Se você acompanha esse blog é muito possível que já tenha lido o meu texto sobre o silêncio da mídia durante a primeira retomada do julgamento do caso New Hit, que ocorreu no dia 3 de setembro passado (a segunda retomada do julgamento começa hoje, dia 17 de setembro, fiquem de olho). Mais gente escreveu sobre o mesmo assunto. No meu texto, eu abordei o descaso da grande mídia com um crime cuja natureza causa horror no mundo inteiro, contudo parece ser um horror momentâneo, prestes a dar lugar à próxima tragédia. No último dia 3 de setembro, foi assombroso assistir à falta de informação que gere a nossa imprensa. Seja ela de esquerda ou de direita, partidária ou não.
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| Imagem daqui |
O problema do horror é que ele acontece de forma enviesada. É contraditório que o estupro nos cause horror, mas passados alguns dias ele caia no esquecimento. Acho que em grande parte devemos isso à maneira como ele é informado. Não se debate o estupro na grande mídia, apenas se recita manchetes. O estupro é um assunto que tem a superficialidade de uma manchete, ele assim é tratado e lembrado. A grande mídia falha em retratá-lo pois jamais vai além da informação seca, bruta, do fato puro e simples. É sempre: "Homem é suspeito de estuprar mulher", ou "mulher é estuprada em algum lugar". Mas os porquês não surgem.
A informação é completamente acrítica, dotada de uma ignorância abissal sobre o que é a violência contra a mulher. Esse tipo de notícia faz parecer que a violência contra a mulher é apenas a mão que bate, fere e mata. Ou que é apenas a penetração não consensual. Ou ainda que o homem e o monstro não coexistem. "Homens de verdade não estupram". Essa é uma informação que não compreende os meandros do machismo, que extrapolam a agressão física em todas as suas formas e adentram o nosso cotidiano.
Nas notícias sobre violência sexual falta abordar o entitlement, por exemplo. Palavra usada para descrever o sentimento que muitos homens tem sobre as mulheres, o sentimento de ter a garantia e o direito sobre elas. É uma relação desequilibrada de poder que se revela ainda na infância. O entitlement é fruto de outra expressão que passa longe da grande mídia: "cultura do estupro".
A cultura do estupro é o meio pelo qual normalizamos e/ou relativizamos a violência sexual, é todo o sistema pelo qual o estupro é aceito. E ele é. Dentre todos os casos de estupro, apenas 2% deles levam à condenação. Esse é um número que fala por si. É pouquíssimo, haja vista ser um crime tão comum. É sintomático que não se fale abertamente em cultura do estupro.
É a cultura do estupro que permite que a mulher seja alvo de investigação e não o estuprador. Não se trata de direito à ampla defesa e contraditório, porque isso não será negado ao acusado, mas da tentativa indiscriminada de deslegitimação da denúncia através da sexualidade feminina, às vezes expressa numa roupa curta, ao ambiente onde o crime ocorreu ou simplesmente ao fato de ser mulher e ousar dizer não.
A ousadia do não é o principal argumento para a deslegitimação do estupro doméstico. Aquele praticado pelos próprios companheiros. O estupro não é exclusividade do estranho na balada, no beco escuro, na rua. Não. O estupro é uma realidade doméstica, que acontece no seio da família, e gera uma zona cinzenta de incertezas, constrangimento e medo.
Então, chega de falar sobre o estupro como se ele fosse um evento isolado, uma tragédia. Devemos tratar dele como um horror, sim, mas um horror do cotidiano, reiterado por propagandas na TV aberta, legitimado pelas cantadas nas ruas, pela passada de mão no metrô lotado, pela insistência em fazer sexo com a companheira até que ela ceda à pressão. Não espere essa abordagem na grande mídia, porque a quem interessa reconhecer o monstro interior? o ser humano mais pacífico carrega consigo uma carga de informações que recebe da sua vida em sociedade e é aí que se flerta com o monstro, sem se dar conta. Ninguém quer entender que o monstro não é o outro, ele vive dentro de si.


















