terça-feira, 1 de julho de 2014

Por que o Soluço, de "Como treinar o seu dragão", é um personagem memorável?

Atenção: Spoilers de "Como treinar se dragão" e "Como treinar seu dragão 2"



Em tempos em que o choro masculino é retratado como sinal de fraqueza e descontrole, personagens como o Soluço, do filme “Como treinar o seu dragão” e “Como treinar o seu dragão 2”, se tornam ainda mais importantes. Este personagem, embora masculino, é um daqueles com que me identifico muito, até mais do que sua namorada Astrid. Astrid tem uma série de qualidades que a tornam uma boa personagem, mas ainda sim, é em soluço que me vejo representada.

Soluço é o filho do Viking Estóico, O Imenso. Estóico é um homem corajoso, um bravo guerreiro e líder de Berk, a cidade viking que está em guerra com os Dragões. O que torna Soluço um personagem tão interessante é o fato de que ele não aceita aquilo que lhe foi imposto sem questionar. Enquanto todos decidem que a única forma de acabar com a guerra é exterminar todos os dragões, Soluço acredita que dragões não são maus por natureza e que é possível uma aproximação. É um personagem com contornos de esquerda, por acreditar em uma ideologia que contraria o status quo. Acredito até mesmo que é a sua capacidade de questionar que gerou o seu interesse pela cartografia, por descobrir o que está além, e é sua curiosidade que o torna tão hábil em treinar os dragões, em conhecê-los.

Talvez eu consiga me relacionar tanto com Soluço porque ele possui uma série de características que são consideradas femininas. A força deste personagem não está nos seus atributos físicos, sua inteligência não é usada para a guerra e sua liderança é colaborativa e pacífica. Estóico, em vários momentos, deixou de ouvir o filho por acreditar que sua recusa em ser o herói viking clássico fosse uma fraqueza quando, na realidade, esta era a maior qualidade de Soluço. Isso importa porque as crianças, em especial os meninos, precisam de modelos de heróis cujo maior desejo é evitar o combate. Soluço representa um questionamento daquilo que entendemos por masculinidade, que é um conceito eivado de agressividade.

Um bom exemplo de sua natureza não agressiva ocorre no segundo filme, Soluço descobre a existência do vilão Drago e sua primeira reação é: “vou conversar para que ele mude de opinião”. O mais normal em qualquer filme é que o herói parta para derrotar o seu inimigo, não para torná-lo um aliado. 

A sua capacidade de empatizar com o outro também é colocada à prova no segundo filme, quando ele descobre que sua mãe, Valka, dada como morta, na verdade estava viva, mas optou por abandonar Berk e cuidar dos dragões. Me dá vontade de bater palmas de pé para os roteiristas do filme, que não se conformam em criar lugares-comuns, porque seria até mais dramático para o roteiro que houvesse um ressentimento, mas em vez de julgá-la, ele a perdoou, ele compreendeu e até mesmo se identificou. O que gerou cenas lindíssimas de um reencontro entre duas pessoas que mal se conhecem, mas que são tão parecidas.

Não menos importante, Soluço também tem uma diversidade funcional (a.k.a deficiência física). Ele perdeu parte da perna no primeiro filme. Aliás, “Como treinar o seu dragão” e sua sequência, mostram vários personagens com diversidade funcional, inclusive o dragão “Fúria da Noite”, que usa uma prótese criada por Soluço. O que poderia ter sido tratado como uma fraqueza do personagem é encarado com naturalidade. Isso é importante pela questão da representatividade das pessoas com diversidade funcional, especialmente nas tramas de aventuras. 

Soluço mostra para as crianças que é possível ser corajoso sem partir para a guerra, ser aventureiro e livre, com diversidade funcional. É possível ser um líder disposto a dialogar. E é possível viver fora dos padrões que a sociedade impõe como um comportamento masculino típico. E por tudo isso, este personagem é memorável.

sábado, 28 de junho de 2014

Cultura pop: O amor romântico feminino que transforma os homens

Aviso: Spoilers do livro/filme "Um dia"



Outro dia eu finalmente assisti aquele filme “Um dia”. Assisti apenas por motivos de: Anne Hathaway. Eu nem esperava muito do filme, achei que seria mais um romancezinho água com açúcar. E mesmo com as minhas expectativas baixas, ele se provou uma grande decepção. A personagem de Anne, Emma, conhece Dexter no dia de sua formatura do highschool (o equivalente ao ensino médio). Bem, eles já se conheciam antes, mas ele não se lembrava dela. Eles acabam se tornando grandes amigos, apesar de ficar claro que sempre rolou algum sentimento entre os dois. 

A história se desenrola entre idas e vindas destes personagens. Enquanto Emma, que é pobre, rala em subempregos para sobreviver, Dexter vive de baladas e da grana dos pais. Há um momento ainda durante a juventude, que os dois tiram férias juntos e quase rola algo. Não rolou porque, para variar, o Dexter é um babaca. Apesar disto, Emma esteve quase todo o tempo por perto para apoiar Dexter, ser guru, ser sua amiga-quase-amante, um porto seguro.

Emma vai aos poucos se estabelecendo, começa a viver a vida com que sempre sonhou. Enquanto Dexter vai se destruindo até não sobrar quase nada. Então, ele resolve tomar jeito na vida e ir atrás da Emma, que o aceita de bom grado. E como último passo na transformação de Dexter, Emma morre.

Emma é uma personagem que serve de degrau para a jornada do homem. E quantas personagens existem que fazem este mesmo exato papel? Por que continuam produzindo conteúdo para mulheres que ensinam que um homenzinho de merda tem potencial para se tornar um bom namorado/marido/pai? Já começamos encontrando na infância o romance de “A Bela e a Fera”. Falando em Disney, podemos citar até mesmo filmes recentes (e ótimos) como “Enrolados”, em que o herói é um ladrão que se redime através do amor. E fora da Disney também há muitos outros exemplos. A própria Anne Hathaway já viveu personagem similar em “Amor e outras drogas”.

O somatório da produção cultural, entre livros, filmes, séries, músicas e tudo o mais, deixam uma mensagem clara para as mulheres: Por amor (Quero ressaltar que este texto é sobre amor romântico e heterossexual), precisamos aguentar tudo. Se nós amamos, precisamos ser persistentes, pois o nosso amor é capaz de mudar todo comportamento abusivo de nossos companheiros. Tal qual uma mãe educa um filho. A maternidade estendida a todas as mulheres, sempre que elas se relacionem com homens. É fácil entender o quanto esse discurso é prejudicial, o quanto ele nos torna reféns de relacionamentos abusivos. Este é um discurso poderoso que redime os homens de suas condutas e bota sobre a mulher a responsabilidade da transformação.

O que acho curioso é que seja sempre o amor feminino o agente da transformação, quando não há nada menos subversivo do que uma mulher amar um homem. Somos ensinadas a ver nos homens tudo o que deve ser amado. Eles são entendidos como mais fortes, mais livres, mais racionais, mais profissionais, enfim. Enquanto às mulheres são atribuídas as características de mais frágeis, fofoqueiras, interesseiras, histéricas e etc. É por isso que em nossa sociedade “ser homem” é ter uma série de qualidades que o tornam “melhor” (muitas aspas), é ser brother, é ter ética, é jogar limpo. Enquanto “ser mulherzinha”, assim mesmo no diminutivo, é ser fútil, ser fraca, ser sentimental. Está clara a situação de poder, em que mulheres estão embaixo e homens em cima. Por tudo isso, é esperado (e heteronormativo) que uma mulher ame um homem. Um homem que ama uma mulher é uma exceção. Um prêmio que devemos disputar como highlanders do amor, até que só reste uma em seu coração masculino. 

Eu acredito no amor como uma força transformadora, mas não no amor romântico que pressupõe toda essa relação desequilibrada de forças. É neste ponto que é importante conhecer personagens como a Malévola, do filme homônimo da Disney. Malévola não é motor de transformação de homem nenhum. Ao contrário, fica evidente que uma mulher não é capaz de mudar seu companheiro, por mais que o ame. Precisamos de mais Malévolas e menos Emmas na cultura pop.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

#ValorizeAsMinas: Semana corrida não impede os bons links

Semana corrida. Vida agitada. Muita série no Netflix. Não tive muito tempo para leituras esta semana, por isso a lista do dia será breve, porém com selo Giza de qualidade!

Se foi Rose Marie Muraro, fica a nossa gratidão.

1. Aborto

Ora, ora. Veja só. Esta semana eu nem comecei falando de Copa do Mundo. \o/

Aborto, nova tramóia dos fundamentalistas: Texto sobre a escalada de poder e a agenda conservadora dos fundamentalistas, cujo mais recente alvo são os direitos reprodutivos da mulher. Eu também já escrevi sobre isso e falei da necessidade de começar a falar em ódio cristão.

2. Infância

Dica de desenhos e filmes infantis: Protagonistas negros : Para fortalecer a autoestima das crianças negras é importante se sentir representado. Infelizmente, a maior parte da produção dos desenhos animados tem protagonistas brancos. Então, que tal conhecer os poucos desenhos que fogem à regra?

3. Mulheres Notáveis

Energia = Mulher . Ciência² : Um texto sobre as três cientistas brasileiras que foram destaque na mídia nas últimas semanas devido às suas contribuições para suas áreas de pesquisa.

Morre aos 83 anos a intelectual Rose Marie Muraro: Morreu esta semana uma pioneira do movimento feminista brasileiro, depois de escrever dezenas de livros e ser considerada a patrona do feminismo no Brasil.

"Why is God telling me to stop asking questions?": Meet the woman behind Neil DeGrasse Tyson's Cosmos (Em inglês): Conheça um pouco de Ann Druyan, a criadora e roteirista da série "Cosmos" (Da série original e da série atual).

4. Games

A Anita Sarkeesian, do Feminist Frequency (Todos os links em inglês), acaba de lançar mais um vídeo da série "TropesxWomen in Video Games" sobre a representação feminina nos games.

Women in Background Decoration - Part 1 (Em inglês, mas dá para habilitar a legenda em português): Neste vídeo, Anita mostra como os games têm representado as mulheres como objetos sexuais, suscetíveis à violência e como os jogos induzem o comportamento agressivo do jogador.

5. TV

As rainhas do segundo ano de Orange is the new black (Tem spoilers): Eu sei que já postei exaustivamente links sobre esta série, mas é que tá pouco de link de OITNB, precisa de mais link.

Racismo; escritor diz que o Nordeste é uma bosta : Para quem não sabe ainda, isso é racismo. Tá legal?

6. Sexualidade

Let's spend some time together (Em inglês) : Este texto publicado no Rookie Mag (um website para adolescentes), é o relato da experiência de uma mulher em decidir fazer sexo com pessoas que acabou de conhecer. Sabe aquele velho mito de que mulher que dá no primeiro encontro é vadia? Passou da hora de questionar essa afirmação. E é ótimo ler o relato de uma mulher como agente de uma investida sexual, já que normalmente a gente só ouve falar que homem é que sai para "pegar mulher". As minas também pegam, é uma via de mão dupla, sabe?

7. Música

The 13 Creepiest moments in Robin Thicke's new "Get her back" video, presented in chronological order (Em inglês): Sabe aquele babaca que gravou aquela música misógina "Blurred lines"? Eles está de volta com um vídeo bem escrotinho. O contexto é ainda mais assustador, como você pode ler aqui (Em inglês). O cantor se separou da esposa e adivinha qual o nome do novo álbum dele? Isso mesmo, o nome da ex. O vídeo mostra várias SMS reais trocadas entre os dois. Parece ou não um daqueles caras violentos que começam a seguir e assediar suas ex-namoradas?

Lady Gaga "do what u want" video banned for promoting rape (Todos os links relacionados em inglês): O que dizer de um vídeo de uma música cuja mensagem é "faça o que você quiser como meu corpo", dirigido pelo Terry Richardson, que foi recentemente acusado de estupro, e estrelando R.Kelly, um outro sujeito acusado de estupros e de possuir pornografia infantil? Sinceramente, está tudo errado. Tudo.

E já que estamos falando de música, em época de Copa do Mundo, porque não lembrar da única música da copa que presta e tem o vídeo mais delicioso, a coreografia que dá vontade de levantar e dançar junto? É o clipe do passinho. E tem até a versão bafo. <3

8. Panorama Mundial

3 Frat members film sexual assault, are allowed to graduate anyway (Em inglês) : (TW - Estupro) Mais um dentre os incontáveis casos de estupro em universidades americanas.

Novo colonialismo na África: Europeus, americanos e chineses se apoderam das riquezas : Este não é um texto sobre feminismo, mas sobre como os interesses econômicos dos países de 1º mundo passam por cima de qualquer interesse humanitário.

Banned from sports stadiums, Iranian women get creative (Em inglês): Mulheres iranianas não podem entrar em estádios, e por isso se disfarçam de brasileiras para assistir ao jogo de vôlei Brasil x Irã.

Mulheres são esterilizadas sem consentir em prisões nos EUA : Gravíssima violação de direitos humanos das presidiárias americanas. Absurdo, aterrador.

"O aborto será descriminalizado este ano" : Entrevista com a presidenta do Chile, Michelle Bachelet, que entre vários assuntos, aborda a questão do aborto.

9. Copa do Mundo

Ok, só para não perder o costume.

Deficiência não é sinônimo de cadeiras de rodas, Dona FIFA : Texto sobre o compartilhamento irresponsável de uma foto de uma moça de pé, apesar da cadeira de rodas. O texto mostra como a deficiência (e a necessidade do uso de cadeira de rodas) não acomete apenas para ou tetraplégicos. Nem sempre a deficiência é visível.

Musa não joga, não torce e não apita : Na minha opinião, a Fórum está fazendo a melhor cobertura da Copa. Este é um texto sobre como é dado à mulher um lugar secundário no futebol.

Defying ban, Iranian women watch World Cup with men in public (Em inglês) : As mulheres iranianas de novo! Sim, elas estão desafiando as convenções e assistindo aos jogos em lugares públicos. <3

10. O que andei escrevendo por aí?

A semana foi tão corrida que nem recado na porta da geladeira eu escrevi.  :(

Gostaram da listinha de links da semana? Fique ligadinho que toda quinta tem #ValorizeAsMinas, a minha forma de promover o feminismo através de notícias relacionadas, textos e do trabalho de outras minas feministas. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

#ValorizeAsMinas: O "adeus" do We Can Cast It.

Que loucura que foi esta última semana! O twitter vai explodir de tanto meme da copa. Aliás, a internet anda meio monotemática, tanto que acho até que li mais textos feministas gringos do que brasileiros. Não sei se foi porque quando se fala muito de um tema (futebol), acabamos esquecendo de divulgar outros (feminismo), ou se até mesmo os textos feministas deram uma diminuída no ritmo.

Por isso a lista desta semana terá vários links em inglês :(


Na segunda-feira desta semana, foi ao ar o último episódio do podcast que produzo. acho que passei por todas as emoções possíveis por causa do fim do podcast. Do choro ao sentimento de alívio e recomeço. Da sensação de que se foi muito cedo e do dever cumprido. Não sei  mais nem o que pensar a respeito. Os motivos você pode conferir ouvindo o episódio.

A vida segue :´)

1. Copa do Mundo

Já está todo mundo doente de tanto link sobre a Copa do mundo? eu também já estou saturada. Mas o assunto está rendendo algumas discussões interessantes para as mulheres, afinal, futebol, racismo, machismo, preconceitos de classe andam juntinhos.

Dilma é xingada e as feministas são convocadas para a defesa : Podemos e devemos criticar a atuação da presidenta. Mas é justo fazê-lo usando um discurso machista?

A ausência como discurso na abertura da copa : Um texto sobre a gentrificação na abertura da Copa do Mundo, amplamente tomada por uma elite branca.

Cientista reclama de tempo curto para mostrar exoesqueleto em abertura : Que cagada fenomenal. Sabe aquela história de "um pequeno passo para o homem um grande passo para a humanidade"? Se aplicaria muito bem ao experimento desenvolvido pelo cientista Miguel Nicolelis, mas para quê falar de uma inovação científica que mudará a vida de milhares de pessoas com diversidade funcional, se podemos mostrar o ônibus da seleção chegando, não é?

Machismo: e se fosse um pedreiro? : Um texto sobre o beijo não consensual que o turista croata deu na jornalista Sabina Simonato enquanto ela fazia seu trabalho.

World Cup of Sexism (Em inglês) : Os gringos estão achando que a mulher brasileira está à disposição.

2. Games

Primeiro, me desculpem por tantos links em inglês, mas é que não conheço nenhum site feminista sobre games no Brasil (apenas o Colchões do Pântano, mas já tem um tempo que o blog está parado) que esteja acompanhando este debate.

Adding Female characters to new Assassin's Creed would "double the work", says Ubisoft (em inglês): Ubisoft tenta se justificar por não ter personagens femininas jogáveis em Assassin's Creed. Mas francamente? Que desculpinha! E já teve animador que refutou o argumento (em inglês)

E3 Supercut video highlights the sorry state of video game diversity (em inglês) : Um link que aponta a mesmice do protagonismo do jogos. Há um vídeo com uma compilação de 40 protagonistas, todos homens e brancos.

The video game that finally made me feel lika a human being (Em inglês): Então, já que entramos no assunto da representação feminina nos jogos, vou recomendar este texto sobre a DLC do jogo Last of Us, chamada de Left behind. O jogo é protagonizado por um homem branco (embora todas as personagens femininas que aparecem sejam ótimas), mas a DLC é uma espécie de prequell do jogo, que conta a história da Ellie e sua amizade com a Riley. É lindo demais ver uma história assim ser contada.

3. Mulheres Notáveis

American Girl in Italy: The travel story behind the iconic picture (Em inglês) :  A fotojornalista Ruth Orkin e a a estudante de arte Ninalee Craig viajaram para a Europa em 1951. Lá, Ruth fez uma série de fotografias, dentre as quais, "American Girl in Italy", uma foto icônica que é vista como um símbolo do assédio do qual as mulheres são vítimas nas ruas. Mas o que se fala pouco é da viagem por trás dessa fotografia, a história de duas mulheres determinadas a viajar pelo mundo e sem precisar de uma companhia masculina.

Mulheres na história da internet : As áreas do conhecimento relacionadas à tecnologia são dominadas por homens, mas há também um grau de invisibilização do trabalho das mulheres. Conheça algumas mulheres inspiradoras que fazem parte da história da internet.

Brasileira ganha prêmio internacional por sua pesquisa em energia escura : Marcelle Soares Santos venceu o Alvin Tollestrup Award (Prêmio Alvin Tollestrup) de Melhor Pesquisa de Pós-doutorado por sua contribuição à pesquisa de energia escura. 

4. Racismo

Professor faz lista com 360 termos racistas : Nem é notícia tão nova assim, mas eu só li essa semana. Um professor chamado Luiz Henrique Rosa, incomodado com a quantidade de termos ofensivos usados por seus alunos, pediu que eles listassem as ofensas que falavam. A maior parte das ofensas era racista. Dessa iniciativa nasceu um projeto chamado "Qual é a graça" que presta homenagem aos negros escravizados.

Dados de homicídios de jovens no país não constrangem a sociedade : José Júnior conta sua experiência no Afroreggae e do trabalho necessário de estender a mão para o jovem que não teve oportunidades. E faz um apelo para que mais pessoas apóiem o Afroreggae. Texto muito necessário nos dias atuais em que Datenas e Sheherazades levantam a voz em rede nacional pedindo linchamentos públicos.

5. Diversidade funcional (ou deficiência física)

Asneiras que mulheres com deficiência ouvem : Este link é necessário porque noção é artigo raro, está em falta no mercado. Por sinal, pude relacionar algumas coisas com as asneiras que as mulheres gordas ouvem. Eu acho que há algumas aproximações entre capacitismo, transfobia e gordofobia.

6. Mulheres e Ficção

Vai ter muito link. Primeiro porque essa semana rolou season finale de "Game of Thrones" e, segundo, porque ainda estou assistindo a segunda temporada de "Orange is the new black".

How "Orange is The New Black" is inspiring prison reform (Em inglês): Sabe aquela série super foda que eu recomendei há algumas semanas atrás? Segure aí mais este motivo para gostar dela. E não deixe de acompanhar as resenhas da Laís Rangel, no site Apaixonados por séries. Todos os sábados e quartas-feiras ela fará a resenha de um episódio da segunda temporada de "Orange is the new black".

Uzo Aduba and Danielle Brooks break out on Netflix (Em inglês): Entrevista com duas atrizes do seriado "Orange is the new Black", que interpretam as minhas duas personagens preferidas. <3 O meu amor por essa série não tem limites.

12 times the women of Game of Thrones were super fierce (Em inglês): Uma lista de momentos empoderadores das personagens. Eu só senti falta da little bird, Sansa Stark (em português).

"Game of Thrones" fails the female gaze: Why does prestige TV refuse to cater erotically to women? (Em inglês) : Esse texto trata de um aspecto pouco levantado sobre Game of Thrones (e a TV em geral), embora muito se fale na violência misógina, esquecemos de falar do quanto as cenas de nudez e sexo são produzidas para o olhar do público masculino.

A personagem feminina forte : Fica a pergunta, basta ser forte? Quantas mulheres fortes ainda tem suas histórias girando em torno de personagens masculinos?

7. Literatura

I Am not your Manic Pixie Bookworm (Em inglês) : Eu meio que quero me casar com este texto. Ele é sobre um novo tipo de objetificação da mulher, ou melhor, da intelectualidade da mulher. Já repararam como tem se tornado comum essa historinha de que "garota que lê é sexy" (menos se a mina gostar de ler teoria feminista!)? O hábito da leitura de uma mulher é uma ferramenta de empoderamento, e não mais uma forma de fetichização.

8. A TV e as mulheres brasileiras

Mulheres brasileiras: Do ícone midiático à realidade (Em português com legenda em espanhol): Documentário curtinho (14 minutos) sobre a representação da mulher brasileira na mídia.

SBT abre o palco para espancadores de mulheres no programa Casos de Família: O nível desse programa sempre foi baixo, mas agora escavou até o subsolo.

9. Panorama Mundial

Ruanda 20 anos depois: O trágico depoimento dos filhos do estupro : (TW - Estupro) Depoimentos de mulheres que foram estupradas em Ruanda em seu período de guerra pelos Interahamwe, a milícia hutu que liderou os massacres dos tutsis. E depoimento das crianças nascidas desses estupros.

Dos esqueletos que a Irlanda guarda no armário : Texto muito foda da Flávia Simas, que hoje mora na Irlanda. O país teve notoriedade internacional nas últimas semanas pela descoberta dos corpos de 796 bebês e crianças enterradas em um convento que servia de abrigo para mães solteiras. A Flávia explica todo o caso com detalhes em português. Não deixe de ler este texto.

10. Infância

Vídeo mostra porque os pais devem incentivar suas filhas a serem mais do que bonitas (Em inglês) : Um videozinho que mostra meninas tendo sua curiosidade desincentivada pelos pais com frases como "Não vá sujar seu vestido" ou "Deixe seu irmão fazer isso".

O que me lembrou de um  We Can Cast It que gravamos sobre dicas feministas para um mundo melhor. Uma das dicas era exatamente permitir que as crianças explorem seus potenciais, descubram suas habilidades.

11. O que andei publicando por aí?

Essa semana eu estive mais parada. Talvez seja efeito copa do mundo também.

We Can Cast It sobre Mulheres inspiradoras da Ficção - Eu e a Aline Valek estamos encerrando por tempo indeterminado este projeto. Chamamos várias convidadas e elas nos contaram quem são as personagens da ficção que mais as inspiraram e o que aprenderam com elas.

Gostou da seleção de links desta semana? Então está convidado a voltar! Todas as quintas feiras eu publico uma seleção de links legais.  No #ValorizeAsMinas eu dou preferência para o trabalho das mulheres e conteúdo que tenha relação com o feminismo. Vamos parar de dar clique de indignação e começar a distribuir notícias, textos, análises e outros projetos que tragam algo de positivo?

Leu algum texto muito legal que não está nesta lista? É só recomendar aí nos comentários :)





quinta-feira, 12 de junho de 2014

Vai ter copa, sim. Mas também vai ter #ValorizeAsMinas!

Faz bem para a saúde!
Quinta-feira é dia de fazer da internet um lugar mais salubre. A minha sugestão é trocar o clique de indignação em conteúdo chorumento por um clique em conteúdo feminista, ou para divulgar o trabalho de mulheres, nossas conquistas, nossa luta por uma sociedade mais justa. E como é Dia dos Namorados...  HOJE TEM! Hoje tem um bocado de texto bacana para vocês!

Audra Mcdonald interpretando Billie Holliday 
Um dos tópicos da lista de hoje é "Mulheres Notáveis" e a moça da foto, a Audra Mcdonald, está nele. Ela é uma atriz muito conhecida nos musicais, mas devido à minha enorme ignorância e um preconceito contra musicais alimentado por anos (que começa a ser quebrado), eu não a conhecia. A gente se impede de conhecer tantas coisas, tantas pessoas, tantos lugares por puro preconceito, não é?

1. Dia dos namorados

Dia dos namorados é dia de quê? Isso mesmo, de criticar o amor romântico!

A violência de gênero e o amor romântico : Uma tradução do texto de Carol Herrera Gómez que eu li há algum tempo, mas continua atual. Eu adoro reler os meus textos preferidos, eles nunca saem de moda. ;)

Aliás, por causa do dia dos namorados, a página do Ativismo de Sofá no facebook está divulgando alguns dos textos antigos que problematizam o amor romântico.


2. Copa do Mundo


Cinco violências da copa do mundo contra as mulheres: A autora aponta algumas das violações dos direitos humanos das mulheres na "Copa das copas" (que não só #vaiter, como já tem, pois começa hoje).

John Oliver Tears FIFA Apart, Calls It 'Cartoonishly Evil' (em inglês, sem legenda) : O apresentador do Last Week Tonight explica de forma muito engraçada seus sentimentos conflitantes em relação à Copa do Mundo, porque por um lado ele adora futebol e por outro é um evento organizado pela FIFA.

Lugar de Mulher é na Copa : Eu sempre me pergunto cadê o jornalismo esportivo sério, que não questiona jamais o machismo dos seus pares. Está aí uma exceção, uma matéria criticando outras matérias jornalísticas com teor machista.

3. Racismo

Racismo à moda da casa : Um texto sobre os campos de concentração para imigrantes japoneses... no Brasil. Isso mesmo. Só que chamavam de "campos de internamento" e eles eram visitados como se fossem zoológicos. Cai por terra o mito do brasileiro acolhedor, que abre os braços para as outras nações.

4. Mulheres e ciência

Pergunte sobre genética a Neil DeGrasse Tyson: Vídeo em que o homem mais maravilhoso da ciência, o Neil DeGrasse Tyson, responde à seguinte pergunta: "O que há com as garotas e a ciência?" Claro que queriam uma resposta sobre genética, mas ele sambou e sapateou em cima da cara do cientista que fez a pergunta capciosa.

Em tempo: Eu achei curioso que estavam compartilhando esse vídeo no facebook com a seguinte legenda "Este cientista negro famoso (...)". Gente, o Neil DeGrasse Tyson é um dos cientistas mais conhecidos e populares do mundo. Ele tem um nome! Imagina só se alguém vai compartilhar uma notícia sobre o Stephen Hawking assim: "Este cientista portador de esclerose famoso (...)". Não falar o nome contribui para a invisibilidade, ok?

Acusada de sexismo, Lego lança coleção de cientistas mulheres : Lego é um brinquedo que ajuda no desenvolvimento de habilidades motoras e matemáticas. Infelizmente, há mais de trinta anos, toda a sua produção é voltada para meninos. Algumas tentativas pífias de conseguir um público-alvo feminino fracassaram, você pode entender o porquê assistindo a esses dois vídeos da Anita Sarkeesian:  Lego & Genter part 1 e também Lego & Gender part. 2, ambos em inglês, mas dá para habilitar a legenda em português.

5. Mulheres na TV

BBC Two announces three-part Virginia Woolf drama Life in Square (Em inglês): Foda.foda.foda. Já estou ansiosa. A série vai focar no relacionamento entre Virgínia Woolf e sua irmã Vanessa Bell.

As mulheres do Maneco : Nossa, esse texto! Eu também não entendo porque o Manoel Carlos é conhecido como o autor que entende a alma feminina. Não, gente. Ele cria mulheres ou fadadas a sofrer eternamente ou mulheres opressoras/manipuladoras (em especial as mães).

6. Entrevistas:

BBC - "Dilma acha que precisamos consumir e ter chuveiro quente", diz líder indígena : Uma entrevista muito esclarecedora com Sônia Guajajara sobre racismo, demarcações de terras indígenas e o modo de agir e pensar do governo Dilma em relação à questão indígena.

Donas da Casa :  "O projeto Donas da Casa tem a pretensão de dar visibilidade a mulheres que são donas da sua casa, da sua vida, do seu pensamento. A ideia é brincar e nos apropriar dessa expressão usada há tempos de forma negativa, mas que agora está mudando de cara em vários níveis da sociedade. Ser Dona da Casa não significa ser dona de casa, mas também não quer dizer não ser." Assim está descrito no site deste projeto que entrevista mulheres sobre diversos assuntos, inclusive sua relação com o lar. 

7. Conquistas:

Entra em vigor em Santa Catarina lei que prevê multa a quem proibir mães de amamentarem em estabelecimentos comerciais : Eu li essa notícia meio incrédula. É sério que é preciso uma lei para as mulheres amamentarem em paz? A campanha americana citada na notícia se chama "When Nurture Calls", e ela foi criada porque embora as mulheres tenham o direito legal de amamentar em qualquer lugar, o assédio e o direito do estabelecimento de recusar serviços às pessoas, acaba levando as mulheres à amamentar secretamente.

Sancionado na Bahia o Estatuto da igualdade racial e de combate à intolerância racial : A Bahia foi pioneira em criar o Estatuto da Igualdade Racial estadual, ele contém medidas, programas e ações afirmativas visando a redução progressiva das desigualdades raciais.

8. Mulheres Notáveis

Audra McDonald Wins Her Sixth Tony Award For Portrayal Of Billie Holiday (em inglês) : Não apenas temos uma vencedora, como também temos uma recordista. Essa atriz e cantora maravilhosa e que é também uma mulher negra. Eu, que não conheço nada de musicais, não conhecia o seu trabalho. Mas deveria porque, minha gente, que voz! E não deixe de conferir também o discurso emocionado da Audra ao receber o prêmio. Eu não pude ver direito, porque bem na hora caiu um cisco no meu olho...

E por falar em cantora/atriz maravilhosa, você já segue a Zezé Motta no facebook? Eu sigo e amo <3 Muito se fala na grande atriz brasileira Fernanda Montenegro (que de fato é ótima), mas também precisamos lembrar também das grandes atrizes negras deste país, né?

10 mulheres fantásticas que lideraram rebeliões : Um link para deixar os machistas que dizem que "mulheres não pegam em armas" ou "mulheres não fizeram história" com a cara na poeira.

Eu citei a Anita Sarkeesian lá em cima, ao falar de Lego. Mas resolvi falar de novo aqui, porque ela é uma mulher notável que tem ajudado a mudar a forma como os desenvolvedores de jogos tem representado suas personagens femininas. Nem é notícia nova, mas esse ano por exemplo, ela ganhou o "The 2014 Game Developers Choice Ambassador Award" (vídeo em inglês com transcrição). Foi a primeira mulher a receber esse prêmio, que é dado às pessoas que ajudam a inovar a indústria de jogos. 

9. Malévola


Sim, eu vou encher vocês de links de Malévola. Sabe por quê? Porque o simples fato de malévola despertar tanta raiva em homens notadamente machistas e em fundamentalistas já é um motivo forte o suficiente para se gostar do filme. Alguma coisa muito certa aconteceu. Machistaiada, não adianta reclamar. Se reclamar semana que vem terá o dobro de link.

Malévola e as questões de gênero: Nem tão vilã assim! : Esse é o texto que eu escrevi sobre esse filme inovador na Disney. Quem são, de fato, as vilãs?

Malévola e a representação feminina na nova geração da Disney : Um texto que explica muito bem o que faz de "Malévola" um filme único na Disney.

Malévola, Frozen e Valente: O amor entre as mulheres começa a despontar : Ai gente, que amor esses três filmes, não é? O que eles tem em comum? O amor entre mulheres.


Malévola, estupro e male tears : Além da crítica ao filme, a autora também critica a reação da machistaiada ao filme.

The Maleficent Rape Scene that we need to talk about (em inglês): Eu achei interessante a abordagem da autora, que compara a violência sofrida por Malévola ao estupro. Porém, discordo que a proposição no filme seja decorrência da cultura do estupro. Eu acho que foi intencional, foi uma forma de falar sobre violência de gênero para as crianças.

10. Panorama mundial

Em vídeo, princesas sauditas pedem ajuda internacional : As filhas do rei Abdallah bin Abdul Aziz Al-Saud, as princesas sauditas Sahar e Jawaher Bint Abdalá al Saud, pedem ajuda aos organismos internacionais para livrá-las do cativeiro em que estão desde 2001. Elas tem acesso às redes sociais, mas não podem sair de casa e reclamam até mesmo da falta de alimentos e água.

"Raping make us feel free": DR Congo's soldiers reveal astonishing stories (em inglês):  TW - Estupro. No Congo, o estupro é usado como arma de guerra. Este é um texto chocante sobre a situação das mulheres congolesas, que tentam sobreviver a estupros brutais.

"Estupro em zonas de guerra" : TW - Estupro. Um texto sobre como o estupro é usado em zonas de guerra.

Fotógrafa documenta mulheres forçadas a deformar pés : Nos mais diversos locais do mundo, mulheres são submetidas a todo tipo de tratamento em busca de um determinado padrão de beleza. Na China, por exemplo, já foi costume que o bonito era ter pés pequenos. Para conseguir isso, as mulheres enfaixavam seus pés. O resultado está nesta série de fotos de Jo Farrel.

11. O que andei escrevendo ?

Além do texto da Malévola, vocês também podem conferir outros posts meus escritos essa semana, ambos sobre a minha vivência como mulher gorda.

O cabelo curto e a liberdade de ser eu : Sobre a experiência que tive de ser uma adolescente gorda e decidir usar cabelos curtos.

Gordo adoece? : Texto que escrevi como convidada para o site Lugar de Mulher sobre gordofobia e atendimento médico.


Gostou da minha seleção de links de hoje? Volte sempre, toda quinta tem mais #ValorizeAsMinas! E se você quiser contribuir para a lista, deixe a sua sugestão nos comentários ;)

sábado, 7 de junho de 2014

Malévola e as questões de gênero: Nem tão vilã assim!


SIM, TEM SPOILERS.

Antes de assistir "Malévola", eu li duas críticas. Uma delas, escrita por uma mulher, elogiava a representação feminina no filme. A outra, escrita por um homem, dizia que se tratava de um “Senhor dos Anéis” para meninas de 12 anos. Eu só me pergunto por que um filme com protagonista mulher é sempre para menina? "Senhor dos Anéis" é para meninos, "Malévola" é para meninas? A resposta é não.

A maior parte dos filmes que eu vi na vida foi protagonizada por homens. Em vários filmes eu não me envolvi com os personagens por causa disso, mas há filmes que quebram essa barreira, filmes que são protagonizados por homens e tocam a minha sensibilidade profundamente. Infelizmente, o mesmo direito não é dado aos meninos, porque um filme protagonizado por um homem é apenas um filme. Um filme protagonizado por mulher é filme “para mulheres”. Os homens também precisam se sentir inspirados por personagens femininas. Por isso, "Malévola" é um filme que os meninos também precisam assistir. 

Os meninos crescem ouvindo histórias de homens cuja motivação é vingar a morte de suas companheiras ou filhas, ou então, histórias em que as mulheres são o prêmio por suas aventuras. Por acaso, assisti também ao maravilhoso “Como treinar seu Dragão” essa semana e nem mesmo esse filme escapou desse clichê. No fim, o mocinho recebe o beijo da mocinha (ainda que uma mocinha bem corajosa e durona) como prêmio. Os homens precisam aprender que as mulheres não existem para que eles consigam viver plenamente suas vidas. Elas existem e são plenas em si mesmas.

Aliás, "Malévola" traz muitas questões interessantes em relação às questões de gênero. Logo no início somos apresentadas para essa garotinha curiosa e aventureira chamada Malévola e acompanhamos o relacionamento que ela teve desde a infância com o Stephan, em uma espécie de prequell. Apesar das juras de amor trocadas na adolescência, os interesses de Stephan se voltaram para o trono, ele queria ser Rei. Em nome dessa ambição, traiu a Malévola. Ele cortou suas asas. Ele a mutilou. Para mim isso é claramente uma metáfora para violência doméstica e relacionamento abusivo. Malévola então foi tomada pelo ódio e pelo sentimento de vingança.

Os anos se passaram e Stephan, agora rei, fez uma grande festa para o povo conhecer a sua filha recém-nascida, a Princesa Aurora. Como forma de vingar-se de Stephan, Malévola resolve jogar a maldição em Aurora. Quando ela fizesse 16 anos, espetaria seu dedo em uma agulha de tear e dormiria para sempre ou até que recebesse um beijo de amor verdadeiro (e ela só coloca essa condição porque acreditar que não exista no mundo um “amor verdadeiro”). 

É nesse ponto que eu acho difícil acreditar nas motivações da personagem. A malévola original era má, queria causar dor no Reino, a malévola interpretada por Angelina Jolie não tem essa maldade, apesar do ódio que sente, ela quer unicamente se vingar de Stephan e tem muito discernimento para entender que a criança nada tem a ver com isso. Achei a motivação incoerente com a personagem desenvolvida até então. Passando por cima deste ponto fraco, o filme acerta em mostrar que, enquanto o Rei manda sua filha para longe para protegê-la, se afasta dela como pai. Malévola, que se aproxima dela para espioná-la e garantir que a profecia se cumpra, passa a amá-la como uma mãe. É importante ver como os laços mais profundos aqui não são os de sangue, já que nas histórias da Disney é comum ver as “madrastas”, que são as mulheres que substituem as mães biológicas, como as vilãs ambiciosas, enlouquecidas pelo poder e pela vaidade.

O filme não é sobre Aurora, obviamente. Ela é uma personagem encantadora pelo sorriso fácil. Porém, apesar da imagem doce, não é uma mocinha submissa. Aurora também traça o seu destino ao escolher viver no mundo das fadas, enfrenta Malévola quando acredita que ela é má e também a ajuda na batalha final da forma que consegue. Aurora não é, nem de longe, a mesma princesa do filme original que espera adormecida o beijo do príncipe. A Disney novamente nos mostra que o amor verdadeiro nem sempre aparece à primeira vista, nem sempre é entre um homem e uma mulher. E pode ser apenas o amor entre uma mãe adotiva e uma filha.

"Malévola" pode não ser um grande filme da Disney, se comparado com "Frozen" ou "Valente", principalmente por causa da direção fraca. Mas certamente ele ajuda a marcar na história da Disney um novo panorama sobre as mulheres, se antes questionaram o papel da mocinha submissa, aqui se questionou quem são as vilãs, as madrastas, as bruxas. O que as mulheres que foram sempre tão demonizadas nos filmes anteriores da Disney realmente têm em seu coração?

quinta-feira, 5 de junho de 2014

#ValorizeAsMinas: Semana de retrocesso de direitos no Brasil



O #ValorizeAsMinas da semana está recheado de links interessantes. Infelizmente, essa foi uma semana triste para as mulheres no Brasil. O caso é muito sério. É seríssimo.

Mal postei o #ValorizeAsMinas da semana passada, com um link para a boa notícia da regulamentação do procedimento de aborto legal (nos casos previstos em lei) no SUS e o Ministério da saúde voltou atrás e cedeu ao fundamentalismo religioso. 

P.s.: A ilustração linda é da Aline Valek.

1. Aborto

Tumblr #AbortoLegal : Está rolando articulação das feministas para blogagem coletiva, twittaço, protestos e as informações serão centralizadas neste link.

Evento: Ato de Repúdio à revogação da portaria 415 : Ato que ocorrerá em São Paulo no dia 07/06.

2. Pessoas com diversidade funcional (ou com deficiência física)

Outro dia eu li essa notícia, em que um ator sem diversidade funcional explica como vai interpretar um cadeirante. Bom, aí eu lembrei de como é ofensivo usar blackface e como as pessoas trans requisitam um espaço para as atrizes trans na TV, já que quase sempre as personagens trans são interpretadas por homens cis. Me perguntei: Não seria muito legal se esse personagem fosse interpretado por um ator realmente cadeirante? Uma amiga minha então me mostrou um vídeo (em inglês, precisa habilitar a legenda em português), que é de uma atriz com paralisia cerebral, a Maysoon Zayid. O nome do vídeo é  Eu tenho 99 problemas, a paralisia é apenas um deles. Imperdível. Estou apaixonada.

We Can Cast It sobre mulheres com deficiência física: Não sabe porque eu usei a expressão "diversidade funcional"? então entenda melhor com esse podcast que gravei há algum tempo, com a participação da Patrícia Guedes, diva, maravilhosa.

3. Orange is the new black


A primeira mulher presidenta do Brasil. O primeiro homem negro a ser ministro do STF. O primeiro homem negro a ser presidente dos Estados Unidos. Esta semana, a atriz Laverne Cox foi capa da revista Time. A primeira mulher trans a ser capa dessa revista. Não é estranho que ainda estejamos vivendo a era dos "primeiros"?

A série Orange is the new black volta amanhã, dia 6 de junho. Por isso resolvi escolher links da Laverne Cox sendo perfeita. E não deixe de assistir a série, que é ótima!

Totally Biased: Kamau talks to Laverne Cox (em inglês): Uma entrevista engraçada com a Laverne Cox onde ela fala um pouquinho sobre sua infância, sobre viver e ser famosa em Nova York e fala rapidamente sobre a história das pessoas trans nas séries de TV. 

Laverne Cox on Katie Couric (em inglês): Aqui ela fala sobre como o foco no corpo e na genitália das pessoas trans objetifica as pessoas invisibiliza a discussão sobre violência transfóbica.

4. Copa do Mundo

Nós não queríamos, mas #VaiTerCopa e o pior de tudo, #NãoVaiTerLegado.

30 Haunting Photos of Abandoned Olympic Stadiums (em inglês): Aqui tem uma seleção de fotos de prédios constuídos para as Olimpíadas que estão abandonados. É muito triste saber que provavelmente é o que vai acontecer no Brasil com alguns dos Estádios e com toda a estrutura que será construída para as Olimpíadas de 2016.

We Can Cast It sobre Mulheres no esporte: Podcast que produzo junto com a Aline Valek, este contou com a participação da Thaís Campolina. Essa semana falamos sobre esporte feminino, modalidades em que as mulheres se destacam, nossa relação com o futebol e turismo sexual ocasionado pela Copa do Mundo.

5. Atirador misógino de Santa Bárbara

Eu sei que semana passada já fiz um bom apanhado do tema, mas achei válido acrescentar um texto à lista.

Your princess is in another castle: misoginy, entitlement, and nerds (Em inglês): Esse texto não é escrito por uma mulher, não é escrito para mulheres, mas tem tudo a ver com mulheres. Acho que nunca li um texto escrito por um homem com tanta autocrítica e direcionado para outros homens (Mentira já vi um texto bem legal antes, sim) . Ele fala sobre um grupo muito machista de homens que se acham muito melhores do que os outros homens: Os nerds.

6. Movimentos Feministas

Marcha das Vadias: As divergências estão em curso : Texto importante sobre a Marcha das Vadias, quais os pontos a favor da marcha e contra ela. Para você ver como o feminismo é plural e não encontra respostas fáceis para tudo.

Mulheres da agroecologia: A luta por igualdade de direitos : Um texto que trata de assunto raro no feminismo mais hegemônico na internet, a questão da mulher que vive em ambiente rural, as pautas das mulheres agricultoras e camponesas.

7. O Horror

Tell us the truth about the children dumped in Galway's mass grave : Encontraram os corpos de 796 bebês e crianças em um convento que servia de asilo católico para mães solteiras. Funcionava assim: quando uma mulher solteira engravidava, ela era enviada para as lavanderias para trabalhar e "expiar seus pecados". E retornava para casa dos seus familiares após o nascimento do bebê, que ficava no convento. Muitos bebês, que ficavam com as freiras, morreram de pneumonia, tuberculose, desnutrição e maus tratos. O horror, o horror. Faz a gente pensar nesse amor cristão e pró-vida pelas crianças, né?

Irlanda: 796 esqueletos infantis são achados em antiga casa de apoio de freiras : Um link em português sobre o assunto, bem resumido.

A minha primeira vez : Trigger Warning - É um relato de estupro. Não posso garantir que sejam todas, mas muitas mulheres tem histórias de estupro, assédio ou abuso para contar. Infelizmente, mais uma amiga minha corajosamente revelou que já foi estuprada. Eu nem sei de quantas pessoas já ouvi histórias como essa.

8. Gordofobia

A fantasia de ser magra : Um texto maravilhoso sobre como somos induzidas a pensar que quando formos magras, viveremos a vida como gostaríamos.

Salto alto e uma bolsa na mão: seja linda sendo sem vergonha no Brooklyn: O relato de uma mulher gorda que tirou uma foto nua em público, tomando como referência uma foto da Madonna.

9. O que andei escrevendo por aí?

Temos o direito de falar mal da beleza magra? : Escrevi esse texto pensando nas incontáveis vezes em que vi uma mulher gorda rebater gordofobia na mesma moeda.

Nossos direitos reprodutivos, eterna moeda de troca : Texto que escrevi para a blogagem coletiva #Abortolegal, aqui eu falo sobre a força do fundamentalismo religioso no país.

Espero que vocês tenham gostado das minhas sugestões da semana! Quinta-feira que vem tem mais!

P.S:  Para quem não sabe, todas as quintas feiras eu trarei uma seleção de links sobre feminismo, questões de gênero ou de conteúdo produzido por mulheres. A idéia é que em vez de dar clique de indignação para os colunistazinhos polêmicos, nós divulguemos a voz das mulheres e/ou falemos sobre mulheres. Trarei outros assuntos também, se eu achar que valem à pena. 

Você também pode colaborar para fazer da internet um lugar mais salubre, como sugeri aqui. Ou se quiser sugerir alguma leitura, fique à vontade! é só postar aí nos comentários!