Atenção: Spoilers de "Como treinar se dragão" e "Como treinar seu dragão 2"
Em tempos em que o choro masculino é retratado como sinal de fraqueza e descontrole, personagens como o Soluço, do filme “Como treinar o seu dragão” e “Como treinar o seu dragão 2”, se tornam ainda mais importantes. Este personagem, embora masculino, é um daqueles com que me identifico muito, até mais do que sua namorada Astrid. Astrid tem uma série de qualidades que a tornam uma boa personagem, mas ainda sim, é em soluço que me vejo representada.
Soluço é o filho do Viking Estóico, O Imenso. Estóico é um homem corajoso, um bravo guerreiro e líder de Berk, a cidade viking que está em guerra com os Dragões. O que torna Soluço um personagem tão interessante é o fato de que ele não aceita aquilo que lhe foi imposto sem questionar. Enquanto todos decidem que a única forma de acabar com a guerra é exterminar todos os dragões, Soluço acredita que dragões não são maus por natureza e que é possível uma aproximação. É um personagem com contornos de esquerda, por acreditar em uma ideologia que contraria o status quo. Acredito até mesmo que é a sua capacidade de questionar que gerou o seu interesse pela cartografia, por descobrir o que está além, e é sua curiosidade que o torna tão hábil em treinar os dragões, em conhecê-los.
Talvez eu consiga me relacionar tanto com Soluço porque ele possui uma série de características que são consideradas femininas. A força deste personagem não está nos seus atributos físicos, sua inteligência não é usada para a guerra e sua liderança é colaborativa e pacífica. Estóico, em vários momentos, deixou de ouvir o filho por acreditar que sua recusa em ser o herói viking clássico fosse uma fraqueza quando, na realidade, esta era a maior qualidade de Soluço. Isso importa porque as crianças, em especial os meninos, precisam de modelos de heróis cujo maior desejo é evitar o combate. Soluço representa um questionamento daquilo que entendemos por masculinidade, que é um conceito eivado de agressividade.
Um bom exemplo de sua natureza não agressiva ocorre no segundo filme, Soluço descobre a existência do vilão Drago e sua primeira reação é: “vou conversar para que ele mude de opinião”. O mais normal em qualquer filme é que o herói parta para derrotar o seu inimigo, não para torná-lo um aliado.
A sua capacidade de empatizar com o outro também é colocada à prova no segundo filme, quando ele descobre que sua mãe, Valka, dada como morta, na verdade estava viva, mas optou por abandonar Berk e cuidar dos dragões. Me dá vontade de bater palmas de pé para os roteiristas do filme, que não se conformam em criar lugares-comuns, porque seria até mais dramático para o roteiro que houvesse um ressentimento, mas em vez de julgá-la, ele a perdoou, ele compreendeu e até mesmo se identificou. O que gerou cenas lindíssimas de um reencontro entre duas pessoas que mal se conhecem, mas que são tão parecidas.
Não menos importante, Soluço também tem uma diversidade funcional (a.k.a deficiência física). Ele perdeu parte da perna no primeiro filme. Aliás, “Como treinar o seu dragão” e sua sequência, mostram vários personagens com diversidade funcional, inclusive o dragão “Fúria da Noite”, que usa uma prótese criada por Soluço. O que poderia ter sido tratado como uma fraqueza do personagem é encarado com naturalidade. Isso é importante pela questão da representatividade das pessoas com diversidade funcional, especialmente nas tramas de aventuras.
Soluço mostra para as crianças que é possível ser corajoso sem partir para a guerra, ser aventureiro e livre, com diversidade funcional. É possível ser um líder disposto a dialogar. E é possível viver fora dos padrões que a sociedade impõe como um comportamento masculino típico. E por tudo isso, este personagem é memorável.









