sexta-feira, 26 de julho de 2013

Afrodescendência perdida

Há algum tempo eu queria falar desse assunto, e não sabia bem por onde começar mas por ocasião do dia de ontem, 25 de julho, dia da mulher negra latinoamericana e caribenha, e dos textos da Liliane Gusmão e da Bianca Cardoso, que serviram de insight, de empurrão, estou me sentindo mais corajosa para tocar num assunto delicado: a minha afrodescendência perdida. 

Voltando um pouco (bem pouco, até) na minha ancestralidade, meu avô materno é negro, minha avó materna é filha de indígena. De um lado um homem negro, do outro uma mulher de pele clara (embora não branca) e cabelos lisos e negros. Eles geraram 8 filhos, um homem que não conheci e sete mulheres. Seis delas negras de cabelos lisos e negros, resquício da descendência indígena. Minha mãe foi a única dentre as irmãs que nasceu com a pele clara, mas de nariz largo, rosto com traços expressivos, sabe?

Euzinha
Sou parecida com a minha mãe. Se você me conhecer agora, verá uma pessoa branca, de cabelos ondulados, quase lisos. Meus traços não são ~~delicados~~, eu tenho um nariz arredondado, lábios grossos e um rosto que não transparece exatamente descendência européia. Não, definitivamente eu não me identifico com as pessoas que afirmam que são descendentes de europeus. Eu, branca, não me sinto assim.

Durante anos e anos da minha vida eu não parei para imaginar porque a minha mãe foi a única das irmãs que conseguiu estudar, porque ela foi a mulher que conseguiu vencer a pobreza, enquanto as minhas tias ainda estão em posição social difícil. E, apesar da grande determinação e espírito empreendedor da minha mãe, e de saber que não foi moleza para ela conseguir mudar a sua realidade social, está claro que o racismo é fator decisivo na perpetuação da pobreza na minha família. 

Até os meus 5 anos de vida, eu tinha cabelos lisos e loiros. Minha mãe, na época professora, me ensinou a ler em casa. Eu fui a melhor aluna do pré-escolar. Como estímulo à minha educação, me fizeram pular a primeira série do ensino fundamental. Eu fui direto para a segunda série. Os privilégios de ser uma mulher branca começam muito cedo. Enquanto há mulheres que se perguntam porque a professora do primário sequer encostava nelas, eu era querida e celebrada na escola. Ao mesmo tempo, quando adolescente, meu cabelo tinha escurecido, e havia mudado de compleição. Estavam mais cheios e não tinham o aspecto sedoso característico da eurodescendência. Meu cabelo tinha uma textura intermediária. E eu sofri algum bullying por causa disso.

Essa foi a primeira dica que eu tive de que não era uma mulher inteiramente branca. Acho bem tranquilo me assumir como afrodescendente, pois a negritude do meu avô foi determinante para a minha família toda viver o racismo, inclusive a minha mãe branca. Só para dar um exemplo, até pouco tempo atrás, minha mãe não tirava fotografias, porque tinha vergonha do próprio nariz, que era o aspecto mais marcante da sua afrodescendência. Chegou a fazer uma cirurgia plástica para deixá-lo mais afilado. Quando saio de casa não tenho medo de ser confundida com bandido, ninguém me olha com suspeita quando eu ando por aí. Eu não estou sujeita aos índices bárbaros de violência contra os negros, eu não sou rejeitada em entrevistas de emprego, as orportunidades não rarearam para mim por causa do tom da minha pele. Mas foi a negritude da minha família que sofreu o racismo que encerrou a todos num estado de pobreza, que botou dificuldades imensas para o meu avô alimentar uma família numerosa e que até hoje se recusa a garantir para as minhas tias o acesso aos serviços básicos do Estado (pois sabemos existir o racismo institucionalizado). Foi o racismo que fez com que uma parte da família do meu pai rejeitasse a minha mãe nos primeiros anos de seu relacionamento, embora a própria família do meu pai também seja afrodescendente. São muitas as histórias de apagamento.

As coisas não são tão claras quando o assunto é afrodescendência, nós não estudamos sobre, não conhecemos e não identificamos a negritude para além do fenótipo, entrando em outras questões, como por exemplo o quanto a afrodescendência é alvo de um racismo mascarado. Uma amiga querida, afrodescendente, uma vez disse que todos falavam que ela era apenas moreninha, até que ela fazia alguma coisa errada, aí alguém lembrava que era porque ela tinha ~~um pé na senzala~~. Sigo sem saber como me identificar (é possível se identificar como branca, já que não sofro o racismo direto, mas afrodescendente por causa do histórico da minha família? Ainda não tenho uma resposta e é tudo muito nebuloso, não chego a uma conclusão), mas fica cada dia mais evidente que não dá para continuar sem fazer essa reflexão. Porque o nosso fenótipo instintivamente nos leva a acreditar que somos brancos e ponto final? Apagando toda a nossa história pregressa? qual o interesse em nos fazer esquecer das nossas raízes?

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Feminismo é odiado

Imagem da página Revolução com Fofura

Feministas são... 

...chamadas de vadias porque dizem que as mulheres têm direito a sua própria sexualidade.
...chamadas de feias quando questionam os valores de uma sociedade patriarcal.
...chamadas de assassinas quando defendem o direito da mulher de decidir sobre a gravidez.
...desacreditadas quando apontam a existência da cultura do estupro.
...desumanizadas pois ao defender o direito ao próprio corpo não merecem respeito.
...ignoradas por dizer que mulheres não devem ser submissas.
...ridicularizadas por dizer que mulheres não aceitam um padrão de beleza racista, machista, gordofóbico e capacitista.
...diminuídas quando se unem à outros grupos militantes, pois seus problemas são sempre secundarizados.
...rejeitadas em suas próprias famílias por denunciar a violência doméstica, seja ela física ou psicológica.
...vilanizadas por achar que o modelo de família tradicional não é suficiente para representar a diversidade.
...ameaçadas por grupos fundamentalistas.
...persona non grata por afirmar que amar uma mulher não é possuí-la.
...estereotipadas como raivosas quando afirmam que as mulheres não devem ser silenciosas e nem silenciadas.
...temidas porque desejam que as mulheres tenham maior participação política e assumam mais cargos de poder.
...agredidas até por homens que teoricamente lutam ao seu lado.
...perseguidas porque a maior parte de seus opositores nem sequer sabe o que É o feminismo.

Feministas são odiadas porque são mulheres e porque defendem outras mulheres. O feminismo é odiado porque mulheres são odiadas.

Leia também: As feministas é que são chatas, por Aline Valek.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Literatura de/para/sobre mulher não é subgênero!

Desenhe um boneco de palitinho num quadro negro, em giz branco. E pergunte a qualquer um quem é aquela figura. 100% de certeza que é um homem, branco, cisgênero e heterossexual. Assim é na vida em praticamente tudo. Imagine x CEO de uma grande empresa. Imagine x presidente de uma nação. Imagine x protagonista de um filme de ação. Imagine x personagem central de um livro de aventura. Vou focar na literatura, pois mesmo personagens altamente libertárias como a Lisbeth Salander (Série Millenium - Stieg Larsson) só quebram em parte esse estereótipo: Mulher, branca, cisgênero, bissexual. Nesse texto tratarei apenas da questão de gênero, deixando as outras características para outros textos (vindouros, aguardem).

A literatura é dominada por homens. Por isso eu criei uma versão um pouco melhorada (acho) de um bechdel test, doravante chamarei de Teste Giza (Porque SIM!), que é meu atual critério para comprar/ler um livro:

- O livro é escrito por uma mulher?
- A personagem central é mulher?
- O interesse romântico em um homem, caso haja, é secundário para a trama?

Isso, obviamente, não vai medir o grau de feminismo, vai apenas determinar se os livros que são escritos por e para mulheres são sobre mulheres. Imagine que fosse o contrário, quantos livros você conhece que são escritos por homens? com protagonismo masculino e cujos interesses românticos são secundários para a trama? Aí ficou fácil, não é? Essa pesquisa aqui sobre o panorama brasileiro comprova bem o problema.

Aguardo o dia em que a normatização sobre a literatura não seja tão grande a ponto de existir um gênero desviante que é "para mulheres". Ou seja, que o protagonismo masculino deixe de ser padrão e que ser mulher deixe de carregar o estigma de ser sub-qualquer coisa. 

Por que é importante ler livros escritos por mulheres? 

O teste Bechdel original não contém informações sobre quem está por trás da história. Talvez porque realizar um filme é uma competência de muitas pessoas, o que tornaria difícil a análise. Mas um livro é escrito por um autor ou por poucas mãos, o que facilitaria. O nome está na capa, não custa dar uma olhadinha rápida. É importante ler livros de mulheres porque o olhar masculino sobre as mulheres tem sido em grande escala ou misógino, ou paternalista. De princesas que precisam ser salvas à pedaços de carne que precisam ser devoradas (metaforicamente). Livros como a série Millenium, escritos por um homem e com olhar igualitário sobre as mulheres, são raros. Muito raros.

Aguardando ansiosa o dia que essa linda <3 vai
escrever livros sobre Hermiones e não sobre Harrys.

Dia desses, estava lendo Game of Thrones. O mundo lá retratado é muito similar ao nosso no tocante à misoginia, ainda que as mulheres do livro sejam em sua maioria personagens maravilhosas, ricas em complexidade. Enfim, me surpreendi com um trecho em que Danaerys adentrava um recinto onde só havia homens, em sua maioria desconhecidos. Ela quase que instintivamente procura por outra mulher no recinto. Não encontra e, por isso, se sente desconfortável. Esse pequeno trecho, que poderia passar completamente despercebido, demonstra que o autor naquele momento teve uma enorme empatia pelas mulheres de forma geral. Qual mulher se sentiu segura em um ambiente completamente masculino? Eu nunca me senti. Lembro-me das muitas vezes em que desci praticamente na última parada de ônibus, tarde da noite, voltando da faculdade. Quantas vezes não tive medo ao ficar sozinha com o motorista, o cobrador e um ou dois gatos pingados desconhecidos dentro do ônibus? Esse tipo de pensamento pode vir num lampejo de empatia de um autor homem, mas vem naturalmente quando a autora é mulher, porque ela vive esses sentimentos o tempo todo.

Saindo um pouco da literatura para o cinema (oi, maior digressão do mundo, lembra?), quando a Pixar lançou "Valente", o que mais ouvi por aí foram críticas. Diziam que era um filme sem muita ação. Diziam que era um filme sem muita comédia. Diziam tanta coisa que eu desanimei o suficiente para não criar expectativas, mas qual não foi a minha surpresa ao assistir o filme e me deparar com grande parte da minha vida ali, naquela tela? Eu e minha mãe sempre tão parceiras, tão amigas e tão diferentes, passamos boa parte da nossa vida discutindo essas diferenças. Já repararam como é raro que se trate a fundo dessa relação entre mãe e filha? Ou que, quando o fazem, uma das duas sempre sai como vilã? Valente é um filme com não uma, mas duas protagonistas que se amam. É um filme que não gira em torno dos homens que estão na vida delas, mas apenas do amadurecimento e fortalecimento daquela relação entre mulheres. Se fosse um livro passaria com louvor no meu personal Giza test for books.

Além disso é importantíssimo parar de normatizar a profissão de escritor como uma profissão masculina. Recomendo esse texto.

Por que é importante que as personagens centrais sejam mulheres? 

Para que possamos nos sentir representadas e empoderadas. É ótimo encontrar personagens como a Hermione (Harry Potter - J.K Rowling), que é a aluna mais inteligente da grifinória, possivelmente de Hogwarts. É ótimo encontrar personagens como a Michonne (The Walking Dead - Robert Kirkman), que é uma guerreira negra e badass num mundo onde a maior parte da população foi dizimada. Porém, nenhuma dessas personagens são autônomas de fato nessas aventuras, pois são secundarizadas e eclipsadas pelo protagonismo masculino. Pense aí como seria foda um The Walking Dead sob a liderança da Michonne? 

Katniss Badass Everdeen
Sabe aquele estereótipo de que nerd é tudo um bando de adolescente espinhento de mão peluda que não tem namorada porque as garotas em geral desprezam a cultura nerd? Deixa eu contar um segredo: é o oposto. Mulheres são desprezadas pela cultura. Imperam o paternalismo e a misoginia. Não nos sentindo plenamente representadas, muitas de nós, nerds em potencial, acabam por trilhar outros caminhos. Por não se interessar por games, por exemplo! A Anita Sarkeesian recentemente criticou o fato de não haver nenhum jogo para XBOX One com protagonismo feminino entre os lançamentos anunciados esse ano. Sacou? Temos sido sistematicamente excluídas ou eclipsadas na literatura, nos games, no cinema e etc.

Por que é importante que o interesse romântico não seja prioritário para a trama?

Recentemente, várias autoras tem escrito livros com protagonismo feminino (o que é ótimo), porém, as histórias giram em torno de homens (o que é péssimo). Mesmo os livros que são escritos para um público feminino, são sobre homens. A presença masculina é o fio condutor das histórias que as mulheres lêem. É importante que personagens masculinos sejam secundários, para que o protagonismo seja feminino DE FATO. Pois na nossa sociedade atual, não há equilíbrio entre essa relação, mesmo um protagonismo dividido pode facilmente se tornar paternalista.

Não leio porque não me
empodera, mas não julgo quem lê.
Observe, por exemplo, que segundo esse teste que propus, nenhum livro da Jane Austen passaria. Eu amo Jane Austen. Acho que a obra dela busca a quebra de paradigmas da sociedade em que ela vivia, onde casamentos eram arranjados entre pessoas de mesma classe social. Ela questiona em sua obra várias questões: Se o casamento entre pessoas de classe social diferente deveria ser probido, se mulheres devem casar por interesse e por fim, o próprio casamento arranjado em si, que é fruto de um relacionamento (ou nem isso) sem amor. Porém, uma vez que o assunto tratado é a questão do casamento e da vida conjugal, pode-se dizer que os livros tratam do relacionamento de mulheres e homens. 

Isso que estou falando parece contrariar a idéia do primeiro tópico? Ou seja, antes eu disse que mulheres empatizam melhor com mulheres por compartilhar experiências similares, mas agora eu digo que algumas de nós estão escrevendo histórias que não nos empoderam e isso soa estranho? Bom, a verdade é que uma das experiências universalmente compartilhadas por nós é a internalização do machismo. Crescemos ouvindo o patriarcado ditar as regras sobre as nossas vidas e muitas vezes acreditamos nele. Acreditamos nele quando nos contaram histórias de princesas presas em torres, aguardando príncipes. Ouvimos o patriarcado quando nossos pais dizem que nosso irmão pode sair à noite, mas nós não. Prestamos atenção quando aquele carinha disse que aquela menina era rodada e sem valor. E principalmente acreditamos no patriarcado quando ele falou que não podemos confiar umas nas outras. Enfim, tantas mentiras foram colocadas dentro de nós que um teste anti-patriarcado precisaria de uma prova de Vestibular padrão CESPE para encontrar uma obra que de fato não fosse machista. 

Então, eu acho importante não julgar, não condenar a mulher que está escrevendo histórias românticas e parar de achar que todas as críticas direcionadas ao gênero literário Chiklit (por exemplo: Becky Bloom, Bridget Jones e, acho que até Crepúsculo se enquadra), são críticas literárias. Há muito de misoginia, tanto contra as escritoras quanto contra suas personagens, mas  principalmente, contra seu público.

E aí, Giza, o que você recomenda, então?

OLHA não está fácil. Tenho 5 livros (na verdade são sagas literárias) para recomendar. E essa lista vai aumentar conforme eu progredir nas leituras encalhadas.

Momento lindo da Marji em Persépolis

- Persépolis, de Marjane Satrapi (Quatro volumes, existe uma edição única). Esse livro merece um texto só para ele, mas adianto que a autobiografia de uma iraniana que tem como pano de fundo o cenário político do Irã, de crescente repressão às liberdades civis.

- As Brumas de Avalon, de Marion Bradley Zimmer (Quatro livros). Old but gold. Pegue uma história contada e recontada sob a ótica masculina e conte-a novamente, só que dando voz às mulheres. Essa é a premissa. É maravilhoso.

- Jogos Vorazes, de Suzane Collins (Três livros). Aqui há um terreno cinzento na questão dos relacionamentos amorosos, se eles são ou não secundários, contudo eu consigo ver que sim, é uma história sobre uma mulher lutando uma guerra sozinha. E é notório que a personagem é muito solitária, então creio que passa no Teste Giza. 

- Caminhos de Sangue, de Moira Young (Três livros, só li o primeiro até agora). A Saba começa a história sendo a sombra do irmão. A própria personagem diz isso, mas ela vai crescendo ao longo do primeiro livro até se tornar autônoma. É ela que embarca em uma aventura para salvar o irmão. É ela a heroína (e para falar a verdade, o irmão mal aparece). 

- Divergente, de Veronica Roth (Três livros, apenas dois lançados). Ai gente, ai gente, será? Não sei ainda, estou em dúvida. Estou aguardando o melhor.

P.S.: Aceito sugestões.

UPDATE: Até mesmo as capas dos livros para mulheres são gritantemente diferentes, veja nesse link.
UPDATE 2: Passar no Teste Giza não assegura qualidade, apenas aponta o protagonismo feminino dentro (personagem) e fora (escritoras) da ficção.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Tris, a Insurgente.

Retomando a programação normal deste blog, chegou a hora de falar de "Insurgente", a segunda parte da trilogia da Veronica Roth. O texto está um pouco atrasado, uma vez que o livro já foi lançado há algum tempo? Sim. Mas foi o tempo necessário para eu entender se gostei ou não do livro. Vou logo adiantando que contém spoilers.


Não sei se é o momento do mundo interferindo na arte, mas está rolando uma tendência de histórias de luta contra Estados opressores, a exemplo de Jogos Vorazes. E isso é bom. São livros com idéias esquerdistas, com questionamento da ordem e viés social. Em insurgente, começamos o livro sabendo que os planos da facção Erudição, de tomar para si o controle político exercido pela Abnegação, usando os membros da Audácia, foram destruídos por Tris e Quatro. Porém, não exatamente. E agora, mais que nunca, os divergentes (pessoas que se identificam com várias facções e não são controladas pelas simulações) estão em perigo. Assim como os líderes da Abnegação, que estão sendo exterminados. E muitas pessoas determinadas a não se unir a erudição acabaram virando "sem facção".

- Marcus Eaton, a incógnita:

Marcus Eaton, o pai de Quatro, que conhecemos somente através da paisagem do medo empunhando um cinto contra o filho, continua sendo apenas isso. Em nenhum momento o personagem revelou um pouco mais de si mesmo, nem demonstrou ter mais tonalidades de cinza. Sou radicalmente contra bater em criança, fui criada sem palmada. E acho importante que a Veronica sutilmente questione mais uma dessas coisas que passam despercebidas numa sociedade doente: bater em criança é violência. Mas esperava mais do Marcus, nem que fosse mais vilanias. Parece que falta alguma coisa nessa história.

- Amizade, muito diferente do meu conceito:

Eu não sei quais são os amigos da Verônica, mas na minha visão, a amizade, enquanto conceito, não ficaria em cima do muro. Amizade é mais do que isso, tem a ver com identificação, carinho e também proteção. Não é amizade se você não toma partido, aí é diplomacia. Quem é amigo de todos, não é amigo de ninguém. Amizade é algo mais amplo e profundo do que não ter inimizades. A facção amizade se mostrou fraca e nada amiga. Quando eu penso em amizade, eu penso em Sororidade. Sororidade, para quem não sabe, é aquilo que existe entre Cristina e Tris, o sentimento de irmandade, que é tão forte entre as duas que fez com que Cristina perdoasse a Tris pelo assassinato do seu namorado, o Will. Que fez com que nem mesmo isso as colocasse em lugares diametralmente opostos. Para mim, ESSE é o relacionamento mais bonito do livro.

- Quatro e Tris:


Ok, isso será polêmico. Eu já disse no meu texto anterior sobre divergente que gosto do casal Q&T. Mas algo me incomodava que me incomodava no primeiro livro mudou E MUITO no segundo. No primeiro livro, eu ficava mais feliz em ler as partes em que o silêncio falava mais do que os dois personagens, e eu digo isso porque quando o Quatro abria a boca o relacionamento desequilibrava. Quatro estava lá para guiar a Tris. Na jornada do herói, pode-se dizer que ele era o tutor dela. Isso é bem paternalista. E gente, desculpa dizer, mas uma personagem feminina forte que é tutelada por um homem que é o seu par romântico perde parte de sua força. Digo isso porque numa sociedade machista, ter autonomia é importante. No primeiro livro, salvo algumas passagens, como quando a Tris sobe a roda gigante, ou ajuda o Quatro na paisagem do medo É ELE e não ela, quem dá as ordens, quem ensina, quem diz o que precisa ser feito e como (rola até liçãozinha de moral). No final de divergente, genialmente, é ela que tem maior grau de divergência e precisa salvá-lo e a todas as pessoas. Difícil saber se há um equilíbrio no primeiro livro, é quase como se eles dividissem o protagonismo.

Em insurgente, diferentemente do primeiro livro, a Tris questiona o Quatro. Ela desobedece, ela desiste dele pelo que acredita. E isso, amigos, é ter autonomia. É se desvincilhar daquele que é ao mesmo tempo tutor e príncipe encatando e dizer: "Estou tomando as rédeas da minha vida". É discordar. A Tris cresceu nesse livro quando discutiu e se afastou do Quatro. Ainda que seja doloroso vê-la sofrer.

- O que espero para "Allegiant", ou "O que eu quero, Mário Alberto?"

Me parece que vai ser uma alegoria do mito da caverna, de Platão. Quero saber o que está do lado de fora da cerca. 
Quero entender de vez em qual lado dança o Caleb. 
Quero saber quem é o Marcus Eaton .
Quero ver Cristina e Tris como grandes amigas.
Quero que o Quatro passe a ouvir a Tris, coisa que ele não fez durante todo o segundo livro (e quebrou a cara, né?).
Quero que chegue logo, porque eu realmente não faço a menor idéia do que virá e estou muito curiosa!

P.S.: Leia também o meu texto sobre o primeiro livro.

domingo, 16 de junho de 2013

Um alerta: Tentativa de sequestro dos movimentos sociais

Ganhei um ingresso para assistir ao jogo de ontem e fui. Quem comprou este ingresso foi o meu pai, um senhor de 60 anos, petista, que nunca antes tinha assistido a um jogo em Estádio. Muito menos um jogo da seleção brasileira. E que não sabia se poderia arcar com o custo de um ingresso para o jogo da seleção na Copa do Mundo de 2014. Meu pai, como muitas outras pessoas, compraram este ingresso um ano antes da partida. Por isso, não sem algum remorso, eu fui ao jogo. Quando vi a manifestação do lado de fora, eu falei para a minha mãe que se não estivesse dentro do estádio, estaria do lado de fora protestando também. Contraditório? provavelmente. Eu não apóio a copa e não a "financio", como disseram, ao menos não sozinha. Os investimentos para esses eventos vieram do bolso do cidadão comum, com certeza veio de quem estava se manifestando contra o evento também. Minha mãe, também petista, falou algo que na hora eu neguei: "Essa manifestação deve ser coisa da oposição". Expliquei para ela que o povo está insatisfeito, que não é coisa da oposição. Que os investimentos na copa foram imensos em detrimento da saúde, educação e etc. Além disso eu conheço pessoas que estavam lá fora, sei que não estão ali por nenhum partido.

Mas devo concordar que é a ocasião perfeita para a oposição ser oportunista e tentar transformar o movimento em uma discussão meramente anti-PT. Se não acredita em mim, dá uma olhada na capa da veja dessa semana.

Não estão chamando jovem de bandido, vândalos ou violentos. Estão marotamente sugerindo uma pauta: corrupção. Mas a corrupção DE QUEM? Sabemos que a veja é super a favor da apuração da corrupção, desde que ela seja do PT, enquanto esquenta as costas de políticos do PSDB. Eu não ouvi ninguém por aí falar que o Aécio Neves é réu a ser julgado pelo desvio de 4,3 bilhões da saúde. Sabemos o posicionamento político da revista VEJA. Sabemos que por ideologia, ela seria contra os movimentos sociais, porém, não é realmente curioso que o teor tenha mudado? Reinaldo Azevedo, reaça de carteirinha, fez um texto que em resumo fala o seguinte: Violência em São Paulo (a do Alckmin, do PSDB) foi justificada por atos de vandalismo, porém a insatisfação dos jovens é com a política de transportes do prefeito (Haddad, do PT) e que a violência do governador do DF (Agnelo, do PT) contra os manifestantes durante a Copa das Confederações foi injustificada porque o protesto era pacífico. Veja só a tentativa de sequestro que parece começar a acontecer aí.

Bem antes disso, durante os protestos contra o deputado Marcos Feliciano em Brasília, a presidenta Dilma deixou clara a sua posição através do silêncio e da omissão. Uma anuência silenciosa que é fruto da "governabilidade". E nesse momento, de repente, o Aécio Neves diz que é a favor do casamento igualitário, tentando cooptar as pessoas que estão insatisfeitas com essa postura do governo, mas sem de fato defender a causa. Não estou vendo o Aécio militar pelo casamento igualitário, como faz, por exemplo, o deputado Jean Wyllys. Como sabemos, há uma grande diferença entre o falar e o fazer dos políticos, daí a explicação para tanta contradição ideológica.

Eu sou filha de petistas. Meus pais nunca votaram pelo PSDB (ou qualquer outro partido). São pessoas cegas pelo PT, agarradas ao que o partido um dia já foi. Eu não. Consigo ver a diferença do PT de Erundina e o PT de Haddad. Mas mesmo isso não me faz acreditar que entregar o nosso país nas mãos da direita seja a solução para os problemas. Agora é a revista VEJA, mas outros virão. Outros oportunistas tentarão nos convencer de que governos de direita são melhores. Precisamos estar preparados para negar.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Remember, remember, the 13th of june

Eu quero falar de revolução. Quero falar dos protestos em São Paulo mas também quero falar de Zumbi. Você certamente já ouviu falar de Zumbi dos Palmares, talvez você tenha muito mais informação sobre ele do que eu. Mas se você, assim como eu até pouco tempo atrás, o conhece apenas dos livros de História do ensino médio, então você deveria pesquisar um pouco mais. Quer ver como você (provavelmente) sabe pouco? Aqui vão dois Zumbi Facts.

- Zumbi é neto de Aqualtune.

Aqualtune foi uma princesa africana, que em uma guerra entre reinos foi derrotada e transformada em escrava, veio ao Brasil em um Navio Negreiro e desceu no porto de Recife. Vendida como escrava reprodutora. Ao saber de sua origem e que alguns escravos a veneravam, o homem que a comprou a entregou aos seus homens para que a estuprassem. O estupro, desde os tempos mais remotos é uma arma de guerra eficaz no propósito de controlar e aterrorizar. Mesmo nessa realidade intolerável, ela fugiu para o "Reino dos Palmares", que já existia desde 1606. É bom falar disso porque as mulheres são inegavelmente apagadas da história. Deixadas de lado.

- Zumbi nasceu mais de 200 anos antes da assinatura da Lei Áurea

Sabe o que isso significa? que mentiram para você. Não foi uma nobre branca e rica que magicamente acabou com a escravidão. A escravidão sempre encontrou resistência nos negros que aqui viviam. MAIS DE DUZENTOS ANOS ANTES, um quilombo vencia inúmeras batalhas contra a opressão racista da capitania e abrigava mais de 30 mil negros sob a liderançã de Zumbi. A assinatura da Lei Áurea não foi favor nenhum, foi apenas a constatação da elite que a escravidão já tinha seus dias contados.

Aqui em casa, temos uma máscara do Guy Fawkes. Aquele cara que queria detonar um parlamento. Que tornou-se popular com os quadrinhos do Alan Moore e posteriormente virou até filme. Aquele cara que simboliza a face da revolução anônima. Pois é, numa nação em que a história não fosse contada de forma tão unilateral (ao menos dentro das escolas). A face da nossa revolução poderia ser Zumbi. Fiz toda essa digressão para falar que o apagamento da insurgência é comum no Brasil. Parece que tudo aqui veio como uma permissão da boa elite: Foi a boa elite que libertou os escravos, que garantiu a independência do Brasil, que concedeu às mulheres o direito de votar. Enfim, sempre as elites olhando de cima para baixo com um olhar paternalista.

Só que não é assim. Elite nenhuma quis dar direitos ao trabalhador. Esses direitos foram conquistados. Parece óbvio, mas não é. Quantas vezes eu precisei argumentar em discussões com pessoas que acreditam que os seus direitos cairiam dos céus sobre seus colos apenas porque eles fizeram o favor de existir? Muitas. "Mas por quê?" eu me perguntei. E cheguei a um dos possíveis motivos: a informação não fluía. Estávamos presos no quadradinho da mídia tradicional antes da chegada da internet e das redes sociais. Um modelo defasado de informação que se concentra na mão de mais ou menos uma dezena e meia de famílias. Tudo o que entendíamos do mundo era filtrado por essas vozes. As pessoas falam em "formadores de opinião" sem compreender o quanto isso é profundo. São muito. São demais. E eram muito mais ainda antes. 

Dizem que o brasileiro é acomodado, que não luta. Bom, vou falar da minha experiência. Na época em que a minha visão de mundo se resumia a ler um jornal e assistir TV nos poucos canais abertos eu não sabia o que era o feminismo. Eu acreditava que era um movimento de gente carrancuda, que era tão ruim quanto ser machista (e eu sequer imaginava o quanto eu era machista!). E hoje, se não fosse a internet que me mudou por inteiro, eu poderia acreditar que o que está acontecendo no Brasil é obra de vândalos. A História continua sendo contada por uma boa elite que quer salvar o cidadão de bem da violência e do vandalismo. Que chama manifestante de bandido, que chama ocupação de invasão. E tudo isso é importante para manter um discurso hierarquizado e higienista. Em que existe um "eu" e um "eles" (bem separados, por favor), mas nunca um "nós" (Nota: Leia aqui um texto legal da Charô sobre como ela se sente assistindo o programa do Datena).

O brasileiro antes de ser acomodado, era mal informado. E não é mais. Existe aí uma juventude inconformada que não está atrás apenas de 20 centavos, mas de justiça social. Um pessoal que questiona o que é o vandalismo quando ele vem como reação à um Estado opressor e que percebe a realidade à sua volta de maneira muito nítida e a compartilha. criam elos, geram o "nós". Sempre houve insurgência, o que não havia era informação circulando com liberdade (ainda que vez ou outra censurada no facebook). O que não havia era uma troca tão massiva. Agora existe e isso está decretando uma mudança necessária na nossa forma de reinvindicar os nossos direitos. 

imagem dessa página aqui
Assim como a escravidão teve o seu fim (apesar de ainda convivermos com o racismo e as reminiscências desse período doloroso da nossa história) a mídia tradicional também começa a ser demolida. Afogando-se em suas próprias contradições. A editora Abril que o diga. E isso, queridos, é mais um passo na construção de uma sociedade mais justa e horizontalmente organizada. 

Malcolm X disse: "Se você não for cuidadoso os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar aquelas que estão oprimindo". E é por isso que a revolução não será televisionada, ela será compartilhada e retuitada.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

ESTÁ-TUDO-UMA-MERDA: O Estatuto do Nascituro

Está difícil, Brasil. Está difícil continuar te amando.

Foi aprovado hoje na Comissão de Finanças e Tributação o Estatuto do Nascituro, que ainda deverá ser aprovado na CCJ e levado a plenário para ter força de lei. Basicamente isso significa que o Estado tem dinheiro para nos matar. Traduzindo o juridiquês, o Estatuto do Nascituro, doravante Bolsa Estupro, diz que:

Foto tirada hoje, peguei aqui


- O óvulo fecundado tem mais direitos que você, mulher. Mais direitos que a sua mãe, sua irmã, sua tia, sua vizinha, suas amigas e suas filhas.

- Se você, sua mãe, sua irmã, sua tia, sua vizinha, suas amigas ou suas filhas forem estupradas, serão OBRIGADAS a levar a gravidez adiante. A gravidez que é fruto do HORROR de um estupro. Não importando também que a mulher tenha 9, 18, 20, ou 40 anos. Não importa.

- Quando a criança, fruto do estupro, nascer e o estuprador for localizado, ele terá o direito da paternidade, devendo pagar pensão e (de acordo com direito de paternidade, né?) infere-se que ele pode receber visitas dos filhos. Ou seja, a mãe ainda terá que levar a criança para o estuprador passar os finais de semana. Não é maravilhoso?

- No caso do estuprador não ser localizado, a mulher receberá uma pensão do Estado para manter aquela criança. Isso foi aprovado na Comissão de finanças sem nenhum estudo que mostre qual o valor necessário para se criar um filho, quanto custa manter uma criança nesse Brasil cada dia mais caro? Além disso e mais importante: Foda-se se você tiver que conviver diariamente com o trauma. Foda-se você e a sua autonomia. Foda-se a sua saúde psicológica.

- O aborto ainda que espontâneo deverá ser criminalmente investigado e a mulher poderá ser indiciada por aborto culposo (!?). 

- Se a mulher tiver algum problema de saúde como, por exemplo, câncer, ela será impedida de fazer tratamento de quimioterapia para não abortar (e aí morrem os dois, né? mas quem se importa?).

- Também criminaliza o aborto de fetos sem sobrevida, como os anencéfalos. Veja esse vídeo.

- Quem falar de aborto será preso. Reservem minha cela.

Sugestões de nomes alternativos para o Estatuto do Nascituro que são mais condizentes com a realidade do projeto:

- Estatuto do ABRIU AS PERNAS AGORA SE VIRA

- Estatuto do QUEM MANDOU ANDAR DE ROUPA CURTA? ESTAVA PEDINDO PARA SER ESTUPRADA

- Estatuto do NINGUÉM MANDOU BEBER NA BALADA. PEDIU PARA SER ESTUPRADA.

- Estatuto do ELA SÓ TEM NOVE ANOS MAS SABIA O QUE ESTAVA FAZENDO

- Estatuto do HOJE EM DIA SÓ ENGRAVIDA QUEM QUER

- Estatuto do BEM FEITO, QUEM MANDOU SER VADIA

- Estatuto do ESTUPRADOR TAMBÉM PODE SER UM BOM PAI PARA O SEU BEBÊ

- Estatuto do QUE TRAUMA? FODA-SE O SEU TRAUMA

- Estatuto do EU (CISHOMEM, BRANCO, HETEROSSEXUAL, RICO E CRISTÃO) MANDO NO CORPO DE TODAS AS MULHERES

- Estatuto do ESTÁ CADA DIA MAIS DIFÍCIL SER MULHER NO BRASIL

- Estatuto do CORRAUM PARA O URUGUAI AMIGUES

- ESTÁ-TUDO-UMA-MERDA

Se você tem uma filha, mesmo que ela tenha apenas 9 anos de idade, pense na possibilidade de ela ser estuprada hoje ou amanhã e engravidar. Pense no fardo que colocará nas costas dela se apoiar essa bizarrice de Estatuto do Nascituro. Vamos torcer para que a CCJ, hoje nas mãos do PT, um partido bastante arregão e que come nas mãos da bancada evangélica barre essa proposta sem noção que cerceia ainda mais os direitos humanos.

PS.1: Assine a petição contra essa atrocidade.
PS.2: E está na hora de sairmos nas ruas para mostrar quem manda nos nossos corpos.
PS.3: Se você é PRÓ-MORTE das mulheres e veio falar em nome de DELS aqui, cai fora. Não vou aceitar seu comentário.