sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O racismo não tira férias em Janeiro

Esse mês tão curto, visto que estamos ainda na metade, se mostrou demasiadamente longo devido aos inúmeros casos de violações de direitos humanos, em especial de racismo. Peço desculpas de antemão por esse texto, pois ele será longo e desconexo.

Eu me lembro de um dia em que eu passeava com a minha mãe em um dos shoppings de Brasília. Eu tinha uns nove ou dez anos. Era meio da tarde e fazia um calor desses que a gente só espera em agosto. Talvez fosse agosto, não sei bem. Mas sei que eu estava incomodada com o calor. Algumas crianças, provavelmente da mesma idade que eu, porém todas em situação de rua, resolveram se refrescar no espelho d'água do shopping. Primeiro veio uma criança, depois outra. Quando percebi havia várias delas se divertindo no espelho d'água. Nem mesmo dez minutos se passaram e chegou o primeiro segurança, já puxando a criança mais próxima com violência para fora do espelho d'água. Pouco depois, outros seguranças chegaram, usando da mesma violência contra crianças pequenas.

Toda essa discussão sobre rolezinho me recordou esse momento em que fui testemunha de algo que me soa bem parecido, seja pela localização (o shopping), seja pela forma violenta com que se tratou os envolvidos, seja pela demonstração cortante de racismo/classismo, dirigidos às pessoas pobres e negras. No ano 2000 um grupo de pessoas em situação de rua foram visitar um shopping center. Chamaram a imprensa para registrar o momento, esse evento resultou no documentário Hiato. Rolezinho não é de hoje, amigos. Aliás, antes do rolezinho virar capa do G1, muita gente pobre e negra já foi tratada como bandido dentro de shoppings centers. Vou abrir um parêntese aqui para falar especificamente de um comentário que ouvi há alguns dias na CBN do Arthur Xexéo, que dizia que os rolezinhos embora fossem pacíficos, tinham a intenção de "assustar". Eita, preguiça de pensar, meldels. Fecha parêntese.

Imagem de Lex Silva, para o Estadão

Não apenas as pessoas negras e pobres são indesejadas no shopping center, mas também, em especial, as mulheres trans, as travestis. Que são alijadas do seu direito ao banheiro feminino. São desumanizadas, rejeitadas e discriminadas unicamente porque precisam usar o banheiro, nessas horas a mítica "mulher de verdade" é colocada na roda. Como se mulheres trans fossem um delírio, uma fantasia. Questionar identidades trans é como girar a roda da violência. Pode ser que o resultado seja o não pertencimento ao banheiro público feminino, pode ser que o resultado seja o homicídio transfóbico. E questionar identidades trans é o primeiro passo para tudo. Houve um protesto em um shopping de São Paulo, para expor a face transfóbica de um shopping center que tentou recusar a mulheres trans o direito ao banheiro feminino. Protesto lindíssimo, emocionante.

Houve também o caso de um anúncio no mercado livre, oferecendo negros ao preço de R$1,00. Agora sabemos que a mente brilhante por trás do humor ~~politicamente incorreto~~ é um adolescente inconformado por não ter passado no vestibular, segundo ele, devido ao sistema de cotas. Muitos diziam, na época do julgamentos das cotas no STF, que a aprovação das cotas geraria ódio racial. Meus caros, o ódio racial sempre existiu. Agora sua face está mais exposta, apenas. Será que é a cota racial ou a cultura racista que distorce até mesmo as cabeças mais jovens, mais aptas a aceitar questionamentos? Para mim a resposta é muito óbvia.

Hoje, um jornal da minha cidade (vergonha), que é distribuído gratuitamente nos metrôs da cidade (portanto voltado para um público operário e com bastante incidência, também negro), chamou a ministra da igualdade racial, Luiza Bairros, de "anta", porque ela disse que as pessoas brancas reagem ao rolezinho no shopping. O colunista responsável por essa atitude que envolve muito de racismo e machismo, Cláudio Humberto, acusa-a de ignorar que no Brasil não existem pessoas "puro branco". Ele ignora (eu deveria chamá-lo de anta?) que são os negros desse país que são excluídos da educação superior, dos cargos políticos, dos empregos melhor remunerados, que são maioria nos presídios, as mulheres negras são as que mais sofrem violência doméstica e, principalmente, são as pessoas negras que mais morrem por homicídio nesse país. Nesse momento, os dados têm cor. A cor é visível, sobressai. Pode ser que não exista ninguém puramente branco nesse país, mas o fenótipo é essencial para determinar quem vive e quem morre. E também como vivem e como morrem os brasileiros. Um exemplo disso é o rapaz Kaique Augusto Batista do Santos, homossexual e negro, cujo corpo foi encontrado com sinais de tortura, mas o registro policial é de suicídio. Homofobia e racismo agindo juntos, amparados pelas forças policiais. 

Para finalizar, é sempre bom lembrar que janeiro é mês de quê, mesmo? Exatamente, de Big Brother Brasil. Eu sei que muita gente que eu conheço passa o mês de janeiro defendendo esse programa. As defesas que mais ouço são: "Você não é melhor que outra pessoa porque não assiste Big Brother" e também "Big Brother não é pior do que muitos programas que passam na TV". Bom, sinceramente, eu costumava pensar assim também. Eu até acompanhei algumas edições. E na verdade, eu ainda concordo que quem não assiste BBB não é melhor do que quem assiste, porém, desde o episódio do BBB 12, em que uma mulher bêbada foi estuprada (segundo a nossa lei, em que para haver o estupro não é necessária a penetração) ao vivo e absolutamente NADA foi feito, em que o apresentador chamou "estupro de incapaz" de "amor", em que muita gente aqui fora chamou a moça de vadia por estar bêbada, minha opinião mudou drasticamente. O Big Brother é indefensável. E um dos motivos é porque é um programa que escolhe criteriosamente perfis racistas, homofóbicos, machistas exatamente para botar lenha na fogueira. Dessa vez não foi diferente, anda por aí mais um tipo desses, o tal do Cássio, que já postou tweets racistas e machistas. Nessa noite ele fez mais comentários racistas. Não dá vontade de dormir hoje e acordar daqui a 3 meses, quando o programa acabar?


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Obesidade não é uma fantasia que pode ser tirada

De vez em quando aparece por aí, nos telejornais, uma pessoa sem deficiência fazendo o teste da acessibilidade na cadeira de rodas. A idéia desse tipo de reportagem é mostrar quais as dificuldades sentidas pelas pessoas com deficiência. Fica a dúvida: Por que não podemos ouví-las? Por que é necessário que alguém sem deficiência sinta na pele o problema? O exercício da empatia está em falta. Não é preciso ter deficiência física para entender os problemas e empatizar.

Essa semana, houve um caso similar e igualmente problemático. Talvez até pior por causa do tom de comédia. A apresentadora Ticiane Pinheiro, do reality show "Além do peso", resolveu fazer uma reportagem mostrando as dificuldades enfrentadas pelas pessoas gordas. Até aí, ótimo. É mesmo necessário que a mídia possa mostrar que pessoas gordas são oprimidas. Que tudo o que nos cerca é pensado para a pessoa magra. Do assento do metrô ao peso do elevador. Entretanto, o que se viu foi isso:

Ticiane sendo gordofóbica

Vamos esclarecer uma coisa? Eu sou gorda e esse não é o meu prato de comida. A obesidade é multifatorial, essa idéia de que o gordo se alimenta mal é um mito. A reportagem "gorda por um dia" foi uma sucessão de clichês e teve um tom de troça que foi muito cruel. Hipócritas. Se a idéia era mostrar o quanto o gordo é oprimido, parabéns, conseguiram. Nos oprimiram ainda mais. 

Ser gordo não é usar uma fantasia de gordo. A dificuldade de passar na roleta pode ser real para quem veste uma fantasia de gordo, a humilhação, não. A humilhação vem de anos e anos de desprezo, das inúmeras pessoas que não conhecem você e te julgam pela aparência, vem do emprego não conquistado e de todas as vezes que um médico disse para você emagrecer, mesmo quando todos os exames mostravam que você é um ser humano saudável. Uma roupa não faz ninguém se tornar gordo.

Se estão tão interessados em saber como é o dia-a-dia do gordo, tenho uma dica: perguntem para as pessoas gordas. Pessoas magras podem falar sobre o assunto, sim. Devem falar. Mas se colocar em nossos lugares, não. Termino esse texto reclamando da militância feminista nas redes sociais que não se esforçou em dar visibilidade para esse episódio. Quase que somente as mulheres gordas se sentiram incomodadas. Não basta falar para o gordo "amar o seu corpo". Se pararmos o discurso aí e não falarmos do que acontece na sociedade estaremos apenas, mais uma vez, culpando a vítima. Com toda a boa intenção do mundo? sim. Mas a gordofobia internalizada não é a única a ser combatida.

Deixo como recomendação esse texto da Renata que analisa toda a reportagem, ponto a ponto. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 7 - Considerações sobre gênero e raça

CONTÉM SPOILERS

Panem é um país curioso. Sua organização política como um Estado autocrático, ditador, nos faz pensar em como seria absolutamente horrível viver naquela realidade. De fato, seria. Porém, há alguns indícios de evolução quanto às questões de raça e gênero que em nosso mundo não-fictício, na realidade que nos cerca, ainda não alcançamos.

Katniss, na arena
de Em Chamas
O primeiro aspecto visível é a forma como mulheres são lidas como pessoas competentes. Em cada distrito, são escolhidos dois tributos, um de cada gênero. Há casos em que se afirma até mesmo que a mulher é a maior ameaça. Katniss nunca foi minimizada por seus opositores, ela sempre foi temida. Mesmo a pequena Rue, do distrito 11, que possui apenas 12 anos, é analisada como ágil e esperta. Em sua narrativa, a autora Suzanne Collins atribuiu às mulheres muito mais do que a dualidade beleza/inteligência. E é exatamente isso  que possibilita que as enxerguemos como seres humanos dotados de muitas habilidades distintas. Coisa que não vejo muito nas cobranças da nossa sociedade na vida real. Aqui, nesse planetinha patriarcal, a mulher vive sob o estigma da beleza e da inteligência (isso se levarmos em conta o que é a inteligência para o patriarcado).

Apesar de tudo, me parece que em alguns momentos ainda há algum resquício de paternalismo. Um exemplo, que soa até mesmo contraditório, é que aparentemente, apenas homens trabalham nas minas de carvão. Suas filhas e esposas estão presas ao trabalho doméstico e ao comércio, no distrito 12. O trabalho mais pesado parece ser masculino. Há também a forte presença da monogamia. A Katniss teria se martirizado bem menos ao longo do livro se conseguisse se livrar desse conceito, pois está claro que ela ama aos dois rapazes, Peeta e Gale, em formas e intensidades que nem ela consegue medir. Katniss não é monogâmica, mas Panem sim. E foi também por influência desse traço cultural que ela precisou fazer uma escolha. E, enfim, apesar de representar minorias oprimidas, o livro (como a maioria dos livros publicados) não apresenta qualquer personagem com orientação sexual não-heterossexual ou identidade trans.

Com relação às mulheres, são muitos os exemplos positivos. Além da própria Katniss, há mulheres comandando militarmente, como a Comandante Lyme e a comandante Paylor, que presidem o próprio distrito, como a Presidente Coin e um número grande de mulheres que foram tributos e saíram vitoriosas. Se não contarmos também aquelas mulheres em profissões tradicionalmente femininas, mas que são reconhecidas por sua habilidade, como por exemplo a mãe de Katniss e sua irmã Prim. Até mesmo Cressilda, que é do time de cinegrafistas, é de enorme coragem, colocando-se na linha de frente durante a guerra para fazer bem o seu trabalho. 

Há também a questão racial. A autora descreve vagamente seus personagens e eu acredito que seja intencional. Vez ou outra ela fala abertamente sobre a cor de pele, como no caso de Katniss cuja pele é tom de oliva. E também de Thresh e Rue que são negros. Não é à toa que existe um grande chororô branco em volta da série adaptada para o cinema, uma vez que a autora não define claramente a raça de seus personagens, os leitores acabam levando seus próprios preconceitos para dentro de sua imaginação. A branquitude, para muitos, é normativa.

Collins costuma participar da seleção do elenco para os filmes, podemos compreender portanto que essas escolhas não são totalmente descoladas do livro. Infelizmente, Katniss foi interpretada por uma atriz branca (compreendo que a atriz é sensacional, a crítica é restrita à questão racial), mas há também algumas gratas surpresas. O elenco negro de Jogos Vorazes incluem os dois tributos do distrito 11 na primeira arena, Thresh e Rue. Dois personagens importantes para a saga, que trouxeram consigo as características de humanidade, de compaixão, de solidariedade. Eles foram fiéis aos seus princípios ainda que isso custasse suas vidas. O estilista de Katniss, Cinna, também é interpretado por um ator negro. Compreendo essa escolha quase como política, pois é bastante significativo que um habitante da capital, que vive cercado por aquela realidade alienadora e sem empatia, consiga entender seus privilégios e alinhar-se politicamente às pessoas oprimidas dos distritos. 

Patina Miller, atriz escolhida para interpretar
a Comandante Paylor no filme "A Esperança"
No segundo filme, Em Chamas, apareceram novos personagens negros. Como o tributo vitorioso Beetee que é um cientista. É raro vermos pessoas negras representadas num rol de profissões que exigem alto grau de especialização. Como antagonista, existe ainda Enobaria, uma personagem de quem não sabemos muito. Em "A esperança" haverá também a comandante Paylor, uma mulher que é crucial para o destino de Panem e será interpretada por uma atriz negra. No somatório de personagens negros há uma diversidade de pessoas em posições de comando, como símbolos de vitória, humanidade e até mesmo de subversão.

Notem também que o maior vilão da série é um homem branco e rico. Ele personaliza o inimigo. esse fato importa porque na nossa sociedade esse é o perfil que mais acumula privilégios. Assim, jogos vorazes se estabelece como uma saga literária adaptada para o cinema que traz consigo uma característica marcante: O respeito a minorias historicamente oprimidas.

Bons Links:

We Can Cast It - Mulheres na Ficção Científica, Gravidade e Jogos Vorazes., por Gizelli Sousa (eu), Aline Valek e Lady Sybylla.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Metrô lotado não é lugar de gordo?

Passei um tempo tentando entender o porquê de me incomodar tanto essa denominação "plus size". E entendi que, além de ser normativa, classificando um tamanho de corpo como além do regular, essa é uma denominação que veio de um mercado que me abomina. A moda. A moda odeia mulheres. A moda nos enclausura. 

Em teoria, a moda é libertadora. Pois é uma das formas em que podemos expressar quem somos, nosso humor, nossa forma de enxergar a vida. Talvez devesse ser apenas isso. Mas basta reunir uma turminha de mulheres e perguntar quais delas têm dificuldade para encontrar roupas que as vistam, calçados que não machuquem e etc. Praticamente todas têm em algum cantinho do seu armário uma roupa comprada e pouco usada porque foi comprada em um momento de descontrole. Descontrole emocional mesmo. A moda (e muitas outras coisas, é claro) nos desestabiliza.

Eu, de shortinho e bolsa da moda
Nós, mulheres, muitas vezes não recorremos à moda para nos expressar, mas para nos enquadrar. Para entregar os pontos a uma sociedade que nos tolhe naquilo que vestimos e naquilo que somos. Só que enquanto alguns setores  se movimentam para enxergar as pessoas gordas como consumidores de moda, parece que todos se esqueceram de debater a cidadania da pessoa gorda. E acho que a desestabilização que o consumo nos proporciona encontra refúgio nessa falta de cidadania.

A pessoa gorda começa a existir na moda, mas ainda não existe na escola, onde as carteiras são pequenas e desconfortáveis. Onde o coleguinha magro cria apelidos para o gordinho. Não existe na roleta do ônibus. Nem tem prioridade na fila do banco, no metrô ou demais serviços. O obeso, assim como grávidas e idosos, não é doente. Obesidade não é doença. Obesidade é uma condição ou uma situação e assim deve ser encarada. O obeso, por exemplo, pode ter mais dificuldade de ficar em pé por longos períodos. Mas basta ser gordo e entrar num metrô lotado: Ninguém parece se importar. Sente-se na cadeira da prioridade e observe os olhares negativos. Aliás, gordo no metrô lotado, sentado ou em pé é odiado. 

Quando se lê num anúncio de emprego "exige-se boa aparência", isso significa ser branco e magro. E não ter um emprego, ou ter empregos abaixo da sua capacitação, revela que falhamos em oferecer cidadania aos gordos. Assim como não se encaixar direito na cadeira do ônibus. Em hipótese alguma se pensa no gordo como cidadão. Aplica-se ao gordo a idéia da meritocracia. A difundida idéia de que "Só não emagrece quem quer" culpa apenas o gordo e nada mais pela sua condição. Nunca se culpa, por exemplo, o capitalismo pelo incentivo ao consumo de comida ruim e pelo estímulo a vida sedentária. E nunca se aceita a idéia de que a obesidade é multifatorial e que corpos distintos tem especificidades distintas. 

Oferecem ao gordo a mesma ridícula meritocracia culpabilizadora que querem empurrar sobre os negros. Os negros receberam a abolição, contudo nunca houve um processo de integração, ao contrário, sofreram um processo de exclusão racista, resultando hoje num grupo de pessoas que recebem muito menos dinheiro e morrem muito mais cedo e violentamente do que os brancos. Mesmo assim espera-se que eles tomem sozinhos as rédeas da situação e se tornem, como Joaquim Barbosa, presidentes do STF. Só que na vida real, a cidadania não vem quando a gente se esforça para alcançar, a meritocracia é uma ilusão pautada em exceções. E as exceções não mostram o quadro geral.

Amar seu corpo é importante (aliás, é importantíssimo), mas ter suas capacidades e especificidades respeitadas também é. Não vamos esquecer que a luta contra a gordofobia é maior do que a luta pelo direito ao shortinho de cada dia. Antes de ser plus size, somos gordos e somos pessoas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Não é iuzomismo quando...

Dentro (e fora) do feminismo há uma enorme preocupação com o homem. Muitas vezes essa preocupação acaba por secundarizar as questões pertinentes à mulher. Para dar um exemplo, basta falar um pouco sobre as agruras de ser uma mãe solteira para um monte de gente reclamar um espaço para o homem nesse discurso, para dizer que o homem não tem licença paternidade digna, para dizer que o homem também ama seus filhos, que a guarda normalmente é da mãe e etc. O protagonismo da luta é disvirtuado, retirado de nossas mãos porque temos que pensar em igualdade. Numa igualdade para a qual não importa as nuances do machismo com que precisamos lidar. Um ideal de igualdade que não entende o conceito de isonomia. Para essas situações, muitas de nós, mulheres e feministas, usamos ironicamente a expressão "iuzômi?", ou seja, brincamos com o fato de que muitas vezes somos interpeladas por pessoas que antes de pensar nos direitos das mulheres querem saber onde se encaixam os homens em nossa luta.

Eu uso essa expressão de forma jocosa e acredito nela como forma de empoderar mulheres. Mostrar para elas que há um certo ridículo em buscar benefícios para os homens em um mundo que pertence a eles. Em que todos os benefícios já estão concentrados em suas mãos. Porém, discordo da aplicação desse termo nas questões interseccionais.

Amarildo, torturado e morto
pela polícia "pacificadora"
Não é "iuzomismo" quando nos perguntamos, por exemplo, porque o homem negro ganha tão mal. Talvez você não saiba, mas a mulher branca ganha mais do que o homem negro. E tampouco o extermínio da juventude masculina e negra é uma questão pertinente apenas à luta antirracista. Eu creio nesse tópico também como assunto do feminismo, pois há gerações e gerações de mães que perderam seus filhos para a violência institucional. Há filhas sem pai. Há mulheres que precisam lidar com a realidade de cuidar sozinhas de suas crianças porque o companheiro morreu ou desapareceu. Amarildo também é questão feminista. Não significa relevar toda e qualquer opressão de gênero proveniente de um homem negro, significa que devemos compreender que o homem negro não está no topo da escala da opressão e não deveria ser alçado a esse posto, equiparando-se ao homem branco.

Não existe um descolamento tão grande entre a mulher negra e o homem negro, quanto existe entre a mulher branca e o homem branco. Especialmente porque entre eles há a experiência do racismo. Isso os une de forma indelével. E é mesmo assim que deve ser. O homem branco representa a figura do poder, o homem negro, não. O homem negro não personifica o inimigo. Portanto, ao meu ver, apoiar a mulher negra é também apoiar o homem negro, um feminismo que não compreende as nuances de privilégio e opressão que se alternam em momentos distintos e categoriza absolutamente tudo como "iuzomi" não é o feminismo que defendo.

Bons Links:

Uma carta de amor aberta para o meu filho: Sobre luto, amor e maternidade negra, no Blogueiras Negras.


Update: Algumas pessoas me criticaram por acreditar que ao colocar o homem negro na luta feminista eu estaria priorizando esse homem em detrimento das mulheres negras (cis e trans). A essas pessoas eu peço desculpas, realmente não me expressei bem como poderia ter feito. Há obviamente mais tonalidades de cinza do que um texto de 4 parágrafos pode expressar. Há homens negros silenciando mulheres negras em sua luta política. E também usando do poder concedido pelo patriarcado para abusar fisicamente, sexualmente e etc. Eu entendo tudo isso, amigas e jamais intencionei ocultar isso, diminuir, ou negar. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Ficção: Brasil, o país literário e mágico

Essa semana é daquelas em que as muitas contradições do Brasil se revelam. Fora do Brasil, uma delegação com setenta escritores foi levada à cidade de Frankfurt, para a Feira do Livro, cujo convidado de honra é o nosso país. Em um dos claros esforços de vender uma imagem de nação evoluída, levamos aqueles que representam o ápice da educação: As pessoas que escrevem os livros. Digo isso não porque os convidados sejam as pessoas mais cultas de nosso país, mas porque os livros, simbolicamente, representam a educação.

Porém, se voltarmos os olhos nesse momento para dentro do Brasil veremos um quadro com cores muito diferentes. Onde impera o vermelho-sangue que já pintou essa tela tantas vezes. Há professores saindo às ruas em busca de aumento de salário, reformas no plano de carreira, reformas na educação, mas também em busca do seu direito constitucional de ser grevista. Porque enquanto lá fora se veste a fantasia do país da literatura, aqui dentro ainda impera o país da tortura e da repressão. O país que bate em quem o desafia, que quer manter a todos de cabeça baixa. Enquanto essa realidade esteve encerrada dentro das comunidades pobres e marginais, ninguém se incomodou de fato. Enquanto sofriam os Amarildos e suas famílias, havia uma justificativa elitista e racial perfeitamente aceita para a violência.

Luiz Ruffato
A fantasia do país da literatura felizmente durou pouco. Um autor, cujos livros nunca li mas que já admiro imensamente pela coragem, falou na abertura do evento em Frankfurt sobre o nosso país. Não o país "literário e mágico", que a ministra Marta Suplicy esperava vender para o mundo. Mas do país degradado pelo genocídio, pela educação deficiente, pela hipocrisia, intolerância e machismo. O rei estava nu. Do seu lugar de fala de homem do povo, cuja mãe foi uma lavadeira de roupa analfabeta e o pai um pipoqueiro semianalfabeto, Luiz Rufatto mandou um papo sem curva sobre o desrespeito aos direitos humanos que se pratica no Brasil.

Paulo Coelho que me perdoe, mas esse sim é um protesto que ficou marcado na lembrança daqueles que estiveram na Feira de Frankfurt. Protestar porque algumas pessoas que você gostaria que participasse do evento não foram convidadas é válido (Embora seja injusto desqualificar 50 nomes porque você não os conhece), porém, protestar sobre as mazelas que atormentam o povo, é necessário. Especialmente nesse momento dramático que vivem os professores no Rio de Janeiro. Ziraldo, que uma vez defendeu abertamente Monteiro Lobato das acusações justas e comprovadas de racismo, disse que se Ruffato estava tão insatisfeito que saísse do país. Ziraldo, volte dez casas no jogo democrático. Eu pergunto: continua assim? Brasil, ame-o ou deixe-o, tal e qual era na ditadura militar? Quem está insatisfeito com o país merece o exílio? Não. A insatisfação crítica (não aquela que desmerece os poucos avanços que não se dirigem a quem já detém o privilégio) é o caminho para construir um país melhor. 

Se quiser ficar passadx e dobradx com a coragem e lucidez do escritor, leia abaixo o discurso na íntegra, que peguei emprestado daqui. :)


O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora?

Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas.

Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças. O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados elevados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução. O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década.

Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir.

Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra.

Aqui e agora.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A cultura do estupro debaixo do tapete da grande mídia

Se você acompanha esse blog é muito possível que já tenha lido o meu texto sobre o silêncio da mídia durante a primeira retomada do julgamento do caso New Hit, que ocorreu no dia 3 de setembro passado (a segunda retomada do julgamento começa hoje, dia 17 de setembro, fiquem de olho). Mais gente escreveu sobre o mesmo assunto. No meu texto, eu abordei o descaso da grande mídia com um crime cuja natureza causa horror no mundo inteiro, contudo parece ser um horror momentâneo, prestes a dar lugar à próxima tragédia. No último dia 3 de setembro, foi assombroso assistir à falta de informação que gere a nossa imprensa. Seja ela de esquerda ou de direita, partidária ou não.

Imagem daqui

O problema do horror é que ele acontece de forma enviesada. É contraditório que o estupro nos cause horror, mas passados alguns dias ele caia no esquecimento. Acho que em grande parte devemos isso à maneira como ele é informado. Não se debate o estupro na grande mídia, apenas se recita manchetes. O estupro é um assunto que tem a superficialidade de uma manchete, ele assim é tratado e lembrado. A grande mídia falha em retratá-lo pois jamais vai além da informação seca, bruta, do fato puro e simples. É sempre: "Homem é suspeito de estuprar mulher", ou "mulher é estuprada em algum lugar". Mas os porquês não surgem. 

A informação é completamente acrítica, dotada de uma ignorância abissal sobre o que é a violência contra a mulher. Esse tipo de notícia faz parecer que a violência contra a mulher é apenas a mão que bate, fere e mata. Ou que é apenas a penetração não consensual. Ou ainda que o homem e o monstro não coexistem. "Homens de verdade não estupram". Essa é uma informação que não compreende os meandros do machismo, que extrapolam a agressão física em todas as suas formas e adentram o nosso cotidiano.

Nas notícias sobre violência sexual falta abordar o entitlement, por exemplo. Palavra usada para descrever o sentimento que muitos homens tem sobre as mulheres, o sentimento de ter a garantia e o direito sobre elas. É uma relação desequilibrada de poder que se revela ainda na infância. O entitlement é fruto de outra expressão que passa longe da grande mídia: "cultura do estupro".

A cultura do estupro é o meio pelo qual normalizamos e/ou relativizamos a violência sexual, é todo o sistema pelo qual o estupro é aceito. E ele é. Dentre todos os casos de estupro, apenas 2% deles levam à condenação. Esse é um número que fala por si. É pouquíssimo, haja vista ser um crime tão comum. É sintomático que não se fale abertamente em cultura do estupro.  

É a cultura do estupro que permite que a mulher seja alvo de investigação e não o estuprador. Não se trata de direito à ampla defesa e contraditório, porque isso não será negado ao acusado, mas da tentativa indiscriminada de deslegitimação da denúncia através da sexualidade feminina, às vezes expressa numa roupa curta, ao ambiente onde o crime ocorreu ou simplesmente ao fato de ser mulher e ousar dizer não.

A ousadia do não é o principal argumento para a deslegitimação do estupro doméstico. Aquele praticado pelos próprios companheiros. O estupro não é exclusividade do estranho na balada, no beco escuro, na rua. Não. O estupro é uma realidade doméstica, que acontece no seio da família, e gera uma zona cinzenta de incertezas, constrangimento e medo. 

Então, chega de falar sobre o estupro como se ele fosse um evento isolado, uma tragédia. Devemos tratar dele como um horror, sim, mas um horror do cotidiano, reiterado por propagandas na TV aberta, legitimado pelas cantadas nas ruas, pela passada de mão no metrô lotado, pela insistência em fazer sexo com a companheira até que ela ceda à pressão. Não espere essa abordagem na grande mídia, porque a quem interessa reconhecer o monstro interior? o ser humano mais pacífico carrega consigo uma carga de informações que recebe da sua vida em sociedade e é aí que se flerta com o monstro, sem se dar conta. Ninguém quer entender que o monstro não é o outro, ele vive dentro de si.