: Temos mais mulheres eleitas, mas isso significa que teremos mais políticas para mulheres? Provavelmente, não. Já que este ano elegemos um congresso muito conservador.

Carta para além do muro (ou por que Dilma agora) : Jean Wyllys do PSOL conta porque escolheu votar em Dilma no segundo turno.

Surgiram dois tumblrs interessantes esta semana, o primeiro se chama "Esses Nordestinos", que faz prints da explosão de racismo, elitismo e mau-caratismo mesmo contra os eleitores nordestinos da presidenta Dilma. E o segundo, só reafirma meu desprezo pela CLASSE médica (não por médicos em particular), por seu corporativismo, falta de ética e por toda a manutenção de privilégios (afinal a larga maioria dos médicos são pessoas privilegiadas, classe média/alta e branca) e seu racismo, porque é certeza que essa reação tem muito a ver com o programa "Mais médicos", que fez ingressar em nosso país médicos negros, oriundos principalmente de Cuba, o que gerou uma onda de ódio racial velado. Vejam com os seus próprios olhinhos o tumblr "Médicos Indelicados".

13. Sugestão de projeto para apoiar

Está nos últimos dias no Cartase o projeto "Drag-se", uma websérie documental em 10 episódios, cada um sobre o cotidiano de uma Drag.

14. O que escrevi? 

Só essa crítica aqui sobre o filme Lucy.

Toda quinta-feira é dia de #ValorizeAsMinas minha seleção de links escritos por mulheres e/ou sobre feminismo e/ou sobre assuntos correlatos!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Lucy, ainda não foi dessa vez.



Muitos spoilers de Lucy e do conto A última questão, de Asimov

Finalmente assisti "Lucy", filme protagonizado por Scarlett Johansson e dirigido por Luc Besson. E um raro exemplo de protagonismo feminino no cinema, em um filme de ficção científica. O filme narra a história de Lucy, que enquanto viajava pela Coréia foi obrigada a servir de mula para traficantes coreanos distribuirem uma nova droga pela Europa. A droga, que fora alojada em seu corpo, foi absorvida pelo seu organismo e ela começa a progressivamente aumentar sua capacidade cerebral.

Conforme Lucy progride na utilização total de seu cérebro, vai se tornando cada vez mais poderosa. depois dos primeiros 15 minutos de filme passamos a não temer mais pela protagonista e somos movidos apenas por uma pergunta: O que vai acontecer quando ela alcançar os 100% de capacidade do cérebro?

Eu pensei que seria um filme de "super heroína". Na verdade, não é. Para ser heroína talvez a Lucy precisasse lutar por um causa ou por outros seres humanos. Não há um conflito de bem versus mal. Muitas pessoas disseram que se tratava de um filme com linguagem de HQ. Eu diria que na verdade, é linguagem de mangá/anime. Não é à toa que vemos tantos orientais na tela, está clara a referência a animes clássicos, como Akira e Evangelion, que exploram questões existencialistas.

Porém, acho que Lucy permanece à sombra de suas referências. Um dos motivos é a tentativa frustrada de realizar um filme de ação. Seria muito mais interessante se fosse uma ficção científica com enfoque dramático. Todos os pontos fortes do filme estão ancorados no debate filosófico, todos os pontos fracos estão na tentativa de tornar o filme ágil, dinâmico. Essa correria atrapalhou o desenvolvimento de um vínculo afetivo com a personagem, já que ela perde sua humanidade quando ainda estava em 20%. Assim, não há tempo para nos identificarmos com Lucy. O que é muito irônico, já que a grande epifania do filme nos fala exatamente do "tempo". A personagem percebe que é o tempo a unidade de medida que dá sentido à humanidade.

Quando Lucy alcança os 100%, também é possível lembrar do conto de Asimov, "A última questão", em que uma pergunta é repetida através de bilhões de anos a gerações de supercomputadores: "É possível reverter a entropia?". E a resposta sempre foi: "Dados insuficientes para uma resposta significativa". Até que a entropia aconteceu e todas as consciências humanas uma a uma passaram a integrar o supercomputador chamado AC Cósmico, que jazia no espaço, que não era feito nem de matéria, nem de energia. Uma consciência única desperta no Caos que um dia tinha sido o universo. AC então disse: "Faça-se a luz!". Assim como AC, Lucy acaba por se tornar uma consciência desperta e capaz de transcender o espaço-tempo.

Eu lamento que este ainda não seja o filme com protagonista feminina que tenho esperado, principalmente porque esta protagonista não tem a força de uma personagem como a Katniss, que tem uma história tão relacionável, por quem acabamos nutrindo uma empatia natural. Embora os números pulem na tela (há um contador marcando as porcentagens) não há desenvolvimento da personagem. 

Apesar de tudo, fico feliz de saber que mesmo um filme mais ou menos como este é capaz de bater a marca dos 400.000.000 em bilheteria mundial. Um verdadeiro tapa na cara dos estúdios que insistem em botar para escanteio as protagonistas mulheres usando o argumento de que não são filmes lucrativos. Filmes com mulheres podem ser lucrativos, sim. Imagina só quando fizerem filmes de super heroínas realmente bons?