Aviso: Spoilers do livro/filme "Um dia"
Outro dia eu finalmente assisti aquele filme “Um dia”. Assisti apenas por motivos de: Anne Hathaway. Eu nem esperava muito do filme, achei que seria mais um romancezinho água com açúcar. E mesmo com as minhas expectativas baixas, ele se provou uma grande decepção. A personagem de Anne, Emma, conhece Dexter no dia de sua formatura do highschool (o equivalente ao ensino médio). Bem, eles já se conheciam antes, mas ele não se lembrava dela. Eles acabam se tornando grandes amigos, apesar de ficar claro que sempre rolou algum sentimento entre os dois.
A história se desenrola entre idas e vindas destes personagens. Enquanto Emma, que é pobre, rala em subempregos para sobreviver, Dexter vive de baladas e da grana dos pais. Há um momento ainda durante a juventude, que os dois tiram férias juntos e quase rola algo. Não rolou porque, para variar, o Dexter é um babaca. Apesar disto, Emma esteve quase todo o tempo por perto para apoiar Dexter, ser guru, ser sua amiga-quase-amante, um porto seguro.
Emma vai aos poucos se estabelecendo, começa a viver a vida com que sempre sonhou. Enquanto Dexter vai se destruindo até não sobrar quase nada. Então, ele resolve tomar jeito na vida e ir atrás da Emma, que o aceita de bom grado. E como último passo na transformação de Dexter, Emma morre.
Emma é uma personagem que serve de degrau para a jornada do homem. E quantas personagens existem que fazem este mesmo exato papel? Por que continuam produzindo conteúdo para mulheres que ensinam que um homenzinho de merda tem potencial para se tornar um bom namorado/marido/pai? Já começamos encontrando na infância o romance de “A Bela e a Fera”. Falando em Disney, podemos citar até mesmo filmes recentes (e ótimos) como “Enrolados”, em que o herói é um ladrão que se redime através do amor. E fora da Disney também há muitos outros exemplos. A própria Anne Hathaway já viveu personagem similar em “Amor e outras drogas”.
O somatório da produção cultural, entre livros, filmes, séries, músicas e tudo o mais, deixam uma mensagem clara para as mulheres: Por amor (Quero ressaltar que este texto é sobre amor romântico e heterossexual), precisamos aguentar tudo. Se nós amamos, precisamos ser persistentes, pois o nosso amor é capaz de mudar todo comportamento abusivo de nossos companheiros. Tal qual uma mãe educa um filho. A maternidade estendida a todas as mulheres, sempre que elas se relacionem com homens. É fácil entender o quanto esse discurso é prejudicial, o quanto ele nos torna reféns de relacionamentos abusivos. Este é um discurso poderoso que redime os homens de suas condutas e bota sobre a mulher a responsabilidade da transformação.
O que acho curioso é que seja sempre o amor feminino o agente da transformação, quando não há nada menos subversivo do que uma mulher amar um homem. Somos ensinadas a ver nos homens tudo o que deve ser amado. Eles são entendidos como mais fortes, mais livres, mais racionais, mais profissionais, enfim. Enquanto às mulheres são atribuídas as características de mais frágeis, fofoqueiras, interesseiras, histéricas e etc. É por isso que em nossa sociedade “ser homem” é ter uma série de qualidades que o tornam “melhor” (muitas aspas), é ser brother, é ter ética, é jogar limpo. Enquanto “ser mulherzinha”, assim mesmo no diminutivo, é ser fútil, ser fraca, ser sentimental. Está clara a situação de poder, em que mulheres estão embaixo e homens em cima. Por tudo isso, é esperado (e heteronormativo) que uma mulher ame um homem. Um homem que ama uma mulher é uma exceção. Um prêmio que devemos disputar como highlanders do amor, até que só reste uma em seu coração masculino.
Eu acredito no amor como uma força transformadora, mas não no amor romântico que pressupõe toda essa relação desequilibrada de forças. É neste ponto que é importante conhecer personagens como a Malévola, do filme homônimo da Disney. Malévola não é motor de transformação de homem nenhum. Ao contrário, fica evidente que uma mulher não é capaz de mudar seu companheiro, por mais que o ame. Precisamos de mais Malévolas e menos Emmas na cultura pop.









