No primeiro turno, votei em Luciana Genro. Pesou para a minha decisão de voto um sentimento de indignação com o abandono de pautas de direitos humanos por parte do PT, mas agora precisei rever essa escolha. Eu nasci em uma família petista, ou como prefiro dizer, petralha. Minha mãe é fã de Roberto Carlos, mas é a foto autografada do Lula que ela guarda com carinho.
Ela, minha mãe, nascida no interior (do interior) do Piauí, sabe o que significa passar fome. Uma das histórias que ela conta, é a lembrança de receber da minha avó um caldo ralo de feijão (que era tudo o que tinha para comer) no qual ela catava os carocinhos de feijão como se fosse carne, tamanha era a fome. Durante a minha infância eu vi meu avô e minha avó maternos viverem em uma casa de taipa com chão de terra batida e sem água encanada. Era para onde eu viajava nas férias. Isso mudou drasticamente. Meu avô hoje vive numa boa casa de alvenaria de dois quartos e nada falta a ele. Eu fico revoltada quando ouço alguém falar mal dos programas sociais do governo, ou dizer que a inclusão do governo é meramente pelo consumo. Já reparou como apenas se critica o consumo do pobre, nunca o consumo do rico? Acho hipócrita.
Em um de seus programas eleitorais, vi um discurso emocionado de Marina Silva contando uma história semelhante a de minha mãe. Marina disse que quando era criança sua mãe ofereceu para ela um pouco de comida (uma comida bem simples, não me lembro agora o que era) e ela perguntou ao pais: "Vocês não vão comer?" e eles responderam que não estavam com fome. Marina disse que quando cresceu, percebeu que na verdade, eles não tinham o que comer. Marina concluiu, com os olhos marejados, que quem viveu uma situação dessas, jamais acabaria com o Bolsa Família. Eu vejo sinceridade nesta declaração.
Pensei em votar nulo nessas eleições, mas por ter visto as transformações que aconteceram na gestão petista, eu não conseguiria. Sei que hoje o bolsa família e demais políticas sociais empregadas pelo PT são políticas públicas de Estado, não mais de governo. Hoje são. Porém, com o fortalecimento da direita no Brasil, eu não tenho tanta certeza que será assim sempre. Os eleitores de candidatos do PSDB que sempre chamaram o Bolsa Família de Bolsa Esmola, de uma hora para outra, passaram a defender. Achei muito estranho, suspeito que seja apenas a estratégia para chegar ao poder. Mas quando chegarem, com o tempo, voltarão a falar em Bolsa Esmola e continuarão chamando trabalhadores de Vagabundos. É por isso que, dado o desenho deste segundo turno, petralharei. Ainda que digam que é uma batalha perdida, pois há um anti-petismo crescente (às vezes justificado, às vezes não).
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| Eu e minha mãe nas margens do Rio Xingu |
Não significa que concordo com o PT em suas posturas mais recentes. Eu nasci em Altamira, no Pará. A cidade do momento, por causa de Belo Monte. Quando criança, eu tive a sorte de viver nessa cidade pela qual circulavam muitos indígenas. Essa presença cotidiana, mesmo que não muito próxima, me fez ver o índio como um ser humano, não como uma figura folclórica, uma data no calendário estudantil. Além disso, minha avó, de quem falei no começo do texto era filha de índia. Todas as minhas tias são negras como o meu avô (minha mãe foi a única filha de pele clara), mas com cabelos lisíssimos e traços indígenas. Infelizmente a aparência foi tudo o que sobrou, a cultura foi apagada de nossa história familiar. Este apagamento está ligado também à forma como governo após governo os índios são convenientemente esquecidos. Lamento profundamente a covardia do governo petista em relação aos indígenas.
Aliás, toda a campanha eleitoral foi marcada pela ausência deste tema.
Quando Marina Silva, ex-ministra do meio ambiente, nascida na região amazônica, pobre e negra, ingressou na campanha, as primeiras perguntas que me fiz a respeito dela foram: Será que ela terá um posicionamento humanitário em relação aos indígenas? Será que apóia as demarcações? Será que vai barrar os avanços dos ruralistas? As respostas que ouvi foram contraditórias. Em entrevista à CBN, o jornalista Milton Yung propôs um cenário de conflito entre indígenas e madereiros e perguntou como ela resolveria. Ela disse que os conflitos existem porque o governo não está presente e se posicionou a favor dos indígenas. Mas em outras ocasiões quis agradar os ruralistas ao dizer que não era contra os transgênicos, acenou para um relaxamento da lei do trabalho escravo e ainda tinha um vice ligado ao agronegócio. Não dá para agradar todo mundo, como disse Luciana Genro, Marina precisava escolher uma lado. Tudo isso me fez ver que Marina possivelmente faria como Dilma, fecharia os olhos em nome da governabilidade.
E Aécio? Bom, este nem lembra que os Índios existem, inclusive deve preferir que não existam. Ele quer acabar com a hegemonia de demarcação da FUNAI. Isso é muito grave. Dividir essa função com um congresso extremamente conservador e ruralista é um retrocesso enorme. Os pequenos, entre eles a candidata que escolhi, mal tinham tempo para falar das suas bandeiras prioritárias (como aborto, direitos LGBT e combate ao tráfico), contudo ainda vejo como um erro enorme não ceder tempo algum para falar da questão indígena brasileira. Até quando vamos ignorar? Até que não sobre mais um índio sequer no Brasil? O que é preciso para que o PT retome esta pauta histórica? Será que neste segundo turno há a chance deste tema crescer?
Recomendo a leitura:
Liderança Guarani Kaiowá ameaçada de morte denuncia Estado brasileiro ao Conselho de Direitos Humanos da ONU : Um número me deixou chocada. os índices de homicídio em algumas reservas Guarani Kaiowá chegam a 590% em relação média brasileira.
E vamos ao demais links da semana!
1. Mulheres Notáveis
18 mulheres brasileiras que fizeram a diferença – Parte 1 e Parte 2: De Maria Quitéria à Dilma Rousseff.
Brasileira semianalfabeta vira fotógrafa para vencer a depressão : Conheça o trabalho fantástico de Tina Gomes.
2. Quotes
Everyone Needs to Read Jennifer Lawrence's Powerful Statement on Her Nude Photos : Nada como dar voz para a vítima, não é mesmo?
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Jennifer Aniston's Thoughts On Marriage: Link antiguinho mas eu só vi esta semana. Acho muito lindo ver uma atriz dizer que não se importa em não casar ou ter filhos, que isso não define seu valor como mulher. Não é maravilhosa?
Gillian Anderson on the "Intolerable" Sexism in Hollywood, Society : A eterníssima Dana Scully fala brevemente sobre como o machismo atuou e ainda atua sobre sua carreira.
3. Comportamento
Swooning, Screaming, and Sociology: Girls’ Behavior at a One Direction Concert is a Feminist Issue : Afinal, porque gritam as meninas em shows do One Direction? É pura libertação sexual ou tem mais coisa por trás deste comportamento? Eu não sei se concordo com as conclusões deste texto, mas dá uma boa reflexão!
Um sentimento que tenho o tempo todo,
Outsiders : Uma seleção de livros sobre ser alguém que não se encaixa.
4. Filmes & Séries
Gone Girl's Rape Problem (Spoilers): Tá rolando um filme novo aí que eu estou querendo assistir, o tal do "Gone Girl", ou "Garota exemplar". Não existe consenso se o filme critica ou reforça estereótipos sobre as mulheres. Esta crítica em particular, acredita que a história é um avanço em termos de representação feminina, porém, tem um problema sério: Uma falsa alegação de estupro.
I'm Blond, Blue-Eyed, and the New Face of Diversity : Um pouquinho sobre a importância da diversidade dentro e fora das telas.
Por que Game Of Thrones cortou a personagem mais feminista da próxima temporada? : Estou pensando muito seriamente em abandonar GoT.
5. Esporte
Top Women’s Soccer Players File Gender Discrimination Lawsuit Against FIFA: Imagina a situação: A Fifa resolve que a copa do mundo de futebol masculino será realizada apenas em campos de grama artificial, notoriamente mais perigosos para os atletas. Cenário impossível, não é? Para as mulheres, não. Algumas das maiores jogadoras de futebol estão entrando com um processo contra a Fifa e a Canadian Soccer Association por discriminação de gênero. Quanta mina firmeza no futebol, gente. <3
6. Tá pouco de feminista, manda mais!
Michelle Monaghan On Sexist Double Standards And Why She's Absolutely A Feminist : Mais uma celebridade que se declara feminista :) Vamos dominar o mundo, sim.
Michelle Monaghan On Sexist Double Standards And Why She's Absolutely A Feminist : Mais uma celebridade que se declara feminista :) Vamos dominar o mundo, sim.
O elenco de Parks & Recreation, uma das minhas séries queridinhas do coração, é firmeza demais! Dessa vez o Aziz Ansari se declarou feminista (de forma hilária) no David Letterman.
7. Raça, Feminismo Negro e capacitismo
The Price of Black Ambition : A autora de Bad Feminist, Roxane Grey, conta um pouco sobre sua trajetória como mulher negra e ambiciosa. Ela mostra como a sociedade é condescendente com as pessoas negras que "alcançaram o seu momento" através da "meritocracia". Muito bom, vale demais a leitura!
O feio conflito interno do feminismo: porque o seu futuro não depende das mulheres brancas: Texto muito interessante sobre uma diferença fundamental que norteia os feminismos das mulheres brancas e das mulheres negras. As primeiras buscam igualdade e o direito de se inserir plenamente, as segundas buscam justiça e mudanças estruturais no sistema. Não deixe passar este texto.
Angry About The White Lesbians Suing For Having A Black Child? You’re Missing Something : Sabe aquela notícia das lésbicas brancas que processaram o banco de esperma porque o doador era negro? Então, o texto mostra a relação entre o racismo deste caso e o capacitismo.
Angry About The White Lesbians Suing For Having A Black Child? You’re Missing Something : Sabe aquela notícia das lésbicas brancas que processaram o banco de esperma porque o doador era negro? Então, o texto mostra a relação entre o racismo deste caso e o capacitismo.
8. Aborto
Excelente programa do Observatório da Imprensa sobre Aborto.
9. Apagamento
Porque a arquitetura tem que ouvir suas mulheres esquecidas: Amigas arquitetas, vamos ler um pouco sobre como o Pritzker, maior premiação da nossa área tem "esquecido" das mulheres arquitetas?
The Forgotten Female Programmers Who Created Modern Tech : Engraçado como mais uma vez usaram a palavra "esquecidas" para se referir às mulheres de determinada área de conhecimento. Dessa vez, da área de programação. Eu diria que talvez a melhor palavra fosse "apagadas", porque o esquecimento é muitas vezes involuntário, o apagamento é ativo, cheio das piores intenções.
10. Violência contra a mulher
An open letter to President Bollinger and the board of trustees (TW-Estupro): Vocês se lembram de Emma Sulkowicz? a moça estuprada dentro do Campus da Universidade Columbia, que como forma de protesto carrega consigo um colchão, para lembrar a todos da barbárie da qual foi vítima? Pois bem, seus pais divulgaram uma carta aberta ao presidente da Universidade.
11. Panorama Mundial
Teachers Under Attack: A fundação Malala nos lembra dos professores que estão sendo atacados pelo mundo, principalmente por serem vetor de transformação na vida das meninas.
One-Third of the World's Women in Prison Have One Striking Thing in Common : Um terço das mulheres encarceradas no mundo tem uma coisa em comum: Elas são dos Estados Unidos. EUA é o país que mais encarcera mulheres, o link faz uma análise das causas e dos resultados disso.
12. Eleições
A outra política : Favor não confundir com a "nova política". Uma reflexão sobre o que quer dizer um índice tão alto de abstenções, votos e nulos e brancos?
Representação feminina nas Eleições 2014: Temos mais mulheres eleitas, mas isso significa que teremos mais políticas para mulheres? Provavelmente, não. Já que este ano elegemos um congresso muito conservador.
Carta para além do muro (ou por que Dilma agora) : Jean Wyllys do PSOL conta porque escolheu votar em Dilma no segundo turno.
Carta para além do muro (ou por que Dilma agora) : Jean Wyllys do PSOL conta porque escolheu votar em Dilma no segundo turno.
Surgiram dois tumblrs interessantes esta semana, o primeiro se chama "Esses Nordestinos", que faz prints da explosão de racismo, elitismo e mau-caratismo mesmo contra os eleitores nordestinos da presidenta Dilma. E o segundo, só reafirma meu desprezo pela CLASSE médica (não por médicos em particular), por seu corporativismo, falta de ética e por toda a manutenção de privilégios (afinal a larga maioria dos médicos são pessoas privilegiadas, classe média/alta e branca) e seu racismo, porque é certeza que essa reação tem muito a ver com o programa "Mais médicos", que fez ingressar em nosso país médicos negros, oriundos principalmente de Cuba, o que gerou uma onda de ódio racial velado. Vejam com os seus próprios olhinhos o tumblr "Médicos Indelicados".
13. Sugestão de projeto para apoiar
Está nos últimos dias no Cartase o projeto "Drag-se", uma websérie documental em 10 episódios, cada um sobre o cotidiano de uma Drag.
13. Sugestão de projeto para apoiar
Está nos últimos dias no Cartase o projeto "Drag-se", uma websérie documental em 10 episódios, cada um sobre o cotidiano de uma Drag.
Só essa crítica aqui sobre o filme Lucy.
Toda quinta-feira é dia de #ValorizeAsMinas minha seleção de links escritos por mulheres e/ou sobre feminismo e/ou sobre assuntos correlatos!








