sexta-feira, 28 de março de 2014

Epidemia é de gripe A, assédio é outra coisa!

Quadro humorístico misógino que faz piada
com o assédio no transporte público

Essa semana a questão da violência contra a mulher foi central no jornalismo brasileiro. Foram várias as notícias relacionadas. A começar pela reportagem do fantástico sobre os encoxadores do metrô de São Paulo, houve também a propaganda ridícula do metrô de São Paulo veiculada na Transamérica, passando pela condenação do deputado acusado de trocar votos por laqueaduras e finalizamos a semana com a pesquisa do IPEA sobre tolerância a respeito da violência contra a mulher, que atestou um fato notório: A violência contra a mulher está naturalizada.

O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ayres Britto, por ocasião do julgamento da constitucionalidade do aborto de fetos anencéfalos, disse que o grau de civilização de uma sociedade pode ser medido pela forma como as mulheres são tratadas. Se levarmos em consideração a pesquisa do IPEA, vivemos em um Brasil pré-civilizatório.

O que achei bastante curiosa foi a reação de espanto de boa parte da mídia. A mesma mídia que desde o início dessa semana tem falado em "epidemia" de assédio no transporte público. Isso só revela o quanto o jornalismo está descolado da sociedade. Qualquer mulher que use o transporte público coletivo ou de massas, em qualquer cidade do país, sabe muito bem que não se trata de uma epidemia. Não é um fato que tenha se iniciado ontem, não é uma doença que veio do animal e passou para o ser humano, não adianta pesquisar uma vacina, não adianta colocar todo mundo em quarentena. Não é uma epidemia. Epidemia é de Gripe A. Assédio no transporte público é fruto de uma sociedade profundamente machista e SEMPRE EXISTIU.

Eu já escrevi aqui mesmo, neste blog, como o jornalismo é conivente com a violência de gênero. E esse novo termo que está sendo difundido no jornalismo e na política, a tal "epidemia", é um eufemismo cruel que apenas evidencia o privilégio de setores da sociedade. Está na hora de começar a nomear o fato pelo que ele é: Misoginia estrutural, do contrário estão apenas tapando o sol com a peneira ou até mesmo contribuindo indiretamente para a perpetuação dessa violência.

O que quero dizer é que não adianta dizer-se assustado com a naturalidade com que se tolera a violência contra a mulher quando a cada notícia de estupro a vítima é sempre vista como uma provável mentirosa. Nem diminuir mulheres à beleza, chamando-as de musas, quando elas estão cortando um dobrado para conquistar espaços dominados por homens. Não ajuda em nada tratar as travestis no masculino, como se elas não tivessem direito a ser e existir conforme se sentem bem, isso também ajuda no índice alarmante de assassinatos e suicídios de travestis e pessoas trans. Tampouco adianta falar em crime passional, quando o que vivemos é um verdadeiro extermínio, um feminicídio por vez. Tudo isso também é violência contra a mulher.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Estupro de vulnerável não é amor (ou porque eu parei de assistir BBB)


Todo início de ano é a mesma coisa: Um grupo de pessoas começa a reclamar que já vai começar de novo esse programa que representa tudo o que há de pior na TV brasileira (visão também representada por aqueles que insistem que as pessoas devem trocar o BBB por um livro)  e um outro grupo, defensor do programa, que diz que isso é elitismo e que não existe baixa cultura, apenas cultura. Até bem pouco tempo atrás eu pertencia ao segundo grupo. Hoje, minha posição não se alinha a nenhum deles.

Eu já havia parado de assistir assiduamente o programa desde o BBB5, mas continuava defendendo a sua existência e os seus telespectadores. Eu acreditava que a crítica a um programa claramente popular, que usa argumentos como "vá ler um livro" era extremamente elitista, afinal, este é um país em que a leitura é desestimulada, onde a educação formal é restrita, em que até mesmo o lazer e o entretenimento são privilégios dos mais abastados. Me parecia que essa crítica era, como tantas outras, apenas uma forma de diminuir a cultura que não tem limites de classe.

Minha perspectiva começou a mudar no BBB10. Em 2010 foi doloroso ver um homofóbico ganhar o programa com tanta facilidade. Foi difícil ver que havia ali um país justificando seu comportamento preconceituoso. Mas ainda que naquela mesma casa houvessem pessoas que divergiam da heteronormatividade, os conflitos na convivência com um homofóbico não levaram a agressões físicas. Era espantoso que o mesmo país que se uniu em torno de Jean Wyllys, agora sagrava Dourado como campeão. Eu interpretei esse fato como um retrocesso. Mas nada me preparou para o que veria acontecer em outras edições.

Eu quebrei a cara lindamente mesmo em 2012. Nessa edição, havia uma participante chamada Monique, uma mina muito divertida, e um cara chamado Daniel, que parecia ser um cara bem legal. Em uma das festas, os dois ficaram. Mas a Monique bebeu muito e acabou indo dormir. Aconteceu então o que ninguém esperava: Ele começou a acariciar o seu corpo enquanto ela estava desacordada. Se esfregou nela enquanto ela não esboçava reação nenhuma. A mulher estava apagada. Se não fosse pelos famosos no twitter (Preta Gil foi uma das primeiras a jogar luz no assunto, seguida por outros), talvez a coisa toda passaria batido.  

Na época foi um escândalo, todos falavam em um estupro de vulnerável em rede nacional. Para quem não sabe, na nossa legislação o estupro não envolve somente a penetração, mas todo ato não consensual para obtenção de prazer. E quando isso acontece com alguém apagado pela bebida, chamamos de estupro de vulnerável. Tentando botar panos quentes na situação, o Bial chegou a dizer ao vivo que "O amor é lindo", referindo-se ao casal Monique e Daniel, sabendo que havia ali uma investigação criminal a ser realizada. 

A polícia foi até a casa do BBB para colher depoimentos. Vazou o áudio da Monique em que ela dizia que não se recordava de nada e que se o Daniel tinha feito alguma coisa seria mau caratismo. O Daniel foi expulso do programa, mas aqui fora o Faustão, por exemplo, já dizia que ele não tinha feito nada. O Roberto Carlos disse que foi só uma brincadeirinha. O Boninho falou que a nossa lei é que é muito severa e etc. No fim, não sabemos se foi feito algum acordo da globo com a Monique ou se ela simplesmente fez como a maior parte das vítimas sexuais e se culpou pelo acontecido, mas ela defendeu o Daniel, disse que tudo havia sido consensual, contrastando com o depoimento prestado dentro da casa. Daniel foi inocentado das acusações.

Toda essa situação gerou um "clique" em mim. Eu já não conseguia mais achar um ângulo defensável no BBB. Independente da culpa do Daniel pois o que quero discutir é a responsabilidade do programa diante da suspeita da agressão, não há como esquecer que uma mulher foi vítima de violência sexual e todos saíram em defesa do agressor. Eu parei em definitivo de assistir o Big Brother, embora esteja sempre por dentro do que acontece, porque é assunto bastante discutido nas redes sociais. Eu sabia que o que aconteceu com a Monique se repetiria de alguma maneira nas próximas edições, eu só não sabia que seria tão rápido. 

Este ano, na edição 14 do programa, algo parecido aconteceu. Marcelo e Ângela ficaram. Mas a Ângela resolveu que não queria mais ficar com ele. Como ela expressou isso? Dizendo 104 vezes que não queria mais. CENTO E QUATRO VEZES. Infelizmente, muitos homens não entendem o significado do "não" de uma mulher, porque estão habituados a tratá-las como objetos, troféus, propriedade. Para muitos homens, a opinião da mulher é dispensável. E foi assim que Marcelo esperou Ângela embebedar-se para beijá-la e ainda queria "dar um banho" nela. O que ele não sabia é que havia alguém ali para defendê-la, o Cássio. O mesmo Cássio que havia antes declarações racistas e homofóbicas e que tinha sido poupado em um paredão anteriormente, mesmo em face dessas declarações. Cássio falou abertamente em abuso e não se poupou do conflito, não. 

O que fez a direção do programa? Novamente botou panos quentes. O Bial fez o seu papel de palhacinho e disse para os participantes "rirem um pouco de tudo isso", jogou a culpa na vítima ao dizer que "ela nem bebeu tanto assim"... enfim, o show de horrores todo novamente. Contudo o pior é que, se antes, com a Monique, as pessoas alegavam que "ela não tinha dito que não", agora não há como explicar o que aconteceu. Como você chama um homem que recebe 104 nãos e mesmo assim resolve partir para cima de uma mulher bêbada? Aparentemente, você chama de campeão. Ao que tudo indica o BBB14 é do Marcelo. 

Há toda uma sociedade aqui fora apoiando o Marcelo, culpando a Ângela, e dando sinal verde para que esse horror continue a acontecer com mulheres dentro do programa e fora dele. Imagine quantos abusadores ganharam confiança sabendo que mesmo quando o abuso é filmado e exibido para todo o país nada acontece? Imagine quantos adolescentes acreditam agora que o corpo das mulheres, especialmente aquelas que bebem, é público? Como é possível que as pessoas se revoltem com a reportagem do Fantástico sobre encoxadores no metrô e torçam pelo Marcelo no BBB14? Assustador é saber que as declarações racistas do Cássio não o tiraram da casa, mas a defesa de uma mulher inconsciente, sim.

Eu sei que deixar de assistir o programa não fará com que essas violências deixem de acontecer. Mas se em 2012 houve tanto protesto, a polícia entrou na casa, um participante foi expulso, tantos textos foram postados e nada aconteceu, o que mais pode ser feito? A minha única resposta é: Empoderar mulheres para que elas saibam que ninguém pode tocá-las sem consentimento. Porque já está evidente que não podemos esperar pela proteção de ninguém, nem mesmo em um ambiente completamente vigiado e cercado. Até lá eu prefiro me manter longe do BBB, não por uma questão elitista, mas concreta, de um quadro cada vez mais tolerante com a violência contra a mulher.

PS.:  Por que em uma edição o Daniel foi expulso e nessa o Marcelo foi ovacionado? Seria porque Daniel era negro?

UPDATE: Esqueci de linkar o texto do blog da Lola a respeito do assunto.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O Tinder sueco e o racismo brasileiro

Até poucos dias atrás eu nem sabia o que era Tinder. Tinder, para quem também não sabe, é um aplicativo para smartphone que localiza pessoas interessadas em encontros em um raio determinado. As fotos das pessoas aparecem, você pode curtí-las. Se houver reciprocidade, os envolvidos são avisados e podem conversar. Nenhum problema. Foi então que alguém resolveu mostrar como é o Tinder na Suécia.

Por que na Suécia? Basta olhar as fotos. Todas as meninas são brancas, a maior parte delas são loiras, magras e de olhos claros. Estão todas perfeitamente encaixadas no que chamamos de "padrão de beleza". Como é possível que o tipo físico associado a um país distante do nosso seja o "padrão" desejável no Brasil? Somos um povo de maioria negra, cujo aspecto físico predominante não se assemelha ao padrão eurocêntrico.

Todas as vezes em que se fala de padrão de beleza (e tantas vezes já se falou disso), alguém tentar impor a sua opinião afirmando ser apenas "gosto pessoal". O nosso gosto pessoal é profundamente determinado por nossa cultura. Para começar, qual é o sentido de mostrar o Tinder sueco (e não o Tinder congolês, chinês ou qualquer outro), senão para objetificar mulheres brancas e magras? É uma idéia que já nasce dentro de um contexto machista, em que a mulher vale apenas em função de sua beleza. Em seguida, nos perguntamos que beleza é essa? Uma beleza única, determinada por um recorte racista e gordofóbico. Repetindo, assim valores preconceituosos da nossa sociedade.

Estou cansada de tanto papagaiar sobre esse assunto. Cansada de me repetir e ver exemplos como esse a todo momento. Essa semana alguém tirou uma foto de um segurança do metrô de São Paulo. Bastou eu ler comentários sobre isso sem nunca ter visto o rapaz para saber: Provavelmente, como no caso do "mendigo gato", o "segurança gato" era um homem branco de traços característicos da descendência européia. Não deu outra. 

Protesto Garis 2014
Protesto Médicos 2013
Nos casos específicos do "mendigo gato" e "segurança gato", está embutida a idéia que homens brancos não ocupam tais funções na nossa sociedade. Alguém viu repercussão por foto do "médico gato"? As posições consideradas menores sempre estiveram nas mãos de pessoas negras, que mesmo após libertas da escravidão, nunca foram inseridas de fato. Basta ver a foto do protesto dos garis e comparar com a do protesto dos médicos. Veremos que apesar do discurso da democracia racial, vivemos em uma sociedade claramente dividida. 


A beleza é ideológica. Ela é usada contra todas as mulheres (negras, brancas, indígenas, com deficiência, trans e etc) porém de formas diferentes para cada uma delas. Mostrar o Tinder Sueco para os brasileiros, postar foto do "segurança gato", ou do "mendigo gato", é dizer que a beleza negra, comum no Brasil é inferior. Precisamos pensar melhor no que está por trás dos discursos pretensamente inocentes, pois eles estão sendo usados por nós, mas também contra nós.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O racismo não tira férias em Janeiro

Esse mês tão curto, visto que estamos ainda na metade, se mostrou demasiadamente longo devido aos inúmeros casos de violações de direitos humanos, em especial de racismo. Peço desculpas de antemão por esse texto, pois ele será longo e desconexo.

Eu me lembro de um dia em que eu passeava com a minha mãe em um dos shoppings de Brasília. Eu tinha uns nove ou dez anos. Era meio da tarde e fazia um calor desses que a gente só espera em agosto. Talvez fosse agosto, não sei bem. Mas sei que eu estava incomodada com o calor. Algumas crianças, provavelmente da mesma idade que eu, porém todas em situação de rua, resolveram se refrescar no espelho d'água do shopping. Primeiro veio uma criança, depois outra. Quando percebi havia várias delas se divertindo no espelho d'água. Nem mesmo dez minutos se passaram e chegou o primeiro segurança, já puxando a criança mais próxima com violência para fora do espelho d'água. Pouco depois, outros seguranças chegaram, usando da mesma violência contra crianças pequenas.

Toda essa discussão sobre rolezinho me recordou esse momento em que fui testemunha de algo que me soa bem parecido, seja pela localização (o shopping), seja pela forma violenta com que se tratou os envolvidos, seja pela demonstração cortante de racismo/classismo, dirigidos às pessoas pobres e negras. No ano 2000 um grupo de pessoas em situação de rua foram visitar um shopping center. Chamaram a imprensa para registrar o momento, esse evento resultou no documentário Hiato. Rolezinho não é de hoje, amigos. Aliás, antes do rolezinho virar capa do G1, muita gente pobre e negra já foi tratada como bandido dentro de shoppings centers. Vou abrir um parêntese aqui para falar especificamente de um comentário que ouvi há alguns dias na CBN do Arthur Xexéo, que dizia que os rolezinhos embora fossem pacíficos, tinham a intenção de "assustar". Eita, preguiça de pensar, meldels. Fecha parêntese.

Imagem de Lex Silva, para o Estadão

Não apenas as pessoas negras e pobres são indesejadas no shopping center, mas também, em especial, as mulheres trans, as travestis. Que são alijadas do seu direito ao banheiro feminino. São desumanizadas, rejeitadas e discriminadas unicamente porque precisam usar o banheiro, nessas horas a mítica "mulher de verdade" é colocada na roda. Como se mulheres trans fossem um delírio, uma fantasia. Questionar identidades trans é como girar a roda da violência. Pode ser que o resultado seja o não pertencimento ao banheiro público feminino, pode ser que o resultado seja o homicídio transfóbico. E questionar identidades trans é o primeiro passo para tudo. Houve um protesto em um shopping de São Paulo, para expor a face transfóbica de um shopping center que tentou recusar a mulheres trans o direito ao banheiro feminino. Protesto lindíssimo, emocionante.

Houve também o caso de um anúncio no mercado livre, oferecendo negros ao preço de R$1,00. Agora sabemos que a mente brilhante por trás do humor ~~politicamente incorreto~~ é um adolescente inconformado por não ter passado no vestibular, segundo ele, devido ao sistema de cotas. Muitos diziam, na época do julgamentos das cotas no STF, que a aprovação das cotas geraria ódio racial. Meus caros, o ódio racial sempre existiu. Agora sua face está mais exposta, apenas. Será que é a cota racial ou a cultura racista que distorce até mesmo as cabeças mais jovens, mais aptas a aceitar questionamentos? Para mim a resposta é muito óbvia.

Hoje, um jornal da minha cidade (vergonha), que é distribuído gratuitamente nos metrôs da cidade (portanto voltado para um público operário e com bastante incidência, também negro), chamou a ministra da igualdade racial, Luiza Bairros, de "anta", porque ela disse que as pessoas brancas reagem ao rolezinho no shopping. O colunista responsável por essa atitude que envolve muito de racismo e machismo, Cláudio Humberto, acusa-a de ignorar que no Brasil não existem pessoas "puro branco". Ele ignora (eu deveria chamá-lo de anta?) que são os negros desse país que são excluídos da educação superior, dos cargos políticos, dos empregos melhor remunerados, que são maioria nos presídios, as mulheres negras são as que mais sofrem violência doméstica e, principalmente, são as pessoas negras que mais morrem por homicídio nesse país. Nesse momento, os dados têm cor. A cor é visível, sobressai. Pode ser que não exista ninguém puramente branco nesse país, mas o fenótipo é essencial para determinar quem vive e quem morre. E também como vivem e como morrem os brasileiros. Um exemplo disso é o rapaz Kaique Augusto Batista do Santos, homossexual e negro, cujo corpo foi encontrado com sinais de tortura, mas o registro policial é de suicídio. Homofobia e racismo agindo juntos, amparados pelas forças policiais. 

Para finalizar, é sempre bom lembrar que janeiro é mês de quê, mesmo? Exatamente, de Big Brother Brasil. Eu sei que muita gente que eu conheço passa o mês de janeiro defendendo esse programa. As defesas que mais ouço são: "Você não é melhor que outra pessoa porque não assiste Big Brother" e também "Big Brother não é pior do que muitos programas que passam na TV". Bom, sinceramente, eu costumava pensar assim também. Eu até acompanhei algumas edições. E na verdade, eu ainda concordo que quem não assiste BBB não é melhor do que quem assiste, porém, desde o episódio do BBB 12, em que uma mulher bêbada foi estuprada (segundo a nossa lei, em que para haver o estupro não é necessária a penetração) ao vivo e absolutamente NADA foi feito, em que o apresentador chamou "estupro de incapaz" de "amor", em que muita gente aqui fora chamou a moça de vadia por estar bêbada, minha opinião mudou drasticamente. O Big Brother é indefensável. E um dos motivos é porque é um programa que escolhe criteriosamente perfis racistas, homofóbicos, machistas exatamente para botar lenha na fogueira. Dessa vez não foi diferente, anda por aí mais um tipo desses, o tal do Cássio, que já postou tweets racistas e machistas. Nessa noite ele fez mais comentários racistas. Não dá vontade de dormir hoje e acordar daqui a 3 meses, quando o programa acabar?


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Obesidade não é uma fantasia que pode ser tirada

De vez em quando aparece por aí, nos telejornais, uma pessoa sem deficiência fazendo o teste da acessibilidade na cadeira de rodas. A idéia desse tipo de reportagem é mostrar quais as dificuldades sentidas pelas pessoas com deficiência. Fica a dúvida: Por que não podemos ouví-las? Por que é necessário que alguém sem deficiência sinta na pele o problema? O exercício da empatia está em falta. Não é preciso ter deficiência física para entender os problemas e empatizar.

Essa semana, houve um caso similar e igualmente problemático. Talvez até pior por causa do tom de comédia. A apresentadora Ticiane Pinheiro, do reality show "Além do peso", resolveu fazer uma reportagem mostrando as dificuldades enfrentadas pelas pessoas gordas. Até aí, ótimo. É mesmo necessário que a mídia possa mostrar que pessoas gordas são oprimidas. Que tudo o que nos cerca é pensado para a pessoa magra. Do assento do metrô ao peso do elevador. Entretanto, o que se viu foi isso:

Ticiane sendo gordofóbica

Vamos esclarecer uma coisa? Eu sou gorda e esse não é o meu prato de comida. A obesidade é multifatorial, essa idéia de que o gordo se alimenta mal é um mito. A reportagem "gorda por um dia" foi uma sucessão de clichês e teve um tom de troça que foi muito cruel. Hipócritas. Se a idéia era mostrar o quanto o gordo é oprimido, parabéns, conseguiram. Nos oprimiram ainda mais. 

Ser gordo não é usar uma fantasia de gordo. A dificuldade de passar na roleta pode ser real para quem veste uma fantasia de gordo, a humilhação, não. A humilhação vem de anos e anos de desprezo, das inúmeras pessoas que não conhecem você e te julgam pela aparência, vem do emprego não conquistado e de todas as vezes que um médico disse para você emagrecer, mesmo quando todos os exames mostravam que você é um ser humano saudável. Uma roupa não faz ninguém se tornar gordo.

Se estão tão interessados em saber como é o dia-a-dia do gordo, tenho uma dica: perguntem para as pessoas gordas. Pessoas magras podem falar sobre o assunto, sim. Devem falar. Mas se colocar em nossos lugares, não. Termino esse texto reclamando da militância feminista nas redes sociais que não se esforçou em dar visibilidade para esse episódio. Quase que somente as mulheres gordas se sentiram incomodadas. Não basta falar para o gordo "amar o seu corpo". Se pararmos o discurso aí e não falarmos do que acontece na sociedade estaremos apenas, mais uma vez, culpando a vítima. Com toda a boa intenção do mundo? sim. Mas a gordofobia internalizada não é a única a ser combatida.

Deixo como recomendação esse texto da Renata que analisa toda a reportagem, ponto a ponto. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 7 - Considerações sobre gênero e raça

CONTÉM SPOILERS

Panem é um país curioso. Sua organização política como um Estado autocrático, ditador, nos faz pensar em como seria absolutamente horrível viver naquela realidade. De fato, seria. Porém, há alguns indícios de evolução quanto às questões de raça e gênero que em nosso mundo não-fictício, na realidade que nos cerca, ainda não alcançamos.

Katniss, na arena
de Em Chamas
O primeiro aspecto visível é a forma como mulheres são lidas como pessoas competentes. Em cada distrito, são escolhidos dois tributos, um de cada gênero. Há casos em que se afirma até mesmo que a mulher é a maior ameaça. Katniss nunca foi minimizada por seus opositores, ela sempre foi temida. Mesmo a pequena Rue, do distrito 11, que possui apenas 12 anos, é analisada como ágil e esperta. Em sua narrativa, a autora Suzanne Collins atribuiu às mulheres muito mais do que a dualidade beleza/inteligência. E é exatamente isso  que possibilita que as enxerguemos como seres humanos dotados de muitas habilidades distintas. Coisa que não vejo muito nas cobranças da nossa sociedade na vida real. Aqui, nesse planetinha patriarcal, a mulher vive sob o estigma da beleza e da inteligência (isso se levarmos em conta o que é a inteligência para o patriarcado).

Apesar de tudo, me parece que em alguns momentos ainda há algum resquício de paternalismo. Um exemplo, que soa até mesmo contraditório, é que aparentemente, apenas homens trabalham nas minas de carvão. Suas filhas e esposas estão presas ao trabalho doméstico e ao comércio, no distrito 12. O trabalho mais pesado parece ser masculino. Há também a forte presença da monogamia. A Katniss teria se martirizado bem menos ao longo do livro se conseguisse se livrar desse conceito, pois está claro que ela ama aos dois rapazes, Peeta e Gale, em formas e intensidades que nem ela consegue medir. Katniss não é monogâmica, mas Panem sim. E foi também por influência desse traço cultural que ela precisou fazer uma escolha. E, enfim, apesar de representar minorias oprimidas, o livro (como a maioria dos livros publicados) não apresenta qualquer personagem com orientação sexual não-heterossexual ou identidade trans.

Com relação às mulheres, são muitos os exemplos positivos. Além da própria Katniss, há mulheres comandando militarmente, como a Comandante Lyme e a comandante Paylor, que presidem o próprio distrito, como a Presidente Coin e um número grande de mulheres que foram tributos e saíram vitoriosas. Se não contarmos também aquelas mulheres em profissões tradicionalmente femininas, mas que são reconhecidas por sua habilidade, como por exemplo a mãe de Katniss e sua irmã Prim. Até mesmo Cressilda, que é do time de cinegrafistas, é de enorme coragem, colocando-se na linha de frente durante a guerra para fazer bem o seu trabalho. 

Há também a questão racial. A autora descreve vagamente seus personagens e eu acredito que seja intencional. Vez ou outra ela fala abertamente sobre a cor de pele, como no caso de Katniss cuja pele é tom de oliva. E também de Thresh e Rue que são negros. Não é à toa que existe um grande chororô branco em volta da série adaptada para o cinema, uma vez que a autora não define claramente a raça de seus personagens, os leitores acabam levando seus próprios preconceitos para dentro de sua imaginação. A branquitude, para muitos, é normativa.

Collins costuma participar da seleção do elenco para os filmes, podemos compreender portanto que essas escolhas não são totalmente descoladas do livro. Infelizmente, Katniss foi interpretada por uma atriz branca (compreendo que a atriz é sensacional, a crítica é restrita à questão racial), mas há também algumas gratas surpresas. O elenco negro de Jogos Vorazes incluem os dois tributos do distrito 11 na primeira arena, Thresh e Rue. Dois personagens importantes para a saga, que trouxeram consigo as características de humanidade, de compaixão, de solidariedade. Eles foram fiéis aos seus princípios ainda que isso custasse suas vidas. O estilista de Katniss, Cinna, também é interpretado por um ator negro. Compreendo essa escolha quase como política, pois é bastante significativo que um habitante da capital, que vive cercado por aquela realidade alienadora e sem empatia, consiga entender seus privilégios e alinhar-se politicamente às pessoas oprimidas dos distritos. 

Patina Miller, atriz escolhida para interpretar
a Comandante Paylor no filme "A Esperança"
No segundo filme, Em Chamas, apareceram novos personagens negros. Como o tributo vitorioso Beetee que é um cientista. É raro vermos pessoas negras representadas num rol de profissões que exigem alto grau de especialização. Como antagonista, existe ainda Enobaria, uma personagem de quem não sabemos muito. Em "A esperança" haverá também a comandante Paylor, uma mulher que é crucial para o destino de Panem e será interpretada por uma atriz negra. No somatório de personagens negros há uma diversidade de pessoas em posições de comando, como símbolos de vitória, humanidade e até mesmo de subversão.

Notem também que o maior vilão da série é um homem branco e rico. Ele personaliza o inimigo. esse fato importa porque na nossa sociedade esse é o perfil que mais acumula privilégios. Assim, jogos vorazes se estabelece como uma saga literária adaptada para o cinema que traz consigo uma característica marcante: O respeito a minorias historicamente oprimidas.

Bons Links:

We Can Cast It - Mulheres na Ficção Científica, Gravidade e Jogos Vorazes., por Gizelli Sousa (eu), Aline Valek e Lady Sybylla.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Metrô lotado não é lugar de gordo?

Passei um tempo tentando entender o porquê de me incomodar tanto essa denominação "plus size". E entendi que, além de ser normativa, classificando um tamanho de corpo como além do regular, essa é uma denominação que veio de um mercado que me abomina. A moda. A moda odeia mulheres. A moda nos enclausura. 

Em teoria, a moda é libertadora. Pois é uma das formas em que podemos expressar quem somos, nosso humor, nossa forma de enxergar a vida. Talvez devesse ser apenas isso. Mas basta reunir uma turminha de mulheres e perguntar quais delas têm dificuldade para encontrar roupas que as vistam, calçados que não machuquem e etc. Praticamente todas têm em algum cantinho do seu armário uma roupa comprada e pouco usada porque foi comprada em um momento de descontrole. Descontrole emocional mesmo. A moda (e muitas outras coisas, é claro) nos desestabiliza.

Eu, de shortinho e bolsa da moda
Nós, mulheres, muitas vezes não recorremos à moda para nos expressar, mas para nos enquadrar. Para entregar os pontos a uma sociedade que nos tolhe naquilo que vestimos e naquilo que somos. Só que enquanto alguns setores  se movimentam para enxergar as pessoas gordas como consumidores de moda, parece que todos se esqueceram de debater a cidadania da pessoa gorda. E acho que a desestabilização que o consumo nos proporciona encontra refúgio nessa falta de cidadania.

A pessoa gorda começa a existir na moda, mas ainda não existe na escola, onde as carteiras são pequenas e desconfortáveis. Onde o coleguinha magro cria apelidos para o gordinho. Não existe na roleta do ônibus. Nem tem prioridade na fila do banco, no metrô ou demais serviços. O obeso, assim como grávidas e idosos, não é doente. Obesidade não é doença. Obesidade é uma condição ou uma situação e assim deve ser encarada. O obeso, por exemplo, pode ter mais dificuldade de ficar em pé por longos períodos. Mas basta ser gordo e entrar num metrô lotado: Ninguém parece se importar. Sente-se na cadeira da prioridade e observe os olhares negativos. Aliás, gordo no metrô lotado, sentado ou em pé é odiado. 

Quando se lê num anúncio de emprego "exige-se boa aparência", isso significa ser branco e magro. E não ter um emprego, ou ter empregos abaixo da sua capacitação, revela que falhamos em oferecer cidadania aos gordos. Assim como não se encaixar direito na cadeira do ônibus. Em hipótese alguma se pensa no gordo como cidadão. Aplica-se ao gordo a idéia da meritocracia. A difundida idéia de que "Só não emagrece quem quer" culpa apenas o gordo e nada mais pela sua condição. Nunca se culpa, por exemplo, o capitalismo pelo incentivo ao consumo de comida ruim e pelo estímulo a vida sedentária. E nunca se aceita a idéia de que a obesidade é multifatorial e que corpos distintos tem especificidades distintas. 

Oferecem ao gordo a mesma ridícula meritocracia culpabilizadora que querem empurrar sobre os negros. Os negros receberam a abolição, contudo nunca houve um processo de integração, ao contrário, sofreram um processo de exclusão racista, resultando hoje num grupo de pessoas que recebem muito menos dinheiro e morrem muito mais cedo e violentamente do que os brancos. Mesmo assim espera-se que eles tomem sozinhos as rédeas da situação e se tornem, como Joaquim Barbosa, presidentes do STF. Só que na vida real, a cidadania não vem quando a gente se esforça para alcançar, a meritocracia é uma ilusão pautada em exceções. E as exceções não mostram o quadro geral.

Amar seu corpo é importante (aliás, é importantíssimo), mas ter suas capacidades e especificidades respeitadas também é. Não vamos esquecer que a luta contra a gordofobia é maior do que a luta pelo direito ao shortinho de cada dia. Antes de ser plus size, somos gordos e somos pessoas.