Todo início de ano é a mesma coisa: Um grupo de pessoas começa a reclamar que já vai começar de novo esse programa que representa tudo o que há de pior na TV brasileira (visão também representada por aqueles que insistem que as pessoas devem trocar o BBB por um livro) e um outro grupo, defensor do programa, que diz que isso é elitismo e que não existe baixa cultura, apenas cultura. Até bem pouco tempo atrás eu pertencia ao segundo grupo. Hoje, minha posição não se alinha a nenhum deles.
Eu já havia parado de assistir assiduamente o programa desde o BBB5, mas continuava defendendo a sua existência e os seus telespectadores. Eu acreditava que a crítica a um programa claramente popular, que usa argumentos como "vá ler um livro" era extremamente elitista, afinal, este é um país em que a leitura é desestimulada, onde a educação formal é restrita, em que até mesmo o lazer e o entretenimento são privilégios dos mais abastados. Me parecia que essa crítica era, como tantas outras, apenas uma forma de diminuir a cultura que não tem limites de classe.
Minha perspectiva começou a mudar no BBB10. Em 2010 foi doloroso ver um homofóbico ganhar o programa com tanta facilidade. Foi difícil ver que havia ali um país justificando seu comportamento preconceituoso. Mas ainda que naquela mesma casa houvessem pessoas que divergiam da heteronormatividade, os conflitos na convivência com um homofóbico não levaram a agressões físicas. Era espantoso que o mesmo país que se uniu em torno de Jean Wyllys, agora sagrava Dourado como campeão. Eu interpretei esse fato como um retrocesso. Mas nada me preparou para o que veria acontecer em outras edições.
Eu quebrei a cara lindamente mesmo em 2012. Nessa edição, havia uma participante chamada Monique, uma mina muito divertida, e um cara chamado Daniel, que parecia ser um cara bem legal. Em uma das festas, os dois ficaram. Mas a Monique bebeu muito e acabou indo dormir. Aconteceu então o que ninguém esperava: Ele começou a acariciar o seu corpo enquanto ela estava desacordada. Se esfregou nela enquanto ela não esboçava reação nenhuma. A mulher estava apagada. Se não fosse pelos famosos no twitter (Preta Gil foi uma das primeiras a jogar luz no assunto, seguida por outros), talvez a coisa toda passaria batido.
Na época foi um escândalo, todos falavam em um estupro de vulnerável em rede nacional. Para quem não sabe, na nossa legislação o estupro não envolve somente a penetração, mas todo ato não consensual para obtenção de prazer. E quando isso acontece com alguém apagado pela bebida, chamamos de estupro de vulnerável. Tentando botar panos quentes na situação, o Bial chegou a dizer ao vivo que "O amor é lindo", referindo-se ao casal Monique e Daniel, sabendo que havia ali uma investigação criminal a ser realizada.
A polícia foi até a casa do BBB para colher depoimentos. Vazou o áudio da Monique em que ela dizia que não se recordava de nada e que se o Daniel tinha feito alguma coisa seria mau caratismo. O Daniel foi expulso do programa, mas aqui fora o Faustão, por exemplo, já dizia que ele não tinha feito nada. O Roberto Carlos disse que foi só uma brincadeirinha. O Boninho falou que a nossa lei é que é muito severa e etc. No fim, não sabemos se foi feito algum acordo da globo com a Monique ou se ela simplesmente fez como a maior parte das vítimas sexuais e se culpou pelo acontecido, mas ela defendeu o Daniel, disse que tudo havia sido consensual, contrastando com o depoimento prestado dentro da casa. Daniel foi inocentado das acusações.
Toda essa situação gerou um "clique" em mim. Eu já não conseguia mais achar um ângulo defensável no BBB. Independente da culpa do Daniel pois o que quero discutir é a responsabilidade do programa diante da suspeita da agressão, não há como esquecer que uma mulher foi vítima de violência sexual e todos saíram em defesa do agressor. Eu parei em definitivo de assistir o Big Brother, embora esteja sempre por dentro do que acontece, porque é assunto bastante discutido nas redes sociais. Eu sabia que o que aconteceu com a Monique se repetiria de alguma maneira nas próximas edições, eu só não sabia que seria tão rápido.
Este ano, na edição 14 do programa, algo parecido aconteceu. Marcelo e Ângela ficaram. Mas a Ângela resolveu que não queria mais ficar com ele. Como ela expressou isso? Dizendo 104 vezes que não queria mais. CENTO E QUATRO VEZES. Infelizmente, muitos homens não entendem o significado do "não" de uma mulher, porque estão habituados a tratá-las como objetos, troféus, propriedade. Para muitos homens, a opinião da mulher é dispensável. E foi assim que Marcelo esperou Ângela embebedar-se para beijá-la e ainda queria "dar um banho" nela. O que ele não sabia é que havia alguém ali para defendê-la, o Cássio. O mesmo Cássio que havia antes declarações racistas e homofóbicas e que tinha sido poupado em um paredão anteriormente, mesmo em face dessas declarações. Cássio falou abertamente em abuso e não se poupou do conflito, não.
O que fez a direção do programa? Novamente botou panos quentes. O Bial fez o seu papel de palhacinho e disse para os participantes "rirem um pouco de tudo isso", jogou a culpa na vítima ao dizer que "ela nem bebeu tanto assim"... enfim, o show de horrores todo novamente. Contudo o pior é que, se antes, com a Monique, as pessoas alegavam que "ela não tinha dito que não", agora não há como explicar o que aconteceu. Como você chama um homem que recebe 104 nãos e mesmo assim resolve partir para cima de uma mulher bêbada? Aparentemente, você chama de campeão. Ao que tudo indica o BBB14 é do Marcelo.
Há toda uma sociedade aqui fora apoiando o Marcelo, culpando a Ângela, e dando sinal verde para que esse horror continue a acontecer com mulheres dentro do programa e fora dele. Imagine quantos abusadores ganharam confiança sabendo que mesmo quando o abuso é filmado e exibido para todo o país nada acontece? Imagine quantos adolescentes acreditam agora que o corpo das mulheres, especialmente aquelas que bebem, é público? Como é possível que as pessoas se revoltem com a reportagem do Fantástico sobre encoxadores no metrô e torçam pelo Marcelo no BBB14? Assustador é saber que as declarações racistas do Cássio não o tiraram da casa, mas a defesa de uma mulher inconsciente, sim.
Eu sei que deixar de assistir o programa não fará com que essas violências deixem de acontecer. Mas se em 2012 houve tanto protesto, a polícia entrou na casa, um participante foi expulso, tantos textos foram postados e nada aconteceu, o que mais pode ser feito? A minha única resposta é: Empoderar mulheres para que elas saibam que ninguém pode tocá-las sem consentimento. Porque já está evidente que não podemos esperar pela proteção de ninguém, nem mesmo em um ambiente completamente vigiado e cercado. Até lá eu prefiro me manter longe do BBB, não por uma questão elitista, mas concreta, de um quadro cada vez mais tolerante com a violência contra a mulher.
PS.: Por que em uma edição o Daniel foi expulso e nessa o Marcelo foi ovacionado? Seria porque Daniel era negro?
UPDATE: Esqueci de linkar o texto do blog da Lola a respeito do assunto.
UPDATE: Esqueci de linkar o texto do blog da Lola a respeito do assunto.









