Não tenho nada contra jornalistas, até tenho amigos que são.
Certo, é brincadeira, mas não tenho mesmo nada contra jornalistas. Tenho muita coisa contra a falta de crítica sobre o machismo que impera nos clichês do jornalismo. Parece até que paramos de observar a relevância da escolha das palavras, deixando que passem por nós como inofensivas, embora estejam construindo aos poucos um discurso machista. Selecionei alguns dos clichês machistas que alimentam as manchetes em todos os meios, sejam virtuais, televisivos, impressos e etc.
1 - "Por não aceitar a separação, homem atira na esposa"
Como muito bem explicado no texto "Somos cúmplices dos matadores de mulheres", o jornalismo (e não o jornalista, porque é extremamente comum esse tipo de notícia) se torna cúmplice ao tentar, desde a primeira linha da notícia, desde o título, justificar as ações do assassino.
Imagine um assalto. Será comum ler a seguinte notícia "por ter dois filhos para alimentar, homem assalta na saidinha do banco"? Não. Ou quem sabe quando um homem resolve matar outro homem, será que justificam a notícia na manchete? "Por medo de ser assaltado, homem mata homem que invadiu sua casa". crimes patrimoniais e crimes contra a vida do homem estão menos sujeitos à esse tipo de argumentação do que crimes contra a mulher. Até existem manchetes justificando o crime patrimonial ou o crime que vitimiza o homem, porém, elas não se tornaram um clichê. Elas não são repetidas incessantemente a cada nova incidência do mesmo crime. Mesmo quando se inverte a situação, ou seja, numa dessas exceções em que a mulher é algoz, a notícia é diferente. Enquanto o homem é alguém que num "momento ruim" saiu da sua normalidade e matou a mulher, a mulher, quando algoz, é tratada como histérica, maluca, ciumenta, controladora.
Isso é cultural, é típico de uma sociedade que ainda apóia a idéia de se "lavar a honra", pois esse assunto não é página virada na nossa história. A nociva idéia de honra permanece ora integralmente construída ora através dessas reminiscências que se apresentam mais sutilmente, como por exemplo em uma notícia, uma manchete em que de forma velada, culpa-se a vítima. Além de tudo, é raríssimo encontrar uma notícia de assassinato de mulheres (motivado por machismo) que use a palavra correta: Feminicídio.
2 - "suposto estupro"
Em praticamente todas as notícias de estupro, o crime é colocado em dúvida. Não a autoria do crime, mas o crime em si. Pode parecer pouco, mas numa sociedade que culpa a vítima, que perdoa estupradores, que deslegitima a denúncia dentro de delegacias, o "suposto crime" significa tudo. Alguns alegam que essa é uma proteção contra processos por difamação, no caso do estupro não ter acontecido. Será? Pois mesmo em caso em que o estupro é comprovado por exames médicos, a expressão continua sendo utilizada.
Novamente, é comum darmos mais crédito aos crimes patrimoniais que aos crimes contra a mulher. Não se lê com tanta frequência sobre "suposto roubo". Roubo é roubo, as autorias até são questionadas, mas o crime não. Porque é tão diferente nos casos de estupro? Você sabia que não é comum um estuprador ser falsamente acusado? Aliás ocorre exatamente o oposto, muitos estupradores não são denunciados. E talvez a palavra "suposto" antes de qualquer estupro seja um dos motivos. Que vítima quer passar pela vergonha de ser questionada, culpada e julgada? O gráfico abaixo mostra uma pesquisa feita nos Estados Unidos sobre estupro. Analisem a porcentagem do "suposto" estupro (aquele em que o estuprador é falsamente acusado) em relação aos estupros reais.
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| Publicado no Washington Post |
Sugestões simples para resolver o problema:
- Em vez de "mulher denuncia suposto estupro" seria melhor "mulher denuncia estupro": Nesse caso, não há difamação, a mulher de fato denunciou o estupro, se ele existiu ou não, não cabe ao jornalista questionar ou julgar a procedência da denúncia (pois ao questionar ele estará minimizando a denúncia), cabe à polícia investigar. A não ser, é claro, que o jornalista possua provas de que a denúncia é falsa.
- Em vez de "suposto estuprador" seria melhor "acusado de estupro", não estariam difamando ninguém. Não há o julgamento prévio e a denúncia não será deslegitimada.
3 - "O travesti"
Em praticamente todas as notícias sobre travestis (normalmente notícias violentas, sobre assassinatos e espancamentos), a travesti é tratada no masculino. Travesti tem identidade de gênero, se identifica como mulher e assim deve ser chamada. Tendo sua individualidade e identidade respeitadas. Passou da hora da mídia parar de exotificar e coisificar a travesti.
O termo flexionado no masculino advém de um olhar fetichista e biologizante sobre a travesti, em que se considera que elas na verdade são homens cis cujo fetiche é vestir-se de mulher cis. É exatamente esse argumento que impede que travestis (e mulheres transexuais) possam, por exemplo, utilizar o banheiro feminino livremente. Como grupo, as travestis em geral usam nomes femininos, vestem roupas femininas, se identificam como mulher (sei que estou repetindo isso, mas é importante!). Qual é a dúvida sobre a flexão? substantivo feminino, está claro. Obviamente, há pessoas que transitam para além do binarismo de gênero e nesse caso o ideal é perguntar como elx prefere ser identificadx. Entretanto, como grupo, generalizando, as travestis são mulheres. Se algum dicionário disser o oposto devemos lembrar que a língua é mutável e não é imune a preconceitos diversos. "Denegrir", por exemplo, hoje é uma palavra reconhecidamente racista. Não precisamos usá-la ainda que ela conste no dicionário. Usar artigo masculino antes de travesti, em geral, é transfobia.
O termo flexionado no masculino advém de um olhar fetichista e biologizante sobre a travesti, em que se considera que elas na verdade são homens cis cujo fetiche é vestir-se de mulher cis. É exatamente esse argumento que impede que travestis (e mulheres transexuais) possam, por exemplo, utilizar o banheiro feminino livremente. Como grupo, as travestis em geral usam nomes femininos, vestem roupas femininas, se identificam como mulher (sei que estou repetindo isso, mas é importante!). Qual é a dúvida sobre a flexão? substantivo feminino, está claro. Obviamente, há pessoas que transitam para além do binarismo de gênero e nesse caso o ideal é perguntar como elx prefere ser identificadx. Entretanto, como grupo, generalizando, as travestis são mulheres. Se algum dicionário disser o oposto devemos lembrar que a língua é mutável e não é imune a preconceitos diversos. "Denegrir", por exemplo, hoje é uma palavra reconhecidamente racista. Não precisamos usá-la ainda que ela conste no dicionário. Usar artigo masculino antes de travesti, em geral, é transfobia.
4 - "A musa"
A musa figura principalmente no jornalismo esportivo, mas há também a musa da CPI, a musa do jornalismo, a musa de qualquer coisa. As musas são mulheres que tem sua capacidade reduzida à sua beleza. Durante eventos esportivos, como as Olimpíadas, o jornalismo punheteiro elege dezenas de musas. Que na maioria das vezes estão trabalhando em ambientes vistos como masculinos (Como o esporte. O esporte feminino continua sendo desprezado inclusive pela mídia esportiva) e basta reunir características típicas do padrão de beleza vigente para ser eleita a "musa de ...".
Ou seja, a musa é, antes de tudo, analisada segundo sua aparência física. A musa é sinônimo de objetificação. E a aplicação do termo é geralmente racista, capacitista, cisnormativa e gordofóbica uma vez que a musa normalmente é branca, sem necessidades especiais, cis e magra. Ser musa é ser decorativa. Não deixa de ser uma tentativa de fazer com que as mulheres, mesmo aquelas que tem sucesso em suas carreiras, fiquem em seus "devidos lugares". O recado é claro: Sirva apenas para o deleite masculino. A carga de machismo é óbvia.
Bons Links:
Marcha Mundial das Mulheres: Seis passos para o Jornalismo Machista
Ativismo de Sofá: Machismo virou esporte olímpico?
Tumblr Jornalismo Punheteiro
Transfeminismo: Travestis têm gênero, respeite!
Ativismo de Sofá: Não quero ser musa!
ABCuritiba: Somos cúmplices dos matadores de mulheres
UPDATE: A Jéssica Ipólito do blog Gorda e Sapatão me mandou o seguinte e-mail:
"Então... já tem tempos que eu me deparo com matérias pautadas na lesbianidade, e nunca, em momento algo, era usada a palavra LÉSBICA para denominar a situação.
Até mesmo na matéria feita no dia da Caminhada lésbica e bissex de SP.
O jornal só enunciou o título e logo após, só soube falar "homossexuais". Só.
Em matérias cujo tema é violência entre lésbicas, a palavra também não é usada.
Usar homossexuais é uma das formas de invisibilizar, tornando a palavra 'lésbica' inaceitável, indizível, estranha. Por isso me incomoda, além dos pontos que você apontou, essa questão da lesbofobia."
Então fica aí mais um problema do machismo jornalístico: a invisibilidade lésbica.





















