terça-feira, 20 de agosto de 2013

Como o jornalismo reflete e alimenta o machismo

Não tenho nada contra jornalistas, até tenho amigos que são. 

Certo, é brincadeira, mas não tenho mesmo nada contra jornalistas. Tenho muita coisa contra a falta de crítica sobre o machismo que impera nos clichês do jornalismo. Parece até que paramos de observar a relevância da escolha das palavras, deixando que passem por nós como inofensivas, embora estejam construindo aos poucos um discurso machista. Selecionei alguns dos clichês machistas que alimentam as manchetes em todos os meios, sejam virtuais, televisivos, impressos e etc.

1 - "Por não aceitar a separação, homem atira na esposa"

Como muito bem explicado no texto "Somos cúmplices dos matadores de mulheres", o jornalismo (e não o jornalista, porque é extremamente comum esse tipo de notícia) se torna cúmplice ao tentar, desde a primeira linha da notícia, desde o título, justificar as ações do assassino. 

Imagine um assalto. Será comum ler a seguinte notícia "por ter dois filhos para alimentar, homem assalta na saidinha do banco"? Não. Ou quem sabe quando um homem resolve matar outro homem, será que justificam a notícia na manchete? "Por medo de ser assaltado, homem mata homem que invadiu sua casa". crimes patrimoniais e crimes contra a vida do homem estão menos sujeitos à esse tipo de argumentação do que crimes contra a mulher. Até existem manchetes justificando o crime patrimonial ou o crime que vitimiza o homem, porém, elas não se tornaram um clichê. Elas não são repetidas incessantemente a cada nova incidência do mesmo crime. Mesmo quando se inverte a situação, ou seja, numa dessas exceções em que a mulher é algoz, a notícia é diferente. Enquanto o homem é alguém que num "momento ruim" saiu da sua normalidade e matou a mulher, a mulher, quando algoz, é tratada como histérica, maluca, ciumenta, controladora.

Isso é cultural, é típico de uma sociedade que ainda apóia a idéia de se "lavar a honra", pois esse assunto não é página virada na nossa história. A nociva idéia de honra permanece ora integralmente construída ora através dessas reminiscências que se apresentam mais sutilmente, como por exemplo em uma notícia, uma manchete em que de forma velada, culpa-se a vítima. Além de tudo, é raríssimo encontrar uma notícia de assassinato de mulheres (motivado por machismo) que use a palavra correta: Feminicídio. 

2 - "suposto estupro"

Em praticamente todas as notícias de estupro, o crime é colocado em dúvida. Não a autoria do crime, mas o crime em si. Pode parecer pouco, mas numa sociedade que culpa a vítima, que perdoa estupradores, que deslegitima a denúncia dentro de delegacias, o "suposto crime" significa tudo. Alguns alegam que essa é uma proteção contra processos por difamação, no caso do estupro não ter acontecido. Será? Pois mesmo em caso em que o estupro é comprovado por exames médicos, a expressão continua sendo utilizada. 

Novamente, é comum darmos mais crédito aos crimes patrimoniais que aos crimes contra a mulher. Não se lê com tanta frequência sobre "suposto roubo". Roubo é roubo, as autorias até são questionadas, mas o crime não. Porque é tão diferente nos casos de estupro? Você sabia que não é comum um estuprador ser falsamente acusado? Aliás ocorre exatamente o oposto, muitos estupradores não são denunciados. E talvez a palavra "suposto" antes de qualquer estupro seja um dos motivos. Que vítima quer passar pela vergonha de ser questionada, culpada e julgada? O gráfico abaixo mostra uma pesquisa feita nos Estados Unidos sobre estupro. Analisem a porcentagem do "suposto" estupro (aquele em que o estuprador é falsamente acusado) em relação aos estupros reais.
Publicado no Washington Post

Sugestões simples para resolver o problema:
- Em vez de "mulher denuncia suposto estupro" seria melhor "mulher denuncia estupro": Nesse caso, não há difamação, a mulher de fato denunciou o estupro, se ele existiu ou não, não cabe ao jornalista questionar ou julgar a procedência da denúncia (pois ao questionar ele estará minimizando a denúncia), cabe à polícia investigar. A não ser, é claro, que o jornalista possua provas de que a denúncia é falsa.
- Em vez de "suposto estuprador" seria melhor "acusado de estupro", não estariam difamando ninguém. Não há o julgamento prévio e a denúncia não será deslegitimada.

3 - "O travesti"

Em praticamente todas as notícias sobre travestis (normalmente notícias violentas, sobre assassinatos e espancamentos), a travesti é tratada no masculino. Travesti tem identidade de gênero, se identifica como mulher e assim deve ser chamada. Tendo sua individualidade e identidade respeitadas. Passou da hora da mídia parar de exotificar e coisificar a travesti.

O termo flexionado no masculino advém de um olhar fetichista e biologizante sobre a travesti, em que se considera que elas na verdade são homens cis cujo fetiche é vestir-se de mulher cis. É exatamente esse argumento que impede que travestis (e mulheres transexuais) possam, por exemplo, utilizar o banheiro feminino livremente. Como grupo, as travestis em geral usam nomes femininos, vestem roupas femininas, se identificam como mulher (sei que estou repetindo isso, mas é importante!). Qual é a dúvida sobre a flexão? substantivo feminino, está claro. Obviamente, há pessoas que transitam para além do binarismo de gênero e nesse caso o ideal é perguntar como elx prefere ser identificadx. Entretanto, como grupo, generalizando, as travestis são mulheres. Se algum dicionário disser o oposto devemos lembrar que a língua é mutável e não é imune a preconceitos diversos. "Denegrir", por exemplo, hoje é uma palavra reconhecidamente racista. Não precisamos usá-la ainda que ela conste no dicionário. Usar artigo masculino antes de travesti, em geral, é transfobia.

4 - "A musa"

A musa figura principalmente no jornalismo esportivo, mas há também a musa da CPI, a musa do jornalismo, a musa de qualquer coisa. As musas são mulheres que tem sua capacidade reduzida à sua beleza. Durante eventos esportivos, como as Olimpíadas, o jornalismo punheteiro elege dezenas de musas. Que na maioria das vezes estão trabalhando em ambientes vistos como masculinos (Como o esporte. O esporte feminino continua sendo desprezado inclusive pela mídia esportiva) e basta reunir características típicas do padrão de beleza vigente para ser eleita a "musa de ...".

Ou seja, a musa é, antes de tudo, analisada segundo sua aparência física. A musa é sinônimo de objetificação. E a aplicação do termo é geralmente racista, capacitista, cisnormativa e gordofóbica uma vez que a musa normalmente é branca, sem necessidades especiais, cis e magra. Ser musa é ser decorativa. Não deixa de ser uma tentativa de fazer com que as mulheres, mesmo aquelas que tem sucesso em suas carreiras, fiquem em seus "devidos lugares". O recado é claro: Sirva apenas para o deleite masculino. A carga de machismo é óbvia.

Bons Links:
Marcha Mundial das Mulheres: Seis passos para o Jornalismo Machista
Ativismo de Sofá: Machismo virou esporte olímpico?
Tumblr Jornalismo Punheteiro
Transfeminismo: Travestis têm gênero, respeite!
Ativismo de Sofá: Não quero ser musa!
ABCuritiba: Somos cúmplices dos matadores de mulheres

UPDATE: A Jéssica Ipólito do blog Gorda e Sapatão me mandou o seguinte e-mail:

"Então... já tem tempos que eu me deparo com matérias pautadas na lesbianidade, e nunca, em momento algo, era usada a palavra LÉSBICA para denominar a situação.
Até mesmo na matéria feita no dia da Caminhada lésbica e bissex de SP. 
O jornal só enunciou o título e logo após, só soube falar "homossexuais". Só. 

Em matérias cujo tema é violência entre lésbicas, a palavra também não é usada. 
Usar homossexuais é uma das formas de invisibilizar, tornando a palavra 'lésbica' inaceitável, indizível, estranha. Por isso me incomoda, além dos pontos que você apontou, essa questão da lesbofobia."

Então fica aí mais um problema do machismo jornalístico: a invisibilidade lésbica.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Representação feminina: O princípio da Smurfette

Smurfs - Representação predominantemente masculina
Um dos clichês que envolvem a representação feminina na TV, quadrinhos, jogos, cinema, literatura e etc, é o "Princípio da Smurfette". O termo foi cunhado por Katha Pollitt em 1991, para o NY Times.O texto de Pollitt foi motivado pela dificuldade que ela encontrou em oferecer para a filha dela histórias em que houvesse uma representação feminina adequada. 

Tartarugas Ninja - April é a única mulher e não luta
Se você, como eu, foi criança nos anos 80, deve se lembrar dos smurfs. Os smurfs eram pequenas criaturas azuis que viviam em uma comunidade exclusivamente masculina, exceto por uma personagem, a Smurfette. O princípio da smurfette trata exatamente dessa desigualdade numérica entre personagens femininas e masculinas que é recorrente. Esse princípio se aplica aos casos em que os personagens centrais carregam essa desigualdade. Entretanto,  às vezes, como no caso dos Smurfs, a coisa é tão absurda que entre TODO o grupo de personagens só há uma mulher, desprezando completamente o fato de que metade da população mundial é composta por mulheres. E é claro que isso se repete em muitas outras obras de ficção. O problema, entretanto, extrapola a questão numérica. As "mulheres-smurfettes" geralmente são estereotipadas e não definem o grupo, são em sua maioria personagens à parte do grupo. Às vezes sua função é decorativa, às vezes é meramente para evitar a crítica da não-representatividade das mulheres, às vezes ela é o par romântico de algum dos outros personagens principais.

Miss piggy é uma personagem sexualizada. SIM. Isso mesmo. :O
A Smurfette sexualizada: A começar pela própria smurfette (a original), que foi criada pelo Gargamel para seduzir os smurfs e depois transformada pelo papai-smurf em uma smurf do bem (loira, sexy com decote e salto alto). Outro exemplo é a Miss Piggy dos Muppets, a única mulher do grupo principal obviamente é muito vaidosa.


Kanga é uma canguru-fêmea, mãe de Roo.
 E é a única personagem feminina de Winnie the Pooh.
A Smurfette maternal/Sentimental: Em outros casos, a mulher-smurfette pode ser uma figura que cuida dos personagens masculinos, preocupa-se com eles quase de forma maternal, ela é o lado sentimental e/ou espiritual. 

TBBT - Tanta coisa errada que fica difícil começar a falar
Ou seja, prevalece a dualidade santa x vadia. Algumas personagens incorporam elementos dos dois grupos. Por exemplo, a Penny nas duas primeiras temporadas de The Big Bang Theory. Às vezes representada como uma mulher sexy, às vezes como mãe (especialmente na maneira como se relaciona com o Sheldon). Nesse caso há ainda o problema de a personagem ser tachada de burra e fútil o tempo todo e, obviamente, ser assediada por quase todos os homens do grupo. Felizmente, após algum tempo foram inseridas outras personagens, como a Leslie, Amy, Bernadette e Pryia (não quer dizer que essas personagens estejam livres de estereótipos).

Novo Star Trek de J.J. Abrams
Tudo bem, vamos assumir que esse é um clichê que vem se reduzindo ao longo dos anos. Antingamente era mais que normal haver apenas uma mulher. Em Star Wars, por exemplo, só há duas mulheres representativas em toda a franquia (Padmé e Léia) e elas não são contemporâneas uma à outra. Porém é válido lembrar que muitas histórias estão sendo recontadas atualmente. O filme de Star Trek, por J.J. Abrams, só tem uma personagem mulher, a Uhura. Em remakes não há o cuidado em repensar esse tipo de posicionamento. E é claro que em tempos de filmes de superheróis criados há décadas atrás, se torna bem comum ver filmes com mulheres-smurfettes.

Pacific Rim - O problema persiste
Assisti recentemente o filme "Pacific Rim", queridinho de 10 entre 10 nerds ávidos por reviver os live actions japoneses da infância. Adivinhe? a personagem Mako é uma smurfette. E é claro que é ela que se deixa levar pelas emoções dentro do Jaeger. E é a única cuja competência é questionada em função de seu passado. Coincidência? Eu sei que havia uma outra pilota, russa, contudo ela não abriu a boca durante todo o filme.


Muitos filmes (e séries) recentes padecem desse mal. Parece que na indústria do cinema só mesmo as mentes masculinas definem o grupo. E é de dentro delas que sai essa pífia representatividade feminina que, quando existe está cercada de estereótipos, paternalismo e misoginia. Seria bom lembrar que há séries e desenhos de sucesso com grupos de personagens quase que inteiramente femininos. Basta lembrar de As Panteras, Buffy, Sailor Moon (esse em especial praticamente inverte o princípio da Smurfette), vários desenhos da Clamp e etc. O problema é que, quando a história é cheia de personagens masculinos, é apenas uma história. Quando ela é cheia de personagens femininas, é uma história de "mulherzinha". Machismo everywhere.

Caverna do Dragão - E quando só há um personagem negro?
Se esquecermos a representação de gênero (por um segundo) e pensarmos de forma mais abrangente, esse clichê pode ser aplicado às questões raciais também. Às vezes no meio de um grupo inteiramente branco, até há mais de uma personagem feminina, porém apenas um personagem negro (exemplo: Diana, em Caverna do Dragão). Isso significa que estão tentando nos vender diversidade só que não. É quase um favor permitir personagens femininas e/ou negrxs.


Bons Links:
Anita Sarkeesian - The Smurfette principle

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O estuprador já tem voz e fala mais alto que a vítima

Não é função minha e nem de ninguém confiscar carteirinhas feministas. Desde que embarquei no feminismo entendi ser essa uma luta plural, com espaço para as mais diferentes opiniões. Por isso, mesmo com todo o respeito que tenho pela Lola Aronovich (que é uma das minhas maiores referências em feminismo), me sinto no direito de discordar. Não é a primeira vez que discordo da Lola, mas é a primeira vez que senti o desejo de expressar essa divergência. Esse texto não é um ataque, mas um contraponto ao guestpost da Lola escrito por um estuprador arrependido.

O estuprador tem voz e fala mais alto que a vítima. Quando acontece um estupro, não podemos supor que as duas pessoas envolvidas (estuprador e vítima) tem o mesmo poder, um sobre o outro. E que por isso devemos observar friamente a situação como se pesássemos em uma balança ou nos dividir em duas partes igualmente predispostas a aceitar a culpa ou o arrependimento do agressor. Na balança do estupro, o que pesa mais é sempre o trauma da vítima. 

Publicado no Washington Post
Não vivemos em uma sociedade igualitária onde se escutam os dois lados. O lado da vítima não é o lado mais ouvido, caso contrário não haveria um gráfico de condenação em casos de estupro como este ao lado. A vítima do estupro se torna ré, tem sua denúncia deslegitimada, é chamada de suposta vítima. Tudo na pessoa que foi estuprada é analisado buscando justificar os atos do seu agressor. E não é à toa que quem sofre o estupro se culpa, pois é assim que ela é tratada: como o motivo, a justificativa, a razão de ser do estupro. 

Estupradores não se identificam como tal por um motivo: Cultura do estupro. Os homens são criados para não respeitar o espaço da mulheres em todas as instâncias. Por isso seguem sem se questionar porque ganham mais ou tem melhores oportunidades de emprego que a amiga, ou jogam cantadas para mulheres nas ruas ou ainda pior: estupram. Tudo sob um manto de normalidade. Impera o silêncio nas agressões sexuais dentro da família. A família é uma zona cinzenta onde a agressão tem status de normalidade. Ninguém quer falar sobre isso, pois a família deve ser o refúgio de amor. E onde há o amor, a agressão não poderia existir. Mas ela existe e é varrida para baixo do tapete, escondida com ameaças, vergonha e medo.

Aos que encaram o estupro apenas como a penetração, recomendo se informar. A chave para o entendimento reside em duas palavras: "Não consensual". Qualquer passada de mão não consensual é tipificado com estupro no código penal. Defender isso numa lei escrita e a sua devida aplicação não é punitivismo, é proteção. Ninguém acredita que o sistema penitenciário brasileiro é perfeito e que seja o ambiente propício para a reabilitação. Porém a simples alegação de arrependimento não significa que: 1- O agressor está de fato arrependido, e 2 - Que esse arrependimento será suficiente para que ele não volte a agredir. É preciso lembrar que o arrependimento como argumento para o perdão é um dos motivos pelos quais a violência doméstica se perpetua. O agressor se arrepende, a vítima perdoa, a violência segue seu ciclo.

Para todos os efeitos, arrependimento e perdão são questões muito entrelaçadas às religiões. E não é a religião que deve regular a justiça. A justiça não deve medir os arrependimentos, ela deveria medir os fatos, as provas, o contexto (sem com isso tentar justificar com "ela estava pedindo por isso"). Cabe sim, à justiça, ouvir os dois lados.

O que eu acho problemático é que diante de um cenário desproporcional onde pouco se ouve a vítima, estejamos ainda, em ambientes libertários, dando mais voz aos agressores do que eles já têm. Como disse Ayres Britto, "A mesma liberdade para cordeiros e lobos é excelente para os lobos". Uma boa definição de isonomia. Eu defendo o direito do estuprador a se defender, se arrepender, tentar melhorar, se reabilitar, procurar apoio psicológico e etc. Eu defendo esse homem como a qualquer pessoa que seja acusado de um crime. Porém, aqui fora dos tribunais, onde a vítima pedirá socorro, eu estarei mais disposta a ouví-la. Porque o feminismo que eu defendo empodera as mulheres. Sejam elas cis ou trans, brancas ou negras, pobres ou ricas e etc. O machismo afeta cada uma de nós de forma diferente, por isso eu busco (nem sempre consigo) um feminismo interseccional, mas que esteja sempre ao lado das mulheres.  Serei prolixa: Feminismo pró-mulher (óbvio? redundante? sim, mas às vezes é preciso recordar). Isso não significa que eu queira dizer que homens não são oprimidos pelo patriarcado, porém, esse não é o meu foco da luta. Eu entendo que o patriarcado também oprima aos homens, mas a opressão sobre as mulheres é muito maior, mais abusiva e violenta. 

Não concordo em ceder espaço a quem estupra, ainda que essa pessoa alegue arrependimento, não nos empodera. Pelo contrário, há um risco enorme de trigger. Não acho justo fazer isso com as leitoras que já sofreram abusos. E acredito que chamar quem deseja que o estuprador cumpra o seu tempo de prisão, estipulado pela justiça, de punitivismo, é silenciar vítimas. Não são só as feministas que desejam que o estuprador seja preso (esse do guestpost, ou outro estuprador), mas também as suas vítimas. Essa afirmação só coloca mais dúvidas e culpa em quem sofreu a violência. Então, por hoje é só, pessoal. Peço desculpas por criticar longamente um posicionamento de uma companheira, mas preferi fazê-lo da forma mais clara possível, sem dar margem para que me chamem de difamadora, caluniadora, sem sororidade e etc.

PS1: Mais um texto sobre o assunto: Arrependimento não leva para o céu feminista.
PS2: Não estou dizendo que a Lola não dá voz a vítima, sabemos que é bem o contrário.

Voltamos agora à nossa programação normal.



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A TV transfóbica de cada dia

Não sou uma feminista acadêmica. Minhas maiores referências de feminismo estão crescendo junto comigo, são as muitas amigas que fiz nos últimos anos, seus blogs, suas postagens, seus embates políticos, as marchas que acontecem em várias cidades do país e muitos artigos. Resumindo, horas e horas de leitura na internet e conversas diárias. Tirando um ou outro livro clássico sobre feminismo, no geral, careço de fontes. No entanto, não acredito que isso me desmereça enquanto feminista, porque as experiências que vivi e aquelas que foram compartilhadas comigo também são enriquecedoras. 

E talvez seja por isso que demorei tanto para falar sobre travestis e transexuais. Porque eu AINDA não me debrucei sobre a teoria e isso é um grande empecilho na hora de comentar um assunto que no dia-a-dia é totalmente invisibilizado. Ainda agora, estou pisando em ovos. Por "invisibilidade" entendo não somente aos momentos em que as pessoas trans não aparecem nas nossas vidas, mas também aos momentos em que aparecem e são tratadas como uma aberração de circo, totalmente desumanizadas.

Cena de "Amor a Vida" em que
Valdirene discute com uma travesti
Quando uma pessoa trans ousa aparecer na TV, o primeiro recurso é sempre o do humor. Fazem questão de mostrar para o público que aquela pessoa é artificial e risível: O seio é de silicone, o batom é forte, a roupa é curta, a voz é sempre bem grossa, um jeito peculiar de falar ("falam errado"), é barraqueira e, muitas vezes, a pele é negra. Nenhuma dessas características é um problema, claro que não. O problema é aquilo que apreendemos delas. A questão é primeiramente o perfil único apresentado, e o depois, obviamente, problema está na transfobia, elitismo, machismo e racismo de rir dessas características.

Na TV a pessoa trans não tem família, não tem amigos, não namora, não vai ao cinema, não lê, não trabalha, não cozinha, não ama, não sofre e não existe enquanto ser humano. É apenas um momento de diversão para a família brasileira. Não há representação da pessoa trans, ninguém fala, por exemplo, de violência. A violência transfóbica mata todos os dias, mas aqui estamos nós, pessoas cis (ou seja, as pessoas que não são trans), rindo, sem nos dar conta que com isso contribuímos para que mais gente sofra violência.

Kadu (agressor de mulher) Moliterno e Evandro
Mesquita em cena de Bangbang, Personagens
eram homens cis que fingiam ser mulheres cis.
Tão horrível quanto isso, são as novelas e filmes em que homens cis se disfarçam de mulheres cis. O que também ajuda a formar uma visão distorcida do assunto, embora sejam coisas diferentes. Passamos a entender que homens que se vestem de mulheres são isso mesmo: homens cis e heterossexuais que fingem. Passamos a achar que são homens tentando invadir os espaços íntimos das mulheres. Que enquanto ele passa por mulher, tentará violentar-nos, nos ver em trajes íntimos enquanto inocentemente achamos que eles são elas, que eles obtém prazer não consensual em fingir ser como nós. E é exatamente por esse entendimento que há tanta polêmica em relação aos banheiros públicos, um espaço extremamente hostil para as pessoas transexuais e travestis. E isso é muito prejudicial.

Ao recusar a forma como a pessoa se identifica, negaremos tudo. Assim fazemos com que ela seja preterida em oportunidades de emprego, segregada dentro da própria família, objetificada na sociedade e, em última instância, vítima de crimes de ódio que podem chegar ao assassinato.

Há alguns dias, Walcyr Carrasco, autor da novela "Amor à vida" e gay, colocou no ar uma cena em que uma travesti era chamada de "traveca". Em meio às críticas, me recordei que Walcyr Carrasco é reincidente quando o assunto é preconceito transfóbico. Lembrei-me de ter lido um texto escrito por ele, certa vez, em que ele tratava travestis no masculino, criminalizava o tratamento hormonal precoce, e era extremamente autoritário e raso em toda a análise, mostrando que mesmo alguém que está debaixo do guarda-chuva LGBT pode ser muito ignorante quando o assunto é a sigla "T".

Teena Brandon, personagem de
Hillary Swank em "Meninos não choram"
A minha visão tolhida por anos e anos de desinformação começou a mudar lá no início dos anos 2000, quando eu assisti ao filme "Meninos não choram", baseado na história real de Teena Brandon, um homem trans que foi vítima de estupro corretivo e assassinato brutal motivado por transfobia. Infelizmente o filme não fala exatamente essa palavra: "transfobia". Eu, ignorante, achei que Teena era uma lésbica que queria ser homem. Confundi identidade e orientação sexual. Mesmo com essa visão limitada e muito errada, acabei percebendo que existe mais histórias do que insistem em nos mostrar na TV. E após conhecer pessoas realmente fantásticas, eu aprendi muito. Acho que somente o contato (e a pesquisa acadêmica) pode nos trazer mais conhecimento, pois se depender da grande mídia, FODEO.

São poucas as representações minimamente humanizadoras na TV. Houve uma novela recente, chamada "Aquele Beijo", em que havia uma personagem chamada "Ana Girafa" (porque ela não podia ter um nome normal, eu não sei). Ao menos essa novela mostrou o drama de ter uma mãe que rejeita a identidade da filha e um romance meramente insinuado, sem beijo e sem toque. E sempre que há algum grau de humanização a personagem é branca. Então fica a dica, transfobia, racismo, machismo e elitismo andam de mãos dadas. Travesti e transexual só entram na casa da família brasileira (essa instituição atrasada) se for para fazer rir ou em programa policial.

Bons Links:

Alegria Falhada
Transexualismo da depressão
Transfeminismo





terça-feira, 30 de julho de 2013

Feminismo poético

Imagem por Elisa Riemer
Uma santa foi quebrada

Uma santa foi quebrada,
Quebrou-se o silêncio,
Não foi barulho de gesso espatifado,
Foi barulho de corrente arrastada.

Quebraram a santa
por cada navio negreiro,
por cada fogueira inquisitória,
por cada imagem destruída de Umbanda.

Uma mulher dilacerada
Só choca se for de gesso,
Se a morte é clandestina,
Uma mulher é descartada.

Uma vadia foi julgada.

(Autoria: Gizelli Sousa)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A ministra e os racistas

Eu, que sou apenas uma moça latino americana sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda do interior, nunca viajei à Europa. Eu sei que dá para dividir em 12 vezes e não deve ser tão difícil assim para uma arquiteta. Certinho. Até dá. Mas eu tenho me interessado mais em conhecer os nossos países vizinhos. Eu nunca fui à Itália, nada contra, até tenho amigas que foram. Então tentarei não falar do país em si porque não quero soar injusta. 

Uma amiga querida, a Verô, escreveu esse texto superpowerfodão sobre a mulher negra e ~~metida~~. Recomendo, galera, sério. E ele não pára de fazer cada vez mais e mais sentido. No texto a Verô fala sobre como a mulher negra que tem boa autoestima é sempre alvo de comentários que tentarão diminuí-la.  Aqui um trechinho:

"Considerando que vivemos em um mundo em que negrxs são constantemente colocadxs “no seu lugar”, submetidxs a mercado de trabalho racista, mídia racista, padrão de beleza eurocêntrico, e tudo o mais, a autoestima de negrxs incomoda. É como se fosse uma ousadia, esse passar por cima do que lhe é imposto, passar por cima de tudo que tenta colocá-lx em seu lugar. Já escutei e muitos devem ter escutado pelo menos uma vez na vida a expressão “Que pretx metidx!” por parte de pessoas ao se referirem a negrxs que transparecem segurança e autoestima, em relação a própria aparência e/ou ao que faz e a posição na qual está, e sem se deixar intimidar. O que acontece muito comumente é, não essa expressão ser claramente proferida, mas que o conceito por trás dela fique implícito na fala, incômodo, e reação das pessoas." (Sério gente, prestigiem a Verônica Rocha, leiam o texto todo)

Enquanto a Verô essencialmente fala de padrões de beleza, acho importante frisar que o mesmo vale para mulheres que alcançam cargos importantes. Sempre há alguém tentando colocá-la em seu ~~devido lugar~~. A vítima da vez é a ministra Cécile Kyenge. Você sabe quem ela é? Basicamente você precisa saber cinco coisas.
Ministra Cécile Kyenge

- Cécile Kyenge é a ministra de integração da Itália. 
- Cécile Kyenge é nascida na República Democrática do Congo
- Cécile Kyenge é negra
- Cécile Kyenge tem posicionamentos antirracista, pró-LGBT, anti-xenofobia.

E o principal:

- Cécile Kyenge é a primeira mulher negra a integrar um Governo Italiano. 

Eu ainda fico chocada que estamos na fase dos "primeiros negros a". Aqui no Brasil temos o "primeiro negro a chegar à presidência do STF". Nos Estados Unidos, "primeiro negro a chegar à presidência", se for mulher então... Alguém consegue imaginar o dia em que elegeremos uma mulher negra para o cargo de presidenta aqui no Brasil? Eu não consigo, porque vejo racismo em todo lugar. Sabe aquela galera do mal que vê pelo em ovo? Prazer, sou eu. Os ovos do racismo são peludaços (porra, soou malzão). Enfim, voltando da Digressão, Cécile é pioneira. Desde que assumiu o posto, ela tem aguentado toda sorte de insulto racista que se pode imaginar. Vou listar os principais.

- "Será mesmo necessário um ministro de cor? Com todo o respeito pela senhora". Alessandro Loi, padre na paróquia de Lotzorai, na Sardenha.

Gente. Gente. AI, GENTE. Eu queria entender o que significa a palavra "respeito" para essa pessoa. Porque errou feio, errou rude. Respeito passou longe. Se na Itália for parecido com o Brasil, precisa-se muito de pessoas negras integrando governos, ocupando cargos de poder. Somente tornando o perfil dos governos menos homogêneo é que se pode pensar em representatividade democrática. Um governo de homens brancos  governará para homens brancos. Sabe quando o Lula causou polêmica em falar dos banqueiros loiros de olhos azuis? Ele estava certo. Faz vergonha esse perfil racial único. Em qualquer país. A ministra, essa maravilhosa, respondeu aos ataques em que a chamavam de "ministra de cor" da seguinte maneira:

"Não sou de cor, sou negra e digo-o com orgulho".

Amigos, Como não amar? Como é possível?

- Estão usando termos como "Zulu", "negra anti-italiana", "macaca congolesa" e "orangotango"em sites e blogs. Estão chamando o governo de Enrico Letta de "Governo bonga-bonga".

Todos os termos são racistas. Demonstram explicitamente o racismo. Um chute no saco do nosso complexo de viralatas. Na Itália, na Europa, esse continente tão desenvolvido, as ofensas raciais são iguaizinhas às que rolam por aqui. Sabe porquê? Porque ao contrário do que dizem ~~certos humoristas~~ chamar alguém de macaco é racismo. E é universal, porque reduz qualquer ser humano não a um animal qualquer, mas a um estágio evolutivo anterior. É como dizer que os negros são menos civilizados, são menos humanos. 

Vamos dar nomes aos bois? as ofensas têm vindo principalmente da extrema direita. Mas ainda sim, o que leva esse grupo a se pronunciar de forma tão escancarada sem sequer temer a opinião pública? Deve rolar uma boa abertura para isso. Eu disse que não falaria mal da Itália e não falarei pois felizmente nem só de racistas se faz um país. A própria Cécile afirmou:

“As reações aos insultos, que vejo no país, acabam por unir a Itália ‘boa’ e, quem sabe, ajudar a despertar muitas consciências, que durante anos estiveram um pouco adormecidas”.

Mario Borghezio, racista,
principal opositor de Cécile
-“uma boa dona de casa mas não uma ministra”. Mario Borghezio, deputado da Liga Norte, partido xenófobo que fazia parte da coligação do Silvio Berlusconi.

Ora, veja. Estava até demorando. Lá no início do texto eu disse que sempre há alguém tentando colocar as mulheres negras em seu ~~devido lugar~~ nesse caso, literalmente. Cécile sendo negra e mulher só pode ser dona de casa? Amigo, para começar a moça é médica. Esse desejo de relegar à mulher as tarefas domésticas evidencia o machismo. Mas sendo ela negra, a coisa é ainda muito pior, dado o histórico de escravidão dos povos africanos. Lembrei-me de Chimamanda Adichie falando dos perigos da História Única. Chimamanda reflete sobre como as pessoas costumam olhar para os povos africanos com paternalismo. Uma mulher africana, médica e, para choque de muitos, ministra em uma das maiores economias do mundo, deve ser um tapa na cara dos racistas. 

-"Por que alguém não a estupra, assim ela vai entender a experiência da vítima deste crime sangrento? Vergonha!". Dolores Valandro, vereadora do mesmo partido do Mário Borghezio.

O nível foi lá no subsolo. Esse comentário teve um viés xenófobo, pois a vereadora se referia aos estupros cometidos por imigrantes (Apesar de sabermos que os estupros em grande parte são cometidos dentro da família e com pessoas conhecidas, não é?). Até o partido reaça se manifestou e expulsou a tal vereadora. Ela está proibida de ocupar cargos públicos e foi condenada a um ano e e um mês de prisão, só que em regime aberto. Ou seja, foi condenada a nada, a não ser que pratique outro crime.

Em todos os casos anteriores, quando não se fez o silêncio, foram ouvidas desculpas vagas, justificativas vazias ("é só uma piada..."). Em 2009 o Parlamento Europeu advertiu que os episódios de racismo estavam aumentando na Itália, caracterizando uma violência sem precedentes. Hoje, a ministra está no centro das discussões sobre racismo no país e há alguns dias foi recebida com bananas jogadas por um manifestante em um comício em Cervia. Uma mulher negra (e nesse caso, africana) em posição de poder incomoda muito.

Bons links:


domingo, 28 de julho de 2013

O cristianismo quebra as nossas vidas

Essa semana aconteceu a Marcha das Vadias no RJ (Doravante, MDVRJ). A marcha das Vadias já se tornou um evento oficial do nosso calendário feminista. Porque consegue reunir pessoas no Brasil todo. O primeiro tópico questionado na marcha foi a questão da violência sexual, porém, hoje ela tem um teor muito político. As pessoas que se unem contra uma série de opressões distintas contra as mulheres e os LGBTs, afinal, muita da opressão que recai sobre eles tem origem na mesma questão: machismo. 

Imagem da MDVRJ 2013

Esse ano, como era de se esperar de uma manifestação política, ela veio questionar o status quo. Enquanto acontece a JMJ, Jornada Mundial da Juventude (que poderia se chamar JMJC, Jornada Mundial da Juventude Conservadora), acontece também a MDVRJ. Durante o protesto, alguns manifestantes realizaram um ato simbólico que eu nem sei se foi um ato da organização da marcha ou não, mas na verdade não importa muito, porque o feminismo é plural. O ato em questão foi a destruição de estátuas da religião católica. Eu preciso explicar a relação simbólica? Quebrar uma imagem significa: "Não nos submeteremos aos seus santos, aos seus credos, não acreditamos em vocês, não queremos que regulem nossas vidas" ou até mesmo:

Não regule os nossos ovários

Pois é, ato político não é feito para todo mundo gostar. Não é feito para ser essencialmente pacífico. Muitas vezes ele vem para marcar uma posição. E isso é importante porque a igreja vandaliza as nossas vidas diariamente, influenciando em Estados para evitar que pessoas do mesmo sexo sejam vistos como cidadãos comuns e insuflando a violência contra grupos LGBTs enquanto diz que Deus ama a ~~todos~~, regulando a sexualidade da mulher, condenando o divórcio, proibindo o uso de anticoncepcionais, insistindo num modelo de família que não representa boa parte da população, além, é claro de proibir o aborto e MATAR milhares de mulheres no mundo TODOS OS DIAS (isso para falar o mínimo, porque as opressões da igreja católica NÃO TÊM FIM).

Me choca mais o corpo dilacerado de uma mulher vítima de um aborto clandestino do que a imagem quebrada de um santo. Quem se choca com o santo quebrado, está confundindo a violência do opressor e a reação do oprimido. Nesse caso em específico, há oceanos de diferença entre um ato simbólico e um ato de violência. Se houve um ato simbólico que realmente impulsiona a violência foi a distribuição de bonequinhos em forma de feto, realizado pela própria igreja católica durante a JMJC. Isso sim gera o assassinato de milhões de pessoas.



Citando a Nádia Lapa, vocês repararam que os fetinhos distribuidos na JMJC são sempre brancos? Pois é, a igreja está cagando para as mulheres negras e pobres que estão em vulnerabilidade social muito maior que a mulher branca. Não adianta me dizer que a igreja merece respeito, que a religião católica deveria ser respeitada. Não deve. Eu não devo nada à uma religião que não se importa se eu acabar morrendo nas mãos de um açougueiro qualquer e que me nega o direito à humanidade plena. Isso sem contar o desrespeito sistemático da igreja católica (e evangélica) contra as religiões de matriz afro. Procure aí no google quantas imagens de umbanda já foram quebradas em nome das religiões cristãs. Seletivos esses críticos, não? Imagem de umbanda pode quebrar?

Sabe outra coisa que achei muito simbólica? Essa imagem aqui:

O papa é bope, o bope não poupa ninguém.

Amor cristão é ilusão (Tá aí, acho que na próxima marcha eu vou usar essa frase!). Não existe, nunca existiu. Uma instituição que sempre foi capitaneada por homens brancos, evidenciando seu caráter machista e racista, não merece respeito algum. Que se quebrem os santos e que sejam livres a sexualidade, as identidades de gênero, as relações, o ventre e a religiosidade (ou a falta dela).


Eu fico com a Luana Hansen:

"Hipocrisia, pra desconhecida é a punição
Mas se for da família é só tratar com discrição
Morre negra, morre jovem
Morre gente da favela,
Morre o povo que é carente
Que não passa na novela"



UPDATE: Se você é um manifestante que defende a depredação do patrimônio do Estado e das empresas que oprimem e lucram em cima do cidadão comum mas condena a destruição da imagem, você não é coerente. A religião cristã é tão ou mais opressora do que Estados e empresas. E você provavelmente é incapaz de questionar o próprio machismo.

UPDATE 2: Não sei a vericidade da informação, mas me disseram que o casal que quebrou a estátua era um casal indígena. Mais um peso simbólico, pois além de representar todas as coisas que falei, uma vez que foi um ato dentro da marcha das vadias, também simboliza a destruição da cultura indígena por parte da religião cristã. E mesmo que o casal não fosse indígena, esse tema NÃO DEVE ser descartado. As outras religiões também são alvo do vandalismo do cristianismo.