Quando criança, meus pais me deram uma coleção de livrinhos ilustrados da Disney. Fiquei especialmente apegada ao Volume dividido entre Peter Pan e Rapunzel. Naquela época, as imagens me capturavam mais que as palavras, eu folheava, folheava, folheava, por horas. Mas o primeiro livro cujas palavras me prenderam, foi o clássico de Maurice Druon "O Menino do Dedo Verde". Tenho certeza não sou a única. Acredito que muitas crianças começaram a se interessar pela leitura a partir de Druon e Tistu, nosso menino herói.
Atenção, spoilers no próximo parágrafo!
O livro conta a história de Tistu, um menino rico da cidade de Mirapólvora, filho do dono da indústria de canhões. Tistu descobre duas coisas: a tristeza do mundo e o seu "dedo verde". Tistu tem o poder de fazer brotar plantas e flores com um simples toque do seu polegar. Assim, ele transforma a realidade de todos aqueles que sofriam na cidade. Ele levou seu dom para os presídios, favelas, para as pessoas sem esperança nos hospitais, e transformou sua realidade. E, spoiler dramático, ele fez com que seu pai mudasse de ramo, em vez de lucrar com a guerra, seu pai passou a vender flores. Assim, Mirapólvora se tornou Miraflores.
É uma história com uma mensagem bonita e otimista para as crianças: Mudem o mundo ao seu redor, o transformem em algo melhor, façam o bem pelo outro. Não é uma mensagem realmente importante?
Um pouquinho mais tarde, não tenho certeza do quanto, eu li o livro "O jardim secreto", de Frances Hodgson Burnett, uma escritora inglesa. Eu não me recordo se li o livro antes ou depois de assistir o filme, que também vale a indicação.
Sabe o que eu mais gosto neste livro? Uma personagem feminina assertiva. Claro que quando eu era criança, eu não tinha noção da importância disso, mas eu gostava muito da personagem principal, Mary Lennox.
Atenção, spoilers no próximo parágrafo!
Mary Lennox ficou orfã e foi enviada para viver na casa de seu tio, o Sr Craven, um homem ausente mas que garante a ela materialmente tudo. Ele tinha um filho considerado doente, Collin, que todos acreditavam que morreria em breve. Por isso, ele era muito mimado, tinha todas as suas vontades realizadas sempre. Ou quase. Mary era a única que não fazia todas as suas vontades, que o confrontava. É Mary que encontra o jardim secreto, fechado há muitos anos. Collin encontra no jardim a cura para a sua fragilidade e Mary para a sua infelicidade. O jardim uniu novamente uma família que estava quebrada.
A mensagem deste livro é que os problemas das nossas vidas podem ser superados. Neste caso, a solução veio com a descoberta de um jardim lindo onde as crianças puderam ser apenas crianças.
Por fim, o terceiro livro que marcou a minha infância, foi "O Capitão Fracasso", do francês Theóphile Gautier. A essa altura eu já devia ser pré-adolescente, realmente não me recordo.
Este é um livro cheio de emoções. Conhecemos a história do jovem Barão de Signognac, um nobre de família decadente, que mal tem dinheiro para comer e alimentar seu gato, seu cachorro, seu cavalo e seu fiel mordomo Pierre. Suas únicas companhias, já que ele se isolou da sociedade aristocrática da região. Mesmo com toda a dificuldade, ele mantém o orgulho do seu Brasão, evitando pedir ajuda a outros nobres ou ao Rei (o que eu acho burrice, mas enfim). A aventura começa quando uma compania de teatro pede abrigo pela noite em sua residência.
Os personagens são extremamente carismáticos. No grupo dos atores, além da tímida Isabelle, temos Tirano, que é o chefe da companhia, o comediante Matamouros, a matrona Lèonarde, o experiente Scarpin, o galã Léandre, a sensual Zérbine, o "Pedante" Blázius e a invejosa Seráphine. Outros personagens completam o rol. Há os assaltantes da estrada, Agostin e Chiquita, esta última é talvez a minha personagem preferida, uma adolescente sem qualquer nível de instrução, capaz de ser violenta e feroz, e ao mesmo tempo, leal e até mesmo doce em alguns momentos. E o vilão da história, o duque de Vallombreuse, que faz tudo pelo amor de Isabelle.
Atenção, spoilers no próximo parágrafo!
Ao vê-lo tão jovem e vivendo tão miseravelmente, os artistas convidam o Barão para acompanhá-los até Paris. O Jovem barão se apaixona por Isabelle, uma das atrizes da companhia. Ele se junta à trupe de teatro itinerante e adota a alcunha de Capitão Fracasso. Ele e a companhia dividem tudo, inclusive a fome, o frio, o luto, mas também a felicidade. O homem solitário e miserável, experimenta pela primeira vez a Juventude, o amor, a amizade. Além de muitos duelos de espada.
O livro dá uma cutucadinha na sociedade e na igreja. ;)
Muitos outros livros marcaram a minha vida depois destes. Alguns me marcaram mais profundamente. Contudo, foi aqui que a minha jornada como leitora começou. Nunca tinha reparado, mas achei curiosíssimo que todos os livros sejam europeus. Eu li bastante coleção vagalume, que nem todo mundo. Ficou claro que desde criança eu já gostava de livros do século dezoito e dezenove (exceto pelo Menino do Dedo Verde, lançado em 1957). Quando adolescente outros livros do mesmo período entraram na lista, especialmente os de Jane Austen. Mas estes ficam para a próxima blogagem coletiva!
Este texto integra a blogagem coletiva "Livros que marcaram a infância".










