terça-feira, 2 de setembro de 2014

Blogagem coletiva: Os livros que marcaram a minha infância

Quando criança, meus pais me deram uma coleção de livrinhos ilustrados da Disney. Fiquei especialmente apegada ao Volume dividido entre Peter Pan e Rapunzel. Naquela época, as imagens me capturavam mais que as palavras, eu folheava, folheava, folheava, por horas. Mas o primeiro livro cujas palavras me prenderam, foi o clássico de Maurice Druon "O Menino do Dedo Verde". Tenho certeza não sou a única. Acredito que muitas crianças começaram a se interessar pela leitura a partir de Druon e Tistu, nosso menino herói. 


Atenção, spoilers no próximo parágrafo!

O livro conta a história de Tistu, um menino rico da cidade de Mirapólvora, filho do dono da indústria de canhões. Tistu descobre duas coisas: a tristeza do mundo e o seu "dedo verde". Tistu tem o poder de fazer brotar plantas e flores com um simples toque do seu polegar. Assim, ele transforma a realidade de todos aqueles que sofriam na cidade. Ele levou seu dom para os presídios, favelas, para as pessoas sem esperança nos hospitais, e transformou sua realidade. E, spoiler dramático, ele fez com que seu pai mudasse de ramo, em vez de lucrar com a guerra, seu pai passou a vender flores. Assim, Mirapólvora se tornou Miraflores.

É uma história com uma mensagem bonita e otimista para as crianças: Mudem o mundo ao seu redor, o transformem em algo melhor, façam o bem pelo outro. Não é uma mensagem realmente importante?

Um pouquinho mais tarde, não tenho certeza do quanto, eu li o livro "O jardim secreto", de Frances Hodgson Burnett, uma escritora inglesa. Eu não me recordo se li o livro antes ou depois de assistir o filme, que também vale a indicação. 

Sabe o que eu mais gosto neste livro? Uma personagem feminina assertiva. Claro que quando eu era criança, eu não tinha noção da importância disso, mas eu gostava muito da personagem principal, Mary Lennox. 

Atenção, spoilers no próximo parágrafo!

Mary Lennox ficou orfã e foi enviada para viver na casa de seu tio, o Sr Craven, um homem ausente mas que garante a ela materialmente tudo. Ele tinha um filho considerado doente, Collin, que todos acreditavam que morreria em breve. Por isso, ele era muito mimado, tinha todas as suas vontades realizadas sempre. Ou quase. Mary era a única que não fazia todas as suas vontades, que o confrontava. É Mary que encontra o jardim secreto, fechado há muitos anos. Collin encontra no jardim a cura para a sua fragilidade e Mary para a sua infelicidade. O jardim uniu novamente uma família que estava quebrada.

A mensagem deste livro é que os problemas das nossas vidas podem ser superados. Neste caso, a solução veio com a descoberta de um jardim lindo onde as crianças puderam ser apenas crianças.

Por fim, o terceiro livro que marcou a minha infância, foi "O Capitão Fracasso", do francês Theóphile Gautier. A essa altura eu já devia ser pré-adolescente, realmente não me recordo.

Este é um livro cheio de emoções. Conhecemos a história do jovem Barão de Signognac, um nobre de família decadente, que mal tem dinheiro para comer e alimentar seu gato, seu cachorro, seu cavalo e seu fiel mordomo Pierre. Suas únicas companhias, já que ele se isolou da sociedade aristocrática da região. Mesmo com toda a dificuldade, ele mantém o orgulho do seu Brasão, evitando pedir ajuda a outros nobres ou ao Rei (o que eu acho burrice, mas enfim). A aventura começa quando uma compania de teatro pede abrigo pela noite em sua residência. 

Os personagens são extremamente carismáticos. No grupo dos atores, além da tímida Isabelle, temos Tirano, que é o chefe da companhia, o comediante Matamouros, a matrona Lèonarde, o experiente Scarpin,  o galã Léandre, a sensual Zérbine, o "Pedante" Blázius e a invejosa Seráphine. Outros personagens completam o rol. Há os assaltantes da estrada, Agostin e Chiquita, esta última é talvez a minha personagem preferida, uma adolescente sem qualquer nível de instrução, capaz de ser violenta e feroz, e ao mesmo tempo, leal e até mesmo doce em alguns momentos. E o vilão da história, o duque de Vallombreuse, que faz tudo pelo amor de Isabelle.

Atenção, spoilers no próximo parágrafo!

Ao vê-lo tão jovem e vivendo tão miseravelmente, os artistas convidam o Barão para acompanhá-los até Paris. O Jovem barão se apaixona por Isabelle, uma das atrizes da companhia. Ele se junta à trupe de teatro itinerante e adota a alcunha de Capitão Fracasso. Ele e a companhia dividem tudo, inclusive a fome, o frio, o luto, mas também a felicidade. O homem solitário e miserável, experimenta pela primeira vez a Juventude, o amor, a amizade. Além de muitos duelos de espada. 

O livro dá uma cutucadinha na sociedade e na igreja. ;)

Muitos outros livros marcaram a minha vida depois destes. Alguns me marcaram mais profundamente. Contudo, foi aqui que a minha jornada como leitora começou. Nunca tinha reparado, mas achei curiosíssimo que todos os livros sejam europeus. Eu li bastante coleção vagalume, que nem todo mundo. Ficou claro que desde criança eu já gostava de livros do século dezoito e dezenove (exceto pelo Menino do Dedo Verde, lançado em 1957). Quando adolescente outros livros do mesmo período entraram na lista, especialmente os de Jane Austen. Mas estes ficam para a próxima blogagem coletiva!

Este texto integra a blogagem coletiva "Livros que marcaram a infância".

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A Semana: Feminismo no VMA, machismo no Emmy.

Aí você acorda um belo dia e vê que a Beyoncé mandou este recadinho para o mundo:



Melhor ainda, ela explicou feminismo, usando as palavras de Chimamanda Adichie:


“Nós ensinamos às meninas que elas não são seres sexuais do mesmo jeito que os meninos são. Ensinamos às meninas a se encolherem, para se tornarem ainda menores. Dizemos às meninas: ‘vocês podem ser ambiciosas, mas não muito bem sucedidas, senão ameaçarão os homens.’ Feminista: a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”

Começamos a semana com pé direito. Porém, se o VMA foi sucesso total, o Emmy foi meio caído. Por mais que eu ame Moderny Family, fiquei triste de não ver uma chuva de prêmio em cima de Orange Is The New Black. O pior de tudo é que pegaram uma atriz talentosa, a Sofia Vergara, que já foi indicada ao Emmy por 4 vezes e literalmente botaram ela caladinha num prato giratório para que todos apreciassem sua beleza, de frente e de costas. E por que Sofia Vergara? Toda mulher é objetificada, mas ser latina é ser objetificada duas vezes.

Você já se perguntou porque não fazem esse tipo de coisa com o Jon Hamm? Porque ele é homem. E homem é tratado como gente. Tenho certeza que neste exato momento algum machinho que está lendo este texto, contra-argumenta: "Ah, mas homem também é objetificado!". Deixa eu conseguir parar de revirar os meus olhos aqui. Ok, hoje estou com paciência (não muita). Se de fato colocassem o Jon Hamm no prato, não seria a mesma coisa. A objetificação feminina é moldada a partir de um preconceito estrutural, ela dá respaldo para a violência contra a mulher. Já a objetificação masculina não traz ônus. 

Nenhum homem vai apanhar na rua, não vai ser chamado de vadio (e mesmo que fosse a conotação é diferente, homem vadio = homem que não trabalha, mulher vadia = puta, uma forma de tentar recriminar a sexualidade feminina), e não vai morrer por ser considerado um ser inferior (um objeto). Aos homens, ainda cabem vários privilégios, melhores salários, cargos mais altos, menos discriminação no ambiente de trabalho, menos pressão para se encaixar em padrões de beleza, mais liberdade sexual, mais poder político e econômico. Tudo isso, faz com que qualquer objetificação masculina não reduza o ente "homem" a um ser inferior, que pode ser possuído e/ou violentado pelo ente "mulher". A inferiorização do homem acontece, sim. E gera violência e morte contra o homem, mas por outros motivos que não a questão de gênero. O principal destes motivos é o racismo.

1. Mulheres Notáveis

Laverne Cox on Bullying and Being a Trans Woman of Color (Em inglês, sem legenda) : A atriz Laverne Cox fala sobre sua vivência como mulher trans e negra.

Virginia Woolf's Intellectual Call to Arms for Women (Em inglês) : A revista americana The New Republic está celebrando seu centenário. Para isso, estão resgatando 100 textos antigos da publicação. Entre eles, está este ótimo texto que Virginia Woolf escreveu, que são questionamentos sobre desigualdade de gênero em tempos de guerra.

2. Relacionamentos abusivos e Feminicídio

Algumas vezes é preciso se divorciar dos seus pais : Nenhum pai ou mãe tem o direito de manter um relacionamento abusivo com seus filhos. E nenhum filho deveria acreditar que um relacionamento abusivo é eterno porque é entre pais e filhos. 

Oscar Pistorius: exemplo de superação? : O texto contesta os argumentos da defesa do atleta olímpico Oscar Pistorius que, em fevereiro deste ano, assassinou sua então namorada Reeva Steenkamp.

3. Maternidade

As meninas e a mídia : um texto muito legal sobre ser mãe de uma menina adolescente que, como todas nós, sofre influência da mídia.

4. Iniciativas

Entreviste uma mulher : O Think Olga trouxe mais uma contribuição importante para as mulheres. Para diminuir a desigualdade de gênero das fontes no jornalismo, criaram uma lista com nome e contato de mulheres em diferentes áreas de atuação.

As queridas Aline Valek e Sybylla, organizadoras do "Universo Desconstruído", uma coletânea de contos de ficção científica feminista, desta vez traduziram (e revisaram, editaram e ilustraram, porque elas são foda) um conto de ficção científica feminista de 1905, da feminista bengali Roquia Sakhawat Hussain, chamado "O sonho da Sultana" e também está disponível de graça, a única contribuição que elas pedem é que você ajude a divulgar o projeto. Você pode baixar o "Universo Desconstruído" e também o "O sonho da Sultana" neste link.

Também aguardo ansiosa o Universo Desconstruído 2 :)

5. HQ e Games

Marvel, This Is When You Send An Artist Back To The Drawing Board (Em inglês): Quando a gente acha que a Marvel está dando passos à frente dos concorrentes na representação feminina, ela dá um passinho para trás. Veja uma das capas antecipadas de Spider-Woman #1. Veja as capas redesenhadas de forma mais humana, menos sexualizada. E teve ominho achando ruim que as pessoas tenham reclamado da sexualização da personagem, eles defenderam que era só "um desenho mal feito". Bom, aqui tem uma resposta para os ominho.

The Anti-Feminist Internet Targets 'Depression Quest' Game Creator Zoe Quinn (Em inglês): Mais uma vez uma mulher é vítima de bullying virtual, mais uma vez é a comunidade nerd e gamer quem está por trás dos ataques, mais uma vez uma mulher é condenada por sua conduta sexual e claro, mais uma vez, a atitude de uma mulher é estendida a todas as outras. Os gamers são um grupo muito misógino.

Women as Background Decoration: Part 2 - Tropes vs Women in Video Games (Em inglês, sem legenda) : Saiu o segundo vídeo da Anita Sarkeesian, do Feminist frequency sobre a representação feminina nos games. O primeiro vídeo, que eu já indiquei antes, focava na objetificação de mulheres que são personagens não jogáveis e que estão no jogo apenas como cenário. Desta vez, a análise foi mais fundo no uso da violência contra a mulher como forma de criar a ambientação do jogo. Ah, e apenas um dia após lançar o vídeo, a Anita Sarkeesian e sua família já receberam ameaças. 

Women Now Make Up Almost Half of Gamers (Em inglês) : Isso mesmo, quase metade da população de gamers é mulher. E o grupo de mulheres gamers adultas é maior que o de homens gamers adolescentes, o público alvo mais comum para desenvolvedores de jogos.

6. Padrão de beleza

Without a hair in the world - Shaving my head changed the inside of it , too (Em inglês): Eu amei este texto. A autora conta sobre a sua decisão de raspar a cabeça, fala sobre a reação das pessoas, o assédio que recebe (ou não recebe, neste caso) e outras questões. Muito bom. Há muito tempo atrás eu li um texto emocionante sobre raspar a cabeça, porém ele só foi publicado em uma revista impressa. Uma amiga transcreveu no facebook e eu repasso para vocês. Coloquei em imagem para evitar que ele corra por aí apócrifo. :)

7. Gentrificação

Gen.tri.fi.ca.ção. Você sabe o que é? tenho certeza que sim. O termo Gentrificação foi cunhado pela Socióloga britânica Ruth Glass em 1964, para explicar a expulsão das pessoas pobres de zonas das cidades que se valorizam, uma vez que aumentam os custos de bens e serviços da região. Trata-se de um fenômeno social a cada dia mais recorrente nas grandes cidades do mundo.

E se Porto Alegre se adaptasse aos moradores de rua? : Texto muito bacana que contesta as medidas urbanísticas e arquitetônica utilizadas para afastar a população em situação de rua dos centros urbanos. E se fizessem o contrário? E se apoiassem e empoderassem a população de rua, dando artifícios para que consigam sobreviver dignamente?

Maluf, o Minhocão e a gentrificação : Texto que aborda o que poderá acontecer com a população pobre moradora do centro de São Paulo se o minhocão for desativado.

São Paulo começa a aplicar IPTU anti-especulação : O prefeito Fernando Haddad vai começar a aplicar uma medida já prevista e lei ignorada por gestores anteriores por falta de vontade política em impedir a especulação imobiliária.

8. Genocídio da Juventude Negra


Perdi a oportunidade de divulgar II Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro, eu estive de férias e não acompanhei muito bem a agenda feminista da semana passada. :(

Série emocionante mostra as últimas frases de homens negros assassinados por policiais e lança debate : Usando uma frase do texto, "Dê uma olhada nessas histórias e lembre-se: Ferguson é na sua esquina, é no Rio, em São Paulo, é aqui."

9. Meus textos da semana

Cantoras gordas (Parte 1): jovens, poderosas e seu discurso afirmativo: Finalmente quebrei o jejum! Escrevi sobre mulheres gordas na música. Listei algumas várias, com a ajuda dos meus colegas de auditório no twitter. Mas como são muitas, os textos vão saindo aí aos poucos. ;) Ah, fiz até uma playlist! escute aí a "Mulheres Gordas - Awesome Hits - Volume 1"

Gostou da lista desta semana? Tem alguma sugestão de link? Deixe seu comentário aí. E volte sempre, porque toda quinta-feira tem mais #ValorizeAsMinas, uma seleção de links sobre feminismo e assuntos correlatos :)


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

#ValorizeAsMinas: Roger Abdelmassih finalmente preso!

Esta semana eu estou de férias, acabei passando menos tempo na internet e mais tempo dormindo, lendo, saindo no meio da tarde para ver o dia lá fora. Então, a lista hoje está mais curtinha, nem por isso menos informativa!

Eu também ensaiei voltar a desenhar.

Minha amiga e super heroína Aline Valek

Esta semana, finalmente, o ex-médico, estuprador e misógino Roger Abdelmassih foi preso devido aos esforços das vítimas em localizá-lo. Isso mesmo, as vítimas é que fizeram o trabalho de desencavar as pistas sobre o paradeiro dele, que aparentemente estava sendo protegido por gente ~importante~ , a quadrilha que envolve políticos também está mergulhada em lavagem de dinheiro. Mesmo recebendo ameaças de morte, elas não esmoreceram. A força dessas mulheres é impressionante, é emocionante. 

1. Mulheres Notáveis

Morre Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio: Mais uma mulher notável que 2014 levou embora. O pioneirismo no teatro municipal foi importante para a reafirmação dos negros como artistas e a valorização da cultura brasileira. 

MC Xuxu: funkeira, travesti e feminista na luta contra o preconceito: MC Xuxu maravilhosa. O Funk segue como um dos gêneros musicais mais abertos para o empoderamento das mulheres cis e trans.

Uzo Aduba, a “Crazy Eyes”, vence prêmio Emmy especial por “Orange Is The New Black” : Merecidíssimo, a Uzo é uma atriz maravilhosa e a Suzanne é uma personagem que me emociona muito, hoje considero minha personagem preferida em Orange is the new black.

2. Cinema

Girls on Film: 5 things that need to happen before Hollywood will evertruly change (Em inglês): A autora lista alguns dos problemas que vê na representação feminina em Hollywood.

3. Esporte

Muito além do (?)x1: o desabafo do futebol feminino : A seleção brasileira feminina de futebol perdeu para a Alemanha de 5X1 e foram injustamente comparadas aos jogadores da seleção masculina que perderam de 7x1 para a Alemanha. Por isso, elas escreveram um desabafo.

4. Violência sexual e tortura

Vítimas se revoltam e se emocionam ao lembrar o horror que viveram com o ex-médico (TW - Estupro, aborto, automutilação, violência contra a mulher) : As vítimas do ex-médico estuprador Roger Abdelmassih foram ao aeroporto esperar pelo momento de sua prisão. Elas relataram o drama que viveram, estupros, abortos, experiências genéticas, coerção, violências psicológicas diversas. Não tem como não ficar emocionada e muito chocada ao ouvir estes relatos. E também não tem como não admirar a força dessas mulheres que lutaram até o fim para obter justiça.

A jornalista Miriam Leitão conta como foi torturada grávida (FW: Estupro, tortura) : Miriam leitão conta como foi torturada pela ditadura militar aos 19 anos, durante os três meses que passou na prisão.

Aluna da USP: Fui estuprada em festa da faculdade e queriam abafar o caso (FW: Estupro) : Não é só nos Estados Unidos que as universidades se unem em torno dos alunos estupradores e silenciam as vítimas. Isso também acontece no Brasil e em uma das faculdades mais respeitadas do país.

5. Violência Obstétrica

Violência Obstétrica: Mapa de abusos cometidos no parto : A arquiteta Isabella Rusconi e seu marido Carlos Pedro Sant'Ana, criaram um mapa interativo onde as mulheres podem relatar os casos de violência obstétrica. A iniciativa é maravilhosa para dar visibilidade para um tema do qual a imprensa não fala muito e, quando fala, dá prioridade para a opinião da medicina cesarista e trata as mulheres que discordam, ou que preferem o parto humanizado, ou mesmo as que denunciam a violência como loucas.

6. Aborto

Aula Pública Opera Mundi: por que a sociedade precisa legalizar o aborto? : O link é de abril, mas eu ainda não tinha visto. :) A psicóloga e líder da Marcha Mundial das Mulheres explica em uma aula pública, registrada em vídeo, a situação do aborto no Brasil, porque ele precisa ser legalizado, quais as consequências para a mulher que faz o aborto clandestino, analisa o modelo uruguaio e etc. Muito informativo! 

7. Eleições

Campanha "Não vote em ruralistas": Você sabia que hoje são 18 senadores e 140 deputados que fazem parte da chamada bancada ruralista?

Marina é a segunda via do PSDB : O que significa ter Marina Silva como forte candidata à presidência? Pouca coisa, ela não representa o novo. Na verdade ela está coladinha com o que há de mais velho na política brasileira.

8. Panorama mundial

Ebola crisis: This is why '75%' of victims are women (Em inglês) : O texto explica como a tarefa vista como feminina de "cuidar" do outro tem vitimado as mulheres.

Mulheres Palestinas: Violação com marca de gênero : Um texto muito interessante sobre como as mulheres palestinas são afetadas pelo conflito e pelo machismo, resultando em tortura, estupros, violência e feminicídios.

9. Ferguson

Sim, eu sei que este tema deveria entrar em Panorama mundial, mas achei importante falar um pouco mais especificamente sobre este tema, que também nos é tão caro no Brasil. Na cidade de Ferguson, no Missouri, um jovem negro chamado Michael Brown, desarmado, foi assassinado com vários tiros por um policial branco. Há muita relação com o genocídio da juventude negra que ocorre diariamente por aqui. 

7 Black Women to Follow for Updates on #Ferguson (Em inglês): Dicas de sete mulheres que estão relatando o caso Ferguson na internet.

Black women are killed by the police, too (Em inglês): Texto sobre como os casos de assassinatos de jovens negros tem mais visibilidade e mais repercussão que os casos que vitimam mulheres negras.

High school siblings create mobile app to empower citizens to rate and review law enforcement (Em inglês) : Alunos do ensino médio desenvolvem um aplicativo para celular, onde os usuários poderão relatar as abordagens policiais e apontar violências ou falta de profissionalismo.

Who’s Policing the Police? Statistics on Police Involved Shootings are Nearly Nonexistent (Em inglês) : Um texto sobre como a polícia age como se estivesse acima da lei e como isto é aceito pela sociedade americana.

10. Escrevi alguma coisa? R: Não. 

Então, se você gostou das indicações de hoje, volte sempre! Toda quinta eu faço uma seleção de links sobre feminismo e assuntos correlatos! :) Até o próximo #ValorizeAsMinas


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

#ValorizeAsMinas: Calendário 2014, um enorme obituário

Quantos óbitos esta semana, hein? Aliás, este ano! Morreram muitas pessoas conhecidas e notórias, mas foi também tem sido um ano de guerras, surto de Ebola e não vamos esquecer dos genocídios não noticiados na TV. Todo mundo ficou um pouco abalado de ver um candidato à presidência da república morrer de forma tão súbita. Eu não gostava de vários de seus posicionamentos políticos, em especial, eu não gostava da forma como o Eduardo Campos falava de forma moralista sobre o aborto. Eu quero mais mulheres na política, eu quero mais políticas para as mulheres. Daí a sair comemorando a morte de uns ou desejando a morte de outros é uma distância muito grande.

Ontem (e na verdade até antes) não foi um dia legal para estar na internet, porque faltou um pouco de humanidade, de respeito, de ficar na suinha. E não é só por aqui, não. Essa falta de humanidade não atinge apenas os brasileiros, fiquei sabendo que a filha do  Robin Williams saiu do twitter porque estava sofrendo bullying (Em inglês). Gente? Se nós vivemos mesmo na Matrix, já está permitido passar a régua pois esta versão aqui não deu certo.


De todos os óbitos da semana, o menos comentado foi o de uma mulher, a Lauren Bacall. Se você, como eu, não conhece muito de cinema noir e por consequência também não sabe muito sobre esta atriz, pode começar lendo este texto aqui (Em inglês).

1. Paternidade: 

O dia dos pais passou e eu esqueci de falar dele na semana passada. Então aqui vai a minha seleção problematizando a paternidade.

Maternidade obrigatória, paternidade facultativa: Texto do ano passado, mas atual. A autora usa o exemplo de uma matéria do G1 para mostrar o duplo padrão da sociedade em relação à mãe solteira e o pai solteiro. A mesma autora escreveu um texto legal este ano, Pai não ajuda, pai faz! - Sobre o dia dos pais e o exercício da paternidade.

Paternidade honesta, participativa e feminista: O texto mostra que as justificativas usadas para transferir a responsabilidade da criação dos filhos para as mulheres são fruto de uma cultura machista.

Eu não consigo te desejar feliz dia dos pais: Relato cortante de uma filha sobre um pai ausente.

2. Mulheres e transporte público

Why do guys spread their legs when sitting on the subway? My weekend of sitting like a man (Em inglês): Uma moça relata seu experimento, ela passou um final de semana inteiro fazendo viagens de metrô e sentando-se de pernas bem abertas, como acontece com frequência com homens e observou sua própria reação e a das pessoas no vagão.

3. Mulheres Notáveis

“Parecem cemitérios de mulheres vivas”, diz advogada que defende direito de presos sobre cadeias femininas : Entrevista com a primeira mulher a presidir o Conselho Penitenciário do Rio de Janeiro, a advogada Maíra Fernandes. Ela conta um pouco de sua história pessoal e revela a situação dos presídios masculinos e femininos.

Astronaut Mae Jemison Talks About Fulfilling Her Space Dreams (Em inglês): Vídeo em que Mae Jemison, primeira mulher negra afroamericana a ir ao espaço, fala rapidamente sobre sua juventude e o seu desejo de ser astronauta.

Professora com Síndrome de Down quebra barreiras para dar aulas e palestras sobre inclusão : Um pouco sobre a professora Débora Seabra, primeira portadora de Síndrome de Down a lecionar no país.

First woman ever wins a Fields Medal for mathematics (Em inglês): A iraniana Maryam Mirzakhani ganhou a medalha Fields. A primeira mulher a ganhá-la desde que a premiação foi criada em 1936. Este prêmio é importante porque as mulheres são desestimuladas a seguir carreiras na área de exatas, muitas das minhas amigas relatam que até mesmo professores costumavam diminuí-las, como se elas não fossem capazes de serem tão boas quanto os meninos em matemática. Acho que tive sorte, tive um professor muito bom na quinta série que abria um sorriso enorme quando eu queria tirar uma dúvida de matemática com ele. Eu era uma suas alunas preferidas, na verdade, todos os melhores alunos na quinta-série eram meninas. Claro que somos capazes. De qualquer coisa. :)

Morre Lauren Bacall, ícone da era dourada de Hollywood: Morreu aos 89 anos a atriz Lauren Bacall, que foi um ícone do cinema noir. Lauren já foi premiada com um oscar honorário, globo de ouro e dois Tonys ao longo de sua carreira.

4. Padrão de Beleza & Gordofobia

Women Are Sharing Gorgeous Pictures Of Their Real Bodies With The #Fatkini Hashtag (Em inglês): Uma seleção de fotos de mulheres gordas de biquíni sapateando na cara dos gordofóbicos.

Pergunte às Bee 43 - Gorda & Sapatão : A Jéssica Ipólito participou de um vídeo ótimo do Canal das Bee, onde ela fala sobre gordofobia.

12 coisas que nós mulheres evitamos fazer só por sermos gordas: Nossa, eu AMEI este texto! Sim, é isso mesmo. Sim, sim. Adoro ler textos de mulheres gordas (como eu) pois rola muita identificação, nossas experiências são muito semelhantes.

5. Cinema

“O Sonho de Wadjda”: primeiro filme saudita dirigido por uma mulher trata de tabus com sutileza e inteligência : Gente, eu quero muito assistir este filme. Não só porque é um filme dirigido por uma mulher, com uma protagonista mulher, mas também porque ele é focado na discussão da opressão de gênero. 

Duas astronautas se apaixonam a cada órbita em que se cruzam : Um curta lindinho de ficção científica e romance (porque as duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo, tem muita gente por aí que não sabe disso) que estou postando aqui porque acho que todos devem ver, mas principalmente porque uma das minhas amigas que nunca perde o #ValorizeAsMinas é a Sybylla do blog Momentum Saga, e acho que ela vai gostar muito.

6. HQ

23 Female Cartoonists On Drawing Their Bodies (Em inglês): Várias indicações bacanas de cartunistas mulheres. Eu adorei todas <3 cliquem neste link aí, pfvr! Alguns deles me lembraram bastante o trabalho da Magra de Ruim.

7. Violência

Mulheres revelam histórico de estupros em repúblicas (TW - Estupro): Uma reportagem com muitos relatos de estupro nas festas de repúblicas da cidade de Ouro Preto, conhecida por abrigar muitos estudantes universitários.

8. Projeto de Lei

Hoje o deputado Jean Wyllys, do Psol, postou em sua página no Facebook que protocolou um projeto de lei que dispõe sobre o direito ao parto humanizado, à correta informação, à interferência mínima (conforme sua vontade), ao abortamento nos casos previstos em lei, define a violência obstétrica (e inclusive, categoriza as cesáreas desnecessárias, prática comum no Brasil, como violência obstétrica). Este é um projeto de lei importantíssimo, vamos acompanhar!

9. Panorama Mundial

France Dumps Abortion Restrictions, Will Cover the Cost of All First Trimester Abortions (Em inglês): Nova lei na frança aprova o aborto em qualquer caso no primeiro trimestre da gravidez. Eu não consigo nem imaginar quando isso será possível aqui no Brasil.

10. O que escrevi esta semana?

Nada. Bateu uma preguiça de escrever... Esta semana preferi atualizar as séries que acompanho e ir ao cinema. Por sinal, eu sei que não tem nada a ver com a idéia do #ValorizeAsMinas, mas eu estou tão apaixonada na trilha sonora de Guardiões da Galáxia (Meu filme preferido da Marvel até agora) que quero compartilhar com vocês.  Dá para ouvir aqui, mas cuidado para não cair no velho truque da "magia pélvica". ;) 

Você gostou da minha seleção de links da semana? Então pode voltar toda quinta-feira que sempre tem mais.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

#ValorizeAsMinas: Semana chocante para o Brasil, ao menos deveria ser.

Esta foi uma semana chocante. Acho que estamos todos (ou deveríamos estar) chocados com os feminicídios em Goiânia. O mais impressionante é que mesmo com tantas vítimas mulheres, a mídia não utiliza a palavra feminicídio.

Ana Lídia, a última vítima dos assassinatos em Goiânia


1. Padrão de Beleza

The Upside of Ugly (Em inglês): Eu não sei se concordo inteiramente com este texto, mas é uma visão interessante. A autora afirma que estimular a autoestima das meninas para que elas se sintam bonitas não soluciona a misoginia da sociedade. É próximo do que eu defendo em relação à gordofobia.

2. Mulheres Notáveis

How Nina Simone turn the movement into music (Em inglês): Conheça um pouco sobre a cantora Nina Simone e a controvérsia sobre o filme biográfico ainda nem lançado, estrelado por Zoe Saldana.

3. Capacitismo, Transfobia e Raça

Tem uma página bem legal no FB, ela é recente, mas tem feito um trabalho bacana de mostrar como o capacitismo se revela no cotidiano. O nome é excelente: Capacitismo é crime de ódio.

Prostituição enquanto profissão para mulheres trans: A autora relata algumas das dificuldades que encontra por ser uma mulher trans.

On the importance of teaching black girls their power (Em inglês) : A autora fala de uma experiência pessoal em que ela foi discriminada e não pôde entrar para o time por não ser um garoto.

Do Congo ao Ceará: A visão de um africano sobre o racismo brasileiro : O estudante africano conta sua experiência com o racismo brasileiro.

4. Funk

Antes de apresentar os textos, fica um recadinho meu: acho que já passou da hora de deixar de elitismo/pedantismo/racismo/machismo e parar de dizer que a mulher funkeira é burra, que a música é ruim, que as meninas que dançam vão todas engravidar na adolescência e não sei mais o quê. Cara, não escutar funk não te faz melhor que ninguém. Eu confesso que tive minha fase se achar que era melhor por ser roqueirinha, fiz slutshaming, fui babaca também. Talvez você sofra do mesmo mal que eu sofria: uma necessidade muito grande de pertencimento, de me afirmar, de fazer parte de um grupinho. Você realmente não precisa disso. ;)

Funk e feminismo: Um dos melhores textos sobre este assunto que já li.

Dialética da Popozuda: Linguagem, Poder, Sexualidade : Texto antiguinho e brilhante, escrito por uma amiga querida, sobre a valesca popozuda.

5. Games, Literatura, cinema, TV

The nightmare is over: They're not coming for you games (Em inglês): Male gamer's tears. O texto descreve o fenômeno do terror da mudança, o medo irracional de perder o privilégio de ter histórias contadas por homens para homens.

Um defeito de cor : Texto sobre o livro "Um defeito de cor", de Ana Maria Gonçalves, acompanha a vida de Kehinde, uma menina negra capturada e trazida ao Brasil aos 8 anos de idade. Me deixou morrendo de vontade de ler este livro.

To Revive a Genre, Zombies and Snow (Em inglês): O texto fala sobre as comédias românticas Indie, que estão ressuscitando um gênero que estava sendo abandonado por grandes estúdios. Alguns destes filmes são escritos, dirigidos e protagonizados por mulheres.

Orange is the New Black poderia ser “leitura obrigatória”: Um texto muito legal que explica porque Orange is the new black poderia ser usado em salas de aula de Ciências Sociais.

A Female Superhero Movie Is Finally Coming (Em inglês): A Sony anunciou que realizará um filme com protagonista mulher, ainda não se sabe qual super heroína será, mas é alguém do universo do Spider-man. Enquanto isso, a Marvel tenta explicar porque ainda não fez um filme com uma protagonista. Não tá bonito, não, Marvel.

6. #YesAllWomen

29 coisas que nós mulheres evitamos fazer porque tememos por nossa segurança : Porque ser mulher é temer por sua integridade nas situações mais corriqueiras do dia-a-dia.

7. Curiosidades

Bra History: How A War Shortage Reshaped Modern Shapewear (Em inglês) : Um pouco sobre a história do sutiã moderno e o que ele tem a ver com a guerra.

8. Poema

Achei um vídeo bem legal de uma moça recitando um poema lindo. (Em inglês)

9. Panorama Mundial

A obscuridade do aborto no Chile : Para quem não sabe, o Chile criminaliza o aborto em todos os casos. O texto fala sobre o drama das mulheres que precisam abortar no país.

10. Meus rabiscos da semana

Representatividade importa: A diversidade de corpos em Orange is the new black : Escrevi um pouco sobre como Orange traz uma diversidade ímpar de personagens femininos e com isso também uma diversidade corporal dificílima de encontrar na TV, porém muito importante e que ajuda a desconstruir a gordofobia.

Se você gostou da minha curadoria, volte sempre! Toda quinta-feira eu faço uma seleção de links sobre feminismo e assuntos correlatos :)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Representatividade importa: A diversidade de corpos em Orange is the new black


Contem spoilers, a maioria são pouco relevantes

Se você costuma visitar este blog com alguma frequência, já sabe que eu sou fã de Orange is the new black (doravante OITNB). A série é baseada no livro autobiográfico homônimo de Piper Kerman. Conta a história da personagem Piper Chapman, que está cumprindo pena de 15 meses de prisão na penitenciária feminina de Litchfield. A série acompanha o dia-a-dia na penitenciária e paralelamente conta as histórias das presidiárias em flashback. OITNB é uma série admirável por mostrar uma história inteiramente contada por mulheres cujos perfis são diversos em muitos aspectos. 

Na questão racial, podemos observar que as detentas são especialmente mulheres brancas, negras, latinas e asiáticas. Quanto à orientação sexual, as mulheres são heterossexuais, lésbicas e bissexuais. Há diversidade de identidade de gênero, uma vez que existe no rol de personagens uma mulher transexual (interpretada por uma mulher transexual. O quão raro é isso na tv?). As personagem são de diferentes camadas sociais. E, é claro há também a diversidade etária. Todas as mulheres são adultas, mas há de mulheres jovens à mulheres idosas.

OITNB também trouxe para a TV algo novo: Uma diversidade incomum de corpos e a quebra de muitos estereótipos gordofóbicos, especialmente no tocante aos relacionamentos afetivos, à sexualidade e à não-representação das mulheres gordas como personagens cômicos. O texto de personagens gordas em outras séries, em geral, coloca o corpo em evidência negativa ao fazer piadas gordofóbicas consigo mesmo, reafirmando uma série de estereótipos, como o que diz que toda pessoa gorda come muito ou é relaxada. As mulheres nesta série, por virem de situações tão distintas e únicas, têm uma atitude muito natural com os seus próprios corpos. Em OITNB, os corpos das mulheres não são o centro da conversa que a série elabora com seus fãs e talvez este seja o grande trunfo para tratar de um assunto que nos aflige muito: como estamos desconfortáveis dentro dos nossos próprios corpos, mas não deveríamos estar.

Em muitas outras séries e filmes, não há a presença de mulheres gordas. Em nossa ausência há um posicionamento ideológico forte: num mundo ideal (no sentido de idealizado, criado por alguém) sequer existiríamos. Somos dispensáveis. Ou, para meu desespero, há a concessão para aqueles entre nós que aceitam uma posição menos relevante: se tornar mera diversão, ser ridículo, fazer rir. O que costumo chamar de condição do ridículo.

OITNB coloca para discussão o corpo da mulher, sim. Porém, faz isto de forma orgânica, muitas vezes ao não colocar a discussão na superfície, mas nas entrelinhas. Para exemplificar isto, há muitas personagens das quais eu poderia falar, porque além da diversidade corporal de mulheres gordas/magras, há também a diversidade etária, muito importante e geralmente invisibilizada, mas resolvi me ater a quatro casos específicos:

Dayanara Diaz, a Daya, é uma personagem que representa isto perfeitamente. Daya mantém um relacionamento afetivo com um dos guardas da cadeia, o John Bennett. O primeiro estereótipo quebrado é que Daya não foi para Bennett uma segunda escolha. Num universo dominado por mulheres, muitas delas magras e perfeitamente enquadradas no padrão de beleza eurocêntrico vigente, é por Daya que Bennett se apaixona. A agência do relacionamento veio dos dois, houve reciprocidade, troca de olhares, conversas secretas, bilhetes e desenhos trocados. Ninguém forçou a barra, foi mútuo. Daya também tramou contra George Mendez. Ela o seduziu para que ele fosse culpado por sua gravidez (inocentando Bennett), o que gerou uma espécie de triângulo amoroso inusitado na série. Histórias sobre triângulos amorosos são comuns na ficção, mas quantos colocam em seu centro uma mulher gorda? Uma mulher gorda desejada? disputada? No mínimo, raro. 

Tasha Jefferson, a Taystee, é, talvez, a personagem mais inteligente e empreendedora da série. Piper, de seu papel privilegiado, fala muito em "escolhas ruins". No caso de Taystee, não houve escolha. Ser pobre, negra e gorda foram fatores determinantes em seu destino. Se houve um momento em que o corpo de alguém foi discutido, foi o de Taystee. Por exemplo, durante a simulação de uma feira de empregos, as detentas tiveram que passar por uma série de entrevistas profissionais. Para isso, receberam cabideiros para escolherem uma roupa apropriada para a ocasião. Enquanto todas puderam escolher a roupa que queriam, Taystee precisou usar "o que coube". Taystee nos mostra o quanto as mulheres com o seu perfil são injustiçadas no mercado de trabalho, pois ela acabou ganhando a vaga hipotética da feira de empregos, mas as vagas profissionais reais nunca foram oferecidas em sua vida pregressa. Além disto, Poussey, a melhor amiga de Taystee, também já demonstrou ter um interesse romântico por ela. Assim como Daya, Taystee também faz parte do grupo de personagens com arcos dramáticos que envolvem afetividade, entretanto é Taystee que evita ultrapassar a linha da amizade, a prerrogativa de aceitar ou não o afeto da mulher magra é da mulher gorda.

Carrie Black, a Big Boo, é a lésbica grande e gorda, que as pessoas gostam de chamar de "masculina". Na segunda temporada, Boo e Nicky (outra mulher lésbica, porém magra)criam um jogo em que as detentas recebem notas. Sempre que elas fazem sexo com as mulheres, elas vão pontuando. Horrível. Mas o importante aqui é: As duas, a gorda e a magra, se vêem como adversárias e iguais, não é porque Nicky é mais magra que é melhor, ou tem mais vantagens que Boo. Aqui eu faço uma ressalva quanto às cenas de sexo mostradas na série: Tanto sexo lésbico já foi retratado, mas ainda não houve nenhuma cena com Boo. Será porque ela é gorda?

Yvonne Parker, a Vee, não poderia ficar fora da lista. Ela é a vilã que veio para sacudir a disputa pelo poder em Lichfield. Em um mundo menos louco, Vee não seria vista como uma mulher gorda. Na verdade, ela não é. Mas é uma mulher curvilínea e que já não é nenhuma garotinha. Mesmo assim, uma das cenas mais belas e maldosas de Vee (e talvez de toda a série) é quando a vemos em nudez parcial. Seus seios caídos à mostra, acompanhados de um maroto sorriso pós-sexo. Achei maravilhoso ver uma mulher que não tem seios pequeninos, durinhos e jovens protagonizando esta cena. Vee é uma mulher empoderada, orgulhosa de si.

É para se refletir também sobre a perspectiva da liberdade da mulher gorda e como há relação com a mulher aprisionada  (resguardadas as proporções, espero que entendam que estou apenas usando uma metáfora). A mulher gorda muitas vezes passa todos os momentos de sua vida aguardando o dia em que se tornará magra, para então conseguir viver a sua vida plenamente. "Quando eu emagrecer, vou conseguir um emprego melhor". "Quando eu emagrecer, conseguirei ser uma mãe melhor, me tornarei um exemplo melhor para os meus filhos". "Quando eu emagrecer, as pessoas gostarão mais de mim". "Quando eu emagrecer, serei livre". Afinal, o que estamos fazendo de nossas vidas enquanto não emagrecemos o suficiente? Tudo isto me leva a crer que as mulheres estão aprisionadas em seus corpos, cotidianamente, sofrendo abusos e perseguições da mídia, de desconhecidos, de empregadores, da família e de amigos. 

OITNB é uma das poucas séries que não pratica o abuso midiático gordofóbico. A autoestima da mulher gorda é muito abalada pela influência da mídia em nossas vidas. A importância destas personagens é tremenda, porque há uma enorme desumanização da pessoa gorda na TV. OITNB está indo contra a maré ao nos afirmar que nosso corpo pode ser motivo de orgulho, que podemos ser desejadas, que não precisamos nos desculpar por sentir desejo e tampouco somos menos capazes por não vestir manequim 38. Em Orange is the new black estas mulheres estão sendo representadas e compreendidas como personagens tridimensionais. Seus corpos são apenas parte daquilo que vemos, admiramos ou odiamos em cada uma delas.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

#ValorizeAsMinas: Nudez feminina, sim. Objetificação, não.

Hoje parece que é o tal do lingerie day, uma data criada por homens para que mulheres postem fotos de lingerie. Perceberam a cilada? Ainda aproveitam que está pouco de gordofobia, para atacar as mulheres fora do padrão. A minha preguiça, ela desconhece limites.

Segue a minha foto para o lingerie day:

~fogo na bombacha~
Sério, gente. 2014! Existem projetos fotográficos interessantes sobre sexualidade feminina, lingerie, nudez que não estão aí para agradar machinho, mas para realmente empoderar mulheres, sabe? Por exemplo, o Adipositivity Project, o The Nu Project, a série apartamento 302 e o Pelos pelos. Há também projetos fotográficos de nudez feminina ligados ao câncer de mama, como o Scar, além dos milhares de tumblrs com fotos lindas e empoderadoras de mulheres.

Eu acho muito válido qualquer projeto que sirva para empoderar mulheres, eu não gosto é do vício de origem do Lingerie Day e da forma como as mulheres fora do padrão são atacadas durante este dia. Este dia é tão libertador para mulheres que se a mulher postar foto é vagabunda, se não postar é recalcada, se reclamar é moralista. Libertador, né? Sei. 

1. Prisões arbitrárias

Democracia e direitos fundamentais: contra a criminalização dos movimentos sociais : Acredito que todos estejam acompanhando as prisões arbitrárias de ativistas e a difamação destes na mídia tradicional. O texto do blogueiras feministas explica bem o problema do ponto de vista do direito. E sustenta a tese da criminalização dos movimentos sociais, que pode ser facilmente observada na lista de coletivos citados no inquérito.

Mulher, ativista. Tudo Puta : Um texto sobre o machismo escancarado na abordagem midiática das prisões dos ativistas e no inquérito policial.

Exército reformula centro de informações e tem como alvo movimentos sociais : Eita mas que bela ~democracia~

2. Mulheres notáveis

Susan Sarandon on Her Love Affair With David Bowie, Woody Allen’s Creepiness, and Psychedelics : Gostei tanto desta entrevista da Susan, especialmente a parte em que ela fala do Woody Allen.

Izabela é campeã mundial com série ‘dos sonhos’ em Eugene: Uma brasileira de 19 anos vence o lançamento do disco e atinge a marca de 58,03 m, assumindo a liderança do ranking mundial e novo recorde nacional. A falta de cobertura da imprensa para os outros esportes que não o futebol é absurda. Especialmente se uma mulher estiver em destaque.

Tem clipe novo de uma das minhas cantoras preferidas, a Janelle Monáe. <3

3. Violência contra a mulher

10 celebridades envolvidas em violência contra a mulher: Essa é uma lista bem pequena, eu consigo lembrar de vários outros nomes sem precisar recorrer ao google. Já repararam como a violência contra a mulher não afeta tanto assim seus currículos? eles continuam trabalhando, sendo admirados, premiados.

'Date rape is bad, stranger rape is worse': Richard Dawkins sparks outrage during Twitter debate (Em inglês): Que o Richard Dawkins é um babaca machista, todos sabíamos. Mas ele consegue sempre se superar. Tem outro texto legal aqui.

64 Percent of Women Scientists Say They've Been Sexually Harassed Doing Field Work (Em inglês): Não apenas as mulheres são desestimuladas a entrar em carreiras científicas, como quando decidem fazê-lo sofrem assédio de seus supervisores e colegas.

The Science of false rape alegations (Em inglês): Você sabia que nos Estados Unidos apenas 2% das acusações de estupro são falsas?

4. Maternidade

Mães que quiseram matar filhos falam dos perigos da psicose pós-parto: Toda vez que aparece algum bebê abandonado eu vejo uma cobertura midiática culpabilizadora. As pessoas imediatamente chamam a mãe de "monstro". Ninguém se debruça sobre o verdadeiro problema: a saúde mental da mulher no pós-parto.

5. Cinema

Women are underrepresented in key movie positions, USC study finds (Em inglês): mais um estudo que atesta a falta de representatividade das mulheres no cinema, tanto como personagens, como por trás das câmeras.

6. Leitura

Ficção científica feminista é bom demais: Texto bem legal sobre Ficção científica feminista, dá para pescar indicações de várias obras e autoras.

Why Are Women's Publications Still Ridiculed? (Em inglês) : O texto fala de como as revistas femininas e as jornalistas que escrevem para elas são sempre categorizadas como subjornalismo, como menos importantes, superficiais.

7. Racismo/Preconceito

My son has been suspended five times. He's 3 (Em inglês): Uma mãe conta como a escola tende a punir seu filho negro por mau comportamento e evitar as punições para as crianças brancas, mostrando como o racismo atinge até mesmo crianças tão pequenas.

Sobreviver – dentre tantas, a mais árdua das tarefas das mulheres negras : Texto que chama atenção para dois fatores que mostram que o racismo tem agido com extrema violência na vida população negra e jovem. A criminalização do aborto, que acarreta a morte de mulheres negras e pobres, e o extermínio da juventude negra, causado pela ação policial.

Sua opinião x Preconceitos: A autora explica qual a diferença e pede que não se confunda liberdade de opinião e liberdade para opressão.

A opressão na escola, na família, na vida: O relato da Letícia, uma pessoa que tem dislexia, sobre os desafios e os preconceitos que enfrentou por ser disléxica e o medo do futuro.

8. Questões indígenas

Hangout Belo Monte - A obra atrasou. Você sabe por quê? : Conversa muito interessante entre a advogada do Instituto Socioambiental, Biviany Rojas, o presidente da colônia dos pescadores de Vitória do Xingu, Giácomo Dallacqua, o professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Wilson Cabral. As obras de Belo Monte vão atrasar e a Norte Energia culpa as greves e ocupações indígenas, entenda porque estas explicações não cabem neste caso.

9. Palestras

Semana passada rolou aqui em Brasília o Festival Latinidades, que foi lindo e um enorme sucesso. Parabéns a todos os envolvidos. Vocês podem assistir em inglês a palestra da Patricia Hill Collins e a palestra da Angela Davis.

10. Eventos

Mostra de cinema em Porto Alegre exibe 30 filmes dirigidos por mulheres : Já cansei de postar links aqui sobre a falta de representatividade das mulheres no cinema, tanto como personagens, como por trás das câmeras. Que tal prestigiar o trabalho destas diretoras? São 27 longas e 3 curtas, de diretoras de 15 nacionalidades diferentes, em diversos gêneros.

11. Meus textos da semana

É preciso ter coragem para ser blogueira plus size: Um texto sobre a gordofobia que sofrem as meninas que se aventuram a ser blogueiras plus size.

As pessoas que não saem da bolhazinha: Quase um desabafo sobre as pessoas que eu tenho que aguentar e as merdas que eu ouço.

Gostou das sugestões da semana? Fique de olho porque toda quinta tem #ValorizeAsMinas!