No último final de semana eu assisti ao filme “Divergente”,
adaptação para o cinema da obra homônima de Veronica Roth. E apesar de
concordar inteiramente com críticas como essa, do Thiago Siqueira, eu percebo
que falta a visão de alguém que leu os livros. Não porque eu acredite que as coisas
precisam estar literalmente transpostas de uma mídia para outra, mas para
analisar outro aspecto da obra: A adaptação respeita a obra original?
SIM, CONTÉM SPOILERS
Eu confesso que até agora não decidi se gostei do filme.
Certamente tem algo de muito positivo em ver uma heroína de ação no cinema.
Vê-la superar suas próprias fraquezas, fazendo escolhas que decidirão o seu
próprio destino. Porém, a sensação que ficou é que o livro é muito melhor. Isso
não é surpresa. É muito comum que o livro seja melhor que a adaptação para o
cinema, são raros os casos em que o contrário ocorre. Contudo, no caso de
divergente, a disparidade é muito grande.
O que mais senti falta nessa adaptação foi de ver a Tris
crescer dentro da Audácia. De vê-la criando relacionamentos
verdadeiros, como a amizade com a Christina. Sair da Abnegação não representou
para Tris apenas a entrada nessa facção guerreira, mas também a liberdade de
ser autocomplacente, de agir espontaneamente e fazer amizades incontidas. Eu entenderia
que cortassem as amizades mais superficiais da Tris, como Uriah, Marlene
e Lynn. Mas não o grupo principal de amigos. A cumplicidade entre Tris e
Christina é importante e jamais deveria ter sido limada do filme. Aliás, quem
apenas viu o filme, mal deve se lembrar quem são os amigos da Tris: Christina,
Will e o traidor Al.
Através do filme, as
pessoas não saberão o quão duro foi o golpe que Al deu em Tris. E nem o quão
traumatizante. No cinema, a Tris apenas apanha de um grupo de encapuzados, um dos
quais ela descobre ser o Al. Entretanto, no livro, o ataque beira um estupro.
Os caras passam a mão nela enquanto ameaçam sua integridade física. Será por
isso que a Tris desenvolveu tanto medo de ter relações sexuais com Quatro?
Talvez sim. Quem leu o livro pode se fazer essa pergunta, quem viu o filme,
nunca imaginaria.
Na adaptação também não dá para perceber claramente o quanto
ou como Christina e Will se apaixonaram durante o treinamento. E por isso não
saberão que Tris e Christina terão que reconstruir juntas essa amizade, já que
Tris foi forçada a matar Will. Toda essa teia de relacionamentos foi
sumariamente cortada para dar espaço a cenas de ação, luta, correria e
tiroteio.
Infelizmente, pelo filme, não chegamos sequer a conhecer a
personagem principal. Não vemos a Tris descobrir o que é a coragem, como
acontece no livro, onde ela começa falando que é egoísta e é corajosa, mas
depois entende o significado de “acreditamos em nos libertar dos medos, nos
simples atos de bravura, em defender aqueles que não podem se levantar sozinhos”.
Nem sequer chegamos a conhecer todos os medos de Tris na paisagem do medo. O
grande problema dessa adaptação é que, diferente da adaptação de jogos vorazes,
em que o foco está nas relações humanas e na tensão social, em Divergente o
foco esteve em garantir ao espectador numerosas cenas de ação temperadas com romance.
Mas mesmo as cenas de ação não deixam o espectador temer pelos heróis. Não há a sensação de perigo iminente. E o romance com o quatro é morno. Deixa a desejar. A tensão que existe entre os dois sempre que estão sozinhos, não acontece no filme. Quem leu o livro sabe da expectativa que existe na cena em que os dois sobem a escada da roda gigante. Ou de como foi importante para o Quatro que a Tris passasse junto com ele por sua paisagem do medo. O filme não criou a expectativa do romance, não fez com que torcêssemos por eles.
Em resumo, a adaptação do livro está muito aquém do potencial, apesar da boa atuação da Shailene Woodley, que sinceramente me pareceu a única
boa atuação de todo o elenco (Kate Winslet, o que houve, gata!?). Eu esperava bem mais.
Update: A Rafaela Paludo, que fez um ótimo comentário aqui mesmo nesse texto, deixou um link para a crítica que ela fez do filme, que está bem legal, descrevendo ponto a ponto as ~divergências~ entre livro e filme.
Update: A Rafaela Paludo, que fez um ótimo comentário aqui mesmo nesse texto, deixou um link para a crítica que ela fez do filme, que está bem legal, descrevendo ponto a ponto as ~divergências~ entre livro e filme.









