quinta-feira, 24 de julho de 2014

#ValorizeAsMinas: Who run the world?

Hoje o #ValorizeAsMinas está um pouquinho menor que o habitual. Eu estive meio adoentada e com problemas pessoais que me impediram de manter o meu ritmo de leitura. Espero que vocês gostem das recomendações, que são poucas, mas tem o selo ~Giza~ de qualidade.  :) 

Who run the world?
Quem está honrando demais o rolê é a Beyoncé! Vocês conseguem imaginar a quantidade de meninas que ela deve ter inspirado apenas por posar como Rose, the Riveter? Eu lamento tanto que existam tantas pessoas que não a consideram feminista. Gente, chega de ficar confiscando a carteirinha das minas!

Me lembrei de um texto sobre a Beyoncé que a Flávia Simas traduziu no blog Ativismo de Sofá.

1. Séries de TV

Game of Thrones To Return For Season 5 With All Male Writers, Directors (Em inglês): Pois é, já não é ruim o bastante colocarem estupro onde não tem, feminicídio onde não tem... Agora não tem mais mulheres dirigindo Game of Thrones. Estou a cada dia mais repensando o meu interesse nesta série.

2. Cinema

Where are women on IMDb? (Em inglês) : Você provavelmente já deu uma olhada nas listas dos melhores filmes do IMDb, certo? Agora olhe novamente, levando em consideração que no primeiro colocado da lista, por exemplo,  são 5 votos masculinos para cada 1 voto feminino. A discussão sobre cinema no IMDb está dominada pelo olhar masculino.

Trailer: Dear White People puts conversations about race front and center (Em inglês) : 01 filme que estou ansiosa para ver! Basicamente é um filme que discute a questão racial, o privilégio branco, as merdas racistas que os brancos falam, dentro do ambiente de uma universidade. Parece muito foda!

3. Mulheres Notáveis

27 Black Women Activists Everyone Should Know (Em inglês) : Imperdível e importante para conhecer um pouco da História que jamais é contada nas salas de aula.

Eleita para o Hall da Fama, Janeth vive sonho: "Surpresa. Foi emocionante" : A ex-jogadora brasileira Janeth Arcain foi indicada para o Hall da fama do basquete feminino.

3 anos sem Amy : Uma carta de uma fã para a eterna Amy Winehouse.

Ronda Rousey venceu o prêmio ESPY 2014 de Melhor Atleta Feminina : Fico chocada com a falta de divulgação desta notícia no Brasil. Veja bem, essa mulher está fazendo história no MMA. A Ronda é incrível. Se você duvida, assista ao vídeo da luta da Ronda contra Alexis Davis, não se preocupe, a luta só demora 16 segundos.

Primeira escritora negra a vencer o Prêmio Nobel, há 20 anos, fala ao Hoje em Dia : Uma entrevista com Toni Morrison, mas também um texto sobre a produção de livros de escritores negros no Brasil e sobre Carolina Maria de Jesus.

4. Padrão de beleza & gordofobia

Mulheres famintas: Fome, beleza e obediência feminina : Uma análise muito interessante que compara a relação da mulher dos dias atuais com a comida ao debate sobre a sexualidade feminina. Este texto é muito importante, não deixe de ler. ;)

Public Food-Shaming Is The Insidious Type Of Street Harassment No One Is Talking About (Em inglês): Texto que expõe um problema do qual não falamos muito, o assédio e julgamento que as mulheres sofrem ao comer em público.

5. Maternidade

Como eu parei de usar a palmada como "método de educar": a autora relaciona a violência que sofreu na infância e a violência doméstica sofrida quando adulta.

6. Indígenas

Povos indígenas de todo o mundo afirmam que tem sido ignorados na luta contra o HIV. Brasileiros não estão representados : Acontece esta semana, em Melbourne, a 20ª Conferência Internacional de Aids. E uma das questões apontadas é a não-inserção do índio na luta contra o HIV (e na política de saúde de forma geral).

O desempoderamento nosso de cada dia ou Como nascem os índios? (1) : Um texto sobre como a influência da cultura branca desempodera as mulheres indígenas.

7. Eventos, palestras, oficinas

Diversão e liberdade: oficina grátis ensina as minas a andar de skate : Porque lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive em cima do skate!

Exposição comemora dia da mulher negra latino-americana e caribenha : Exposição “Oficina Guaianases de gravuras: um olhar feminino”, em Recife, marca o Dia Internacional da Mulher Afro latino-americana e caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, comemorado no dia 25 de julho.

Festival Latinidades : Está rolando esta semana em Brasília o Festival Latinidades, que é o maior festival de mulheres negras da América Latina. Rola música, dança, teatro, literatura e etc.

8. Capacitismo

10 Frases que você nunca deveria dizer a alguém em cadeira de rodas: Uma lista de atitudes capacitistas que as pessoas sem diversidade funcional costumam praticar.

9. Twittaço

Hoje, dia 24 de julho, quinta-feira, tem Twittaço #parirsemviolência, a partir das 16 horas.

Chega de violência obstétrica! Pelo direito de parir e nascer sem violência : Texto que explica o problema da violência obstétrica e chamado para o twittaço.

10. O que escrevi esta semana?

Só a lista do supermercado :(

Se você gostou das minhas indicações da semana, está convidado a voltar sempre. Toda quinta-feira eu espalho a palavra de Beauvoir! 

Até o próximo #ValorizeAsMinas





quinta-feira, 17 de julho de 2014

#ValorizeAsMinas: Uma semana cheia de Adeus

Duas coisas que me deixam felizes com o fim: Copa do mundo e novela do Manoel Carlos. \o/ Aos poucos vamos retomando o ritmo normal da vida, das postagens e do feminismo.

A foto da semana é esta, tirada no "Malala Day", dia 14 de julho. Estou até agora tentando descobrir quanta vitória cabe em uma foto só. Malala e as meninas nigerianas que escaparam do Boko Haram. (links em inglês)

Momento incrível
Aqui você pode ouvir todo o discurso da Malala, em inglês. As meninas são mesmo superpoderosas. <3

Não foi uma boa semana para o feminismo, mulheres notáveis disseram adeus para todos nós. 
Não foi uma semana boa para o mundo. Muita gente perdeu seu lar, seus filhos, parentes e amigos em Gaza. 

1. Padrão de beleza

My "naked" truth (em inglês): O relato de uma mulher de 59 anos que ouviu de seu namorado que seu corpo não era desejável, por não ser mais um corpo jovem.

Pelo direito de envelhecer: Relato lindo sobre a decisão pessoal de deixar os cabelos grisalhos aparecerem.

2. Gordofobia

Um apelo à comunidade médica: Keep Calm and guarda a guia da nutricionista! : A certeza de nunca ser ouvida pelos médicos. Já passei tantas vezes por isso. Tantas vezes. Tanto que também já escrevi a respeito, você pode ler neste link.
3. Raça

Shocking History: Why Women of Color in the 1800s Were Banned From Wearing Their Hair in Public (em inglês) : Um pouquinho de História, no séc. XVIII as mulheres negras em Louisiana foram proibidas de usar os cabelos soltos.  Incrível como desde sempre o cabelo crespo é visto como uma subversão. Até hoje é assim, se fala muito em cabelo indomável, rebelde, e o pior adjetivo de todos: "ruim".

Sobre ser mulher e ser negra : Texto de uma amiga querida, que eu vejo enfrentar o racismo da sociedade em seu dia-a-dia com muita coragem.

Exclusão no espaço doméstico: Da mesma autora do link anterior, que assim como eu, é arquiteta. Este texto trata da exclusão proporcionada pelo espaço físico edificado, especificamente a residência.

4. Carta para minha mãe

Mãe, a culpa não é sua : Texto de uma adolescente sobre sua relação com sua mãe.

Este texto me lembrou outros dois textos mais antigos, mas também maravilhosos, sobre a relação entre mãe e filha.

Um texto para uma mãe que tem uma filha lésbica : Texto lindo, emocionante, de uma mulher lésbica para sua mãe, que não consegue lidar bem com essa orientação sexual.

Quando sua mãe diz que é gorda : Me identifico tanto com este texto, tanto. É a tradução de um texto originalmente publicando em inglês, que você pode ler neste link.  Uma filha escreve uma carta para sua mãe, explicando como a falta de autoestima da mãe a afetou e como as duas precisam se recuperar. Pegue uns lencinhos antes de ler.

5. Maternidade

What Happened When We Gave Our Daughter My Last Name (em inglês): Relato interessante de uma mulher que decidiu dar o seu sobrenome (como sobrenome principal) para a sua filha e a reação que isso causou nas pessoas. Você já parou para pensar em como um sobrenome masculino ajuda a manter o poder nas mãos dos homens?

6. Cultura do Estupro

In Defense of Jada: The Danger of Being a Black Girl in a Rape Culture (TW Estupro, em inglês): Jada é uma adolescente negra de 16 anos que foi estuprada enquanto estava bêbada. Seus estupradores filmaram o estupro e publicaram o vídeo que viralizou. Não fosse suficientemente horrível, pessoas (eu nem consigo encontrar uma palavra boa o suficiente para descrever) ainda mais horríveis viralizaram o meme Jadapose, tirando fotos de si mesmas na posição em que o corpo de Jada estava quando foi violentado. O texto aborda o que tudo isso nos diz sobre ser uma mulher negra dentro da cultura do estupro.

7. Crítica ao feminismo

As feministas não somos uma massa de mulheres com pensamento único, nós divergimos muito. E precisamos conversar sobre as nossas diferenças.

Feminismo para donas de casa: Será que as pautas do feminismo contemporâneo na internet realmente abrangem as mulheres donas de casa? E os eventos feministas? Eles são inclusivos com as donas de casa?

Síndrome de Estocolmo: A banalização na militância : Problematiza o uso da expressão "Síndrome de Estocolmo" sendo aplicado a mulheres que se maquiam, depilam e etc.

8. Música

Mulheres no Rock : O Rock também é lugar de mulher! Algumas sugestões de bandas formadas por mulheres.

Let’s Stop Singing Songs About Women Who Don’t Know They’re Beautiful (em inglês): Este texto apresenta um argumento muito interessante, o fato de que a baixa autoestima das mulheres tem sido foco de letras de músicas cantadas por homens, que por vezes soa como uma qualidade atrativa gostar de uma mulher que não "se acha" e, outras vezes soa paternalista porque a letra vai no sentido de falar para a mulher que ela é bonita aos olhos dele. E sem jamais criticar o verdadeiro problema.

9. Copa do Mundo

Vai-se a Copa, fica o legado. Que legado? 

Legado para não esquecer : A ampliação da zona de suspensão de direitos.

10. HQ

Duas notícias muito legais esta semana para as fãs de HQ!

Batgirl's New Uniform May Be The Best Damn Superheroine Outfit Ever (em inglês): Fizeram um uniforme novo para a Batgirl e ele é maravilhoso. Primeiro porque não objetifica o corpo da personagem, faz uma linha mais esportiva e chega de salto alto, porque assim fica muito difícil combater o crime se precisar ficar mais de 30 minutos em pé, não é mesmo?

Marvel’s New Thor Is Going To Be A Woman, According ToThe View (em inglês): E por que não? Nas palavras do roteirista de Thor, Jason Aaron, "Esta não é She-Thor. Não é Lady Thor. Não é Thorita. Ela é Thor. Esta é Thor do universo Marvel". Nerds misóginos, o choro é livre.

11. Adeus :´(

Morre Alice Coachman, primeira mulher negra a ganhar um ouro olímpico : Imagina quantas mulheres no mundo inteiro não se sentiram inspiradas por Alice Coachman, a primeira mulher negra a ganhar um ouro Olímpico?

Morreu também a cantora, ativista, lésbica, feminista, Vange Leonel. Fica a minha solidariedade para a companheira dela, Cilmara Bedaque, com quem dividiu a estrada por 28 anos. Quem quiser saber um pouco mais sobre Vange Leonel, pode ler este texto antigo, mas atualizado no dia de seu falecimento.

Morre aos 90 anos a ganhadora do Nobel de literatura Nadine Gordimer : Morreu a escritora sul-africana Nadine Gordimer, reconhecida por seu trabalho na literatura e nos direitos humanos, ao combater o regime de segregação racial.

12. Panorama Mundial

Gaza. Nem tem o que dizer, este é o assunto da semana no mundo.

64 anos do Nakba: A limpeza étnica da Palestina e as responsabilidades ocidental e brasileira : Não sabe absolutamente nada da história da Palestina? Você pode entender um pouco melhor com este link.

Gaza, in numbers (Em inglês): Para entender a desproporção de forças entre Palestina e Israel.

The Eletronic Intifada (Em inglês): Para acompanhar o que acontece no dia-a-dia

O dia a dia da vida repleta de restrições em Gaza : Para entender o que representam os bloqueios de Israel à Gaza.

13. O que andei escrevendo?

Leslie Knope: Uma feminista ambiciosa e adorável : Recentemente comecei a assistir Parks & Recreation e conheci esta personagem maravilhosa que passou a ser uma das minhas inspirações feministas na ficção. O texto não tem spoilers significativos, pode ler sem medo.

Toda quinta-feira eu preparo uma lista de links interessantes, se você gostou desta, pode voltar sempre :)

terça-feira, 15 de julho de 2014

Leslie Knope, uma feminista ambiciosa e adorável


Eu não sei o que estive fazendo da minha vida nos últimos seis anos, pois perdi tempo demais sem conhecer Leslie Knope. Brilhantemente interpretada por Amy Poehler, Leslie Knope é a personagem central da série Parks & Recreation - Doravante P&R -, que explora o "humor do constrangimento", gênero que ultimamente tem me agradado muito mais do que as sitcoms tradicionais e suas claques de risadas. No começo, a série parecia bastante com "The Office", mas aos poucos tomou um rumo bem diferente e interessante. Em muito, por causa desta protagonista incrível tão rara na TV.

Eu já havia assistido alguns episódios saltados de P&R, mas não dei a atenção necessária, até ouvir minha amiga Aline Valek falar sobre Leslie no nosso podcast de despedida. Decidi dar uma chance a P&R e não me arrependi. Leslie Knope é uma personagem muito inspiradora e um ícone feminista. Esta personagem me estimula tanto que, especialmente no que tange às questões profissionais, nos últimos dias eu já me peguei pensando "O que a Leslie faria se estivesse em meu lugar?". 

Leslie Knope trabalha como vice-diretora no departamento de Parques e Recreações do governo municipal de Pawnee, uma cidade de Indiana. Ela é uma funcionária pública extremamente dedicada ao seu trabalho, em parte porque ela é uma perfeccionista que adora se desafiar, mas principalmente porque ela quer fazer o melhor pela comunidade. Leslie trabalha junto a um grupo de pessoas muito diferentes umas das outras, mas todas nutrem admiração por ela, mesmo o seu chefe Ron Swanson (o reaça adorável da série), entende o valor inestimável de Leslie para aquela equipe. Leslie é a alma do grupo, uma amiga querida, uma pessoa solar em quem todos confiam cegamente para realizar o seu trabalho e tomar decisões difíceis. 


O que é irretocável na construção desta personagem é que vemos aqui uma exceção: Uma mulher, feminista, ambiciosa e em posição de liderança, que não é retratada como uma mulher triste, amarga, solitária. Muitíssimo ao contrário, Leslie distribui otimismo e sorrisos, vai para a balada e enfia o pé na jaca (quem nunca?), trata as pessoas com generosidade e tem o coração aberto para o amor. Aliás, quando o assunto é amor, por duas vezes (até onde assisti a série) ela decidiu que suas ambições profissionais e seu amor por Pawnee eram mais importantes. Decisões difíceis tomadas com a leveza usual da personagem.

O feminismo de Leslie rende situações engraçadíssimas, especialmente quando ela é proibida de fazer algo por ser mulher. Ela jamais aceita este argumento e busca maneiras de mostrar que é capaz, aliás que ela é melhor do que aqueles que a diminuiram por ser mulher. Seu escritório é decorado com imagens de mulheres que a inspiram, especialmente mulheres na política. Leslie tem o sonho de se tornar presidente. Na minha opinião ela seria uma presidente maravilhosa, eu votaria nela sem pensar duas vezes.

Leslie também tem uma amizade íntima com Ann Perkins. As duas estão sempre trocando confidências, pedindo conselhos uma à outra, se apoiando em todos os momentos. De vez em quando, Ann fala que ama Leslie. Leslie sempre elogia a beleza de Ann. Sem inveja, sem conflitos, apenas duas mulheres que gostam muito uma da outra.

Por outro lado, Leslie também tem seus defeitos. Ela é excessivamente ingênua e confiante, o que rende situações hilárias, especialmente quando precisa lidar com a imprensa. Enquanto é muito organizada e profissional no trabalho, sua casa é uma bagunça completa. Ela está bem inserida na cultura bélica americana e caça muito bem. Detesta salada e ama Waffles e doces. Ela é workaholic até mesmo quando está muito doente. Por vezes, ela é obstinada demais, querendo fazer valer o seu argumento a todo custo.

Mesmo com seus defeitos, Leslie continua sendo uma personagem revigorante, por ser inspiração certa para aqueles amigos que a cercam, mas também para nós que acompanhamos sua história e seu desejo de fazer de Pawnee um lugar a cada dia melhor.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

#ValorizeAsMinas - O torcedor de futebol: Tava ruim, tava bom, mas parece que piorou.

Semana de muitas emoções, de extremos, de ressaca moral. Mas também de sacudir a poeira, porque perder faz parte.

Seleção. Brasileira. De Futebol. Feminino.
Cadê o amor do brasileiro pelo futebol nesta hora?
Eu amei a sugestão que rolou no twitter de colocarem a Marta no lugar do Neymar (01 sonho: ver esta mulher ser tão reconhecida pelos brasileiros quanto os jogadores do time de futebol masculino). Já começo com link para este golaço aqui.

Agora que a Copa se encaminha para o fim, eu espero retomar o ritmo de leituras e aumentar minha produtividade. Acho que temos escrito um bocado sobre os mesmos assuntos e está um pouco cansativo (O pior é que sei que logo em seguida entraremos em outro monotema: eleições).

1. Ficção Científica

As mulheres de Person of Interest : Eu não acompanho a série, mas está aí para quem curte um ótimo texto sobre as personagens de Person of Interest.

A ficção científica e a estranha tara por mulheres em tubos: Texto incrível sobre a relação entre um clichê da ficção científica e a cultura do estupro.

2. Mulheres Notáveis

Kahlo’s work still tells a story we struggle to talk about, even today (Em inglês): Um texto sobre como o aborto influenciou a obra de Frida Kahlo.

Exposição Marie Curie: O Museu Municipal da Estância de Socorro, no interior de SP, apresenta até o dia 31 de julho a Exposição Marie Curie.

ONU nomeia Emma Watson como Embaixadora da Boa Vontade : A ONU Mulheres indicou Emma Watson como embaixadora para promover o empoderamento de mulheres jovens. Só posso desejar a ela todo o sucesso nessa missão.

3. Amarildo e Genocídio da juventude negra

Algumas pessoas dirão que esse tema nada tem a ver com mulheres ou com feminismo. Mas a verdade é que a cada jovem morto pela polícia, a cada Amarildo desaparecido, é o rosto de uma mãe que aparece na TV (ou não aparece). E não devemos esquecer também de Cláudia, que foi arrastada e assassinada cruelmente pelo racismo institucional. O assassinato sistemático da juventude negra é um assunto que envolve as mulheres profundamente. Ainda que não envolvesse, nada tão violento deveria soar natural.

Os nomes que voltam : Fiquei emocionadíssima lendo este texto tão curto, que fala como o nome "Amarildo" voltou a ecoar pelo Brasil em um contexto diferente.

IPM absolve oficial da morte do pedreiro Amarildo : Sem palavras. A coisa caminha para a impunidade.

E eu não poderia deixar de indicar a página "Mães de Maio" no Facebook, que trata exatamente da violência policial contra jovens negros, pobres e periféricos.

Uma carta de amor aberta para o meu filho: Sobre luto, amor e maternidade negra : Texto traduzido pelo  portal Blogueiras Negras (sigam, recomendadíssimo!). Um dos textos mais poderosos e impactantes que já li, sobre o medo de uma mulher negra em ter um filho negro. Se eu pudesse indicar apenas um texto hoje, seria este.

Genocídio da população negra: O que nosso feminismo tem a ver com isso? : Para entender a relação entre genocídio da população negra e o feminismo negro.

4. Racismo

Por que o racismo contra indígenas é o maior de todos no Brasil? : Eu fico super reticente com este título que compara opressões, mas o texto é bom e importante para entender o preconceito contra os indígenas.

A prática da farsa persiste: Eram os egípcios homenzinhos verdes? : Mais um capítulo apagado da História, o fato de que a civilização egípcia era negra.

5. Cinema

Pesquisa revela que mulheres negras estão fora do cinema nacional : Facílimo atestar isto. Tentei lembrar aqui de uma mulher negra em papel de destaque em alguns dos filmes brasileiros que assisti recentemente e simplesmente não lembrei de nenhuma.

Orixás se tornam super-heróis em filme Nigeriano : Fiquei com muita vontade de assistir! Queria demais que chegasse ao Brasil, tanto pela representação das religiões de matriz afro, mas também porque já pensou a cara dos fundamentalistas cristãos (defensores do ódio misógino, racial, contra LGBTs) ao ver Orixás representados como SUPER HERÓIS? Eu tenho pequenos espasmos de prazer só de pensar nisso.

6. Backlash

Para quem não está familiarizado, Backlash é o título de um livro escrito por Susan Faludi, que é bastante importante para entender a dificuldade do feminismo em avançar. Como explica a autora:

"Embora o contra-ataque antifeminista não seja um movimento organizado, nem por isto deixa de ser destrutivo. Com efeito, a falta de coordenação, a ausência de uma única liderança só servem para torná-lo menos visível — e talvez mais eficiente. Um backlash contra os direitos das mulheres tem sucesso na medida em que parece não ter conotações políticas, na medida em que se mostra como tudo, menos uma luta. Ele é tanto mais poderoso, quanto mais consegue transformar-se numa questão privada, penetrando na mente da mulher e torcendo a sua visão para dentro, até ela imaginar que a pressão está toda na cabeça dela, até ela começar a impor as regras do backlash a si mesma" (tradução retirada do wikiquote).

The Princess Effect (em inglês): mesmo as mulheres que alcançaram cargos políticos de liderança não estão livres de serem primeiramente analisadas por sua beleza. É backlash porque tenta colocar a mulher, mesmo a mais poderosa delas, de volta em lugar decorativo.

Wonder Woman's feminism matters. So why would the comic industry reject it? (em inglês): David Finch, o novo artista contratado para desenhar a personagem Mulher Maravilha, fez uma declaração polêmica, na qual afirmava que não a desenharia "feminista". Cara, estamos falando de um ÍCONE feminista. Como é possível que alguém contratado para desenhá-la não entenda isso? Esse apagamento: Bonito não está. É backlash na forma como demoniza a palavra feminismo, fazendo parecer que seja algo ruim ou menos humano.

Backlash em todos os lugares.

7. Gordofobia

Pensei que você fosse maior do que isso: Um texto pelo direito pessoal e intransferível de se sentir ofendida pela gordofobia.

8. Transfobia

O feminismo negro é absolutamente incompatível com a transfobia: Este editorial lindíssimo das blogueiras negras que eu apóio completamente, mesmo sendo uma feminista branca e cis.

9. Orange is the new black

Isso mesmo, mais texto de OITNB.

Orange is the new black: a novidade feminista? : Parte deste texto é uma tradução de um texto sobre a primeira temporada.

Por que Orange is the New Black é a melhor série do Netflix sobre poder : Gente, que texto maravilhoso! Estou apaixonada. "Sim". a cada frase lida neste texto minha vontade é de gritar "SIM". Entenda como OITNB explora as relações de poder dentro do microcosmo da penitenciária de Litchfield. Tem muitos spoilers.

10. Copa do Mundo

Textos sobre futebol, escritos por mulheres.

Na Copa das Copas, o futebol tinha de ser o vencedor! Obrigada, Alemanha : Um texto muito legal sobre alguns dos erros cometidos na copa e como a seleção da Alemanha deu um exemplo de respeito ao adversário.

Nope, I am not embarassed by the 7 -1 (em inglês): Quando todos na mídia falam em vexame, eu só lembro das palavras da minha sábia mãe (usada nas mais diversas situações da vida): "vexame é cagar e não encontrar com o que se limpar". Neste belo texto a autora explica porque a derrota contra a Alemanha não a deixa envergonhada.

11. O que andei escrevendo?

Só lista de compras de supermercado. Quem sabe fico mais produtiva agora que a Copa caminha para o fim? Eu até pensei em escrever algo sobre o jogo Brasil x Alemanha (e a copa no geral) mas sabia que possivelmente atrairia a atenção de torcedores fanáticos e acabei desistindo (parcialmente). Vou escrever parte do texto aqui mesmo, junto com os outros links, tudo junto e misturado para não se tornar o centro da conversa de hoje.

O futebol revelando o pior do ser humano
Como torcedores, deveríamos aprender a perder. Quando Marcelo fez um gol contra no primeiro jogo do time do Brasil as reações foram piores que cruéis, foram criminosas, porque em nosso país racismo é crime, vale lembrar. Quando Neymar foi lesionado, as críticas ao jogador colombiano Zuniga seguiram o mesmo caminho, acrescentando as ofensas misóginas e ameaças de estupro contra sua pequena filhinha. Quando perdemos para a Alemanha, jogamos fora o tal do orgulho e amor de ser brasileiro. E é claro, agredimos os alemães também, por ousar vencer com tanta facilidade a seleção brasileira. Muitos exemplos da falta de "cordialidade brasileira" no momento da derrota ou do erro, quando em todos os casos citados poderíamos desenvolver uma crítica não-violenta, sem dar espaço para aquilo que de pior existe em nós. 
Diante de tantas vaias aos hinos das diferentes nações que participaram do torneio, diante do coro de xingamentos homofóbicos, misóginos e racistas, eu me sinto triste. Mais triste que envergonhada, na verdade, porque tudo isto nos mostra o quanto não somos cordiais com os adversários, com as mulheres, com os LGBTs, com os negros e com qualquer um que esteja no caminho da vitória. É bom ganhar? em casa? com o Estádio todo amarelinho? SIM, mas o que parece é que o torcedor brasileiro gosta mais de ganhar do que de futebol. Ele só reconhece dois signos: Vitória e Derrota, e suas ações refletem esses extremos. Num momento há um patriotismo desenfreado e no outro um ódio cego contra o Brasil. Sei que por hora nada muda, mas eu gostaria que, talvez agora que há tantos anos não participamos das finais da Copa do Mundo, fosse um bom momento para começar a aprender como perder sem destruir aos outros.
O futebol revelando o melhor do ser humano 

O gaúcho deu a taça para uma alemã que pediu para levá-la na final

Gostou da seleção de links? Gostou de algum link? Comente, divulgue, passe adiante o link que você gostou. E volte sempre, toda quinta-feira eu faço esta curadoria de links. 


Por um mundo com menos texto-chorume circulando na internet.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

#ValorizeAsMinas: Vai ter beijo homoafetivo, sim!

Esta semana tive um pouquinho mais de tempo para leitura, deu para selecionar uns links bem legais para o #ValorizeAsMinas ;)

Vamos à imagem da semana:

Se reclamar vai ter dois!
O fandom Clarina foi à loucura!

Está todo mundo se referindo a esse beijo como beijo lésbico, mas vi várias pessoas bissexuais reclamando de apagamento, porque a Clara é bissexual. Eu queria ter vários bons links sobre o momento Clarina Kiss, mas não tenho, infelizmente! Não se falou muito a respeito. Será que é reflexo da copa do mundo ou  isso atesta o apagamento?

1. Publicidade:

Normalmente a gente fala mal da publicidade por ser machista, racista, gordofóbica e etc. Mas nos últimos dias apareceram umas propagandas bem bacanas! Dá uma olhadinha:

O que é, afinal, fazer coisas "como uma menina"? : Uma das raríssimas propagandas feministas. A always levanta o questionamento "o que é fazer algo como uma menina?". A resposta é tocante.

HelloFlo - First moon party (em inglês): Este link aqui circulou por aí há alguns dias e também é uma propaganda de absorvente. Não é feminista, mas é bem engraçada.

New Pantene Ad Urges Women To Stop Saying Sorry (em inglês): Uma propaganda que mostra como nós, mulheres, temos o reflexo de nos desculpar por tudo. Achei bem legal e, na verdade, eu acho que também esse hábito. Me lembrou desta palestra aqui (em inglês, dá para habilitar a legenda em português) da Sheryl Sandberg, COO do Facebook.

2. Maternidade e Infância:

Os príncipes e o Tesouro : Sabe quando um desses homofóbicos reclamam de beijo gay na novela com aquele argumento tosco "como vou explicar para os meus filhos"? Tomaí um livro infantil com um casal homossexual. <3

Feio não é ser mãe solteira, feio é ser pai quando convém : Um texto maravilhoso sobre as mães que criam seus filhos sozinhas e os pais ausentes que só aparecem quando convém. E como elas é que são tachadas de chatas, exigentes, elas é que são incompreensivas com os pais, que não têm tempo para seus filhos, como se fosse mais fácil para elas, que são mães em tempo integral.

3. TV

Why Is Orphan Black Still Fighting a War Buffy Should Have Won Over 10 Years Ago? (Em inglês): Há mais de 10 anos Buffy quebrou um paradigma importante ao se tornar uma série geek com uma personagem central mulher e que foi amplamente bem aceita. Mulheres podem ser protagonistas de séries rentáveis e de sucesso.

A sexualidade feminina em Game of Thrones : É incrível que mesmo uma série com personagens femininas tão marcantes ainda não garanta a agência sexual delas.

4. Músicas

The 10 best feminist songs by Latinas : Esse link entraria na lista da semana passada, mas eu esqueci! É uma seleção de músicas feministas cantadas por mulheres latinas. Eu apenas discordo que são as melhores canções feministas, minha lista seria totalmente diferente! E a sua? :)

5. Pesquisas

Suicide Attempts among Transgender and Gender Non-Conforming Adults (Em inglês) : Uma pesquisa da "Fundação Americana pela Prevenção do Suicídio" sobre a incidência de tentativas de suicídio na população trans. Só adiantando um número para vocês, 45% da população estudada já tentou o suicídio. É chocante. É muita gente.

6. Estupro

The Daily Show's Take on Sexual Assault Is Devastatingly Good (Em inglês): Vídeo humorístico sobre uma situação que afeta os Estados Unidos, a forma como as universidades americanas protegem os alunos estupradores.

7. Questões raciais

Os 25 anos de "Faça a coisa certa", de Spike Lee: Um texto incrível sobre Spike Lee, um diretor amado na mesma proporção em que é rejeitado por ter recebido a pecha de "agressivo". Já repararam que as pessosa negras assertivas sobre racismo são costumeiramente chamadas de agressivas? O que ninguém pode negar é a importância do filme "Faça a coisa certa" para o cinema negro americano.

As gurus da beleza negra na internet: Esse artigo levanta muitas questões interessantes, quem são as mulheres negras que falam sobre beleza na internet brasileira? Quantas são? Se destacam tanto quanto as mulheres brancas? Como lidam com o racismo?

A lei que mudou a história dos negros nos EUA completa 50 anos: Você conhece Rosa Parks? Deveria. Essa mulher incrível é parte importante da história dos negros americanos.

O que afasta as crianças e os adolescentes negros da escola? : Um texto para acabar com a noção de meritocracia.

8. Exposições:

Nunca invejei tanto a galera de Curitiba! A partir do dia 17 de Julho entra em cartaz a mostra "Frida Kahlo - suas fotografias", no Museu Oscar Niemeyer. Curitibanas, estou branca, azul, roxa, de inveja de vocês.

9. Para acompanhar:

Você curte ficção científica e é feminista? Você deveria começar agora mesmo a ler o blog Momentum Saga, da Sybylla. Aproveite e siga o Tumblr Ficção Científica Feminista também :)

E quadrinhos? Você curte? Então conheça o Lady's comics, um site sobre mulheres e quadrinhos/ilustrações. E não deixe de dar uma olhadinha (e uma apoiadinha também) no projeto delas no Catarse!

10. Panorama mundial

Supreme Court Rejects Contraceptives Mandate for Some Corporations (em inglês): Está rolando uma situação muito alarmante nos Estados Unidos. Para quem não sabe, não existe saúde pública nos Estados Unidos. As pessoas necessariamente precisam de planos de saúde para acessar serviços básicos de saúde. Mesmo com este quadro, a Suprema Corte decidiu por maioria apoiar a empresa Hobby Lobby que solicitava que a empresa, administrada por uma família religiosa, não pagasse pela cobertura da "contracepção" nos planos de saúde de suas funcionárias. Isso é muito grave. Abre um precedente perigosíssimo. Este texto explica bem a situação.

11. O que escrevi esta semana?

O amor romântico feminino que transforma os homens: Já reparou na quantidade de filmes, livros, novelas e até músicas que falam das mulheres que transformam homenzinhos de merda em príncipes encatados?

Por que o Soluço, de "Como treinar o seu dragão", é um personagem memorável? Neste texto eu falo da importância de um personagem masculino que contraria vários aspectos do ideal de masculinidade imposto pela sociedade.

Chegamos ao fim do #ValorizeAsMinas de hoje!

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terça-feira, 1 de julho de 2014

Por que o Soluço, de "Como treinar o seu dragão", é um personagem memorável?

Atenção: Spoilers de "Como treinar se dragão" e "Como treinar seu dragão 2"



Em tempos em que o choro masculino é retratado como sinal de fraqueza e descontrole, personagens como o Soluço, do filme “Como treinar o seu dragão” e “Como treinar o seu dragão 2”, se tornam ainda mais importantes. Este personagem, embora masculino, é um daqueles com que me identifico muito, até mais do que sua namorada Astrid. Astrid tem uma série de qualidades que a tornam uma boa personagem, mas ainda sim, é em soluço que me vejo representada.

Soluço é o filho do Viking Estóico, O Imenso. Estóico é um homem corajoso, um bravo guerreiro e líder de Berk, a cidade viking que está em guerra com os Dragões. O que torna Soluço um personagem tão interessante é o fato de que ele não aceita aquilo que lhe foi imposto sem questionar. Enquanto todos decidem que a única forma de acabar com a guerra é exterminar todos os dragões, Soluço acredita que dragões não são maus por natureza e que é possível uma aproximação. É um personagem com contornos de esquerda, por acreditar em uma ideologia que contraria o status quo. Acredito até mesmo que é a sua capacidade de questionar que gerou o seu interesse pela cartografia, por descobrir o que está além, e é sua curiosidade que o torna tão hábil em treinar os dragões, em conhecê-los.

Talvez eu consiga me relacionar tanto com Soluço porque ele possui uma série de características que são consideradas femininas. A força deste personagem não está nos seus atributos físicos, sua inteligência não é usada para a guerra e sua liderança é colaborativa e pacífica. Estóico, em vários momentos, deixou de ouvir o filho por acreditar que sua recusa em ser o herói viking clássico fosse uma fraqueza quando, na realidade, esta era a maior qualidade de Soluço. Isso importa porque as crianças, em especial os meninos, precisam de modelos de heróis cujo maior desejo é evitar o combate. Soluço representa um questionamento daquilo que entendemos por masculinidade, que é um conceito eivado de agressividade.

Um bom exemplo de sua natureza não agressiva ocorre no segundo filme, Soluço descobre a existência do vilão Drago e sua primeira reação é: “vou conversar para que ele mude de opinião”. O mais normal em qualquer filme é que o herói parta para derrotar o seu inimigo, não para torná-lo um aliado. 

A sua capacidade de empatizar com o outro também é colocada à prova no segundo filme, quando ele descobre que sua mãe, Valka, dada como morta, na verdade estava viva, mas optou por abandonar Berk e cuidar dos dragões. Me dá vontade de bater palmas de pé para os roteiristas do filme, que não se conformam em criar lugares-comuns, porque seria até mais dramático para o roteiro que houvesse um ressentimento, mas em vez de julgá-la, ele a perdoou, ele compreendeu e até mesmo se identificou. O que gerou cenas lindíssimas de um reencontro entre duas pessoas que mal se conhecem, mas que são tão parecidas.

Não menos importante, Soluço também tem uma diversidade funcional (a.k.a deficiência física). Ele perdeu parte da perna no primeiro filme. Aliás, “Como treinar o seu dragão” e sua sequência, mostram vários personagens com diversidade funcional, inclusive o dragão “Fúria da Noite”, que usa uma prótese criada por Soluço. O que poderia ter sido tratado como uma fraqueza do personagem é encarado com naturalidade. Isso é importante pela questão da representatividade das pessoas com diversidade funcional, especialmente nas tramas de aventuras. 

Soluço mostra para as crianças que é possível ser corajoso sem partir para a guerra, ser aventureiro e livre, com diversidade funcional. É possível ser um líder disposto a dialogar. E é possível viver fora dos padrões que a sociedade impõe como um comportamento masculino típico. E por tudo isso, este personagem é memorável.

sábado, 28 de junho de 2014

Cultura pop: O amor romântico feminino que transforma os homens

Aviso: Spoilers do livro/filme "Um dia"



Outro dia eu finalmente assisti aquele filme “Um dia”. Assisti apenas por motivos de: Anne Hathaway. Eu nem esperava muito do filme, achei que seria mais um romancezinho água com açúcar. E mesmo com as minhas expectativas baixas, ele se provou uma grande decepção. A personagem de Anne, Emma, conhece Dexter no dia de sua formatura do highschool (o equivalente ao ensino médio). Bem, eles já se conheciam antes, mas ele não se lembrava dela. Eles acabam se tornando grandes amigos, apesar de ficar claro que sempre rolou algum sentimento entre os dois. 

A história se desenrola entre idas e vindas destes personagens. Enquanto Emma, que é pobre, rala em subempregos para sobreviver, Dexter vive de baladas e da grana dos pais. Há um momento ainda durante a juventude, que os dois tiram férias juntos e quase rola algo. Não rolou porque, para variar, o Dexter é um babaca. Apesar disto, Emma esteve quase todo o tempo por perto para apoiar Dexter, ser guru, ser sua amiga-quase-amante, um porto seguro.

Emma vai aos poucos se estabelecendo, começa a viver a vida com que sempre sonhou. Enquanto Dexter vai se destruindo até não sobrar quase nada. Então, ele resolve tomar jeito na vida e ir atrás da Emma, que o aceita de bom grado. E como último passo na transformação de Dexter, Emma morre.

Emma é uma personagem que serve de degrau para a jornada do homem. E quantas personagens existem que fazem este mesmo exato papel? Por que continuam produzindo conteúdo para mulheres que ensinam que um homenzinho de merda tem potencial para se tornar um bom namorado/marido/pai? Já começamos encontrando na infância o romance de “A Bela e a Fera”. Falando em Disney, podemos citar até mesmo filmes recentes (e ótimos) como “Enrolados”, em que o herói é um ladrão que se redime através do amor. E fora da Disney também há muitos outros exemplos. A própria Anne Hathaway já viveu personagem similar em “Amor e outras drogas”.

O somatório da produção cultural, entre livros, filmes, séries, músicas e tudo o mais, deixam uma mensagem clara para as mulheres: Por amor (Quero ressaltar que este texto é sobre amor romântico e heterossexual), precisamos aguentar tudo. Se nós amamos, precisamos ser persistentes, pois o nosso amor é capaz de mudar todo comportamento abusivo de nossos companheiros. Tal qual uma mãe educa um filho. A maternidade estendida a todas as mulheres, sempre que elas se relacionem com homens. É fácil entender o quanto esse discurso é prejudicial, o quanto ele nos torna reféns de relacionamentos abusivos. Este é um discurso poderoso que redime os homens de suas condutas e bota sobre a mulher a responsabilidade da transformação.

O que acho curioso é que seja sempre o amor feminino o agente da transformação, quando não há nada menos subversivo do que uma mulher amar um homem. Somos ensinadas a ver nos homens tudo o que deve ser amado. Eles são entendidos como mais fortes, mais livres, mais racionais, mais profissionais, enfim. Enquanto às mulheres são atribuídas as características de mais frágeis, fofoqueiras, interesseiras, histéricas e etc. É por isso que em nossa sociedade “ser homem” é ter uma série de qualidades que o tornam “melhor” (muitas aspas), é ser brother, é ter ética, é jogar limpo. Enquanto “ser mulherzinha”, assim mesmo no diminutivo, é ser fútil, ser fraca, ser sentimental. Está clara a situação de poder, em que mulheres estão embaixo e homens em cima. Por tudo isso, é esperado (e heteronormativo) que uma mulher ame um homem. Um homem que ama uma mulher é uma exceção. Um prêmio que devemos disputar como highlanders do amor, até que só reste uma em seu coração masculino. 

Eu acredito no amor como uma força transformadora, mas não no amor romântico que pressupõe toda essa relação desequilibrada de forças. É neste ponto que é importante conhecer personagens como a Malévola, do filme homônimo da Disney. Malévola não é motor de transformação de homem nenhum. Ao contrário, fica evidente que uma mulher não é capaz de mudar seu companheiro, por mais que o ame. Precisamos de mais Malévolas e menos Emmas na cultura pop.