terça-feira, 17 de setembro de 2013

A cultura do estupro debaixo do tapete da grande mídia

Se você acompanha esse blog é muito possível que já tenha lido o meu texto sobre o silêncio da mídia durante a primeira retomada do julgamento do caso New Hit, que ocorreu no dia 3 de setembro passado (a segunda retomada do julgamento começa hoje, dia 17 de setembro, fiquem de olho). Mais gente escreveu sobre o mesmo assunto. No meu texto, eu abordei o descaso da grande mídia com um crime cuja natureza causa horror no mundo inteiro, contudo parece ser um horror momentâneo, prestes a dar lugar à próxima tragédia. No último dia 3 de setembro, foi assombroso assistir à falta de informação que gere a nossa imprensa. Seja ela de esquerda ou de direita, partidária ou não.

Imagem daqui

O problema do horror é que ele acontece de forma enviesada. É contraditório que o estupro nos cause horror, mas passados alguns dias ele caia no esquecimento. Acho que em grande parte devemos isso à maneira como ele é informado. Não se debate o estupro na grande mídia, apenas se recita manchetes. O estupro é um assunto que tem a superficialidade de uma manchete, ele assim é tratado e lembrado. A grande mídia falha em retratá-lo pois jamais vai além da informação seca, bruta, do fato puro e simples. É sempre: "Homem é suspeito de estuprar mulher", ou "mulher é estuprada em algum lugar". Mas os porquês não surgem. 

A informação é completamente acrítica, dotada de uma ignorância abissal sobre o que é a violência contra a mulher. Esse tipo de notícia faz parecer que a violência contra a mulher é apenas a mão que bate, fere e mata. Ou que é apenas a penetração não consensual. Ou ainda que o homem e o monstro não coexistem. "Homens de verdade não estupram". Essa é uma informação que não compreende os meandros do machismo, que extrapolam a agressão física em todas as suas formas e adentram o nosso cotidiano.

Nas notícias sobre violência sexual falta abordar o entitlement, por exemplo. Palavra usada para descrever o sentimento que muitos homens tem sobre as mulheres, o sentimento de ter a garantia e o direito sobre elas. É uma relação desequilibrada de poder que se revela ainda na infância. O entitlement é fruto de outra expressão que passa longe da grande mídia: "cultura do estupro".

A cultura do estupro é o meio pelo qual normalizamos e/ou relativizamos a violência sexual, é todo o sistema pelo qual o estupro é aceito. E ele é. Dentre todos os casos de estupro, apenas 2% deles levam à condenação. Esse é um número que fala por si. É pouquíssimo, haja vista ser um crime tão comum. É sintomático que não se fale abertamente em cultura do estupro.  

É a cultura do estupro que permite que a mulher seja alvo de investigação e não o estuprador. Não se trata de direito à ampla defesa e contraditório, porque isso não será negado ao acusado, mas da tentativa indiscriminada de deslegitimação da denúncia através da sexualidade feminina, às vezes expressa numa roupa curta, ao ambiente onde o crime ocorreu ou simplesmente ao fato de ser mulher e ousar dizer não.

A ousadia do não é o principal argumento para a deslegitimação do estupro doméstico. Aquele praticado pelos próprios companheiros. O estupro não é exclusividade do estranho na balada, no beco escuro, na rua. Não. O estupro é uma realidade doméstica, que acontece no seio da família, e gera uma zona cinzenta de incertezas, constrangimento e medo. 

Então, chega de falar sobre o estupro como se ele fosse um evento isolado, uma tragédia. Devemos tratar dele como um horror, sim, mas um horror do cotidiano, reiterado por propagandas na TV aberta, legitimado pelas cantadas nas ruas, pela passada de mão no metrô lotado, pela insistência em fazer sexo com a companheira até que ela ceda à pressão. Não espere essa abordagem na grande mídia, porque a quem interessa reconhecer o monstro interior? o ser humano mais pacífico carrega consigo uma carga de informações que recebe da sua vida em sociedade e é aí que se flerta com o monstro, sem se dar conta. Ninguém quer entender que o monstro não é o outro, ele vive dentro de si.



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O silêncio da mídia durante o julgamento do caso New Hit

Não sei se vocês se recordam, em dezembro de 2012 chegou até os nossos telejornais mais assistidos a notícia de que a uma mulher indiana teria sido estuprada coletivamente dentro de um ônibus, na Índia. Ora, estupros acontecem todos os dias e não são noticiados. Porque esse caso foi diferente? Porque ele foi de tal brutalidade que expôs a ferida aberta de um país. O choque, a indignação foi tão grande que atravessou o oceano. Chegou até nós. Nós, o povo brasileiro. Nós tivemos empatia por aquela mulher. Ela lá, nós aqui. Criticamos o machismo na Índia. Nós falamos mal de um cultura que não conhecemos. Por indignação, justa, compreensível. Esse crime, e sua repercussão dentro e fora da Índia mobilizou o povo a pressionar o governo para fazer mais pelas mulheres.

Mas nós, que tanto criticamos a Índia por não proteger suas mulheres, aqui estamos, fazendo bem pouco por duas meninas que tiveram o mesmo destino da jovem indiana, o que mostra que o nosso gigante acordou, mas é machista. Ontem, teve reinício o julgamento de um crime que aconteceu em Ruy Barbosa, na Bahia. Um crime brutal. Imagine só que duas adolescentes foram até o ônibus de uma banda que elas admiravam e foram estupradas seguidamente por OITO homens, segundo laudo pericial, enquanto apanhavam e eram agredidas verbalmente.


Eu me lembro de quando eu era adolescente. As minhas bandas preferidas faziam parte do meu dia-a-dia. Eu cantava suas canções, eu as aplicava nas situações do meu cotidiano. Se eu conhecesse os meus ídolos e eles me chamassem para dentro do ônibus da banda, eu iria feliz e contente, esperando fazer algumas memórias felizes. Algumas recordações para aproximar a banda ainda mais de mim. Eu jamais desconfiaria que poderia ser vítima do HORROR que essas meninas sofreram. 

Elas descobriram da forma mais dilacerante a força do patriarcado sobre nós. A crueldade da cultura do estupro. Uma cultura que diz que duas adolescentes que entram em um ônibus de banda, só poderiam estar PEDINDO pelo estupro. É sintomático da cultura do estupro que praticamente apenas feministas (Especialmente a página "Repúdio ao New Hit: Acusados de estupro" e o "Núcleo Negra Zeferina"), e alguns noticiários locais estejam falando sobre isso. Os grandes portais de notícia, os maiores telejornais do Brasil, os trending topics do twitter (sim, eles importam), a mídia independente (alow, mídia ninja???), os anonymous, não deram muita atenção. Ninguém mais (seja de esquerda ou de direita) se importa. Ninguém mais liga para as nossas meninas, nem para as nossas mulheres. 

O que é preciso para que uma mulher agredida seja lembrada pela mídia? que ela seja famosa. Hoje temos até lei com nome de atriz da globo, a lei Carolina Dieckman. Tudo muito bonito (sério, essa lei é um avanço), mas precisa ser atriz da globo para que possamos debater o machismo, a cultura do estupro, a violência contra a mulher? Ou quem sabe ser picada e oferecida aos cães por um jogador de futebol famoso (Eliza Samúdio)? Ou ainda ser morta em rede nacional por um ex-namorado (Eloá Pimentel)? Há um circo montado nesses casos, onde se leva ao outro extremo: o sensacionalismo, que invade a vida privada da vítima, que não se coloca no lugar dela e nem lhe dá voz, o jornalismo que quer transformar suas vidas num filme de mau gosto, um entretenimento macabro. Para as muitas vítimas anônimas só resta o silêncio.

É vergonhoso e escandaloso o silêncio do nosso país sobre esse caso. A todo jornalista eu só gostaria de dizer que poderia ser a sua filha. Poderia ser a filha, a irmã, a mãe, a avó, a amiga de qualquer uma de nós. Pode ser qualquer uma de nós. Eu acho patético precisar repetir essa frase a cada nova violência contra a mulher para que sintam empatia por nós e nos ouçam. É lamentável que uma notícia dessas se torne APENAS uma nota sem profundidade que vai embora junto com um monte de notícias vazias sobre a musa da vez, sobre a celulite de alguém, sobre o trânsito, sobre qualquer coisa. 

Esse é o tipo de notícia que deveria parar o nosso dia: Acompanhar o julgamento da banda New Hit. O silêncio da mídia é também o silêncio da vítima, que não tem espaço no mundo para que ouçam sua voz. Não é à toa que quando acontece um crime de estupro se entreviste o estuprador, a família dele, a mãe, o pai, o delegado e todo mundo ao redor, menos a vítima. Não é à toa que o jornalismo sempre trate as vítimas de estupro como supostas vítimas, como mentirosas em potencial. E principalmente, nesse caso, não é à toa que as vítimas estão presas dentro de casa ou em abrigos, enquanto os estupradores estão soltos, fazendo shows, sendo patrocinados por marcas famosas. 

Mesmo que o New Hit saia condenado do tribunal, a cultura do estupro já foi perdoada. As pessoas e a mídia já viraram as costas para o assunto, já se esqueceram, normalizaram. Seguiram suas vidas como se nada demais houvesse acontecido.

P.S.: Essas jovens merecem toda a nossa admiração por, com tão pouca idade, terem decidido passar por cima desse gigante machista que é o nosso país. A coragem delas me inspira como feminista e como mulher a continuar acreditando que é possível virar a mesa e denunciar a cultura do estupro a cada vez que ela se apresenta.

P.S. 2: O julgamento foi suspenso e deverá retornar nos dias 17, 18 e 19 deste mês. Até lá espero que algo mude na cobertura midiática (se é que podemos chamar assim) do caso.

P.S. 3: Link sobre clichês machistas do jornalismo: "Como o jornalismo reflete e alimenta o machismo"

UPDATE: Será que não existe também um componente de preconceito regional? E se o mesmo caso acontecesse no sul/sudeste do país? A mídia também estaria calada? Eu acho que haveria maior possibilidade da mídia se manifestar.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Como o jornalismo reflete e alimenta o machismo

Não tenho nada contra jornalistas, até tenho amigos que são. 

Certo, é brincadeira, mas não tenho mesmo nada contra jornalistas. Tenho muita coisa contra a falta de crítica sobre o machismo que impera nos clichês do jornalismo. Parece até que paramos de observar a relevância da escolha das palavras, deixando que passem por nós como inofensivas, embora estejam construindo aos poucos um discurso machista. Selecionei alguns dos clichês machistas que alimentam as manchetes em todos os meios, sejam virtuais, televisivos, impressos e etc.

1 - "Por não aceitar a separação, homem atira na esposa"

Como muito bem explicado no texto "Somos cúmplices dos matadores de mulheres", o jornalismo (e não o jornalista, porque é extremamente comum esse tipo de notícia) se torna cúmplice ao tentar, desde a primeira linha da notícia, desde o título, justificar as ações do assassino. 

Imagine um assalto. Será comum ler a seguinte notícia "por ter dois filhos para alimentar, homem assalta na saidinha do banco"? Não. Ou quem sabe quando um homem resolve matar outro homem, será que justificam a notícia na manchete? "Por medo de ser assaltado, homem mata homem que invadiu sua casa". crimes patrimoniais e crimes contra a vida do homem estão menos sujeitos à esse tipo de argumentação do que crimes contra a mulher. Até existem manchetes justificando o crime patrimonial ou o crime que vitimiza o homem, porém, elas não se tornaram um clichê. Elas não são repetidas incessantemente a cada nova incidência do mesmo crime. Mesmo quando se inverte a situação, ou seja, numa dessas exceções em que a mulher é algoz, a notícia é diferente. Enquanto o homem é alguém que num "momento ruim" saiu da sua normalidade e matou a mulher, a mulher, quando algoz, é tratada como histérica, maluca, ciumenta, controladora.

Isso é cultural, é típico de uma sociedade que ainda apóia a idéia de se "lavar a honra", pois esse assunto não é página virada na nossa história. A nociva idéia de honra permanece ora integralmente construída ora através dessas reminiscências que se apresentam mais sutilmente, como por exemplo em uma notícia, uma manchete em que de forma velada, culpa-se a vítima. Além de tudo, é raríssimo encontrar uma notícia de assassinato de mulheres (motivado por machismo) que use a palavra correta: Feminicídio. 

2 - "suposto estupro"

Em praticamente todas as notícias de estupro, o crime é colocado em dúvida. Não a autoria do crime, mas o crime em si. Pode parecer pouco, mas numa sociedade que culpa a vítima, que perdoa estupradores, que deslegitima a denúncia dentro de delegacias, o "suposto crime" significa tudo. Alguns alegam que essa é uma proteção contra processos por difamação, no caso do estupro não ter acontecido. Será? Pois mesmo em caso em que o estupro é comprovado por exames médicos, a expressão continua sendo utilizada. 

Novamente, é comum darmos mais crédito aos crimes patrimoniais que aos crimes contra a mulher. Não se lê com tanta frequência sobre "suposto roubo". Roubo é roubo, as autorias até são questionadas, mas o crime não. Porque é tão diferente nos casos de estupro? Você sabia que não é comum um estuprador ser falsamente acusado? Aliás ocorre exatamente o oposto, muitos estupradores não são denunciados. E talvez a palavra "suposto" antes de qualquer estupro seja um dos motivos. Que vítima quer passar pela vergonha de ser questionada, culpada e julgada? O gráfico abaixo mostra uma pesquisa feita nos Estados Unidos sobre estupro. Analisem a porcentagem do "suposto" estupro (aquele em que o estuprador é falsamente acusado) em relação aos estupros reais.
Publicado no Washington Post

Sugestões simples para resolver o problema:
- Em vez de "mulher denuncia suposto estupro" seria melhor "mulher denuncia estupro": Nesse caso, não há difamação, a mulher de fato denunciou o estupro, se ele existiu ou não, não cabe ao jornalista questionar ou julgar a procedência da denúncia (pois ao questionar ele estará minimizando a denúncia), cabe à polícia investigar. A não ser, é claro, que o jornalista possua provas de que a denúncia é falsa.
- Em vez de "suposto estuprador" seria melhor "acusado de estupro", não estariam difamando ninguém. Não há o julgamento prévio e a denúncia não será deslegitimada.

3 - "O travesti"

Em praticamente todas as notícias sobre travestis (normalmente notícias violentas, sobre assassinatos e espancamentos), a travesti é tratada no masculino. Travesti tem identidade de gênero, se identifica como mulher e assim deve ser chamada. Tendo sua individualidade e identidade respeitadas. Passou da hora da mídia parar de exotificar e coisificar a travesti.

O termo flexionado no masculino advém de um olhar fetichista e biologizante sobre a travesti, em que se considera que elas na verdade são homens cis cujo fetiche é vestir-se de mulher cis. É exatamente esse argumento que impede que travestis (e mulheres transexuais) possam, por exemplo, utilizar o banheiro feminino livremente. Como grupo, as travestis em geral usam nomes femininos, vestem roupas femininas, se identificam como mulher (sei que estou repetindo isso, mas é importante!). Qual é a dúvida sobre a flexão? substantivo feminino, está claro. Obviamente, há pessoas que transitam para além do binarismo de gênero e nesse caso o ideal é perguntar como elx prefere ser identificadx. Entretanto, como grupo, generalizando, as travestis são mulheres. Se algum dicionário disser o oposto devemos lembrar que a língua é mutável e não é imune a preconceitos diversos. "Denegrir", por exemplo, hoje é uma palavra reconhecidamente racista. Não precisamos usá-la ainda que ela conste no dicionário. Usar artigo masculino antes de travesti, em geral, é transfobia.

4 - "A musa"

A musa figura principalmente no jornalismo esportivo, mas há também a musa da CPI, a musa do jornalismo, a musa de qualquer coisa. As musas são mulheres que tem sua capacidade reduzida à sua beleza. Durante eventos esportivos, como as Olimpíadas, o jornalismo punheteiro elege dezenas de musas. Que na maioria das vezes estão trabalhando em ambientes vistos como masculinos (Como o esporte. O esporte feminino continua sendo desprezado inclusive pela mídia esportiva) e basta reunir características típicas do padrão de beleza vigente para ser eleita a "musa de ...".

Ou seja, a musa é, antes de tudo, analisada segundo sua aparência física. A musa é sinônimo de objetificação. E a aplicação do termo é geralmente racista, capacitista, cisnormativa e gordofóbica uma vez que a musa normalmente é branca, sem necessidades especiais, cis e magra. Ser musa é ser decorativa. Não deixa de ser uma tentativa de fazer com que as mulheres, mesmo aquelas que tem sucesso em suas carreiras, fiquem em seus "devidos lugares". O recado é claro: Sirva apenas para o deleite masculino. A carga de machismo é óbvia.

Bons Links:
Marcha Mundial das Mulheres: Seis passos para o Jornalismo Machista
Ativismo de Sofá: Machismo virou esporte olímpico?
Tumblr Jornalismo Punheteiro
Transfeminismo: Travestis têm gênero, respeite!
Ativismo de Sofá: Não quero ser musa!
ABCuritiba: Somos cúmplices dos matadores de mulheres

UPDATE: A Jéssica Ipólito do blog Gorda e Sapatão me mandou o seguinte e-mail:

"Então... já tem tempos que eu me deparo com matérias pautadas na lesbianidade, e nunca, em momento algo, era usada a palavra LÉSBICA para denominar a situação.
Até mesmo na matéria feita no dia da Caminhada lésbica e bissex de SP. 
O jornal só enunciou o título e logo após, só soube falar "homossexuais". Só. 

Em matérias cujo tema é violência entre lésbicas, a palavra também não é usada. 
Usar homossexuais é uma das formas de invisibilizar, tornando a palavra 'lésbica' inaceitável, indizível, estranha. Por isso me incomoda, além dos pontos que você apontou, essa questão da lesbofobia."

Então fica aí mais um problema do machismo jornalístico: a invisibilidade lésbica.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Representação feminina: O princípio da Smurfette

Smurfs - Representação predominantemente masculina
Um dos clichês que envolvem a representação feminina na TV, quadrinhos, jogos, cinema, literatura e etc, é o "Princípio da Smurfette". O termo foi cunhado por Katha Pollitt em 1991, para o NY Times.O texto de Pollitt foi motivado pela dificuldade que ela encontrou em oferecer para a filha dela histórias em que houvesse uma representação feminina adequada. 

Tartarugas Ninja - April é a única mulher e não luta
Se você, como eu, foi criança nos anos 80, deve se lembrar dos smurfs. Os smurfs eram pequenas criaturas azuis que viviam em uma comunidade exclusivamente masculina, exceto por uma personagem, a Smurfette. O princípio da smurfette trata exatamente dessa desigualdade numérica entre personagens femininas e masculinas que é recorrente. Esse princípio se aplica aos casos em que os personagens centrais carregam essa desigualdade. Entretanto,  às vezes, como no caso dos Smurfs, a coisa é tão absurda que entre TODO o grupo de personagens só há uma mulher, desprezando completamente o fato de que metade da população mundial é composta por mulheres. E é claro que isso se repete em muitas outras obras de ficção. O problema, entretanto, extrapola a questão numérica. As "mulheres-smurfettes" geralmente são estereotipadas e não definem o grupo, são em sua maioria personagens à parte do grupo. Às vezes sua função é decorativa, às vezes é meramente para evitar a crítica da não-representatividade das mulheres, às vezes ela é o par romântico de algum dos outros personagens principais.

Miss piggy é uma personagem sexualizada. SIM. Isso mesmo. :O
A Smurfette sexualizada: A começar pela própria smurfette (a original), que foi criada pelo Gargamel para seduzir os smurfs e depois transformada pelo papai-smurf em uma smurf do bem (loira, sexy com decote e salto alto). Outro exemplo é a Miss Piggy dos Muppets, a única mulher do grupo principal obviamente é muito vaidosa.


Kanga é uma canguru-fêmea, mãe de Roo.
 E é a única personagem feminina de Winnie the Pooh.
A Smurfette maternal/Sentimental: Em outros casos, a mulher-smurfette pode ser uma figura que cuida dos personagens masculinos, preocupa-se com eles quase de forma maternal, ela é o lado sentimental e/ou espiritual. 

TBBT - Tanta coisa errada que fica difícil começar a falar
Ou seja, prevalece a dualidade santa x vadia. Algumas personagens incorporam elementos dos dois grupos. Por exemplo, a Penny nas duas primeiras temporadas de The Big Bang Theory. Às vezes representada como uma mulher sexy, às vezes como mãe (especialmente na maneira como se relaciona com o Sheldon). Nesse caso há ainda o problema de a personagem ser tachada de burra e fútil o tempo todo e, obviamente, ser assediada por quase todos os homens do grupo. Felizmente, após algum tempo foram inseridas outras personagens, como a Leslie, Amy, Bernadette e Pryia (não quer dizer que essas personagens estejam livres de estereótipos).

Novo Star Trek de J.J. Abrams
Tudo bem, vamos assumir que esse é um clichê que vem se reduzindo ao longo dos anos. Antingamente era mais que normal haver apenas uma mulher. Em Star Wars, por exemplo, só há duas mulheres representativas em toda a franquia (Padmé e Léia) e elas não são contemporâneas uma à outra. Porém é válido lembrar que muitas histórias estão sendo recontadas atualmente. O filme de Star Trek, por J.J. Abrams, só tem uma personagem mulher, a Uhura. Em remakes não há o cuidado em repensar esse tipo de posicionamento. E é claro que em tempos de filmes de superheróis criados há décadas atrás, se torna bem comum ver filmes com mulheres-smurfettes.

Pacific Rim - O problema persiste
Assisti recentemente o filme "Pacific Rim", queridinho de 10 entre 10 nerds ávidos por reviver os live actions japoneses da infância. Adivinhe? a personagem Mako é uma smurfette. E é claro que é ela que se deixa levar pelas emoções dentro do Jaeger. E é a única cuja competência é questionada em função de seu passado. Coincidência? Eu sei que havia uma outra pilota, russa, contudo ela não abriu a boca durante todo o filme.


Muitos filmes (e séries) recentes padecem desse mal. Parece que na indústria do cinema só mesmo as mentes masculinas definem o grupo. E é de dentro delas que sai essa pífia representatividade feminina que, quando existe está cercada de estereótipos, paternalismo e misoginia. Seria bom lembrar que há séries e desenhos de sucesso com grupos de personagens quase que inteiramente femininos. Basta lembrar de As Panteras, Buffy, Sailor Moon (esse em especial praticamente inverte o princípio da Smurfette), vários desenhos da Clamp e etc. O problema é que, quando a história é cheia de personagens masculinos, é apenas uma história. Quando ela é cheia de personagens femininas, é uma história de "mulherzinha". Machismo everywhere.

Caverna do Dragão - E quando só há um personagem negro?
Se esquecermos a representação de gênero (por um segundo) e pensarmos de forma mais abrangente, esse clichê pode ser aplicado às questões raciais também. Às vezes no meio de um grupo inteiramente branco, até há mais de uma personagem feminina, porém apenas um personagem negro (exemplo: Diana, em Caverna do Dragão). Isso significa que estão tentando nos vender diversidade só que não. É quase um favor permitir personagens femininas e/ou negrxs.


Bons Links:
Anita Sarkeesian - The Smurfette principle

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O estuprador já tem voz e fala mais alto que a vítima

Não é função minha e nem de ninguém confiscar carteirinhas feministas. Desde que embarquei no feminismo entendi ser essa uma luta plural, com espaço para as mais diferentes opiniões. Por isso, mesmo com todo o respeito que tenho pela Lola Aronovich (que é uma das minhas maiores referências em feminismo), me sinto no direito de discordar. Não é a primeira vez que discordo da Lola, mas é a primeira vez que senti o desejo de expressar essa divergência. Esse texto não é um ataque, mas um contraponto ao guestpost da Lola escrito por um estuprador arrependido.

O estuprador tem voz e fala mais alto que a vítima. Quando acontece um estupro, não podemos supor que as duas pessoas envolvidas (estuprador e vítima) tem o mesmo poder, um sobre o outro. E que por isso devemos observar friamente a situação como se pesássemos em uma balança ou nos dividir em duas partes igualmente predispostas a aceitar a culpa ou o arrependimento do agressor. Na balança do estupro, o que pesa mais é sempre o trauma da vítima. 

Publicado no Washington Post
Não vivemos em uma sociedade igualitária onde se escutam os dois lados. O lado da vítima não é o lado mais ouvido, caso contrário não haveria um gráfico de condenação em casos de estupro como este ao lado. A vítima do estupro se torna ré, tem sua denúncia deslegitimada, é chamada de suposta vítima. Tudo na pessoa que foi estuprada é analisado buscando justificar os atos do seu agressor. E não é à toa que quem sofre o estupro se culpa, pois é assim que ela é tratada: como o motivo, a justificativa, a razão de ser do estupro. 

Estupradores não se identificam como tal por um motivo: Cultura do estupro. Os homens são criados para não respeitar o espaço da mulheres em todas as instâncias. Por isso seguem sem se questionar porque ganham mais ou tem melhores oportunidades de emprego que a amiga, ou jogam cantadas para mulheres nas ruas ou ainda pior: estupram. Tudo sob um manto de normalidade. Impera o silêncio nas agressões sexuais dentro da família. A família é uma zona cinzenta onde a agressão tem status de normalidade. Ninguém quer falar sobre isso, pois a família deve ser o refúgio de amor. E onde há o amor, a agressão não poderia existir. Mas ela existe e é varrida para baixo do tapete, escondida com ameaças, vergonha e medo.

Aos que encaram o estupro apenas como a penetração, recomendo se informar. A chave para o entendimento reside em duas palavras: "Não consensual". Qualquer passada de mão não consensual é tipificado com estupro no código penal. Defender isso numa lei escrita e a sua devida aplicação não é punitivismo, é proteção. Ninguém acredita que o sistema penitenciário brasileiro é perfeito e que seja o ambiente propício para a reabilitação. Porém a simples alegação de arrependimento não significa que: 1- O agressor está de fato arrependido, e 2 - Que esse arrependimento será suficiente para que ele não volte a agredir. É preciso lembrar que o arrependimento como argumento para o perdão é um dos motivos pelos quais a violência doméstica se perpetua. O agressor se arrepende, a vítima perdoa, a violência segue seu ciclo.

Para todos os efeitos, arrependimento e perdão são questões muito entrelaçadas às religiões. E não é a religião que deve regular a justiça. A justiça não deve medir os arrependimentos, ela deveria medir os fatos, as provas, o contexto (sem com isso tentar justificar com "ela estava pedindo por isso"). Cabe sim, à justiça, ouvir os dois lados.

O que eu acho problemático é que diante de um cenário desproporcional onde pouco se ouve a vítima, estejamos ainda, em ambientes libertários, dando mais voz aos agressores do que eles já têm. Como disse Ayres Britto, "A mesma liberdade para cordeiros e lobos é excelente para os lobos". Uma boa definição de isonomia. Eu defendo o direito do estuprador a se defender, se arrepender, tentar melhorar, se reabilitar, procurar apoio psicológico e etc. Eu defendo esse homem como a qualquer pessoa que seja acusado de um crime. Porém, aqui fora dos tribunais, onde a vítima pedirá socorro, eu estarei mais disposta a ouví-la. Porque o feminismo que eu defendo empodera as mulheres. Sejam elas cis ou trans, brancas ou negras, pobres ou ricas e etc. O machismo afeta cada uma de nós de forma diferente, por isso eu busco (nem sempre consigo) um feminismo interseccional, mas que esteja sempre ao lado das mulheres.  Serei prolixa: Feminismo pró-mulher (óbvio? redundante? sim, mas às vezes é preciso recordar). Isso não significa que eu queira dizer que homens não são oprimidos pelo patriarcado, porém, esse não é o meu foco da luta. Eu entendo que o patriarcado também oprima aos homens, mas a opressão sobre as mulheres é muito maior, mais abusiva e violenta. 

Não concordo em ceder espaço a quem estupra, ainda que essa pessoa alegue arrependimento, não nos empodera. Pelo contrário, há um risco enorme de trigger. Não acho justo fazer isso com as leitoras que já sofreram abusos. E acredito que chamar quem deseja que o estuprador cumpra o seu tempo de prisão, estipulado pela justiça, de punitivismo, é silenciar vítimas. Não são só as feministas que desejam que o estuprador seja preso (esse do guestpost, ou outro estuprador), mas também as suas vítimas. Essa afirmação só coloca mais dúvidas e culpa em quem sofreu a violência. Então, por hoje é só, pessoal. Peço desculpas por criticar longamente um posicionamento de uma companheira, mas preferi fazê-lo da forma mais clara possível, sem dar margem para que me chamem de difamadora, caluniadora, sem sororidade e etc.

PS1: Mais um texto sobre o assunto: Arrependimento não leva para o céu feminista.
PS2: Não estou dizendo que a Lola não dá voz a vítima, sabemos que é bem o contrário.

Voltamos agora à nossa programação normal.



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A TV transfóbica de cada dia

Não sou uma feminista acadêmica. Minhas maiores referências de feminismo estão crescendo junto comigo, são as muitas amigas que fiz nos últimos anos, seus blogs, suas postagens, seus embates políticos, as marchas que acontecem em várias cidades do país e muitos artigos. Resumindo, horas e horas de leitura na internet e conversas diárias. Tirando um ou outro livro clássico sobre feminismo, no geral, careço de fontes. No entanto, não acredito que isso me desmereça enquanto feminista, porque as experiências que vivi e aquelas que foram compartilhadas comigo também são enriquecedoras. 

E talvez seja por isso que demorei tanto para falar sobre travestis e transexuais. Porque eu AINDA não me debrucei sobre a teoria e isso é um grande empecilho na hora de comentar um assunto que no dia-a-dia é totalmente invisibilizado. Ainda agora, estou pisando em ovos. Por "invisibilidade" entendo não somente aos momentos em que as pessoas trans não aparecem nas nossas vidas, mas também aos momentos em que aparecem e são tratadas como uma aberração de circo, totalmente desumanizadas.

Cena de "Amor a Vida" em que
Valdirene discute com uma travesti
Quando uma pessoa trans ousa aparecer na TV, o primeiro recurso é sempre o do humor. Fazem questão de mostrar para o público que aquela pessoa é artificial e risível: O seio é de silicone, o batom é forte, a roupa é curta, a voz é sempre bem grossa, um jeito peculiar de falar ("falam errado"), é barraqueira e, muitas vezes, a pele é negra. Nenhuma dessas características é um problema, claro que não. O problema é aquilo que apreendemos delas. A questão é primeiramente o perfil único apresentado, e o depois, obviamente, problema está na transfobia, elitismo, machismo e racismo de rir dessas características.

Na TV a pessoa trans não tem família, não tem amigos, não namora, não vai ao cinema, não lê, não trabalha, não cozinha, não ama, não sofre e não existe enquanto ser humano. É apenas um momento de diversão para a família brasileira. Não há representação da pessoa trans, ninguém fala, por exemplo, de violência. A violência transfóbica mata todos os dias, mas aqui estamos nós, pessoas cis (ou seja, as pessoas que não são trans), rindo, sem nos dar conta que com isso contribuímos para que mais gente sofra violência.

Kadu (agressor de mulher) Moliterno e Evandro
Mesquita em cena de Bangbang, Personagens
eram homens cis que fingiam ser mulheres cis.
Tão horrível quanto isso, são as novelas e filmes em que homens cis se disfarçam de mulheres cis. O que também ajuda a formar uma visão distorcida do assunto, embora sejam coisas diferentes. Passamos a entender que homens que se vestem de mulheres são isso mesmo: homens cis e heterossexuais que fingem. Passamos a achar que são homens tentando invadir os espaços íntimos das mulheres. Que enquanto ele passa por mulher, tentará violentar-nos, nos ver em trajes íntimos enquanto inocentemente achamos que eles são elas, que eles obtém prazer não consensual em fingir ser como nós. E é exatamente por esse entendimento que há tanta polêmica em relação aos banheiros públicos, um espaço extremamente hostil para as pessoas transexuais e travestis. E isso é muito prejudicial.

Ao recusar a forma como a pessoa se identifica, negaremos tudo. Assim fazemos com que ela seja preterida em oportunidades de emprego, segregada dentro da própria família, objetificada na sociedade e, em última instância, vítima de crimes de ódio que podem chegar ao assassinato.

Há alguns dias, Walcyr Carrasco, autor da novela "Amor à vida" e gay, colocou no ar uma cena em que uma travesti era chamada de "traveca". Em meio às críticas, me recordei que Walcyr Carrasco é reincidente quando o assunto é preconceito transfóbico. Lembrei-me de ter lido um texto escrito por ele, certa vez, em que ele tratava travestis no masculino, criminalizava o tratamento hormonal precoce, e era extremamente autoritário e raso em toda a análise, mostrando que mesmo alguém que está debaixo do guarda-chuva LGBT pode ser muito ignorante quando o assunto é a sigla "T".

Teena Brandon, personagem de
Hillary Swank em "Meninos não choram"
A minha visão tolhida por anos e anos de desinformação começou a mudar lá no início dos anos 2000, quando eu assisti ao filme "Meninos não choram", baseado na história real de Teena Brandon, um homem trans que foi vítima de estupro corretivo e assassinato brutal motivado por transfobia. Infelizmente o filme não fala exatamente essa palavra: "transfobia". Eu, ignorante, achei que Teena era uma lésbica que queria ser homem. Confundi identidade e orientação sexual. Mesmo com essa visão limitada e muito errada, acabei percebendo que existe mais histórias do que insistem em nos mostrar na TV. E após conhecer pessoas realmente fantásticas, eu aprendi muito. Acho que somente o contato (e a pesquisa acadêmica) pode nos trazer mais conhecimento, pois se depender da grande mídia, FODEO.

São poucas as representações minimamente humanizadoras na TV. Houve uma novela recente, chamada "Aquele Beijo", em que havia uma personagem chamada "Ana Girafa" (porque ela não podia ter um nome normal, eu não sei). Ao menos essa novela mostrou o drama de ter uma mãe que rejeita a identidade da filha e um romance meramente insinuado, sem beijo e sem toque. E sempre que há algum grau de humanização a personagem é branca. Então fica a dica, transfobia, racismo, machismo e elitismo andam de mãos dadas. Travesti e transexual só entram na casa da família brasileira (essa instituição atrasada) se for para fazer rir ou em programa policial.

Bons Links:

Alegria Falhada
Transexualismo da depressão
Transfeminismo





terça-feira, 30 de julho de 2013

Feminismo poético

Imagem por Elisa Riemer
Uma santa foi quebrada

Uma santa foi quebrada,
Quebrou-se o silêncio,
Não foi barulho de gesso espatifado,
Foi barulho de corrente arrastada.

Quebraram a santa
por cada navio negreiro,
por cada fogueira inquisitória,
por cada imagem destruída de Umbanda.

Uma mulher dilacerada
Só choca se for de gesso,
Se a morte é clandestina,
Uma mulher é descartada.

Uma vadia foi julgada.

(Autoria: Gizelli Sousa)