Desenhe um boneco de palitinho num quadro negro, em giz branco. E pergunte a qualquer um quem é aquela figura. 100% de certeza que é um homem, branco, cisgênero e heterossexual. Assim é na vida em praticamente tudo. Imagine x CEO de uma grande empresa. Imagine x presidente de uma nação. Imagine x protagonista de um filme de ação. Imagine x personagem central de um livro de aventura. Vou focar na literatura, pois mesmo personagens altamente libertárias como a Lisbeth Salander (Série Millenium - Stieg Larsson) só quebram em parte esse estereótipo: Mulher, branca, cisgênero, bissexual. Nesse texto tratarei apenas da questão de gênero, deixando as outras características para outros textos (vindouros, aguardem).
A literatura é dominada por homens. Por isso eu criei uma versão um pouco melhorada (acho) de um bechdel test, doravante chamarei de Teste Giza (Porque SIM!), que é meu atual critério para comprar/ler um livro:
- O livro é escrito por uma mulher?
- A personagem central é mulher?
- O interesse romântico em um homem, caso haja, é secundário para a trama?
Isso, obviamente, não vai medir o grau de feminismo, vai apenas determinar se os livros que são escritos por e para mulheres são sobre mulheres. Imagine que fosse o contrário, quantos livros você conhece que são escritos por homens? com protagonismo masculino e cujos interesses românticos são secundários para a trama? Aí ficou fácil, não é?
Essa pesquisa aqui sobre o panorama brasileiro comprova bem o problema.
Aguardo o dia em que a normatização sobre a literatura não seja tão grande a ponto de existir um gênero desviante que é "para mulheres". Ou seja, que o protagonismo masculino deixe de ser padrão e que ser mulher deixe de carregar o estigma de ser sub-qualquer coisa.
Por que é importante ler livros escritos por mulheres?
O teste Bechdel original não contém informações sobre quem está por trás da história. Talvez porque realizar um filme é uma competência de muitas pessoas, o que tornaria difícil a análise. Mas um livro é escrito por um autor ou por poucas mãos, o que facilitaria. O nome está na capa, não custa dar uma olhadinha rápida. É importante ler livros de mulheres porque o olhar masculino sobre as mulheres tem sido em grande escala ou misógino, ou paternalista. De princesas que precisam ser salvas à pedaços de carne que precisam ser devoradas (metaforicamente). Livros como a série Millenium, escritos por um homem e com olhar igualitário sobre as mulheres, são raros. Muito raros.
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Aguardando ansiosa o dia que essa linda <3 vai
escrever livros sobre Hermiones e não sobre Harrys. |
Dia desses, estava lendo Game of Thrones. O mundo lá retratado é muito similar ao nosso no tocante à misoginia, ainda que as mulheres do livro sejam em sua maioria personagens maravilhosas, ricas em complexidade. Enfim, me surpreendi com um trecho em que Danaerys adentrava um recinto onde só havia homens, em sua maioria desconhecidos. Ela quase que instintivamente procura por outra mulher no recinto. Não encontra e, por isso, se sente desconfortável. Esse pequeno trecho, que poderia passar completamente despercebido, demonstra que o autor naquele momento teve uma enorme empatia pelas mulheres de forma geral. Qual mulher se sentiu segura em um ambiente completamente masculino? Eu nunca me senti. Lembro-me das muitas vezes em que desci praticamente na última parada de ônibus, tarde da noite, voltando da faculdade. Quantas vezes não tive medo ao ficar sozinha com o motorista, o cobrador e um ou dois gatos pingados desconhecidos dentro do ônibus? Esse tipo de pensamento pode vir num lampejo de empatia de um autor homem, mas vem naturalmente quando a autora é mulher, porque ela vive esses sentimentos o tempo todo.
Saindo um pouco da literatura para o cinema (oi, maior digressão do mundo, lembra?), quando a Pixar lançou "Valente", o que mais ouvi por aí foram críticas. Diziam que era um filme sem muita ação. Diziam que era um filme sem muita comédia. Diziam tanta coisa que eu desanimei o suficiente para não criar expectativas, mas qual não foi a minha surpresa ao assistir o filme e me deparar com grande parte da minha vida ali, naquela tela? Eu e minha mãe sempre tão parceiras, tão amigas e tão diferentes, passamos boa parte da nossa vida discutindo essas diferenças. Já repararam como é raro que se trate a fundo dessa relação entre mãe e filha? Ou que, quando o fazem, uma das duas sempre sai como vilã? Valente é um filme com não uma, mas duas protagonistas que se amam. É um filme que não gira em torno dos homens que estão na vida delas, mas apenas do amadurecimento e fortalecimento daquela relação entre mulheres. Se fosse um livro passaria com louvor no meu personal Giza test for books.
Além disso é importantíssimo parar de normatizar a profissão de escritor como uma profissão masculina. Recomendo
esse texto.
Por que é importante que as personagens centrais sejam mulheres?
Para que possamos nos sentir representadas e empoderadas. É ótimo encontrar personagens como a Hermione (Harry Potter - J.K Rowling), que é a aluna mais inteligente da grifinória, possivelmente de Hogwarts. É ótimo encontrar personagens como a Michonne (The Walking Dead - Robert Kirkman), que é uma guerreira negra e badass num mundo onde a maior parte da população foi dizimada. Porém, nenhuma dessas personagens são autônomas de fato nessas aventuras, pois são secundarizadas e eclipsadas pelo protagonismo masculino. Pense aí como seria foda um The Walking Dead sob a liderança da Michonne?
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| Katniss Badass Everdeen |
Sabe aquele estereótipo de que nerd é tudo um bando de adolescente espinhento de mão peluda que não tem namorada porque as garotas em geral desprezam a cultura nerd? Deixa eu contar um segredo: é o oposto. Mulheres são desprezadas pela cultura. Imperam o paternalismo e a misoginia. Não nos sentindo plenamente representadas, muitas de nós, nerds em potencial, acabam por trilhar outros caminhos. Por não se interessar por games, por exemplo! A
Anita Sarkeesian recentemente criticou o fato de não haver nenhum jogo para XBOX One com protagonismo feminino entre os lançamentos anunciados esse ano. Sacou? Temos sido sistematicamente excluídas ou eclipsadas na literatura, nos games, no cinema e etc.
Por que é importante que o interesse romântico não seja prioritário para a trama?
Recentemente, várias autoras tem escrito livros com protagonismo feminino (o que é ótimo), porém, as histórias giram em torno de homens (o que é péssimo). Mesmo os livros que são escritos para um público feminino, são sobre homens. A presença masculina é o fio condutor das histórias que as mulheres lêem. É importante que personagens masculinos sejam secundários, para que o protagonismo seja feminino DE FATO. Pois na nossa sociedade atual, não há equilíbrio entre essa relação, mesmo um protagonismo dividido pode facilmente se tornar paternalista.
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Não leio porque não me
empodera, mas não julgo quem lê. |
Observe, por exemplo, que segundo esse teste que propus, nenhum livro da Jane Austen passaria. Eu amo Jane Austen. Acho que a obra dela busca a quebra de paradigmas da sociedade em que ela vivia, onde casamentos eram arranjados entre pessoas de mesma classe social. Ela questiona em sua obra várias questões: Se o casamento entre pessoas de classe social diferente deveria ser probido, se mulheres devem casar por interesse e por fim, o próprio casamento arranjado em si, que é fruto de um relacionamento (ou nem isso) sem amor. Porém, uma vez que o assunto tratado é a questão do casamento e da vida conjugal, pode-se dizer que os livros tratam do relacionamento de mulheres e homens.
Isso que estou falando parece contrariar a idéia do primeiro tópico? Ou seja, antes eu disse que mulheres empatizam melhor com mulheres por compartilhar experiências similares, mas agora eu digo que algumas de nós estão escrevendo histórias que não nos empoderam e isso soa estranho? Bom, a verdade é que uma das experiências universalmente compartilhadas por nós é a internalização do machismo. Crescemos ouvindo o patriarcado ditar as regras sobre as nossas vidas e muitas vezes acreditamos nele. Acreditamos nele quando nos contaram histórias de princesas presas em torres, aguardando príncipes. Ouvimos o patriarcado quando nossos pais dizem que nosso irmão pode sair à noite, mas nós não. Prestamos atenção quando aquele carinha disse que aquela menina era rodada e sem valor. E principalmente acreditamos no patriarcado quando ele falou que não podemos confiar umas nas outras. Enfim, tantas mentiras foram colocadas dentro de nós que um teste anti-patriarcado precisaria de uma prova de Vestibular padrão CESPE para encontrar uma obra que de fato não fosse machista.
Então, eu acho importante não julgar, não condenar a mulher que está escrevendo histórias românticas e parar de achar que todas as críticas direcionadas ao gênero literário Chiklit (por exemplo: Becky Bloom, Bridget Jones e, acho que até Crepúsculo se enquadra), são críticas literárias. Há muito de misoginia, tanto contra as escritoras quanto contra suas personagens, mas principalmente, contra seu público.
E aí, Giza, o que você recomenda, então?
OLHA não está fácil. Tenho 5 livros (na verdade são sagas literárias) para recomendar. E essa lista vai aumentar conforme eu progredir nas leituras encalhadas.
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| Momento lindo da Marji em Persépolis |
- Persépolis, de Marjane Satrapi (Quatro volumes, existe uma edição única). Esse livro merece um texto só para ele, mas adianto que a autobiografia de uma iraniana que tem como pano de fundo o cenário político do Irã, de crescente repressão às liberdades civis.
- As Brumas de Avalon, de Marion Bradley Zimmer (Quatro livros). Old but gold. Pegue uma história contada e recontada sob a ótica masculina e conte-a novamente, só que dando voz às mulheres. Essa é a premissa. É maravilhoso.
- Jogos Vorazes, de Suzane Collins (Três livros). Aqui há um terreno cinzento na questão dos relacionamentos amorosos, se eles são ou não secundários, contudo eu consigo ver que sim, é uma história sobre uma mulher lutando uma guerra sozinha. E é notório que a personagem é muito solitária, então creio que passa no Teste Giza.
- Caminhos de Sangue, de Moira Young (Três livros, só li o primeiro até agora). A Saba começa a história sendo a sombra do irmão. A própria personagem diz isso, mas ela vai crescendo ao longo do primeiro livro até se tornar autônoma. É ela que embarca em uma aventura para salvar o irmão. É ela a heroína (e para falar a verdade, o irmão mal aparece).
- Divergente, de Veronica Roth (Três livros, apenas dois lançados). Ai gente, ai gente, será? Não sei ainda, estou em dúvida. Estou aguardando o melhor.
P.S.: Aceito sugestões.
UPDATE: Até mesmo as capas dos livros para mulheres são gritantemente diferentes, veja nesse link.
UPDATE 2: Passar no Teste Giza não assegura qualidade, apenas aponta o protagonismo feminino dentro (personagem) e fora (escritoras) da ficção.