quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Não é iuzomismo quando...

Dentro (e fora) do feminismo há uma enorme preocupação com o homem. Muitas vezes essa preocupação acaba por secundarizar as questões pertinentes à mulher. Para dar um exemplo, basta falar um pouco sobre as agruras de ser uma mãe solteira para um monte de gente reclamar um espaço para o homem nesse discurso, para dizer que o homem não tem licença paternidade digna, para dizer que o homem também ama seus filhos, que a guarda normalmente é da mãe e etc. O protagonismo da luta é disvirtuado, retirado de nossas mãos porque temos que pensar em igualdade. Numa igualdade para a qual não importa as nuances do machismo com que precisamos lidar. Um ideal de igualdade que não entende o conceito de isonomia. Para essas situações, muitas de nós, mulheres e feministas, usamos ironicamente a expressão "iuzômi?", ou seja, brincamos com o fato de que muitas vezes somos interpeladas por pessoas que antes de pensar nos direitos das mulheres querem saber onde se encaixam os homens em nossa luta.

Eu uso essa expressão de forma jocosa e acredito nela como forma de empoderar mulheres. Mostrar para elas que há um certo ridículo em buscar benefícios para os homens em um mundo que pertence a eles. Em que todos os benefícios já estão concentrados em suas mãos. Porém, discordo da aplicação desse termo nas questões interseccionais.

Amarildo, torturado e morto
pela polícia "pacificadora"
Não é "iuzomismo" quando nos perguntamos, por exemplo, porque o homem negro ganha tão mal. Talvez você não saiba, mas a mulher branca ganha mais do que o homem negro. E tampouco o extermínio da juventude masculina e negra é uma questão pertinente apenas à luta antirracista. Eu creio nesse tópico também como assunto do feminismo, pois há gerações e gerações de mães que perderam seus filhos para a violência institucional. Há filhas sem pai. Há mulheres que precisam lidar com a realidade de cuidar sozinhas de suas crianças porque o companheiro morreu ou desapareceu. Amarildo também é questão feminista. Não significa relevar toda e qualquer opressão de gênero proveniente de um homem negro, significa que devemos compreender que o homem negro não está no topo da escala da opressão e não deveria ser alçado a esse posto, equiparando-se ao homem branco.

Não existe um descolamento tão grande entre a mulher negra e o homem negro, quanto existe entre a mulher branca e o homem branco. Especialmente porque entre eles há a experiência do racismo. Isso os une de forma indelével. E é mesmo assim que deve ser. O homem branco representa a figura do poder, o homem negro, não. O homem negro não personifica o inimigo. Portanto, ao meu ver, apoiar a mulher negra é também apoiar o homem negro, um feminismo que não compreende as nuances de privilégio e opressão que se alternam em momentos distintos e categoriza absolutamente tudo como "iuzomi" não é o feminismo que defendo.

Bons Links:

Uma carta de amor aberta para o meu filho: Sobre luto, amor e maternidade negra, no Blogueiras Negras.


Update: Algumas pessoas me criticaram por acreditar que ao colocar o homem negro na luta feminista eu estaria priorizando esse homem em detrimento das mulheres negras (cis e trans). A essas pessoas eu peço desculpas, realmente não me expressei bem como poderia ter feito. Há obviamente mais tonalidades de cinza do que um texto de 4 parágrafos pode expressar. Há homens negros silenciando mulheres negras em sua luta política. E também usando do poder concedido pelo patriarcado para abusar fisicamente, sexualmente e etc. Eu entendo tudo isso, amigas e jamais intencionei ocultar isso, diminuir, ou negar. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Ficção: Brasil, o país literário e mágico

Essa semana é daquelas em que as muitas contradições do Brasil se revelam. Fora do Brasil, uma delegação com setenta escritores foi levada à cidade de Frankfurt, para a Feira do Livro, cujo convidado de honra é o nosso país. Em um dos claros esforços de vender uma imagem de nação evoluída, levamos aqueles que representam o ápice da educação: As pessoas que escrevem os livros. Digo isso não porque os convidados sejam as pessoas mais cultas de nosso país, mas porque os livros, simbolicamente, representam a educação.

Porém, se voltarmos os olhos nesse momento para dentro do Brasil veremos um quadro com cores muito diferentes. Onde impera o vermelho-sangue que já pintou essa tela tantas vezes. Há professores saindo às ruas em busca de aumento de salário, reformas no plano de carreira, reformas na educação, mas também em busca do seu direito constitucional de ser grevista. Porque enquanto lá fora se veste a fantasia do país da literatura, aqui dentro ainda impera o país da tortura e da repressão. O país que bate em quem o desafia, que quer manter a todos de cabeça baixa. Enquanto essa realidade esteve encerrada dentro das comunidades pobres e marginais, ninguém se incomodou de fato. Enquanto sofriam os Amarildos e suas famílias, havia uma justificativa elitista e racial perfeitamente aceita para a violência.

Luiz Ruffato
A fantasia do país da literatura felizmente durou pouco. Um autor, cujos livros nunca li mas que já admiro imensamente pela coragem, falou na abertura do evento em Frankfurt sobre o nosso país. Não o país "literário e mágico", que a ministra Marta Suplicy esperava vender para o mundo. Mas do país degradado pelo genocídio, pela educação deficiente, pela hipocrisia, intolerância e machismo. O rei estava nu. Do seu lugar de fala de homem do povo, cuja mãe foi uma lavadeira de roupa analfabeta e o pai um pipoqueiro semianalfabeto, Luiz Rufatto mandou um papo sem curva sobre o desrespeito aos direitos humanos que se pratica no Brasil.

Paulo Coelho que me perdoe, mas esse sim é um protesto que ficou marcado na lembrança daqueles que estiveram na Feira de Frankfurt. Protestar porque algumas pessoas que você gostaria que participasse do evento não foram convidadas é válido (Embora seja injusto desqualificar 50 nomes porque você não os conhece), porém, protestar sobre as mazelas que atormentam o povo, é necessário. Especialmente nesse momento dramático que vivem os professores no Rio de Janeiro. Ziraldo, que uma vez defendeu abertamente Monteiro Lobato das acusações justas e comprovadas de racismo, disse que se Ruffato estava tão insatisfeito que saísse do país. Ziraldo, volte dez casas no jogo democrático. Eu pergunto: continua assim? Brasil, ame-o ou deixe-o, tal e qual era na ditadura militar? Quem está insatisfeito com o país merece o exílio? Não. A insatisfação crítica (não aquela que desmerece os poucos avanços que não se dirigem a quem já detém o privilégio) é o caminho para construir um país melhor. 

Se quiser ficar passadx e dobradx com a coragem e lucidez do escritor, leia abaixo o discurso na íntegra, que peguei emprestado daqui. :)


O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora?

Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas.

Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças. O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados elevados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução. O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década.

Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir.

Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra.

Aqui e agora.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A cultura do estupro debaixo do tapete da grande mídia

Se você acompanha esse blog é muito possível que já tenha lido o meu texto sobre o silêncio da mídia durante a primeira retomada do julgamento do caso New Hit, que ocorreu no dia 3 de setembro passado (a segunda retomada do julgamento começa hoje, dia 17 de setembro, fiquem de olho). Mais gente escreveu sobre o mesmo assunto. No meu texto, eu abordei o descaso da grande mídia com um crime cuja natureza causa horror no mundo inteiro, contudo parece ser um horror momentâneo, prestes a dar lugar à próxima tragédia. No último dia 3 de setembro, foi assombroso assistir à falta de informação que gere a nossa imprensa. Seja ela de esquerda ou de direita, partidária ou não.

Imagem daqui

O problema do horror é que ele acontece de forma enviesada. É contraditório que o estupro nos cause horror, mas passados alguns dias ele caia no esquecimento. Acho que em grande parte devemos isso à maneira como ele é informado. Não se debate o estupro na grande mídia, apenas se recita manchetes. O estupro é um assunto que tem a superficialidade de uma manchete, ele assim é tratado e lembrado. A grande mídia falha em retratá-lo pois jamais vai além da informação seca, bruta, do fato puro e simples. É sempre: "Homem é suspeito de estuprar mulher", ou "mulher é estuprada em algum lugar". Mas os porquês não surgem. 

A informação é completamente acrítica, dotada de uma ignorância abissal sobre o que é a violência contra a mulher. Esse tipo de notícia faz parecer que a violência contra a mulher é apenas a mão que bate, fere e mata. Ou que é apenas a penetração não consensual. Ou ainda que o homem e o monstro não coexistem. "Homens de verdade não estupram". Essa é uma informação que não compreende os meandros do machismo, que extrapolam a agressão física em todas as suas formas e adentram o nosso cotidiano.

Nas notícias sobre violência sexual falta abordar o entitlement, por exemplo. Palavra usada para descrever o sentimento que muitos homens tem sobre as mulheres, o sentimento de ter a garantia e o direito sobre elas. É uma relação desequilibrada de poder que se revela ainda na infância. O entitlement é fruto de outra expressão que passa longe da grande mídia: "cultura do estupro".

A cultura do estupro é o meio pelo qual normalizamos e/ou relativizamos a violência sexual, é todo o sistema pelo qual o estupro é aceito. E ele é. Dentre todos os casos de estupro, apenas 2% deles levam à condenação. Esse é um número que fala por si. É pouquíssimo, haja vista ser um crime tão comum. É sintomático que não se fale abertamente em cultura do estupro.  

É a cultura do estupro que permite que a mulher seja alvo de investigação e não o estuprador. Não se trata de direito à ampla defesa e contraditório, porque isso não será negado ao acusado, mas da tentativa indiscriminada de deslegitimação da denúncia através da sexualidade feminina, às vezes expressa numa roupa curta, ao ambiente onde o crime ocorreu ou simplesmente ao fato de ser mulher e ousar dizer não.

A ousadia do não é o principal argumento para a deslegitimação do estupro doméstico. Aquele praticado pelos próprios companheiros. O estupro não é exclusividade do estranho na balada, no beco escuro, na rua. Não. O estupro é uma realidade doméstica, que acontece no seio da família, e gera uma zona cinzenta de incertezas, constrangimento e medo. 

Então, chega de falar sobre o estupro como se ele fosse um evento isolado, uma tragédia. Devemos tratar dele como um horror, sim, mas um horror do cotidiano, reiterado por propagandas na TV aberta, legitimado pelas cantadas nas ruas, pela passada de mão no metrô lotado, pela insistência em fazer sexo com a companheira até que ela ceda à pressão. Não espere essa abordagem na grande mídia, porque a quem interessa reconhecer o monstro interior? o ser humano mais pacífico carrega consigo uma carga de informações que recebe da sua vida em sociedade e é aí que se flerta com o monstro, sem se dar conta. Ninguém quer entender que o monstro não é o outro, ele vive dentro de si.



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O silêncio da mídia durante o julgamento do caso New Hit

Não sei se vocês se recordam, em dezembro de 2012 chegou até os nossos telejornais mais assistidos a notícia de que a uma mulher indiana teria sido estuprada coletivamente dentro de um ônibus, na Índia. Ora, estupros acontecem todos os dias e não são noticiados. Porque esse caso foi diferente? Porque ele foi de tal brutalidade que expôs a ferida aberta de um país. O choque, a indignação foi tão grande que atravessou o oceano. Chegou até nós. Nós, o povo brasileiro. Nós tivemos empatia por aquela mulher. Ela lá, nós aqui. Criticamos o machismo na Índia. Nós falamos mal de um cultura que não conhecemos. Por indignação, justa, compreensível. Esse crime, e sua repercussão dentro e fora da Índia mobilizou o povo a pressionar o governo para fazer mais pelas mulheres.

Mas nós, que tanto criticamos a Índia por não proteger suas mulheres, aqui estamos, fazendo bem pouco por duas meninas que tiveram o mesmo destino da jovem indiana, o que mostra que o nosso gigante acordou, mas é machista. Ontem, teve reinício o julgamento de um crime que aconteceu em Ruy Barbosa, na Bahia. Um crime brutal. Imagine só que duas adolescentes foram até o ônibus de uma banda que elas admiravam e foram estupradas seguidamente por OITO homens, segundo laudo pericial, enquanto apanhavam e eram agredidas verbalmente.


Eu me lembro de quando eu era adolescente. As minhas bandas preferidas faziam parte do meu dia-a-dia. Eu cantava suas canções, eu as aplicava nas situações do meu cotidiano. Se eu conhecesse os meus ídolos e eles me chamassem para dentro do ônibus da banda, eu iria feliz e contente, esperando fazer algumas memórias felizes. Algumas recordações para aproximar a banda ainda mais de mim. Eu jamais desconfiaria que poderia ser vítima do HORROR que essas meninas sofreram. 

Elas descobriram da forma mais dilacerante a força do patriarcado sobre nós. A crueldade da cultura do estupro. Uma cultura que diz que duas adolescentes que entram em um ônibus de banda, só poderiam estar PEDINDO pelo estupro. É sintomático da cultura do estupro que praticamente apenas feministas (Especialmente a página "Repúdio ao New Hit: Acusados de estupro" e o "Núcleo Negra Zeferina"), e alguns noticiários locais estejam falando sobre isso. Os grandes portais de notícia, os maiores telejornais do Brasil, os trending topics do twitter (sim, eles importam), a mídia independente (alow, mídia ninja???), os anonymous, não deram muita atenção. Ninguém mais (seja de esquerda ou de direita) se importa. Ninguém mais liga para as nossas meninas, nem para as nossas mulheres. 

O que é preciso para que uma mulher agredida seja lembrada pela mídia? que ela seja famosa. Hoje temos até lei com nome de atriz da globo, a lei Carolina Dieckman. Tudo muito bonito (sério, essa lei é um avanço), mas precisa ser atriz da globo para que possamos debater o machismo, a cultura do estupro, a violência contra a mulher? Ou quem sabe ser picada e oferecida aos cães por um jogador de futebol famoso (Eliza Samúdio)? Ou ainda ser morta em rede nacional por um ex-namorado (Eloá Pimentel)? Há um circo montado nesses casos, onde se leva ao outro extremo: o sensacionalismo, que invade a vida privada da vítima, que não se coloca no lugar dela e nem lhe dá voz, o jornalismo que quer transformar suas vidas num filme de mau gosto, um entretenimento macabro. Para as muitas vítimas anônimas só resta o silêncio.

É vergonhoso e escandaloso o silêncio do nosso país sobre esse caso. A todo jornalista eu só gostaria de dizer que poderia ser a sua filha. Poderia ser a filha, a irmã, a mãe, a avó, a amiga de qualquer uma de nós. Pode ser qualquer uma de nós. Eu acho patético precisar repetir essa frase a cada nova violência contra a mulher para que sintam empatia por nós e nos ouçam. É lamentável que uma notícia dessas se torne APENAS uma nota sem profundidade que vai embora junto com um monte de notícias vazias sobre a musa da vez, sobre a celulite de alguém, sobre o trânsito, sobre qualquer coisa. 

Esse é o tipo de notícia que deveria parar o nosso dia: Acompanhar o julgamento da banda New Hit. O silêncio da mídia é também o silêncio da vítima, que não tem espaço no mundo para que ouçam sua voz. Não é à toa que quando acontece um crime de estupro se entreviste o estuprador, a família dele, a mãe, o pai, o delegado e todo mundo ao redor, menos a vítima. Não é à toa que o jornalismo sempre trate as vítimas de estupro como supostas vítimas, como mentirosas em potencial. E principalmente, nesse caso, não é à toa que as vítimas estão presas dentro de casa ou em abrigos, enquanto os estupradores estão soltos, fazendo shows, sendo patrocinados por marcas famosas. 

Mesmo que o New Hit saia condenado do tribunal, a cultura do estupro já foi perdoada. As pessoas e a mídia já viraram as costas para o assunto, já se esqueceram, normalizaram. Seguiram suas vidas como se nada demais houvesse acontecido.

P.S.: Essas jovens merecem toda a nossa admiração por, com tão pouca idade, terem decidido passar por cima desse gigante machista que é o nosso país. A coragem delas me inspira como feminista e como mulher a continuar acreditando que é possível virar a mesa e denunciar a cultura do estupro a cada vez que ela se apresenta.

P.S. 2: O julgamento foi suspenso e deverá retornar nos dias 17, 18 e 19 deste mês. Até lá espero que algo mude na cobertura midiática (se é que podemos chamar assim) do caso.

P.S. 3: Link sobre clichês machistas do jornalismo: "Como o jornalismo reflete e alimenta o machismo"

UPDATE: Será que não existe também um componente de preconceito regional? E se o mesmo caso acontecesse no sul/sudeste do país? A mídia também estaria calada? Eu acho que haveria maior possibilidade da mídia se manifestar.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Como o jornalismo reflete e alimenta o machismo

Não tenho nada contra jornalistas, até tenho amigos que são. 

Certo, é brincadeira, mas não tenho mesmo nada contra jornalistas. Tenho muita coisa contra a falta de crítica sobre o machismo que impera nos clichês do jornalismo. Parece até que paramos de observar a relevância da escolha das palavras, deixando que passem por nós como inofensivas, embora estejam construindo aos poucos um discurso machista. Selecionei alguns dos clichês machistas que alimentam as manchetes em todos os meios, sejam virtuais, televisivos, impressos e etc.

1 - "Por não aceitar a separação, homem atira na esposa"

Como muito bem explicado no texto "Somos cúmplices dos matadores de mulheres", o jornalismo (e não o jornalista, porque é extremamente comum esse tipo de notícia) se torna cúmplice ao tentar, desde a primeira linha da notícia, desde o título, justificar as ações do assassino. 

Imagine um assalto. Será comum ler a seguinte notícia "por ter dois filhos para alimentar, homem assalta na saidinha do banco"? Não. Ou quem sabe quando um homem resolve matar outro homem, será que justificam a notícia na manchete? "Por medo de ser assaltado, homem mata homem que invadiu sua casa". crimes patrimoniais e crimes contra a vida do homem estão menos sujeitos à esse tipo de argumentação do que crimes contra a mulher. Até existem manchetes justificando o crime patrimonial ou o crime que vitimiza o homem, porém, elas não se tornaram um clichê. Elas não são repetidas incessantemente a cada nova incidência do mesmo crime. Mesmo quando se inverte a situação, ou seja, numa dessas exceções em que a mulher é algoz, a notícia é diferente. Enquanto o homem é alguém que num "momento ruim" saiu da sua normalidade e matou a mulher, a mulher, quando algoz, é tratada como histérica, maluca, ciumenta, controladora.

Isso é cultural, é típico de uma sociedade que ainda apóia a idéia de se "lavar a honra", pois esse assunto não é página virada na nossa história. A nociva idéia de honra permanece ora integralmente construída ora através dessas reminiscências que se apresentam mais sutilmente, como por exemplo em uma notícia, uma manchete em que de forma velada, culpa-se a vítima. Além de tudo, é raríssimo encontrar uma notícia de assassinato de mulheres (motivado por machismo) que use a palavra correta: Feminicídio. 

2 - "suposto estupro"

Em praticamente todas as notícias de estupro, o crime é colocado em dúvida. Não a autoria do crime, mas o crime em si. Pode parecer pouco, mas numa sociedade que culpa a vítima, que perdoa estupradores, que deslegitima a denúncia dentro de delegacias, o "suposto crime" significa tudo. Alguns alegam que essa é uma proteção contra processos por difamação, no caso do estupro não ter acontecido. Será? Pois mesmo em caso em que o estupro é comprovado por exames médicos, a expressão continua sendo utilizada. 

Novamente, é comum darmos mais crédito aos crimes patrimoniais que aos crimes contra a mulher. Não se lê com tanta frequência sobre "suposto roubo". Roubo é roubo, as autorias até são questionadas, mas o crime não. Porque é tão diferente nos casos de estupro? Você sabia que não é comum um estuprador ser falsamente acusado? Aliás ocorre exatamente o oposto, muitos estupradores não são denunciados. E talvez a palavra "suposto" antes de qualquer estupro seja um dos motivos. Que vítima quer passar pela vergonha de ser questionada, culpada e julgada? O gráfico abaixo mostra uma pesquisa feita nos Estados Unidos sobre estupro. Analisem a porcentagem do "suposto" estupro (aquele em que o estuprador é falsamente acusado) em relação aos estupros reais.
Publicado no Washington Post

Sugestões simples para resolver o problema:
- Em vez de "mulher denuncia suposto estupro" seria melhor "mulher denuncia estupro": Nesse caso, não há difamação, a mulher de fato denunciou o estupro, se ele existiu ou não, não cabe ao jornalista questionar ou julgar a procedência da denúncia (pois ao questionar ele estará minimizando a denúncia), cabe à polícia investigar. A não ser, é claro, que o jornalista possua provas de que a denúncia é falsa.
- Em vez de "suposto estuprador" seria melhor "acusado de estupro", não estariam difamando ninguém. Não há o julgamento prévio e a denúncia não será deslegitimada.

3 - "O travesti"

Em praticamente todas as notícias sobre travestis (normalmente notícias violentas, sobre assassinatos e espancamentos), a travesti é tratada no masculino. Travesti tem identidade de gênero, se identifica como mulher e assim deve ser chamada. Tendo sua individualidade e identidade respeitadas. Passou da hora da mídia parar de exotificar e coisificar a travesti.

O termo flexionado no masculino advém de um olhar fetichista e biologizante sobre a travesti, em que se considera que elas na verdade são homens cis cujo fetiche é vestir-se de mulher cis. É exatamente esse argumento que impede que travestis (e mulheres transexuais) possam, por exemplo, utilizar o banheiro feminino livremente. Como grupo, as travestis em geral usam nomes femininos, vestem roupas femininas, se identificam como mulher (sei que estou repetindo isso, mas é importante!). Qual é a dúvida sobre a flexão? substantivo feminino, está claro. Obviamente, há pessoas que transitam para além do binarismo de gênero e nesse caso o ideal é perguntar como elx prefere ser identificadx. Entretanto, como grupo, generalizando, as travestis são mulheres. Se algum dicionário disser o oposto devemos lembrar que a língua é mutável e não é imune a preconceitos diversos. "Denegrir", por exemplo, hoje é uma palavra reconhecidamente racista. Não precisamos usá-la ainda que ela conste no dicionário. Usar artigo masculino antes de travesti, em geral, é transfobia.

4 - "A musa"

A musa figura principalmente no jornalismo esportivo, mas há também a musa da CPI, a musa do jornalismo, a musa de qualquer coisa. As musas são mulheres que tem sua capacidade reduzida à sua beleza. Durante eventos esportivos, como as Olimpíadas, o jornalismo punheteiro elege dezenas de musas. Que na maioria das vezes estão trabalhando em ambientes vistos como masculinos (Como o esporte. O esporte feminino continua sendo desprezado inclusive pela mídia esportiva) e basta reunir características típicas do padrão de beleza vigente para ser eleita a "musa de ...".

Ou seja, a musa é, antes de tudo, analisada segundo sua aparência física. A musa é sinônimo de objetificação. E a aplicação do termo é geralmente racista, capacitista, cisnormativa e gordofóbica uma vez que a musa normalmente é branca, sem necessidades especiais, cis e magra. Ser musa é ser decorativa. Não deixa de ser uma tentativa de fazer com que as mulheres, mesmo aquelas que tem sucesso em suas carreiras, fiquem em seus "devidos lugares". O recado é claro: Sirva apenas para o deleite masculino. A carga de machismo é óbvia.

Bons Links:
Marcha Mundial das Mulheres: Seis passos para o Jornalismo Machista
Ativismo de Sofá: Machismo virou esporte olímpico?
Tumblr Jornalismo Punheteiro
Transfeminismo: Travestis têm gênero, respeite!
Ativismo de Sofá: Não quero ser musa!
ABCuritiba: Somos cúmplices dos matadores de mulheres

UPDATE: A Jéssica Ipólito do blog Gorda e Sapatão me mandou o seguinte e-mail:

"Então... já tem tempos que eu me deparo com matérias pautadas na lesbianidade, e nunca, em momento algo, era usada a palavra LÉSBICA para denominar a situação.
Até mesmo na matéria feita no dia da Caminhada lésbica e bissex de SP. 
O jornal só enunciou o título e logo após, só soube falar "homossexuais". Só. 

Em matérias cujo tema é violência entre lésbicas, a palavra também não é usada. 
Usar homossexuais é uma das formas de invisibilizar, tornando a palavra 'lésbica' inaceitável, indizível, estranha. Por isso me incomoda, além dos pontos que você apontou, essa questão da lesbofobia."

Então fica aí mais um problema do machismo jornalístico: a invisibilidade lésbica.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Representação feminina: O princípio da Smurfette

Smurfs - Representação predominantemente masculina
Um dos clichês que envolvem a representação feminina na TV, quadrinhos, jogos, cinema, literatura e etc, é o "Princípio da Smurfette". O termo foi cunhado por Katha Pollitt em 1991, para o NY Times.O texto de Pollitt foi motivado pela dificuldade que ela encontrou em oferecer para a filha dela histórias em que houvesse uma representação feminina adequada. 

Tartarugas Ninja - April é a única mulher e não luta
Se você, como eu, foi criança nos anos 80, deve se lembrar dos smurfs. Os smurfs eram pequenas criaturas azuis que viviam em uma comunidade exclusivamente masculina, exceto por uma personagem, a Smurfette. O princípio da smurfette trata exatamente dessa desigualdade numérica entre personagens femininas e masculinas que é recorrente. Esse princípio se aplica aos casos em que os personagens centrais carregam essa desigualdade. Entretanto,  às vezes, como no caso dos Smurfs, a coisa é tão absurda que entre TODO o grupo de personagens só há uma mulher, desprezando completamente o fato de que metade da população mundial é composta por mulheres. E é claro que isso se repete em muitas outras obras de ficção. O problema, entretanto, extrapola a questão numérica. As "mulheres-smurfettes" geralmente são estereotipadas e não definem o grupo, são em sua maioria personagens à parte do grupo. Às vezes sua função é decorativa, às vezes é meramente para evitar a crítica da não-representatividade das mulheres, às vezes ela é o par romântico de algum dos outros personagens principais.

Miss piggy é uma personagem sexualizada. SIM. Isso mesmo. :O
A Smurfette sexualizada: A começar pela própria smurfette (a original), que foi criada pelo Gargamel para seduzir os smurfs e depois transformada pelo papai-smurf em uma smurf do bem (loira, sexy com decote e salto alto). Outro exemplo é a Miss Piggy dos Muppets, a única mulher do grupo principal obviamente é muito vaidosa.


Kanga é uma canguru-fêmea, mãe de Roo.
 E é a única personagem feminina de Winnie the Pooh.
A Smurfette maternal/Sentimental: Em outros casos, a mulher-smurfette pode ser uma figura que cuida dos personagens masculinos, preocupa-se com eles quase de forma maternal, ela é o lado sentimental e/ou espiritual. 

TBBT - Tanta coisa errada que fica difícil começar a falar
Ou seja, prevalece a dualidade santa x vadia. Algumas personagens incorporam elementos dos dois grupos. Por exemplo, a Penny nas duas primeiras temporadas de The Big Bang Theory. Às vezes representada como uma mulher sexy, às vezes como mãe (especialmente na maneira como se relaciona com o Sheldon). Nesse caso há ainda o problema de a personagem ser tachada de burra e fútil o tempo todo e, obviamente, ser assediada por quase todos os homens do grupo. Felizmente, após algum tempo foram inseridas outras personagens, como a Leslie, Amy, Bernadette e Pryia (não quer dizer que essas personagens estejam livres de estereótipos).

Novo Star Trek de J.J. Abrams
Tudo bem, vamos assumir que esse é um clichê que vem se reduzindo ao longo dos anos. Antingamente era mais que normal haver apenas uma mulher. Em Star Wars, por exemplo, só há duas mulheres representativas em toda a franquia (Padmé e Léia) e elas não são contemporâneas uma à outra. Porém é válido lembrar que muitas histórias estão sendo recontadas atualmente. O filme de Star Trek, por J.J. Abrams, só tem uma personagem mulher, a Uhura. Em remakes não há o cuidado em repensar esse tipo de posicionamento. E é claro que em tempos de filmes de superheróis criados há décadas atrás, se torna bem comum ver filmes com mulheres-smurfettes.

Pacific Rim - O problema persiste
Assisti recentemente o filme "Pacific Rim", queridinho de 10 entre 10 nerds ávidos por reviver os live actions japoneses da infância. Adivinhe? a personagem Mako é uma smurfette. E é claro que é ela que se deixa levar pelas emoções dentro do Jaeger. E é a única cuja competência é questionada em função de seu passado. Coincidência? Eu sei que havia uma outra pilota, russa, contudo ela não abriu a boca durante todo o filme.


Muitos filmes (e séries) recentes padecem desse mal. Parece que na indústria do cinema só mesmo as mentes masculinas definem o grupo. E é de dentro delas que sai essa pífia representatividade feminina que, quando existe está cercada de estereótipos, paternalismo e misoginia. Seria bom lembrar que há séries e desenhos de sucesso com grupos de personagens quase que inteiramente femininos. Basta lembrar de As Panteras, Buffy, Sailor Moon (esse em especial praticamente inverte o princípio da Smurfette), vários desenhos da Clamp e etc. O problema é que, quando a história é cheia de personagens masculinos, é apenas uma história. Quando ela é cheia de personagens femininas, é uma história de "mulherzinha". Machismo everywhere.

Caverna do Dragão - E quando só há um personagem negro?
Se esquecermos a representação de gênero (por um segundo) e pensarmos de forma mais abrangente, esse clichê pode ser aplicado às questões raciais também. Às vezes no meio de um grupo inteiramente branco, até há mais de uma personagem feminina, porém apenas um personagem negro (exemplo: Diana, em Caverna do Dragão). Isso significa que estão tentando nos vender diversidade só que não. É quase um favor permitir personagens femininas e/ou negrxs.


Bons Links:
Anita Sarkeesian - The Smurfette principle

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O estuprador já tem voz e fala mais alto que a vítima

Não é função minha e nem de ninguém confiscar carteirinhas feministas. Desde que embarquei no feminismo entendi ser essa uma luta plural, com espaço para as mais diferentes opiniões. Por isso, mesmo com todo o respeito que tenho pela Lola Aronovich (que é uma das minhas maiores referências em feminismo), me sinto no direito de discordar. Não é a primeira vez que discordo da Lola, mas é a primeira vez que senti o desejo de expressar essa divergência. Esse texto não é um ataque, mas um contraponto ao guestpost da Lola escrito por um estuprador arrependido.

O estuprador tem voz e fala mais alto que a vítima. Quando acontece um estupro, não podemos supor que as duas pessoas envolvidas (estuprador e vítima) tem o mesmo poder, um sobre o outro. E que por isso devemos observar friamente a situação como se pesássemos em uma balança ou nos dividir em duas partes igualmente predispostas a aceitar a culpa ou o arrependimento do agressor. Na balança do estupro, o que pesa mais é sempre o trauma da vítima. 

Publicado no Washington Post
Não vivemos em uma sociedade igualitária onde se escutam os dois lados. O lado da vítima não é o lado mais ouvido, caso contrário não haveria um gráfico de condenação em casos de estupro como este ao lado. A vítima do estupro se torna ré, tem sua denúncia deslegitimada, é chamada de suposta vítima. Tudo na pessoa que foi estuprada é analisado buscando justificar os atos do seu agressor. E não é à toa que quem sofre o estupro se culpa, pois é assim que ela é tratada: como o motivo, a justificativa, a razão de ser do estupro. 

Estupradores não se identificam como tal por um motivo: Cultura do estupro. Os homens são criados para não respeitar o espaço da mulheres em todas as instâncias. Por isso seguem sem se questionar porque ganham mais ou tem melhores oportunidades de emprego que a amiga, ou jogam cantadas para mulheres nas ruas ou ainda pior: estupram. Tudo sob um manto de normalidade. Impera o silêncio nas agressões sexuais dentro da família. A família é uma zona cinzenta onde a agressão tem status de normalidade. Ninguém quer falar sobre isso, pois a família deve ser o refúgio de amor. E onde há o amor, a agressão não poderia existir. Mas ela existe e é varrida para baixo do tapete, escondida com ameaças, vergonha e medo.

Aos que encaram o estupro apenas como a penetração, recomendo se informar. A chave para o entendimento reside em duas palavras: "Não consensual". Qualquer passada de mão não consensual é tipificado com estupro no código penal. Defender isso numa lei escrita e a sua devida aplicação não é punitivismo, é proteção. Ninguém acredita que o sistema penitenciário brasileiro é perfeito e que seja o ambiente propício para a reabilitação. Porém a simples alegação de arrependimento não significa que: 1- O agressor está de fato arrependido, e 2 - Que esse arrependimento será suficiente para que ele não volte a agredir. É preciso lembrar que o arrependimento como argumento para o perdão é um dos motivos pelos quais a violência doméstica se perpetua. O agressor se arrepende, a vítima perdoa, a violência segue seu ciclo.

Para todos os efeitos, arrependimento e perdão são questões muito entrelaçadas às religiões. E não é a religião que deve regular a justiça. A justiça não deve medir os arrependimentos, ela deveria medir os fatos, as provas, o contexto (sem com isso tentar justificar com "ela estava pedindo por isso"). Cabe sim, à justiça, ouvir os dois lados.

O que eu acho problemático é que diante de um cenário desproporcional onde pouco se ouve a vítima, estejamos ainda, em ambientes libertários, dando mais voz aos agressores do que eles já têm. Como disse Ayres Britto, "A mesma liberdade para cordeiros e lobos é excelente para os lobos". Uma boa definição de isonomia. Eu defendo o direito do estuprador a se defender, se arrepender, tentar melhorar, se reabilitar, procurar apoio psicológico e etc. Eu defendo esse homem como a qualquer pessoa que seja acusado de um crime. Porém, aqui fora dos tribunais, onde a vítima pedirá socorro, eu estarei mais disposta a ouví-la. Porque o feminismo que eu defendo empodera as mulheres. Sejam elas cis ou trans, brancas ou negras, pobres ou ricas e etc. O machismo afeta cada uma de nós de forma diferente, por isso eu busco (nem sempre consigo) um feminismo interseccional, mas que esteja sempre ao lado das mulheres.  Serei prolixa: Feminismo pró-mulher (óbvio? redundante? sim, mas às vezes é preciso recordar). Isso não significa que eu queira dizer que homens não são oprimidos pelo patriarcado, porém, esse não é o meu foco da luta. Eu entendo que o patriarcado também oprima aos homens, mas a opressão sobre as mulheres é muito maior, mais abusiva e violenta. 

Não concordo em ceder espaço a quem estupra, ainda que essa pessoa alegue arrependimento, não nos empodera. Pelo contrário, há um risco enorme de trigger. Não acho justo fazer isso com as leitoras que já sofreram abusos. E acredito que chamar quem deseja que o estuprador cumpra o seu tempo de prisão, estipulado pela justiça, de punitivismo, é silenciar vítimas. Não são só as feministas que desejam que o estuprador seja preso (esse do guestpost, ou outro estuprador), mas também as suas vítimas. Essa afirmação só coloca mais dúvidas e culpa em quem sofreu a violência. Então, por hoje é só, pessoal. Peço desculpas por criticar longamente um posicionamento de uma companheira, mas preferi fazê-lo da forma mais clara possível, sem dar margem para que me chamem de difamadora, caluniadora, sem sororidade e etc.

PS1: Mais um texto sobre o assunto: Arrependimento não leva para o céu feminista.
PS2: Não estou dizendo que a Lola não dá voz a vítima, sabemos que é bem o contrário.

Voltamos agora à nossa programação normal.