Como eu expliquei antes, a partir de agora, todas as quintas eu vou agrupar alguns links relacionados ao feminismo ou sobre mulheres de forma geral para vocês. Um apanhadão da semana. A ideia é trocar o clique de indignação, por um clique de conhecimento (ou de reconhecimento). É valorizar o trabalho das minas.
Vamos começar com essa bela foto da Alice Munro, ganhadora do prêmio Nobel de Literatura, porque sim. Lá no final da lista voltaremos a falar dela.
1. Aborto legal no SUS
Aborto Legal: Qual a situação atual? : Essa semana foi como todas as outras, difícil para as mulheres. Vamos pelo menos começar com a notícia boa: Regulamentaram a prática do aborto (nos casos já previstos em nossa legislação) no SUS. Esse texto das blogueiras feministas explica bem o que isso significa.
Update: Acabo de saber que a portaria que efetivava o aborto legal foi revogada, o ministério da saúde cedeu aos fundamentalistas.
2. Lei menino Bernado, ou lei da palmada.
O "pornô" da Xuxa: A Xuxa é um dos rostos mais famosos a apoiar a causa da educação sem violência. Causa que eu também apóio. Eu cresci sem palmada e pretendo seguir o exemplo dos meus pais caso eu tenha filhos. Enfim, ela foi à sessão de votação da pauta e foi hostilizada por um deputado da bancada fundamentalista (quanto amor cristão, não é gente?), que disse que ela praticou a maior violência contra uma criança no filme "amor, estranho amor". Esse texto esclarece que isso não é verdade.
3. Gordofobia
Entrevista para o site Corpositividade: Dei essa entrevista sobre gordofobia e padrões de beleza para o site Corpositividade. A gordofobia ainda é um assunto pouco discutido, ou pelo menos discutido sob uma única perspectiva dentro do feminismo, espero trabalhar para mudar isso.
4. Drogas
"Não usem mais o termo crackolândia" : Esse texto vai muito contra o senso comum e questiona a forma como a sociedade encara os usuários de drogas, em especial o crack. Eu sei que esse texto não é sobre mulheres ou feminismo, mas é muito importante.
5. Propaganda machista de cerveja
Cerveja boa é a que trata a mulher com respeito. Dois textos muito bons tratam sobre este assunto.
Heineken. Sexism. Brazil (em inglês): Este texto fala sobre a mulher brasileira e como as questões regionais do machismo brasileiro reverberam na propaganda da heineken.
Brinde: Desrespeito às mulheres: A Thaís Campolina, essa pessoa querida e brilhante, escreveu um texto sobre o caso heineken/shoestock.
6. Atirador misógino de Santa Bárbara
Acho que foi sobre isso que mais li durante a semana
Em português:
"Sim, todas as mulheres": como o Twitter reagiu ao atentado na Califórnia Esse texto fala da hashtag #YesAllWoman iniciada pela blogueira muçulmana Kaey, com o intuito de contrapor a idéia de que nem todos os homens são misóginos.
Em inglês:
#YesAllWomen: Rebecca Solnit on the Santa Barbara Massacre & Viral Response to Misogynist Violence: Uma entrevista INCRÍVEL sobre como a misoginia não é um problema de um indivíduo louco. Se eu tivesse que recomendar apenas um texto hoje, seria este.
Agora uma treta para variar (em inglês):
Uma crítica de cinema, chamada Ann Hornaday, fez um texto muito necessário falando sobre o massacre de Santa Bárbara e sua relação com as histórias que vemos no cinema. Ela ousou citar o sagrado nome da comédia masculina, Judd Appatow. E foi imediatamente chamada de idiota pelo Seth Rogen. Como ainda existe amor no mundo, outros dois textos explicam porque Seth Rogen é que é o grande idiota. Mansplainig Away Hollywood Misoginy e também Seth Rogen is not a victim of the Santa Barbara Killings.
7. Mulheres e literatura
Mulheres têm menos espaços na literatura, mas leem mais e ganham mais prêmios: Um texto sobre como as mulheres tem se destacado na literatura nos últimos anos, inclusive o último prêmio Nobel de literatura foi para uma mulher, Alice Munro.
Carolina Maria de Jesus: A mídia racista e a literatura no "quarto de despejo": Texto sobre a autora mineira que era também uma mulher negra e como a mídia tentou desacreditar seu trabalho.
Adeus pra musa: Maya Angelou: Uma despedida para essa mulher incrível que partiu deste mundo ontem, aos 86 anos.
Aproveitando que estamos no tópico, eu assinei algumas newsletters de escritoras brasileiras e estou amando. Recomendo.
Bobagens imperdíveis da Aline: A Aline Valek, minha parceira de podcast, é uma escritora muito boa e está cansada de ser refém do facebook para divulgar seu trabalho. A newsletter dela é tão boa que eu fico olhando o celular todo o sábado para ver se já chegou.
Olívia Maia: A Olívia escreve histórias policiais, mas a sua newsletter tem mais histórias de viagem. Ela é muito mochileira, gente! e ela também escreve sobre o andamento do novo livro que ela está escrevendo.
Alliahverso: Você deveria conhecer o trabalho da Alliah. Eu a conheci pelo twitter e li um dos seus livros, o metanfetaedro. Ela é uma escritora sensacional, além de ser uma pessoa muito divertida. No momento o site está em construção, mas você pode assinar a newsletter.
8. Outros posts de divulgação
Quer aprender sobre o feminismo? : A Gabi fez uma lista muito bacana de links onde você pode aprender mais sobre o feminismo.
Espero que vocês tenham gostado da minha listinha da semana. Na próxima quinta-feira tem mais!
quinta-feira, 29 de maio de 2014
#Valorizeasminas
No início de 2014, li um texto no site Think Olga que encaro quase como um sábio conselho de uma boa amiga. No texto a autora afirma que sua única resolução de ano novo seria deixar de distribuir cliques de indignação. Eu decidi acompanhá-la. Mas será que é muito tarde para mais uma resolução? Creio que não, afinal, com Copa do Mundo e Eleições, o ano promete ser longo. A minha nova resolução é: Valorizar o trabalho das minas feministas.
Lembro-me de quando participava de grupos de discussão no facebook, toda vez que um ótimo texto escrito de uma mulher para outra era apresentado, gerava dois ou três comentários, algumas curtidas e fim. Enquanto os textos polêmicos, escritos por pessoas machistas, racistas, homofóbicas, geravam enormes discussões e inúmeros compartilhamentos.
Por que fazemos isso? Por que ampliamos a voz (e a conta bancária, através do clique) de quem ganha para nos oprimir? Todos os dias eu vejo alguma feminista querida nadando de braçada no chorume reacionário. Gente, desse jeito #nãovaitercopa mas #vaiterúlcera. Quando vocês botam esse lixo na roda, acabam por invisibilizar o trabalho feito com carinho de mulheres para mulheres. Não esqueçam que a maior parte de nós, feministas, não contamos com qualquer tipo de suporte financeiro ou publicitário para divulgarmos nossos textos, podcasts, vídeos. Só contamos com vocês, que nos lêem, que nos ouvem.
Sugestões Práticas
1. Comente: A dica mais básica de todas. Eu acho que recebo mais comentário de hate do que comentários de leitores. Comente com o autor do texto o que você achou dele, se concorda ou discorda, com respeito, com diálogo.
2. Compartilhe: Não seja egoísta, se você gostou de algum texto não o jogue nos favoritos, jogue nas redes sociais. Amplie a voz das minas.
3. Contribua com as suas experiências: Vamos trocar vivência, amigas. Você se identificou com um texto? tem uma história parecida para contar? gostaria de compartilhá-la? Comente no texto (podcast ou vídeo) ou envie um e-mail para a autora. Essa troca é muito enriquecedora, todas ganharemos com a sua contribuição.
4. Indique: Sua amiga tem interesse em saber sobre algum assunto que você já leu por aí? Faça uma indicação.
5. Não espere que tudo chegue até você: O que chegará até você provavelmente são textos de feministas com maior visibilidade e grande número de acessos. Eu quero que todas possam ser ouvidas, não quero vozes hegemônicas dentro do movimento.
A minha contribuição vai ser da seguinte forma: Toda quinta-feira, a começar por hoje, vou fazer uma lista de indicações de leituras, podcasts, hqs, filmes, séries, ilustrações e etc. produzido pelas minas e/ou sobre feminismo. Reconheça o valor do trabalho das minas. Que tal? Entra na minha campanha? #Valorizeasminas
P.S.: Os links da semana estão neste outro post.
Como eu pretendo contribuir
P.S.: Os links da semana estão neste outro post.

segunda-feira, 5 de maio de 2014
As universidades do Brasil fecham os olhos para o racismo
Quando entrei para a faculdade de arquitetura, uma faculdade
particular muito cara em Brasília, eu me deparei com uma realidade dura: Não havia
negros entre os alunos. E esse fato em si já fala muito sobre o ensino
universitário, se observarmos de forma ampla, e o ensino de arquitetura, se
reduzirmos o foco.
Na universidade, eu e uma amiga éramos as únicas pessoas que
dependiam do transporte público para voltar para casa. Esse é o grau de
elitização das faculdades de arquitetura, turmas inteiramente brancas, de
estratos sociais elevados e que, em geral, não têm muita empatia ou
conhecimento sobre as camadas mais baixas da sociedade. Me lembro perfeitamente
de uma vez em que um professor fez um comentário muito elitista e todos
concordaram. Ele disse que a culpa dos engarrafamentos é dos pobres, porque
hoje em dia qualquer pobre pode ter um carro. Um professor de Urbanismo.
A arquitetura é o campo do social. A cidade é a expressão edificada
de uma sociedade. A arquitetura e as questões sociais fazem parte da mesma
discussão. E tendemos a perder quando o debate está nas mãos de um grupo tão
restrito e privilegiado de pessoas. Uma prova disso é o que tem acontecido com uma
aluna da PUC Campinas, a Stéphanie Ribeiro. Ela é a única mulher negra bolsista
entre os duzentos alunos da instituição e tem sofrido ataques racistas
sistemáticos, que vão desde pichação do seu armário até ataques anônimos em seu
perfil particular no Facebook.
A cota universitária é o começo, mas não encerra a discussão
do racismo nas universidades. Está claro que um ambiente dominado por uma elite
branca é um espaço hostil para uma mulher negra. O que parece é que por lá está
valendo a máxima do “saiba o seu lugar”, porque Stéphanie é uma mulher negra
ativa, militante, feminista, questionadora. E isso incomoda muito. Incomoda
tanto que alguém se deu ao trabalho de pichar “Não ligamos para as bostas que
você posta no facebook” no armário dela. Se não se importam, porque pichar?
A universidade, como instituição, também tem seus problemas.
Um professor de Stéphanie, por exemplo, disse em uma aula: “Até você que tem a
pele mais escurinha, consegue perceber diferentes cores de luz na sua pele”. E
entre tantos ataques a aluna passou por um período de depressão e a
universidade manteve-se omissa e distante.
![]() |
| uma indireta para Stephanie: "aceitam macacos?" |
Mesmo fora do ensino de arquitetura, as coisas
não são tão diferentes. Na Universidade Regional do Cariri, o estudante Pedro
Victor Araújo, também negro, que convive com um quadro de anemia falciforme,
tem recebido ameaças de morte. O racismo nas universidades é o racismo endêmico
de todo o Brasil. É preciso que falemos dos casos de racismo no Nordeste do
país também, que normalmente é esquecido, invisibilizado. Porque esse é um país
que gira em torno do Sudeste, quando o problema está plantado em todas as
regiões do país.
Pedro Victor, ao tomar conhecimento das ameaças teve
convulsões decorrentes de sua condição de saúde. O coletivo de mulheres negras
do Cariri, Pretas Simoa, protestou contra a passividade da Universidade, mas
até agora, não se encontraram os culpados pelas ameaças.
A universidade não pode dar espaço para o preconceito, para
o conservadorismo, para os mais diversos tipos de moralismos. Deveria ser o
espaço do conhecimento e do pensamento livre. Mas a cada dia que passa, a cada
caso de racismo, a cada trote machista, violento, fica mais claro que, para
acolher os cotistas e os bolsistas, as pessoas negras, as mulheres (mesmo as
brancas, que embora em grande número nas universidades também sofrem trotes
machistas violentos), o sistema de ensino universitário precisa se desenvolver e mudar uma mentalidade racista, elitista, patriarcal.

terça-feira, 29 de abril de 2014
Divergente, filme versus livro
No último final de semana eu assisti ao filme “Divergente”,
adaptação para o cinema da obra homônima de Veronica Roth. E apesar de
concordar inteiramente com críticas como essa, do Thiago Siqueira, eu percebo
que falta a visão de alguém que leu os livros. Não porque eu acredite que as coisas
precisam estar literalmente transpostas de uma mídia para outra, mas para
analisar outro aspecto da obra: A adaptação respeita a obra original?
SIM, CONTÉM SPOILERS
Eu confesso que até agora não decidi se gostei do filme.
Certamente tem algo de muito positivo em ver uma heroína de ação no cinema.
Vê-la superar suas próprias fraquezas, fazendo escolhas que decidirão o seu
próprio destino. Porém, a sensação que ficou é que o livro é muito melhor. Isso
não é surpresa. É muito comum que o livro seja melhor que a adaptação para o
cinema, são raros os casos em que o contrário ocorre. Contudo, no caso de
divergente, a disparidade é muito grande.
O que mais senti falta nessa adaptação foi de ver a Tris
crescer dentro da Audácia. De vê-la criando relacionamentos
verdadeiros, como a amizade com a Christina. Sair da Abnegação não representou
para Tris apenas a entrada nessa facção guerreira, mas também a liberdade de
ser autocomplacente, de agir espontaneamente e fazer amizades incontidas. Eu entenderia
que cortassem as amizades mais superficiais da Tris, como Uriah, Marlene
e Lynn. Mas não o grupo principal de amigos. A cumplicidade entre Tris e
Christina é importante e jamais deveria ter sido limada do filme. Aliás, quem
apenas viu o filme, mal deve se lembrar quem são os amigos da Tris: Christina,
Will e o traidor Al.
Através do filme, as
pessoas não saberão o quão duro foi o golpe que Al deu em Tris. E nem o quão
traumatizante. No cinema, a Tris apenas apanha de um grupo de encapuzados, um dos
quais ela descobre ser o Al. Entretanto, no livro, o ataque beira um estupro.
Os caras passam a mão nela enquanto ameaçam sua integridade física. Será por
isso que a Tris desenvolveu tanto medo de ter relações sexuais com Quatro?
Talvez sim. Quem leu o livro pode se fazer essa pergunta, quem viu o filme,
nunca imaginaria.
Na adaptação também não dá para perceber claramente o quanto
ou como Christina e Will se apaixonaram durante o treinamento. E por isso não
saberão que Tris e Christina terão que reconstruir juntas essa amizade, já que
Tris foi forçada a matar Will. Toda essa teia de relacionamentos foi
sumariamente cortada para dar espaço a cenas de ação, luta, correria e
tiroteio.
Infelizmente, pelo filme, não chegamos sequer a conhecer a
personagem principal. Não vemos a Tris descobrir o que é a coragem, como
acontece no livro, onde ela começa falando que é egoísta e é corajosa, mas
depois entende o significado de “acreditamos em nos libertar dos medos, nos
simples atos de bravura, em defender aqueles que não podem se levantar sozinhos”.
Nem sequer chegamos a conhecer todos os medos de Tris na paisagem do medo. O
grande problema dessa adaptação é que, diferente da adaptação de jogos vorazes,
em que o foco está nas relações humanas e na tensão social, em Divergente o
foco esteve em garantir ao espectador numerosas cenas de ação temperadas com romance.
Mas mesmo as cenas de ação não deixam o espectador temer pelos heróis. Não há a sensação de perigo iminente. E o romance com o quatro é morno. Deixa a desejar. A tensão que existe entre os dois sempre que estão sozinhos, não acontece no filme. Quem leu o livro sabe da expectativa que existe na cena em que os dois sobem a escada da roda gigante. Ou de como foi importante para o Quatro que a Tris passasse junto com ele por sua paisagem do medo. O filme não criou a expectativa do romance, não fez com que torcêssemos por eles.
Em resumo, a adaptação do livro está muito aquém do potencial, apesar da boa atuação da Shailene Woodley, que sinceramente me pareceu a única
boa atuação de todo o elenco (Kate Winslet, o que houve, gata!?). Eu esperava bem mais.
Update: A Rafaela Paludo, que fez um ótimo comentário aqui mesmo nesse texto, deixou um link para a crítica que ela fez do filme, que está bem legal, descrevendo ponto a ponto as ~divergências~ entre livro e filme.
Update: A Rafaela Paludo, que fez um ótimo comentário aqui mesmo nesse texto, deixou um link para a crítica que ela fez do filme, que está bem legal, descrevendo ponto a ponto as ~divergências~ entre livro e filme.

sexta-feira, 28 de março de 2014
Epidemia é de gripe A, assédio é outra coisa!
![]() |
| Quadro humorístico misógino que faz piada com o assédio no transporte público |
Essa semana a questão da violência contra a mulher foi central no jornalismo brasileiro. Foram várias as notícias relacionadas. A começar pela reportagem do fantástico sobre os encoxadores do metrô de São Paulo, houve também a propaganda ridícula do metrô de São Paulo veiculada na Transamérica, passando pela condenação do deputado acusado de trocar votos por laqueaduras e finalizamos a semana com a pesquisa do IPEA sobre tolerância a respeito da violência contra a mulher, que atestou um fato notório: A violência contra a mulher está naturalizada.
O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ayres Britto, por ocasião do julgamento da constitucionalidade do aborto de fetos anencéfalos, disse que o grau de civilização de uma sociedade pode ser medido pela forma como as mulheres são tratadas. Se levarmos em consideração a pesquisa do IPEA, vivemos em um Brasil pré-civilizatório.
O que achei bastante curiosa foi a reação de espanto de boa parte da mídia. A mesma mídia que desde o início dessa semana tem falado em "epidemia" de assédio no transporte público. Isso só revela o quanto o jornalismo está descolado da sociedade. Qualquer mulher que use o transporte público coletivo ou de massas, em qualquer cidade do país, sabe muito bem que não se trata de uma epidemia. Não é um fato que tenha se iniciado ontem, não é uma doença que veio do animal e passou para o ser humano, não adianta pesquisar uma vacina, não adianta colocar todo mundo em quarentena. Não é uma epidemia. Epidemia é de Gripe A. Assédio no transporte público é fruto de uma sociedade profundamente machista e SEMPRE EXISTIU.
Eu já escrevi aqui mesmo, neste blog, como o jornalismo é conivente com a violência de gênero. E esse novo termo que está sendo difundido no jornalismo e na política, a tal "epidemia", é um eufemismo cruel que apenas evidencia o privilégio de setores da sociedade. Está na hora de começar a nomear o fato pelo que ele é: Misoginia estrutural, do contrário estão apenas tapando o sol com a peneira ou até mesmo contribuindo indiretamente para a perpetuação dessa violência.
O que quero dizer é que não adianta dizer-se assustado com a naturalidade com que se tolera a violência contra a mulher quando a cada notícia de estupro a vítima é sempre vista como uma provável mentirosa. Nem diminuir mulheres à beleza, chamando-as de musas, quando elas estão cortando um dobrado para conquistar espaços dominados por homens. Não ajuda em nada tratar as travestis no masculino, como se elas não tivessem direito a ser e existir conforme se sentem bem, isso também ajuda no índice alarmante de assassinatos e suicídios de travestis e pessoas trans. Tampouco adianta falar em crime passional, quando o que vivemos é um verdadeiro extermínio, um feminicídio por vez. Tudo isso também é violência contra a mulher.

quarta-feira, 26 de março de 2014
Estupro de vulnerável não é amor (ou porque eu parei de assistir BBB)
Todo início de ano é a mesma coisa: Um grupo de pessoas começa a reclamar que já vai começar de novo esse programa que representa tudo o que há de pior na TV brasileira (visão também representada por aqueles que insistem que as pessoas devem trocar o BBB por um livro) e um outro grupo, defensor do programa, que diz que isso é elitismo e que não existe baixa cultura, apenas cultura. Até bem pouco tempo atrás eu pertencia ao segundo grupo. Hoje, minha posição não se alinha a nenhum deles.
Eu já havia parado de assistir assiduamente o programa desde o BBB5, mas continuava defendendo a sua existência e os seus telespectadores. Eu acreditava que a crítica a um programa claramente popular, que usa argumentos como "vá ler um livro" era extremamente elitista, afinal, este é um país em que a leitura é desestimulada, onde a educação formal é restrita, em que até mesmo o lazer e o entretenimento são privilégios dos mais abastados. Me parecia que essa crítica era, como tantas outras, apenas uma forma de diminuir a cultura que não tem limites de classe.
Minha perspectiva começou a mudar no BBB10. Em 2010 foi doloroso ver um homofóbico ganhar o programa com tanta facilidade. Foi difícil ver que havia ali um país justificando seu comportamento preconceituoso. Mas ainda que naquela mesma casa houvessem pessoas que divergiam da heteronormatividade, os conflitos na convivência com um homofóbico não levaram a agressões físicas. Era espantoso que o mesmo país que se uniu em torno de Jean Wyllys, agora sagrava Dourado como campeão. Eu interpretei esse fato como um retrocesso. Mas nada me preparou para o que veria acontecer em outras edições.
Eu quebrei a cara lindamente mesmo em 2012. Nessa edição, havia uma participante chamada Monique, uma mina muito divertida, e um cara chamado Daniel, que parecia ser um cara bem legal. Em uma das festas, os dois ficaram. Mas a Monique bebeu muito e acabou indo dormir. Aconteceu então o que ninguém esperava: Ele começou a acariciar o seu corpo enquanto ela estava desacordada. Se esfregou nela enquanto ela não esboçava reação nenhuma. A mulher estava apagada. Se não fosse pelos famosos no twitter (Preta Gil foi uma das primeiras a jogar luz no assunto, seguida por outros), talvez a coisa toda passaria batido.
Na época foi um escândalo, todos falavam em um estupro de vulnerável em rede nacional. Para quem não sabe, na nossa legislação o estupro não envolve somente a penetração, mas todo ato não consensual para obtenção de prazer. E quando isso acontece com alguém apagado pela bebida, chamamos de estupro de vulnerável. Tentando botar panos quentes na situação, o Bial chegou a dizer ao vivo que "O amor é lindo", referindo-se ao casal Monique e Daniel, sabendo que havia ali uma investigação criminal a ser realizada.
A polícia foi até a casa do BBB para colher depoimentos. Vazou o áudio da Monique em que ela dizia que não se recordava de nada e que se o Daniel tinha feito alguma coisa seria mau caratismo. O Daniel foi expulso do programa, mas aqui fora o Faustão, por exemplo, já dizia que ele não tinha feito nada. O Roberto Carlos disse que foi só uma brincadeirinha. O Boninho falou que a nossa lei é que é muito severa e etc. No fim, não sabemos se foi feito algum acordo da globo com a Monique ou se ela simplesmente fez como a maior parte das vítimas sexuais e se culpou pelo acontecido, mas ela defendeu o Daniel, disse que tudo havia sido consensual, contrastando com o depoimento prestado dentro da casa. Daniel foi inocentado das acusações.
Toda essa situação gerou um "clique" em mim. Eu já não conseguia mais achar um ângulo defensável no BBB. Independente da culpa do Daniel pois o que quero discutir é a responsabilidade do programa diante da suspeita da agressão, não há como esquecer que uma mulher foi vítima de violência sexual e todos saíram em defesa do agressor. Eu parei em definitivo de assistir o Big Brother, embora esteja sempre por dentro do que acontece, porque é assunto bastante discutido nas redes sociais. Eu sabia que o que aconteceu com a Monique se repetiria de alguma maneira nas próximas edições, eu só não sabia que seria tão rápido.
Este ano, na edição 14 do programa, algo parecido aconteceu. Marcelo e Ângela ficaram. Mas a Ângela resolveu que não queria mais ficar com ele. Como ela expressou isso? Dizendo 104 vezes que não queria mais. CENTO E QUATRO VEZES. Infelizmente, muitos homens não entendem o significado do "não" de uma mulher, porque estão habituados a tratá-las como objetos, troféus, propriedade. Para muitos homens, a opinião da mulher é dispensável. E foi assim que Marcelo esperou Ângela embebedar-se para beijá-la e ainda queria "dar um banho" nela. O que ele não sabia é que havia alguém ali para defendê-la, o Cássio. O mesmo Cássio que havia antes declarações racistas e homofóbicas e que tinha sido poupado em um paredão anteriormente, mesmo em face dessas declarações. Cássio falou abertamente em abuso e não se poupou do conflito, não.
O que fez a direção do programa? Novamente botou panos quentes. O Bial fez o seu papel de palhacinho e disse para os participantes "rirem um pouco de tudo isso", jogou a culpa na vítima ao dizer que "ela nem bebeu tanto assim"... enfim, o show de horrores todo novamente. Contudo o pior é que, se antes, com a Monique, as pessoas alegavam que "ela não tinha dito que não", agora não há como explicar o que aconteceu. Como você chama um homem que recebe 104 nãos e mesmo assim resolve partir para cima de uma mulher bêbada? Aparentemente, você chama de campeão. Ao que tudo indica o BBB14 é do Marcelo.
Há toda uma sociedade aqui fora apoiando o Marcelo, culpando a Ângela, e dando sinal verde para que esse horror continue a acontecer com mulheres dentro do programa e fora dele. Imagine quantos abusadores ganharam confiança sabendo que mesmo quando o abuso é filmado e exibido para todo o país nada acontece? Imagine quantos adolescentes acreditam agora que o corpo das mulheres, especialmente aquelas que bebem, é público? Como é possível que as pessoas se revoltem com a reportagem do Fantástico sobre encoxadores no metrô e torçam pelo Marcelo no BBB14? Assustador é saber que as declarações racistas do Cássio não o tiraram da casa, mas a defesa de uma mulher inconsciente, sim.
Eu sei que deixar de assistir o programa não fará com que essas violências deixem de acontecer. Mas se em 2012 houve tanto protesto, a polícia entrou na casa, um participante foi expulso, tantos textos foram postados e nada aconteceu, o que mais pode ser feito? A minha única resposta é: Empoderar mulheres para que elas saibam que ninguém pode tocá-las sem consentimento. Porque já está evidente que não podemos esperar pela proteção de ninguém, nem mesmo em um ambiente completamente vigiado e cercado. Até lá eu prefiro me manter longe do BBB, não por uma questão elitista, mas concreta, de um quadro cada vez mais tolerante com a violência contra a mulher.
PS.: Por que em uma edição o Daniel foi expulso e nessa o Marcelo foi ovacionado? Seria porque Daniel era negro?
UPDATE: Esqueci de linkar o texto do blog da Lola a respeito do assunto.
UPDATE: Esqueci de linkar o texto do blog da Lola a respeito do assunto.

sexta-feira, 21 de março de 2014
O Tinder sueco e o racismo brasileiro
Até poucos dias atrás eu nem sabia o que era Tinder. Tinder, para quem também não sabe, é um aplicativo para smartphone que localiza pessoas interessadas em encontros em um raio determinado. As fotos das pessoas aparecem, você pode curtí-las. Se houver reciprocidade, os envolvidos são avisados e podem conversar. Nenhum problema. Foi então que alguém resolveu mostrar como é o Tinder na Suécia.
Por que na Suécia? Basta olhar as fotos. Todas as meninas são brancas, a maior parte delas são loiras, magras e de olhos claros. Estão todas perfeitamente encaixadas no que chamamos de "padrão de beleza". Como é possível que o tipo físico associado a um país distante do nosso seja o "padrão" desejável no Brasil? Somos um povo de maioria negra, cujo aspecto físico predominante não se assemelha ao padrão eurocêntrico.
Todas as vezes em que se fala de padrão de beleza (e tantas vezes já se falou disso), alguém tentar impor a sua opinião afirmando ser apenas "gosto pessoal". O nosso gosto pessoal é profundamente determinado por nossa cultura. Para começar, qual é o sentido de mostrar o Tinder sueco (e não o Tinder congolês, chinês ou qualquer outro), senão para objetificar mulheres brancas e magras? É uma idéia que já nasce dentro de um contexto machista, em que a mulher vale apenas em função de sua beleza. Em seguida, nos perguntamos que beleza é essa? Uma beleza única, determinada por um recorte racista e gordofóbico. Repetindo, assim valores preconceituosos da nossa sociedade.
Estou cansada de tanto papagaiar sobre esse assunto. Cansada de me repetir e ver exemplos como esse a todo momento. Essa semana alguém tirou uma foto de um segurança do metrô de São Paulo. Bastou eu ler comentários sobre isso sem nunca ter visto o rapaz para saber: Provavelmente, como no caso do "mendigo gato", o "segurança gato" era um homem branco de traços característicos da descendência européia. Não deu outra.
![]() |
| Protesto Garis 2014 |
![]() |
| Protesto Médicos 2013 |
Nos casos específicos do "mendigo gato" e "segurança gato", está embutida a idéia que homens brancos não ocupam tais funções na nossa sociedade. Alguém viu repercussão por foto do "médico gato"? As posições consideradas menores sempre estiveram nas mãos de pessoas negras, que mesmo após libertas da escravidão, nunca foram inseridas de fato. Basta ver a foto do protesto dos garis e comparar com a do protesto dos médicos. Veremos que apesar do discurso da democracia racial, vivemos em uma sociedade claramente dividida.
A beleza é ideológica. Ela é usada contra todas as mulheres (negras, brancas, indígenas, com deficiência, trans e etc) porém de formas diferentes para cada uma delas. Mostrar o Tinder Sueco para os brasileiros, postar foto do "segurança gato", ou do "mendigo gato", é dizer que a beleza negra, comum no Brasil é inferior. Precisamos pensar melhor no que está por trás dos discursos pretensamente inocentes, pois eles estão sendo usados por nós, mas também contra nós.

Assinar:
Postagens (Atom)






