quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A TV transfóbica de cada dia

Não sou uma feminista acadêmica. Minhas maiores referências de feminismo estão crescendo junto comigo, são as muitas amigas que fiz nos últimos anos, seus blogs, suas postagens, seus embates políticos, as marchas que acontecem em várias cidades do país e muitos artigos. Resumindo, horas e horas de leitura na internet e conversas diárias. Tirando um ou outro livro clássico sobre feminismo, no geral, careço de fontes. No entanto, não acredito que isso me desmereça enquanto feminista, porque as experiências que vivi e aquelas que foram compartilhadas comigo também são enriquecedoras. 

E talvez seja por isso que demorei tanto para falar sobre travestis e transexuais. Porque eu AINDA não me debrucei sobre a teoria e isso é um grande empecilho na hora de comentar um assunto que no dia-a-dia é totalmente invisibilizado. Ainda agora, estou pisando em ovos. Por "invisibilidade" entendo não somente aos momentos em que as pessoas trans não aparecem nas nossas vidas, mas também aos momentos em que aparecem e são tratadas como uma aberração de circo, totalmente desumanizadas.

Cena de "Amor a Vida" em que
Valdirene discute com uma travesti
Quando uma pessoa trans ousa aparecer na TV, o primeiro recurso é sempre o do humor. Fazem questão de mostrar para o público que aquela pessoa é artificial e risível: O seio é de silicone, o batom é forte, a roupa é curta, a voz é sempre bem grossa, um jeito peculiar de falar ("falam errado"), é barraqueira e, muitas vezes, a pele é negra. Nenhuma dessas características é um problema, claro que não. O problema é aquilo que apreendemos delas. A questão é primeiramente o perfil único apresentado, e o depois, obviamente, problema está na transfobia, elitismo, machismo e racismo de rir dessas características.

Na TV a pessoa trans não tem família, não tem amigos, não namora, não vai ao cinema, não lê, não trabalha, não cozinha, não ama, não sofre e não existe enquanto ser humano. É apenas um momento de diversão para a família brasileira. Não há representação da pessoa trans, ninguém fala, por exemplo, de violência. A violência transfóbica mata todos os dias, mas aqui estamos nós, pessoas cis (ou seja, as pessoas que não são trans), rindo, sem nos dar conta que com isso contribuímos para que mais gente sofra violência.

Kadu (agressor de mulher) Moliterno e Evandro
Mesquita em cena de Bangbang, Personagens
eram homens cis que fingiam ser mulheres cis.
Tão horrível quanto isso, são as novelas e filmes em que homens cis se disfarçam de mulheres cis. O que também ajuda a formar uma visão distorcida do assunto, embora sejam coisas diferentes. Passamos a entender que homens que se vestem de mulheres são isso mesmo: homens cis e heterossexuais que fingem. Passamos a achar que são homens tentando invadir os espaços íntimos das mulheres. Que enquanto ele passa por mulher, tentará violentar-nos, nos ver em trajes íntimos enquanto inocentemente achamos que eles são elas, que eles obtém prazer não consensual em fingir ser como nós. E é exatamente por esse entendimento que há tanta polêmica em relação aos banheiros públicos, um espaço extremamente hostil para as pessoas transexuais e travestis. E isso é muito prejudicial.

Ao recusar a forma como a pessoa se identifica, negaremos tudo. Assim fazemos com que ela seja preterida em oportunidades de emprego, segregada dentro da própria família, objetificada na sociedade e, em última instância, vítima de crimes de ódio que podem chegar ao assassinato.

Há alguns dias, Walcyr Carrasco, autor da novela "Amor à vida" e gay, colocou no ar uma cena em que uma travesti era chamada de "traveca". Em meio às críticas, me recordei que Walcyr Carrasco é reincidente quando o assunto é preconceito transfóbico. Lembrei-me de ter lido um texto escrito por ele, certa vez, em que ele tratava travestis no masculino, criminalizava o tratamento hormonal precoce, e era extremamente autoritário e raso em toda a análise, mostrando que mesmo alguém que está debaixo do guarda-chuva LGBT pode ser muito ignorante quando o assunto é a sigla "T".

Teena Brandon, personagem de
Hillary Swank em "Meninos não choram"
A minha visão tolhida por anos e anos de desinformação começou a mudar lá no início dos anos 2000, quando eu assisti ao filme "Meninos não choram", baseado na história real de Teena Brandon, um homem trans que foi vítima de estupro corretivo e assassinato brutal motivado por transfobia. Infelizmente o filme não fala exatamente essa palavra: "transfobia". Eu, ignorante, achei que Teena era uma lésbica que queria ser homem. Confundi identidade e orientação sexual. Mesmo com essa visão limitada e muito errada, acabei percebendo que existe mais histórias do que insistem em nos mostrar na TV. E após conhecer pessoas realmente fantásticas, eu aprendi muito. Acho que somente o contato (e a pesquisa acadêmica) pode nos trazer mais conhecimento, pois se depender da grande mídia, FODEO.

São poucas as representações minimamente humanizadoras na TV. Houve uma novela recente, chamada "Aquele Beijo", em que havia uma personagem chamada "Ana Girafa" (porque ela não podia ter um nome normal, eu não sei). Ao menos essa novela mostrou o drama de ter uma mãe que rejeita a identidade da filha e um romance meramente insinuado, sem beijo e sem toque. E sempre que há algum grau de humanização a personagem é branca. Então fica a dica, transfobia, racismo, machismo e elitismo andam de mãos dadas. Travesti e transexual só entram na casa da família brasileira (essa instituição atrasada) se for para fazer rir ou em programa policial.

Bons Links:

Alegria Falhada
Transexualismo da depressão
Transfeminismo





terça-feira, 30 de julho de 2013

Feminismo poético

Imagem por Elisa Riemer
Uma santa foi quebrada

Uma santa foi quebrada,
Quebrou-se o silêncio,
Não foi barulho de gesso espatifado,
Foi barulho de corrente arrastada.

Quebraram a santa
por cada navio negreiro,
por cada fogueira inquisitória,
por cada imagem destruída de Umbanda.

Uma mulher dilacerada
Só choca se for de gesso,
Se a morte é clandestina,
Uma mulher é descartada.

Uma vadia foi julgada.

(Autoria: Gizelli Sousa)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A ministra e os racistas

Eu, que sou apenas uma moça latino americana sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda do interior, nunca viajei à Europa. Eu sei que dá para dividir em 12 vezes e não deve ser tão difícil assim para uma arquiteta. Certinho. Até dá. Mas eu tenho me interessado mais em conhecer os nossos países vizinhos. Eu nunca fui à Itália, nada contra, até tenho amigas que foram. Então tentarei não falar do país em si porque não quero soar injusta. 

Uma amiga querida, a Verô, escreveu esse texto superpowerfodão sobre a mulher negra e ~~metida~~. Recomendo, galera, sério. E ele não pára de fazer cada vez mais e mais sentido. No texto a Verô fala sobre como a mulher negra que tem boa autoestima é sempre alvo de comentários que tentarão diminuí-la.  Aqui um trechinho:

"Considerando que vivemos em um mundo em que negrxs são constantemente colocadxs “no seu lugar”, submetidxs a mercado de trabalho racista, mídia racista, padrão de beleza eurocêntrico, e tudo o mais, a autoestima de negrxs incomoda. É como se fosse uma ousadia, esse passar por cima do que lhe é imposto, passar por cima de tudo que tenta colocá-lx em seu lugar. Já escutei e muitos devem ter escutado pelo menos uma vez na vida a expressão “Que pretx metidx!” por parte de pessoas ao se referirem a negrxs que transparecem segurança e autoestima, em relação a própria aparência e/ou ao que faz e a posição na qual está, e sem se deixar intimidar. O que acontece muito comumente é, não essa expressão ser claramente proferida, mas que o conceito por trás dela fique implícito na fala, incômodo, e reação das pessoas." (Sério gente, prestigiem a Verônica Rocha, leiam o texto todo)

Enquanto a Verô essencialmente fala de padrões de beleza, acho importante frisar que o mesmo vale para mulheres que alcançam cargos importantes. Sempre há alguém tentando colocá-la em seu ~~devido lugar~~. A vítima da vez é a ministra Cécile Kyenge. Você sabe quem ela é? Basicamente você precisa saber cinco coisas.
Ministra Cécile Kyenge

- Cécile Kyenge é a ministra de integração da Itália. 
- Cécile Kyenge é nascida na República Democrática do Congo
- Cécile Kyenge é negra
- Cécile Kyenge tem posicionamentos antirracista, pró-LGBT, anti-xenofobia.

E o principal:

- Cécile Kyenge é a primeira mulher negra a integrar um Governo Italiano. 

Eu ainda fico chocada que estamos na fase dos "primeiros negros a". Aqui no Brasil temos o "primeiro negro a chegar à presidência do STF". Nos Estados Unidos, "primeiro negro a chegar à presidência", se for mulher então... Alguém consegue imaginar o dia em que elegeremos uma mulher negra para o cargo de presidenta aqui no Brasil? Eu não consigo, porque vejo racismo em todo lugar. Sabe aquela galera do mal que vê pelo em ovo? Prazer, sou eu. Os ovos do racismo são peludaços (porra, soou malzão). Enfim, voltando da Digressão, Cécile é pioneira. Desde que assumiu o posto, ela tem aguentado toda sorte de insulto racista que se pode imaginar. Vou listar os principais.

- "Será mesmo necessário um ministro de cor? Com todo o respeito pela senhora". Alessandro Loi, padre na paróquia de Lotzorai, na Sardenha.

Gente. Gente. AI, GENTE. Eu queria entender o que significa a palavra "respeito" para essa pessoa. Porque errou feio, errou rude. Respeito passou longe. Se na Itália for parecido com o Brasil, precisa-se muito de pessoas negras integrando governos, ocupando cargos de poder. Somente tornando o perfil dos governos menos homogêneo é que se pode pensar em representatividade democrática. Um governo de homens brancos  governará para homens brancos. Sabe quando o Lula causou polêmica em falar dos banqueiros loiros de olhos azuis? Ele estava certo. Faz vergonha esse perfil racial único. Em qualquer país. A ministra, essa maravilhosa, respondeu aos ataques em que a chamavam de "ministra de cor" da seguinte maneira:

"Não sou de cor, sou negra e digo-o com orgulho".

Amigos, Como não amar? Como é possível?

- Estão usando termos como "Zulu", "negra anti-italiana", "macaca congolesa" e "orangotango"em sites e blogs. Estão chamando o governo de Enrico Letta de "Governo bonga-bonga".

Todos os termos são racistas. Demonstram explicitamente o racismo. Um chute no saco do nosso complexo de viralatas. Na Itália, na Europa, esse continente tão desenvolvido, as ofensas raciais são iguaizinhas às que rolam por aqui. Sabe porquê? Porque ao contrário do que dizem ~~certos humoristas~~ chamar alguém de macaco é racismo. E é universal, porque reduz qualquer ser humano não a um animal qualquer, mas a um estágio evolutivo anterior. É como dizer que os negros são menos civilizados, são menos humanos. 

Vamos dar nomes aos bois? as ofensas têm vindo principalmente da extrema direita. Mas ainda sim, o que leva esse grupo a se pronunciar de forma tão escancarada sem sequer temer a opinião pública? Deve rolar uma boa abertura para isso. Eu disse que não falaria mal da Itália e não falarei pois felizmente nem só de racistas se faz um país. A própria Cécile afirmou:

“As reações aos insultos, que vejo no país, acabam por unir a Itália ‘boa’ e, quem sabe, ajudar a despertar muitas consciências, que durante anos estiveram um pouco adormecidas”.

Mario Borghezio, racista,
principal opositor de Cécile
-“uma boa dona de casa mas não uma ministra”. Mario Borghezio, deputado da Liga Norte, partido xenófobo que fazia parte da coligação do Silvio Berlusconi.

Ora, veja. Estava até demorando. Lá no início do texto eu disse que sempre há alguém tentando colocar as mulheres negras em seu ~~devido lugar~~ nesse caso, literalmente. Cécile sendo negra e mulher só pode ser dona de casa? Amigo, para começar a moça é médica. Esse desejo de relegar à mulher as tarefas domésticas evidencia o machismo. Mas sendo ela negra, a coisa é ainda muito pior, dado o histórico de escravidão dos povos africanos. Lembrei-me de Chimamanda Adichie falando dos perigos da História Única. Chimamanda reflete sobre como as pessoas costumam olhar para os povos africanos com paternalismo. Uma mulher africana, médica e, para choque de muitos, ministra em uma das maiores economias do mundo, deve ser um tapa na cara dos racistas. 

-"Por que alguém não a estupra, assim ela vai entender a experiência da vítima deste crime sangrento? Vergonha!". Dolores Valandro, vereadora do mesmo partido do Mário Borghezio.

O nível foi lá no subsolo. Esse comentário teve um viés xenófobo, pois a vereadora se referia aos estupros cometidos por imigrantes (Apesar de sabermos que os estupros em grande parte são cometidos dentro da família e com pessoas conhecidas, não é?). Até o partido reaça se manifestou e expulsou a tal vereadora. Ela está proibida de ocupar cargos públicos e foi condenada a um ano e e um mês de prisão, só que em regime aberto. Ou seja, foi condenada a nada, a não ser que pratique outro crime.

Em todos os casos anteriores, quando não se fez o silêncio, foram ouvidas desculpas vagas, justificativas vazias ("é só uma piada..."). Em 2009 o Parlamento Europeu advertiu que os episódios de racismo estavam aumentando na Itália, caracterizando uma violência sem precedentes. Hoje, a ministra está no centro das discussões sobre racismo no país e há alguns dias foi recebida com bananas jogadas por um manifestante em um comício em Cervia. Uma mulher negra (e nesse caso, africana) em posição de poder incomoda muito.

Bons links:


domingo, 28 de julho de 2013

O cristianismo quebra as nossas vidas

Essa semana aconteceu a Marcha das Vadias no RJ (Doravante, MDVRJ). A marcha das Vadias já se tornou um evento oficial do nosso calendário feminista. Porque consegue reunir pessoas no Brasil todo. O primeiro tópico questionado na marcha foi a questão da violência sexual, porém, hoje ela tem um teor muito político. As pessoas que se unem contra uma série de opressões distintas contra as mulheres e os LGBTs, afinal, muita da opressão que recai sobre eles tem origem na mesma questão: machismo. 

Imagem da MDVRJ 2013

Esse ano, como era de se esperar de uma manifestação política, ela veio questionar o status quo. Enquanto acontece a JMJ, Jornada Mundial da Juventude (que poderia se chamar JMJC, Jornada Mundial da Juventude Conservadora), acontece também a MDVRJ. Durante o protesto, alguns manifestantes realizaram um ato simbólico que eu nem sei se foi um ato da organização da marcha ou não, mas na verdade não importa muito, porque o feminismo é plural. O ato em questão foi a destruição de estátuas da religião católica. Eu preciso explicar a relação simbólica? Quebrar uma imagem significa: "Não nos submeteremos aos seus santos, aos seus credos, não acreditamos em vocês, não queremos que regulem nossas vidas" ou até mesmo:

Não regule os nossos ovários

Pois é, ato político não é feito para todo mundo gostar. Não é feito para ser essencialmente pacífico. Muitas vezes ele vem para marcar uma posição. E isso é importante porque a igreja vandaliza as nossas vidas diariamente, influenciando em Estados para evitar que pessoas do mesmo sexo sejam vistos como cidadãos comuns e insuflando a violência contra grupos LGBTs enquanto diz que Deus ama a ~~todos~~, regulando a sexualidade da mulher, condenando o divórcio, proibindo o uso de anticoncepcionais, insistindo num modelo de família que não representa boa parte da população, além, é claro de proibir o aborto e MATAR milhares de mulheres no mundo TODOS OS DIAS (isso para falar o mínimo, porque as opressões da igreja católica NÃO TÊM FIM).

Me choca mais o corpo dilacerado de uma mulher vítima de um aborto clandestino do que a imagem quebrada de um santo. Quem se choca com o santo quebrado, está confundindo a violência do opressor e a reação do oprimido. Nesse caso em específico, há oceanos de diferença entre um ato simbólico e um ato de violência. Se houve um ato simbólico que realmente impulsiona a violência foi a distribuição de bonequinhos em forma de feto, realizado pela própria igreja católica durante a JMJC. Isso sim gera o assassinato de milhões de pessoas.



Citando a Nádia Lapa, vocês repararam que os fetinhos distribuidos na JMJC são sempre brancos? Pois é, a igreja está cagando para as mulheres negras e pobres que estão em vulnerabilidade social muito maior que a mulher branca. Não adianta me dizer que a igreja merece respeito, que a religião católica deveria ser respeitada. Não deve. Eu não devo nada à uma religião que não se importa se eu acabar morrendo nas mãos de um açougueiro qualquer e que me nega o direito à humanidade plena. Isso sem contar o desrespeito sistemático da igreja católica (e evangélica) contra as religiões de matriz afro. Procure aí no google quantas imagens de umbanda já foram quebradas em nome das religiões cristãs. Seletivos esses críticos, não? Imagem de umbanda pode quebrar?

Sabe outra coisa que achei muito simbólica? Essa imagem aqui:

O papa é bope, o bope não poupa ninguém.

Amor cristão é ilusão (Tá aí, acho que na próxima marcha eu vou usar essa frase!). Não existe, nunca existiu. Uma instituição que sempre foi capitaneada por homens brancos, evidenciando seu caráter machista e racista, não merece respeito algum. Que se quebrem os santos e que sejam livres a sexualidade, as identidades de gênero, as relações, o ventre e a religiosidade (ou a falta dela).


Eu fico com a Luana Hansen:

"Hipocrisia, pra desconhecida é a punição
Mas se for da família é só tratar com discrição
Morre negra, morre jovem
Morre gente da favela,
Morre o povo que é carente
Que não passa na novela"



UPDATE: Se você é um manifestante que defende a depredação do patrimônio do Estado e das empresas que oprimem e lucram em cima do cidadão comum mas condena a destruição da imagem, você não é coerente. A religião cristã é tão ou mais opressora do que Estados e empresas. E você provavelmente é incapaz de questionar o próprio machismo.

UPDATE 2: Não sei a vericidade da informação, mas me disseram que o casal que quebrou a estátua era um casal indígena. Mais um peso simbólico, pois além de representar todas as coisas que falei, uma vez que foi um ato dentro da marcha das vadias, também simboliza a destruição da cultura indígena por parte da religião cristã. E mesmo que o casal não fosse indígena, esse tema NÃO DEVE ser descartado. As outras religiões também são alvo do vandalismo do cristianismo. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Afrodescendência perdida

Há algum tempo eu queria falar desse assunto, e não sabia bem por onde começar mas por ocasião do dia de ontem, 25 de julho, dia da mulher negra latinoamericana e caribenha, e dos textos da Liliane Gusmão e da Bianca Cardoso, que serviram de insight, de empurrão, estou me sentindo mais corajosa para tocar num assunto delicado: a minha afrodescendência perdida. 

Voltando um pouco (bem pouco, até) na minha ancestralidade, meu avô materno é negro, minha avó materna é filha de indígena. De um lado um homem negro, do outro uma mulher de pele clara (embora não branca) e cabelos lisos e negros. Eles geraram 8 filhos, um homem que não conheci e sete mulheres. Seis delas negras de cabelos lisos e negros, resquício da descendência indígena. Minha mãe foi a única dentre as irmãs que nasceu com a pele clara, mas de nariz largo, rosto com traços expressivos, sabe?

Euzinha
Sou parecida com a minha mãe. Se você me conhecer agora, verá uma pessoa branca, de cabelos ondulados, quase lisos. Meus traços não são ~~delicados~~, eu tenho um nariz arredondado, lábios grossos e um rosto que não transparece exatamente descendência européia. Não, definitivamente eu não me identifico com as pessoas que afirmam que são descendentes de europeus. Eu, branca, não me sinto assim.

Durante anos e anos da minha vida eu não parei para imaginar porque a minha mãe foi a única das irmãs que conseguiu estudar, porque ela foi a mulher que conseguiu vencer a pobreza, enquanto as minhas tias ainda estão em posição social difícil. E, apesar da grande determinação e espírito empreendedor da minha mãe, e de saber que não foi moleza para ela conseguir mudar a sua realidade social, está claro que o racismo é fator decisivo na perpetuação da pobreza na minha família. 

Até os meus 5 anos de vida, eu tinha cabelos lisos e loiros. Minha mãe, na época professora, me ensinou a ler em casa. Eu fui a melhor aluna do pré-escolar. Como estímulo à minha educação, me fizeram pular a primeira série do ensino fundamental. Eu fui direto para a segunda série. Os privilégios de ser uma mulher branca começam muito cedo. Enquanto há mulheres que se perguntam porque a professora do primário sequer encostava nelas, eu era querida e celebrada na escola. Ao mesmo tempo, quando adolescente, meu cabelo tinha escurecido, e havia mudado de compleição. Estavam mais cheios e não tinham o aspecto sedoso característico da eurodescendência. Meu cabelo tinha uma textura intermediária. E eu sofri algum bullying por causa disso.

Essa foi a primeira dica que eu tive de que não era uma mulher inteiramente branca. Acho bem tranquilo me assumir como afrodescendente, pois a negritude do meu avô foi determinante para a minha família toda viver o racismo, inclusive a minha mãe branca. Só para dar um exemplo, até pouco tempo atrás, minha mãe não tirava fotografias, porque tinha vergonha do próprio nariz, que era o aspecto mais marcante da sua afrodescendência. Chegou a fazer uma cirurgia plástica para deixá-lo mais afilado. Quando saio de casa não tenho medo de ser confundida com bandido, ninguém me olha com suspeita quando eu ando por aí. Eu não estou sujeita aos índices bárbaros de violência contra os negros, eu não sou rejeitada em entrevistas de emprego, as orportunidades não rarearam para mim por causa do tom da minha pele. Mas foi a negritude da minha família que sofreu o racismo que encerrou a todos num estado de pobreza, que botou dificuldades imensas para o meu avô alimentar uma família numerosa e que até hoje se recusa a garantir para as minhas tias o acesso aos serviços básicos do Estado (pois sabemos existir o racismo institucionalizado). Foi o racismo que fez com que uma parte da família do meu pai rejeitasse a minha mãe nos primeiros anos de seu relacionamento, embora a própria família do meu pai também seja afrodescendente. São muitas as histórias de apagamento.

As coisas não são tão claras quando o assunto é afrodescendência, nós não estudamos sobre, não conhecemos e não identificamos a negritude para além do fenótipo, entrando em outras questões, como por exemplo o quanto a afrodescendência é alvo de um racismo mascarado. Uma amiga querida, afrodescendente, uma vez disse que todos falavam que ela era apenas moreninha, até que ela fazia alguma coisa errada, aí alguém lembrava que era porque ela tinha ~~um pé na senzala~~. Sigo sem saber como me identificar (é possível se identificar como branca, já que não sofro o racismo direto, mas afrodescendente por causa do histórico da minha família? Ainda não tenho uma resposta e é tudo muito nebuloso, não chego a uma conclusão), mas fica cada dia mais evidente que não dá para continuar sem fazer essa reflexão. Porque o nosso fenótipo instintivamente nos leva a acreditar que somos brancos e ponto final? Apagando toda a nossa história pregressa? qual o interesse em nos fazer esquecer das nossas raízes?

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Feminismo é odiado

Imagem da página Revolução com Fofura

Feministas são... 

...chamadas de vadias porque dizem que as mulheres têm direito a sua própria sexualidade.
...chamadas de feias quando questionam os valores de uma sociedade patriarcal.
...chamadas de assassinas quando defendem o direito da mulher de decidir sobre a gravidez.
...desacreditadas quando apontam a existência da cultura do estupro.
...desumanizadas pois ao defender o direito ao próprio corpo não merecem respeito.
...ignoradas por dizer que mulheres não devem ser submissas.
...ridicularizadas por dizer que mulheres não aceitam um padrão de beleza racista, machista, gordofóbico e capacitista.
...diminuídas quando se unem à outros grupos militantes, pois seus problemas são sempre secundarizados.
...rejeitadas em suas próprias famílias por denunciar a violência doméstica, seja ela física ou psicológica.
...vilanizadas por achar que o modelo de família tradicional não é suficiente para representar a diversidade.
...ameaçadas por grupos fundamentalistas.
...persona non grata por afirmar que amar uma mulher não é possuí-la.
...estereotipadas como raivosas quando afirmam que as mulheres não devem ser silenciosas e nem silenciadas.
...temidas porque desejam que as mulheres tenham maior participação política e assumam mais cargos de poder.
...agredidas até por homens que teoricamente lutam ao seu lado.
...perseguidas porque a maior parte de seus opositores nem sequer sabe o que É o feminismo.

Feministas são odiadas porque são mulheres e porque defendem outras mulheres. O feminismo é odiado porque mulheres são odiadas.

Leia também: As feministas é que são chatas, por Aline Valek.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Literatura de/para/sobre mulher não é subgênero!

Desenhe um boneco de palitinho num quadro negro, em giz branco. E pergunte a qualquer um quem é aquela figura. 100% de certeza que é um homem, branco, cisgênero e heterossexual. Assim é na vida em praticamente tudo. Imagine x CEO de uma grande empresa. Imagine x presidente de uma nação. Imagine x protagonista de um filme de ação. Imagine x personagem central de um livro de aventura. Vou focar na literatura, pois mesmo personagens altamente libertárias como a Lisbeth Salander (Série Millenium - Stieg Larsson) só quebram em parte esse estereótipo: Mulher, branca, cisgênero, bissexual. Nesse texto tratarei apenas da questão de gênero, deixando as outras características para outros textos (vindouros, aguardem).

A literatura é dominada por homens. Por isso eu criei uma versão um pouco melhorada (acho) de um bechdel test, doravante chamarei de Teste Giza (Porque SIM!), que é meu atual critério para comprar/ler um livro:

- O livro é escrito por uma mulher?
- A personagem central é mulher?
- O interesse romântico em um homem, caso haja, é secundário para a trama?

Isso, obviamente, não vai medir o grau de feminismo, vai apenas determinar se os livros que são escritos por e para mulheres são sobre mulheres. Imagine que fosse o contrário, quantos livros você conhece que são escritos por homens? com protagonismo masculino e cujos interesses românticos são secundários para a trama? Aí ficou fácil, não é? Essa pesquisa aqui sobre o panorama brasileiro comprova bem o problema.

Aguardo o dia em que a normatização sobre a literatura não seja tão grande a ponto de existir um gênero desviante que é "para mulheres". Ou seja, que o protagonismo masculino deixe de ser padrão e que ser mulher deixe de carregar o estigma de ser sub-qualquer coisa. 

Por que é importante ler livros escritos por mulheres? 

O teste Bechdel original não contém informações sobre quem está por trás da história. Talvez porque realizar um filme é uma competência de muitas pessoas, o que tornaria difícil a análise. Mas um livro é escrito por um autor ou por poucas mãos, o que facilitaria. O nome está na capa, não custa dar uma olhadinha rápida. É importante ler livros de mulheres porque o olhar masculino sobre as mulheres tem sido em grande escala ou misógino, ou paternalista. De princesas que precisam ser salvas à pedaços de carne que precisam ser devoradas (metaforicamente). Livros como a série Millenium, escritos por um homem e com olhar igualitário sobre as mulheres, são raros. Muito raros.

Aguardando ansiosa o dia que essa linda <3 vai
escrever livros sobre Hermiones e não sobre Harrys.

Dia desses, estava lendo Game of Thrones. O mundo lá retratado é muito similar ao nosso no tocante à misoginia, ainda que as mulheres do livro sejam em sua maioria personagens maravilhosas, ricas em complexidade. Enfim, me surpreendi com um trecho em que Danaerys adentrava um recinto onde só havia homens, em sua maioria desconhecidos. Ela quase que instintivamente procura por outra mulher no recinto. Não encontra e, por isso, se sente desconfortável. Esse pequeno trecho, que poderia passar completamente despercebido, demonstra que o autor naquele momento teve uma enorme empatia pelas mulheres de forma geral. Qual mulher se sentiu segura em um ambiente completamente masculino? Eu nunca me senti. Lembro-me das muitas vezes em que desci praticamente na última parada de ônibus, tarde da noite, voltando da faculdade. Quantas vezes não tive medo ao ficar sozinha com o motorista, o cobrador e um ou dois gatos pingados desconhecidos dentro do ônibus? Esse tipo de pensamento pode vir num lampejo de empatia de um autor homem, mas vem naturalmente quando a autora é mulher, porque ela vive esses sentimentos o tempo todo.

Saindo um pouco da literatura para o cinema (oi, maior digressão do mundo, lembra?), quando a Pixar lançou "Valente", o que mais ouvi por aí foram críticas. Diziam que era um filme sem muita ação. Diziam que era um filme sem muita comédia. Diziam tanta coisa que eu desanimei o suficiente para não criar expectativas, mas qual não foi a minha surpresa ao assistir o filme e me deparar com grande parte da minha vida ali, naquela tela? Eu e minha mãe sempre tão parceiras, tão amigas e tão diferentes, passamos boa parte da nossa vida discutindo essas diferenças. Já repararam como é raro que se trate a fundo dessa relação entre mãe e filha? Ou que, quando o fazem, uma das duas sempre sai como vilã? Valente é um filme com não uma, mas duas protagonistas que se amam. É um filme que não gira em torno dos homens que estão na vida delas, mas apenas do amadurecimento e fortalecimento daquela relação entre mulheres. Se fosse um livro passaria com louvor no meu personal Giza test for books.

Além disso é importantíssimo parar de normatizar a profissão de escritor como uma profissão masculina. Recomendo esse texto.

Por que é importante que as personagens centrais sejam mulheres? 

Para que possamos nos sentir representadas e empoderadas. É ótimo encontrar personagens como a Hermione (Harry Potter - J.K Rowling), que é a aluna mais inteligente da grifinória, possivelmente de Hogwarts. É ótimo encontrar personagens como a Michonne (The Walking Dead - Robert Kirkman), que é uma guerreira negra e badass num mundo onde a maior parte da população foi dizimada. Porém, nenhuma dessas personagens são autônomas de fato nessas aventuras, pois são secundarizadas e eclipsadas pelo protagonismo masculino. Pense aí como seria foda um The Walking Dead sob a liderança da Michonne? 

Katniss Badass Everdeen
Sabe aquele estereótipo de que nerd é tudo um bando de adolescente espinhento de mão peluda que não tem namorada porque as garotas em geral desprezam a cultura nerd? Deixa eu contar um segredo: é o oposto. Mulheres são desprezadas pela cultura. Imperam o paternalismo e a misoginia. Não nos sentindo plenamente representadas, muitas de nós, nerds em potencial, acabam por trilhar outros caminhos. Por não se interessar por games, por exemplo! A Anita Sarkeesian recentemente criticou o fato de não haver nenhum jogo para XBOX One com protagonismo feminino entre os lançamentos anunciados esse ano. Sacou? Temos sido sistematicamente excluídas ou eclipsadas na literatura, nos games, no cinema e etc.

Por que é importante que o interesse romântico não seja prioritário para a trama?

Recentemente, várias autoras tem escrito livros com protagonismo feminino (o que é ótimo), porém, as histórias giram em torno de homens (o que é péssimo). Mesmo os livros que são escritos para um público feminino, são sobre homens. A presença masculina é o fio condutor das histórias que as mulheres lêem. É importante que personagens masculinos sejam secundários, para que o protagonismo seja feminino DE FATO. Pois na nossa sociedade atual, não há equilíbrio entre essa relação, mesmo um protagonismo dividido pode facilmente se tornar paternalista.

Não leio porque não me
empodera, mas não julgo quem lê.
Observe, por exemplo, que segundo esse teste que propus, nenhum livro da Jane Austen passaria. Eu amo Jane Austen. Acho que a obra dela busca a quebra de paradigmas da sociedade em que ela vivia, onde casamentos eram arranjados entre pessoas de mesma classe social. Ela questiona em sua obra várias questões: Se o casamento entre pessoas de classe social diferente deveria ser probido, se mulheres devem casar por interesse e por fim, o próprio casamento arranjado em si, que é fruto de um relacionamento (ou nem isso) sem amor. Porém, uma vez que o assunto tratado é a questão do casamento e da vida conjugal, pode-se dizer que os livros tratam do relacionamento de mulheres e homens. 

Isso que estou falando parece contrariar a idéia do primeiro tópico? Ou seja, antes eu disse que mulheres empatizam melhor com mulheres por compartilhar experiências similares, mas agora eu digo que algumas de nós estão escrevendo histórias que não nos empoderam e isso soa estranho? Bom, a verdade é que uma das experiências universalmente compartilhadas por nós é a internalização do machismo. Crescemos ouvindo o patriarcado ditar as regras sobre as nossas vidas e muitas vezes acreditamos nele. Acreditamos nele quando nos contaram histórias de princesas presas em torres, aguardando príncipes. Ouvimos o patriarcado quando nossos pais dizem que nosso irmão pode sair à noite, mas nós não. Prestamos atenção quando aquele carinha disse que aquela menina era rodada e sem valor. E principalmente acreditamos no patriarcado quando ele falou que não podemos confiar umas nas outras. Enfim, tantas mentiras foram colocadas dentro de nós que um teste anti-patriarcado precisaria de uma prova de Vestibular padrão CESPE para encontrar uma obra que de fato não fosse machista. 

Então, eu acho importante não julgar, não condenar a mulher que está escrevendo histórias românticas e parar de achar que todas as críticas direcionadas ao gênero literário Chiklit (por exemplo: Becky Bloom, Bridget Jones e, acho que até Crepúsculo se enquadra), são críticas literárias. Há muito de misoginia, tanto contra as escritoras quanto contra suas personagens, mas  principalmente, contra seu público.

E aí, Giza, o que você recomenda, então?

OLHA não está fácil. Tenho 5 livros (na verdade são sagas literárias) para recomendar. E essa lista vai aumentar conforme eu progredir nas leituras encalhadas.

Momento lindo da Marji em Persépolis

- Persépolis, de Marjane Satrapi (Quatro volumes, existe uma edição única). Esse livro merece um texto só para ele, mas adianto que a autobiografia de uma iraniana que tem como pano de fundo o cenário político do Irã, de crescente repressão às liberdades civis.

- As Brumas de Avalon, de Marion Bradley Zimmer (Quatro livros). Old but gold. Pegue uma história contada e recontada sob a ótica masculina e conte-a novamente, só que dando voz às mulheres. Essa é a premissa. É maravilhoso.

- Jogos Vorazes, de Suzane Collins (Três livros). Aqui há um terreno cinzento na questão dos relacionamentos amorosos, se eles são ou não secundários, contudo eu consigo ver que sim, é uma história sobre uma mulher lutando uma guerra sozinha. E é notório que a personagem é muito solitária, então creio que passa no Teste Giza. 

- Caminhos de Sangue, de Moira Young (Três livros, só li o primeiro até agora). A Saba começa a história sendo a sombra do irmão. A própria personagem diz isso, mas ela vai crescendo ao longo do primeiro livro até se tornar autônoma. É ela que embarca em uma aventura para salvar o irmão. É ela a heroína (e para falar a verdade, o irmão mal aparece). 

- Divergente, de Veronica Roth (Três livros, apenas dois lançados). Ai gente, ai gente, será? Não sei ainda, estou em dúvida. Estou aguardando o melhor.

P.S.: Aceito sugestões.

UPDATE: Até mesmo as capas dos livros para mulheres são gritantemente diferentes, veja nesse link.
UPDATE 2: Passar no Teste Giza não assegura qualidade, apenas aponta o protagonismo feminino dentro (personagem) e fora (escritoras) da ficção.