Eu, Brasília e Legião Urbana
"E João aceitou sua proposta
E num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal"
A primeira vez que entendi um pouco de Legião foi em uma aula de interpretação de texto. A letra era "Pais e filhos". De tanto ouvir, a música tinha ficado um pouco automática, isso acontece comigo com relativa frequência. Eu ouvia sem interpretar, ou ao menos sem interpretar com todas as camadas que ela possui. Felizmente, uma professora de português fez o favor de desvendar algumas daquelas camadas para mim e para a minha turma e eu voltei a ouvir Legião.
Apesar de gostar, não sou fã de Legião, mas fui uma adolescente em Brasília. Não eram os anos 80 e sim final dos anos 90 e a presença do Legião Urbana continuava por aí, entre rodinhas de amigos. Houve momentos até em que eu cheguei a pensar: "chega, não aguento mais esses fãs de Legião", pois eles eram muitos e estavam em todos os lugares. Ainda estão. Hoje, tenho uma prima adolescente que escuta Legião, demonstrando que a força da banda por aqui ainda é grande.
Acredito que muito dessa força venha de uma sensação que poucas vezes tive na música brasileira: imersão. Eu sei o quem e o onde do qual as letras tratam. Eu morei na Ceilândia. Eu estudei na Asa Norte. Eu tenho família em Planaltina. Eu tenho amigos em Taguatinga. Passei várias vésperas de natal e réveillons observando as luzes e os fogos na Esplanada dos Ministérios. Toda essa digressão para dizer que é bem legal, para variar, não ouvir músicas que falam apenas das esquinas de São Paulo e das praias do Rio de Janeiro.
Esse contato com Legião Urbana me deixou um pouco temerosa de assistir ao filme "Faroeste Caboclo". Em parte por medo de como Brasília seria registrada, pois a representação da cidade é sempre de uma das duas formas: Ou é uma cidade de políticos corruptos ou a cidade de Oscar Niemeyer. Somado a isso, soube que a homossexualidade do Renato tinha sido ignorada no filme "Somos tão jovens", também em cartaz. Me decepcionei de antemão. Deu preguicinha. Achei que as duas produções tinham sido maquiadas para "a família brasileira" assistir no domingo à tarde. Por fim, confesso meu preconceito com a recente produção industrial do cinema brasileiro: comédia sem graça atrás de comédia sem graça. Ad eternum.
Aí vem "Faroeste Caboclo" e esbofeteia geral na cara.
Brasília aparece de forma natural, sem grande ostentação. A cena de introdução a cidade deve ser a única que eu sinto a presença da "Cidade de Niemeyer". Depois há perseguição em quadras residenciais, tiroteio em uma mata cheia de eucaliptos (eram bem comuns por aqui, apesar de não ser uma árvore do cerrado) , a UNB e uma Ceilândia que ainda me causa dúvida. Explico: Ceilândia, para quem não sabe, foi uma cidade-satélite criada em 1971 pela CEI - Campanha de Erradicação de Invasões (daí veio o nome da cidade). O filme se passa no início dos anos 80, então decorreram cerca de 10 anos. Sabendo que hoje Ceilândia é a cidade mais populosa do DF, não tenho a certeza de que uma década após a sua criação, ela seria aquele descampado mostrado no filme. Porém, imagino que houve pesquisa na criação das locações e mesmo que haja alguma abstração, não creio que tenha prejudicado o filme.
Faroeste Caboclo, como a música, conta a história trágica de um homem negro e pobre chamado João a.k.a Santo Cristo, nome de sua cidade natal. Sua história vai da infância à sua morte. Alguns fãs não gostarão das adaptações que são muitas. Porém, foram necessárias para tornar verossímil a história que, escrita há 30 anos, é tão atual.
De música para filme algumas coisas mudaram. O tom, por exemplo. Na música, o tom é de um conto épico sendo narrado, com várias passagens "grandiosas". Por exemplo quando, na letra, o duelo teria sido anunciado na TV e todo o povo apareceu para assistí-lo. Ou quando, segundo a letra, o desejo de Santo Cristo na verdade era falar com o presidente para ajudar ao povo. Eu entendo que a poesia do Renato Russo fazia de Santo Cristo (começando pelo seu nome), uma espécie de mártir. Há até um momento em que se fala em Via Crúcis. Enfim, trechos que ficaram para trás para contar uma história menor em "tom" mas que tem a mesma eloquência em denunciar as desigualdades do nosso país.
*Spoiler alert* - Diferenças básicas entre música e filme
"Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu"
Na música, Santo Cristo desde menino desejava ser bandido e guardava dentro de si um ódio crescente que aumentou com a morte do pai (assassinado por um soldado) e com a sua passagem pela FEBEM, sem explicar muito bem o motivo.
No filme, a infância de Santo Cristo foi dura. O pai foi assassinado por um soldado e ele foi criado com grande dificuldade pela mãe, que morreu aparentemente de fome ou de sede. Nesse momento o Santo Cristo resolve ir embora, mas não sem antes vingar a morte do pai. E por isso ele vai para a FEBEM. A passagem por lá é apenas mencionada.
A morte do pai dele é um marco na música e no filme. Está claro que foi um crime motivado pela desigualdade de classe e de raça. Soldado nenhum mataria por motivo torpe um homem branco de classe mais abastada. Vale lembrar aqui dos
dados atuais sobre a mortalidade de homens negros e jovens, os fatores raciais e sociais são determinantes em decidir quem vive e quem morre até hoje. É nesse ponto que o João começa a formar o seu senso de justiça próprio. Fico ainda mais feliz de ver que a mãe dele foi incluída no filme, mostrando que a morte do pai dele repercutiu naquela família, que ele foi criado por uma mulher solteira e sem condições financeiras. O personagem do filme tem mais tonalidades de cinza, ele não desejava ser bandido, não há esse maniqueísmo no personagem.. Era apenas uma criança como as outras, porém com menos oportunidades e expectativas. Uma história bem comum no Brasil de hoje.
"Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá"
O Pablo da música é apenas mencionado como um parente distante e um traficante que trazia a droga da Bolívia. No filme, ele é amigo e protetor (sem no entanto tutelar o Santo Cristo). Aparentemente teve alguma relação mais próxima com o pai do Santo Cristo. Um personagem ligeiramente canastrão na maior parte das cenas, mas impiedoso com seus inimigos.
"Maria Lúcia pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter"
O que há de mais diferente no filme em relação a música é Maria Lúcia, interpretada pela Isis Valverde. E eu tenho que dizer que adorei isso. Maria Lúcia no filme é praticamente outra protagonista. Originalmente, ela entra no final quase que para redimir João dos seus pecados, para depois trocá-lo pelo seu pior inimigo, quase um Deus ex machina. No filme, entretanto, ela e o João se encontram em algum momento, surge uma afinidade, começam a namorar e enfrentam bastante preconceito por viver um amor interracial e de classes bastantes diferentes.
Aliás, vou fazer um aparte para falar de quem eu esperava que fosse a Maria Lúcia. Eu acreditava que ela seria uma mulher negra e pobre, moradora da Ceilândia, provável vizinha do Santo Cristo. Eu pensava isso pois na música o Renato fala que o João frequentava as baladinhas da Asa Norte, andava com os boyzinhos e etc. Então, como a Maria Lúcia representava a redenção do Santo Cristo de sua vida como criminoso, imaginei alguém distante desse meio que ele passou a frequentar. Contudo, no filme ela foi retratada como uma garota da Zona Sul (Bom, nesse caso, Asa Norte). Filha de senador, moradora da Asa Norte, estudante de arquitetura e usuária de maconha. Distante do que eu esperava, mas também válido para inserir o personagem Santo Cristo num ambiente completamente diferente do dele, evidenciando o racismo existente em espaços frequentados pela classe média, majoritariamente branca.
Voltando à Maria Lúcia, o que achei mais interessante é que ela é uma mulher ativa na história. Ela não abandona o Santo Cristo para ficar com o Jeremias. Ela se prostitui para que ele permaneça vivo, o que é muito diferente. Então, Faroeste Caboclo também é a história de um amor trágico.
"Mas acontece que um tal de Jeremias,
Traficante de renome, apareceu por lá"
Em nenhum momento na música se fala em raça ou na classe social do Jeremias. Apenas se sabe que ele rivalizou com Santo Cristo pelo mercado de drogas e por Maria Lúcia. No filme, o Jeremias é um traficante branco e rico, associado com a polícia local. Em dado momento é flagrante que bandido que vai preso é o negro e pobre. O bandido branco e rico tem as costas quentes. Mas se há um elo bem fraco no filme é o ator que interpreta o Jeremias. Ele é muito super overactor demais, parece até que pertence a outro filme. Enquanto o João possui tons de cinza, o Jeremias é preto e branco. Isso me incomodou demais. Creio que o personagem o Marco Aurélio, que existe apenas no filme é o principal vilão do filme. Digo isso pois Marco Aurélio é um policial corrupto, que atende aos interesses de Jeremias. E, parando para pensar, foi também um homem armado pelo Estado que matou o pai de João. Além, é claro, da interpretação excelente do Antônio Calloni.
"E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo"
(...)
"E mato também Maria Lúcia
Aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor"
Coloquei esses trechos para falar de violência. Vale mencionar aqui que no estupro que sofre o Santo Cristo fica claro que estupro é uma arma. Estupro NÃO é sexo, é uma questão de poder. E outra diferença grande é que o Santo Cristo não pensou em matar Maria Lúcia, como ele fala na música.
Faroeste Caboclo e Django Livre

Fica difícil evitar comparações, primeiro pois os filmes foram lançados temporalmente próximos, portanto ainda temos Django bem fresco na memória e partilham do mesmo gênero, o western (embora Faroeste Caboclo dialogue com outros gêneros como o romance e o policial). E principalmente porque em ambos os filmes há a presença das opressões sobre os negros em países e momentos distintos, mas ainda sim correlatas. Os dois filmes são retratos do racismo. Em Django o assunto é a escravidão, em Faroeste Caboclo é algo menos tangível, mas também profundo e real e que diz muito sobre o Brasil atual.
Ao assistir Django, por várias vezes eu fiquei incomodada com o personagem Dr. Schultz, de Cristoph Waltz, grande ator que é, roubou para si o protagonismo do filme, fazendo de Django um personagem tutelado, quase secundário, por boa parte do filme. Em Faroeste Caboclo existe o peruano Pablo encarnando a figura do mentor apenas por ter introduzido João às drogas, mas a relação entre eles é muito mais horizontal. Santo Cristo é independente de Pablo, não há alguém para indicar o caminho, ensinar como ele deve agir. João traça o próprio destino apesar das barreiras que estão no caminho. Outra diferença é que em Faroeste Caboclo não há a culpabilização do negro pelo racismo, como representado pelo personagem de Stephen em Django (
entenda). Por esses motivos, acho que no quesito de denúncia social e racial, Faroeste Caboclo me emociona mais.
Por fim, acho louvável que tenhamos duas produções de tanta qualidade, com protagonismo negro, girando em torno do racismo. E fico ainda mais feliz que uma dessas produções seja nacional, que tenha sido ambientada em Brasília, originada de uma música do Legião Urbana e que tenha quebrado esse marasmo em que estava o cinema nacional.