![]() |
| Marcha das Vadias 2013 |
A campanha eleitoral já está em curso há muito tempo e os nossos direitos reprodutivos já estão sendo ceifados. Em um país em que grande parte da população é cristã, é mais lucrativo se declarar anti-aborto. Afinal, quem vai querer associar sua imagem a essas mulheres psicopatas que matam suas próprias crianças, não é mesmo? Exceto que essas mulheres não são psicopatas, não matam ninguém pois fetos não são crianças. Essas mulheres são seres humanos com uma vida plena e é nelas que precisamos pensar.
Quem são essas mulheres que abortam?
Segundo pesquisa publicada pela UNB, 81% das mulheres que abortam tem filhos (veja só, elas não odeiam crianças!), 88% tem religião, sendo que dessas, 65% são católicas (como assim, mulher que faz aborto é cristã também?) e 64% são casadas (ora, veja só, não é coisa apenas de mulher solteira). A mulher que aborta não é uma criminosa, ela pode ser simplesmente qualquer mulher. E mesmo que essas mulheres odiassem crianças, mesmo que não fossem cristãs, mesmo que não fossem casadas, seus corpos continuariam sendo delas, não são do Estado, não são da igreja.
O direito ao aborto é, de todas as conquistas que já foram alcançadas pelas mulheres, talvez o mais suscetível ao retrocesso. Mesmo em países onde o aborto legalizado já é uma realidade, esse direito está sempre ameaçado pelo conservadorismo e pelo ódio cristão. Isso mesmo: ódio. Não é amor usar tendenciosamente a expressão "pró-vida", sabendo que ela representa a morte de inúmeras mulheres. Não é amor, quando tratamos as mulheres como verdadeiras incubadoras e não como seres humanos completos. Não é amor quando queremos retirar das mulheres o direito de abortar o feto anencéfalo, que nasceria sem vida. Passa longe de ser amor quando uma criança é estuprada pelo padrasto e a igreja tenta forçá-la a prosseguir com uma gravidez de alto risco. O ódio cristão é uma realidade.
"Hipocrisia, pra desconhecida é a punição
Mas se for da família é só tratar com discrição
Morre negra, morre jovem
Morre gente da favela,
Morre o povo que é carente
Que não passa na novela"
(trecho da música Ventre Livre de Fato, de Luana Hansen e Elisa Gargiulo)
Mas se for da família é só tratar com discrição
Morre negra, morre jovem
Morre gente da favela,
Morre o povo que é carente
Que não passa na novela"
(trecho da música Ventre Livre de Fato, de Luana Hansen e Elisa Gargiulo)
Na semana passada, o Ministério da Saúde publicou a portaria 415 que regulamentava o atendimento de aborto legal no SUS, garantindo o acesso gratuito ao aborto para as mulheres em maior vulnerabilidade social. Porém, em mais um episódio lamentável, o Ministério cedeu à pressão interna dos fundamentalistas, que são o grupo de ódio mais poderoso do país, e revogou a portaria, que havia sido publicada um dia antes. UM DIA ANTES. Esse é o poder que o ódio tem no nosso país, ele é capaz de passar por cima da regulamentação de um direito legalizado da mulher. Em troca de quê? apoio político.
Vivemos em um país em que um homem retira os direitos humanos das mulheres e recebe palmadinhas nas costas dos seus colegas, recebe votos, recebe congratulações, fica bem na fita. Até mesmo para escrever esse texto, tomei o cuidado de não personalizar o problema em alguns poucos indivíduos que encabeçaram a revogação da portaria, porque eles seriam tomados como heróis e não como cúmplices da morte de muitas mulheres. E isso nos mostra que o Estado Laico é uma ilusão. Precisamos de mais mulheres na política e de mais debate sobre o aborto. Precisamos chamar atenção para o problema, que é tão grave. Pois não se enganem, nada está garantido e assegurado, continuarão procurando formas de derrubar os nossos (poucos) direitos reprodutivos.
P.S.: Esse texto integra a blogagem coletiva contra a revogação da portaria 415. Os demais textos da blogagem estão sendo divulgados no tumblr #AbortoLegal






