Eu, que sou apenas uma moça latino americana sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda do interior, nunca viajei à Europa. Eu sei que dá para dividir em 12 vezes e não deve ser tão difícil assim para uma arquiteta. Certinho. Até dá. Mas eu tenho me interessado mais em conhecer os nossos países vizinhos. Eu nunca fui à Itália, nada contra, até tenho amigas que foram. Então tentarei não falar do país em si porque não quero soar injusta.
Uma amiga querida, a Verô, escreveu esse texto superpowerfodão sobre a mulher negra e ~~metida~~. Recomendo, galera, sério. E ele não pára de fazer cada vez mais e mais sentido. No texto a Verô fala sobre como a mulher negra que tem boa autoestima é sempre alvo de comentários que tentarão diminuí-la. Aqui um trechinho:
"Considerando que vivemos em um mundo em que negrxs são constantemente colocadxs “no seu lugar”, submetidxs a mercado de trabalho racista, mídia racista, padrão de beleza eurocêntrico, e tudo o mais, a autoestima de negrxs incomoda. É como se fosse uma ousadia, esse passar por cima do que lhe é imposto, passar por cima de tudo que tenta colocá-lx em seu lugar. Já escutei e muitos devem ter escutado pelo menos uma vez na vida a expressão “Que pretx metidx!” por parte de pessoas ao se referirem a negrxs que transparecem segurança e autoestima, em relação a própria aparência e/ou ao que faz e a posição na qual está, e sem se deixar intimidar. O que acontece muito comumente é, não essa expressão ser claramente proferida, mas que o conceito por trás dela fique implícito na fala, incômodo, e reação das pessoas." (Sério gente, prestigiem a Verônica Rocha, leiam o texto todo)
Enquanto a Verô essencialmente fala de padrões de beleza, acho importante frisar que o mesmo vale para mulheres que alcançam cargos importantes. Sempre há alguém tentando colocá-la em seu ~~devido lugar~~. A vítima da vez é a ministra Cécile Kyenge. Você sabe quem ela é? Basicamente você precisa saber cinco coisas.
"Considerando que vivemos em um mundo em que negrxs são constantemente colocadxs “no seu lugar”, submetidxs a mercado de trabalho racista, mídia racista, padrão de beleza eurocêntrico, e tudo o mais, a autoestima de negrxs incomoda. É como se fosse uma ousadia, esse passar por cima do que lhe é imposto, passar por cima de tudo que tenta colocá-lx em seu lugar. Já escutei e muitos devem ter escutado pelo menos uma vez na vida a expressão “Que pretx metidx!” por parte de pessoas ao se referirem a negrxs que transparecem segurança e autoestima, em relação a própria aparência e/ou ao que faz e a posição na qual está, e sem se deixar intimidar. O que acontece muito comumente é, não essa expressão ser claramente proferida, mas que o conceito por trás dela fique implícito na fala, incômodo, e reação das pessoas." (Sério gente, prestigiem a Verônica Rocha, leiam o texto todo)
Enquanto a Verô essencialmente fala de padrões de beleza, acho importante frisar que o mesmo vale para mulheres que alcançam cargos importantes. Sempre há alguém tentando colocá-la em seu ~~devido lugar~~. A vítima da vez é a ministra Cécile Kyenge. Você sabe quem ela é? Basicamente você precisa saber cinco coisas.
- Cécile Kyenge é a ministra de integração da Itália.
- Cécile Kyenge é nascida na República Democrática do Congo
- Cécile Kyenge é negra
- Cécile Kyenge tem posicionamentos antirracista, pró-LGBT, anti-xenofobia.
E o principal:
- Cécile Kyenge é a primeira mulher negra a integrar um Governo Italiano.
Eu ainda fico chocada que estamos na fase dos "primeiros negros a". Aqui no Brasil temos o "primeiro negro a chegar à presidência do STF". Nos Estados Unidos, "primeiro negro a chegar à presidência", se for mulher então... Alguém consegue imaginar o dia em que elegeremos uma mulher negra para o cargo de presidenta aqui no Brasil? Eu não consigo, porque vejo racismo em todo lugar. Sabe aquela galera do mal que vê pelo em ovo? Prazer, sou eu. Os ovos do racismo são peludaços (porra, soou malzão). Enfim, voltando da Digressão, Cécile é pioneira. Desde que assumiu o posto, ela tem aguentado toda sorte de insulto racista que se pode imaginar. Vou listar os principais.
- "Será mesmo necessário um ministro de cor? Com todo o respeito pela senhora". Alessandro Loi, padre na paróquia de Lotzorai, na Sardenha.
Gente. Gente. AI, GENTE. Eu queria entender o que significa a palavra "respeito" para essa pessoa. Porque errou feio, errou rude. Respeito passou longe. Se na Itália for parecido com o Brasil, precisa-se muito de pessoas negras integrando governos, ocupando cargos de poder. Somente tornando o perfil dos governos menos homogêneo é que se pode pensar em representatividade democrática. Um governo de homens brancos governará para homens brancos. Sabe quando o Lula causou polêmica em falar dos banqueiros loiros de olhos azuis? Ele estava certo. Faz vergonha esse perfil racial único. Em qualquer país. A ministra, essa maravilhosa, respondeu aos ataques em que a chamavam de "ministra de cor" da seguinte maneira:
"Não sou de cor, sou negra e digo-o com orgulho".
Amigos, Como não amar? Como é possível?
"Não sou de cor, sou negra e digo-o com orgulho".
Amigos, Como não amar? Como é possível?
- Estão usando termos como "Zulu", "negra anti-italiana", "macaca congolesa" e "orangotango"em sites e blogs. Estão chamando o governo de Enrico Letta de "Governo bonga-bonga".
Todos os termos são racistas. Demonstram explicitamente o racismo. Um chute no saco do nosso complexo de viralatas. Na Itália, na Europa, esse continente tão desenvolvido, as ofensas raciais são iguaizinhas às que rolam por aqui. Sabe porquê? Porque ao contrário do que dizem ~~certos humoristas~~ chamar alguém de macaco é racismo. E é universal, porque reduz qualquer ser humano não a um animal qualquer, mas a um estágio evolutivo anterior. É como dizer que os negros são menos civilizados, são menos humanos.
Vamos dar nomes aos bois? as ofensas têm vindo principalmente da extrema direita. Mas ainda sim, o que leva esse grupo a se pronunciar de forma tão escancarada sem sequer temer a opinião pública? Deve rolar uma boa abertura para isso. Eu disse que não falaria mal da Itália e não falarei pois felizmente nem só de racistas se faz um país. A própria Cécile afirmou:
“As reações aos insultos, que vejo no país, acabam por unir a Itália ‘boa’ e, quem sabe, ajudar a despertar muitas consciências, que durante anos estiveram um pouco adormecidas”.
“As reações aos insultos, que vejo no país, acabam por unir a Itália ‘boa’ e, quem sabe, ajudar a despertar muitas consciências, que durante anos estiveram um pouco adormecidas”.
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| Mario Borghezio, racista, principal opositor de Cécile |
Ora, veja. Estava até demorando. Lá no início do texto eu disse que sempre há alguém tentando colocar as mulheres negras em seu ~~devido lugar~~ nesse caso, literalmente. Cécile sendo negra e mulher só pode ser dona de casa? Amigo, para começar a moça é médica. Esse desejo de relegar à mulher as tarefas domésticas evidencia o machismo. Mas sendo ela negra, a coisa é ainda muito pior, dado o histórico de escravidão dos povos africanos. Lembrei-me de Chimamanda Adichie falando dos perigos da História Única. Chimamanda reflete sobre como as pessoas costumam olhar para os povos africanos com paternalismo. Uma mulher africana, médica e, para choque de muitos, ministra em uma das maiores economias do mundo, deve ser um tapa na cara dos racistas.
-"Por que alguém não a estupra, assim ela vai entender a experiência da vítima deste crime sangrento? Vergonha!". Dolores Valandro, vereadora do mesmo partido do Mário Borghezio.
O nível foi lá no subsolo. Esse comentário teve um viés xenófobo, pois a vereadora se referia aos estupros cometidos por imigrantes (Apesar de sabermos que os estupros em grande parte são cometidos dentro da família e com pessoas conhecidas, não é?). Até o partido reaça se manifestou e expulsou a tal vereadora. Ela está proibida de ocupar cargos públicos e foi condenada a um ano e e um mês de prisão, só que em regime aberto. Ou seja, foi condenada a nada, a não ser que pratique outro crime.
Em todos os casos anteriores, quando não se fez o silêncio, foram ouvidas desculpas vagas, justificativas vazias ("é só uma piada..."). Em 2009 o Parlamento Europeu advertiu que os episódios de racismo estavam aumentando na Itália, caracterizando uma violência sem precedentes. Hoje, a ministra está no centro das discussões sobre racismo no país e há alguns dias foi recebida com bananas jogadas por um manifestante em um comício em Cervia. Uma mulher negra (e nesse caso, africana) em posição de poder incomoda muito.
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