domingo, 16 de junho de 2013

Um alerta: Tentativa de sequestro dos movimentos sociais

Ganhei um ingresso para assistir ao jogo de ontem e fui. Quem comprou este ingresso foi o meu pai, um senhor de 60 anos, petista, que nunca antes tinha assistido a um jogo em Estádio. Muito menos um jogo da seleção brasileira. E que não sabia se poderia arcar com o custo de um ingresso para o jogo da seleção na Copa do Mundo de 2014. Meu pai, como muitas outras pessoas, compraram este ingresso um ano antes da partida. Por isso, não sem algum remorso, eu fui ao jogo. Quando vi a manifestação do lado de fora, eu falei para a minha mãe que se não estivesse dentro do estádio, estaria do lado de fora protestando também. Contraditório? provavelmente. Eu não apóio a copa e não a "financio", como disseram, ao menos não sozinha. Os investimentos para esses eventos vieram do bolso do cidadão comum, com certeza veio de quem estava se manifestando contra o evento também. Minha mãe, também petista, falou algo que na hora eu neguei: "Essa manifestação deve ser coisa da oposição". Expliquei para ela que o povo está insatisfeito, que não é coisa da oposição. Que os investimentos na copa foram imensos em detrimento da saúde, educação e etc. Além disso eu conheço pessoas que estavam lá fora, sei que não estão ali por nenhum partido.

Mas devo concordar que é a ocasião perfeita para a oposição ser oportunista e tentar transformar o movimento em uma discussão meramente anti-PT. Se não acredita em mim, dá uma olhada na capa da veja dessa semana.

Não estão chamando jovem de bandido, vândalos ou violentos. Estão marotamente sugerindo uma pauta: corrupção. Mas a corrupção DE QUEM? Sabemos que a veja é super a favor da apuração da corrupção, desde que ela seja do PT, enquanto esquenta as costas de políticos do PSDB. Eu não ouvi ninguém por aí falar que o Aécio Neves é réu a ser julgado pelo desvio de 4,3 bilhões da saúde. Sabemos o posicionamento político da revista VEJA. Sabemos que por ideologia, ela seria contra os movimentos sociais, porém, não é realmente curioso que o teor tenha mudado? Reinaldo Azevedo, reaça de carteirinha, fez um texto que em resumo fala o seguinte: Violência em São Paulo (a do Alckmin, do PSDB) foi justificada por atos de vandalismo, porém a insatisfação dos jovens é com a política de transportes do prefeito (Haddad, do PT) e que a violência do governador do DF (Agnelo, do PT) contra os manifestantes durante a Copa das Confederações foi injustificada porque o protesto era pacífico. Veja só a tentativa de sequestro que parece começar a acontecer aí.

Bem antes disso, durante os protestos contra o deputado Marcos Feliciano em Brasília, a presidenta Dilma deixou clara a sua posição através do silêncio e da omissão. Uma anuência silenciosa que é fruto da "governabilidade". E nesse momento, de repente, o Aécio Neves diz que é a favor do casamento igualitário, tentando cooptar as pessoas que estão insatisfeitas com essa postura do governo, mas sem de fato defender a causa. Não estou vendo o Aécio militar pelo casamento igualitário, como faz, por exemplo, o deputado Jean Wyllys. Como sabemos, há uma grande diferença entre o falar e o fazer dos políticos, daí a explicação para tanta contradição ideológica.

Eu sou filha de petistas. Meus pais nunca votaram pelo PSDB (ou qualquer outro partido). São pessoas cegas pelo PT, agarradas ao que o partido um dia já foi. Eu não. Consigo ver a diferença do PT de Erundina e o PT de Haddad. Mas mesmo isso não me faz acreditar que entregar o nosso país nas mãos da direita seja a solução para os problemas. Agora é a revista VEJA, mas outros virão. Outros oportunistas tentarão nos convencer de que governos de direita são melhores. Precisamos estar preparados para negar.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Remember, remember, the 13th of june

Eu quero falar de revolução. Quero falar dos protestos em São Paulo mas também quero falar de Zumbi. Você certamente já ouviu falar de Zumbi dos Palmares, talvez você tenha muito mais informação sobre ele do que eu. Mas se você, assim como eu até pouco tempo atrás, o conhece apenas dos livros de História do ensino médio, então você deveria pesquisar um pouco mais. Quer ver como você (provavelmente) sabe pouco? Aqui vão dois Zumbi Facts.

- Zumbi é neto de Aqualtune.

Aqualtune foi uma princesa africana, que em uma guerra entre reinos foi derrotada e transformada em escrava, veio ao Brasil em um Navio Negreiro e desceu no porto de Recife. Vendida como escrava reprodutora. Ao saber de sua origem e que alguns escravos a veneravam, o homem que a comprou a entregou aos seus homens para que a estuprassem. O estupro, desde os tempos mais remotos é uma arma de guerra eficaz no propósito de controlar e aterrorizar. Mesmo nessa realidade intolerável, ela fugiu para o "Reino dos Palmares", que já existia desde 1606. É bom falar disso porque as mulheres são inegavelmente apagadas da história. Deixadas de lado.

- Zumbi nasceu mais de 200 anos antes da assinatura da Lei Áurea

Sabe o que isso significa? que mentiram para você. Não foi uma nobre branca e rica que magicamente acabou com a escravidão. A escravidão sempre encontrou resistência nos negros que aqui viviam. MAIS DE DUZENTOS ANOS ANTES, um quilombo vencia inúmeras batalhas contra a opressão racista da capitania e abrigava mais de 30 mil negros sob a liderançã de Zumbi. A assinatura da Lei Áurea não foi favor nenhum, foi apenas a constatação da elite que a escravidão já tinha seus dias contados.

Aqui em casa, temos uma máscara do Guy Fawkes. Aquele cara que queria detonar um parlamento. Que tornou-se popular com os quadrinhos do Alan Moore e posteriormente virou até filme. Aquele cara que simboliza a face da revolução anônima. Pois é, numa nação em que a história não fosse contada de forma tão unilateral (ao menos dentro das escolas). A face da nossa revolução poderia ser Zumbi. Fiz toda essa digressão para falar que o apagamento da insurgência é comum no Brasil. Parece que tudo aqui veio como uma permissão da boa elite: Foi a boa elite que libertou os escravos, que garantiu a independência do Brasil, que concedeu às mulheres o direito de votar. Enfim, sempre as elites olhando de cima para baixo com um olhar paternalista.

Só que não é assim. Elite nenhuma quis dar direitos ao trabalhador. Esses direitos foram conquistados. Parece óbvio, mas não é. Quantas vezes eu precisei argumentar em discussões com pessoas que acreditam que os seus direitos cairiam dos céus sobre seus colos apenas porque eles fizeram o favor de existir? Muitas. "Mas por quê?" eu me perguntei. E cheguei a um dos possíveis motivos: a informação não fluía. Estávamos presos no quadradinho da mídia tradicional antes da chegada da internet e das redes sociais. Um modelo defasado de informação que se concentra na mão de mais ou menos uma dezena e meia de famílias. Tudo o que entendíamos do mundo era filtrado por essas vozes. As pessoas falam em "formadores de opinião" sem compreender o quanto isso é profundo. São muito. São demais. E eram muito mais ainda antes. 

Dizem que o brasileiro é acomodado, que não luta. Bom, vou falar da minha experiência. Na época em que a minha visão de mundo se resumia a ler um jornal e assistir TV nos poucos canais abertos eu não sabia o que era o feminismo. Eu acreditava que era um movimento de gente carrancuda, que era tão ruim quanto ser machista (e eu sequer imaginava o quanto eu era machista!). E hoje, se não fosse a internet que me mudou por inteiro, eu poderia acreditar que o que está acontecendo no Brasil é obra de vândalos. A História continua sendo contada por uma boa elite que quer salvar o cidadão de bem da violência e do vandalismo. Que chama manifestante de bandido, que chama ocupação de invasão. E tudo isso é importante para manter um discurso hierarquizado e higienista. Em que existe um "eu" e um "eles" (bem separados, por favor), mas nunca um "nós" (Nota: Leia aqui um texto legal da Charô sobre como ela se sente assistindo o programa do Datena).

O brasileiro antes de ser acomodado, era mal informado. E não é mais. Existe aí uma juventude inconformada que não está atrás apenas de 20 centavos, mas de justiça social. Um pessoal que questiona o que é o vandalismo quando ele vem como reação à um Estado opressor e que percebe a realidade à sua volta de maneira muito nítida e a compartilha. criam elos, geram o "nós". Sempre houve insurgência, o que não havia era informação circulando com liberdade (ainda que vez ou outra censurada no facebook). O que não havia era uma troca tão massiva. Agora existe e isso está decretando uma mudança necessária na nossa forma de reinvindicar os nossos direitos. 

imagem dessa página aqui
Assim como a escravidão teve o seu fim (apesar de ainda convivermos com o racismo e as reminiscências desse período doloroso da nossa história) a mídia tradicional também começa a ser demolida. Afogando-se em suas próprias contradições. A editora Abril que o diga. E isso, queridos, é mais um passo na construção de uma sociedade mais justa e horizontalmente organizada. 

Malcolm X disse: "Se você não for cuidadoso os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar aquelas que estão oprimindo". E é por isso que a revolução não será televisionada, ela será compartilhada e retuitada.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

ESTÁ-TUDO-UMA-MERDA: O Estatuto do Nascituro

Está difícil, Brasil. Está difícil continuar te amando.

Foi aprovado hoje na Comissão de Finanças e Tributação o Estatuto do Nascituro, que ainda deverá ser aprovado na CCJ e levado a plenário para ter força de lei. Basicamente isso significa que o Estado tem dinheiro para nos matar. Traduzindo o juridiquês, o Estatuto do Nascituro, doravante Bolsa Estupro, diz que:

Foto tirada hoje, peguei aqui


- O óvulo fecundado tem mais direitos que você, mulher. Mais direitos que a sua mãe, sua irmã, sua tia, sua vizinha, suas amigas e suas filhas.

- Se você, sua mãe, sua irmã, sua tia, sua vizinha, suas amigas ou suas filhas forem estupradas, serão OBRIGADAS a levar a gravidez adiante. A gravidez que é fruto do HORROR de um estupro. Não importando também que a mulher tenha 9, 18, 20, ou 40 anos. Não importa.

- Quando a criança, fruto do estupro, nascer e o estuprador for localizado, ele terá o direito da paternidade, devendo pagar pensão e (de acordo com direito de paternidade, né?) infere-se que ele pode receber visitas dos filhos. Ou seja, a mãe ainda terá que levar a criança para o estuprador passar os finais de semana. Não é maravilhoso?

- No caso do estuprador não ser localizado, a mulher receberá uma pensão do Estado para manter aquela criança. Isso foi aprovado na Comissão de finanças sem nenhum estudo que mostre qual o valor necessário para se criar um filho, quanto custa manter uma criança nesse Brasil cada dia mais caro? Além disso e mais importante: Foda-se se você tiver que conviver diariamente com o trauma. Foda-se você e a sua autonomia. Foda-se a sua saúde psicológica.

- O aborto ainda que espontâneo deverá ser criminalmente investigado e a mulher poderá ser indiciada por aborto culposo (!?). 

- Se a mulher tiver algum problema de saúde como, por exemplo, câncer, ela será impedida de fazer tratamento de quimioterapia para não abortar (e aí morrem os dois, né? mas quem se importa?).

- Também criminaliza o aborto de fetos sem sobrevida, como os anencéfalos. Veja esse vídeo.

- Quem falar de aborto será preso. Reservem minha cela.

Sugestões de nomes alternativos para o Estatuto do Nascituro que são mais condizentes com a realidade do projeto:

- Estatuto do ABRIU AS PERNAS AGORA SE VIRA

- Estatuto do QUEM MANDOU ANDAR DE ROUPA CURTA? ESTAVA PEDINDO PARA SER ESTUPRADA

- Estatuto do NINGUÉM MANDOU BEBER NA BALADA. PEDIU PARA SER ESTUPRADA.

- Estatuto do ELA SÓ TEM NOVE ANOS MAS SABIA O QUE ESTAVA FAZENDO

- Estatuto do HOJE EM DIA SÓ ENGRAVIDA QUEM QUER

- Estatuto do BEM FEITO, QUEM MANDOU SER VADIA

- Estatuto do ESTUPRADOR TAMBÉM PODE SER UM BOM PAI PARA O SEU BEBÊ

- Estatuto do QUE TRAUMA? FODA-SE O SEU TRAUMA

- Estatuto do EU (CISHOMEM, BRANCO, HETEROSSEXUAL, RICO E CRISTÃO) MANDO NO CORPO DE TODAS AS MULHERES

- Estatuto do ESTÁ CADA DIA MAIS DIFÍCIL SER MULHER NO BRASIL

- Estatuto do CORRAUM PARA O URUGUAI AMIGUES

- ESTÁ-TUDO-UMA-MERDA

Se você tem uma filha, mesmo que ela tenha apenas 9 anos de idade, pense na possibilidade de ela ser estuprada hoje ou amanhã e engravidar. Pense no fardo que colocará nas costas dela se apoiar essa bizarrice de Estatuto do Nascituro. Vamos torcer para que a CCJ, hoje nas mãos do PT, um partido bastante arregão e que come nas mãos da bancada evangélica barre essa proposta sem noção que cerceia ainda mais os direitos humanos.

PS.1: Assine a petição contra essa atrocidade.
PS.2: E está na hora de sairmos nas ruas para mostrar quem manda nos nossos corpos.
PS.3: Se você é PRÓ-MORTE das mulheres e veio falar em nome de DELS aqui, cai fora. Não vou aceitar seu comentário.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Faroeste Caboclo: "Discriminação por causa da sua classe e sua cor"

Eu, Brasília e Legião Urbana


"E João aceitou sua proposta
E num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal"

A primeira vez que entendi um pouco de Legião foi em uma aula de interpretação de texto. A letra era "Pais e filhos". De tanto ouvir, a música tinha ficado um pouco automática, isso acontece comigo com relativa frequência. Eu ouvia sem interpretar, ou ao menos sem interpretar com todas as camadas que ela possui. Felizmente, uma professora de português fez o favor de desvendar algumas daquelas camadas para mim e para a minha turma e eu voltei a ouvir Legião.

Apesar de gostar, não sou fã de Legião, mas fui uma adolescente em Brasília. Não eram os anos 80 e sim final dos anos 90 e a presença do Legião Urbana continuava por aí, entre rodinhas de amigos. Houve momentos até em que eu cheguei a pensar: "chega, não aguento mais esses fãs de Legião", pois eles eram muitos e estavam em todos os lugares. Ainda estão. Hoje, tenho uma prima adolescente que escuta Legião, demonstrando que a força da banda por aqui ainda é grande.

Acredito que muito dessa força venha de uma sensação que poucas vezes tive na música brasileira:  imersão. Eu sei o quem e o onde do qual as letras tratam. Eu morei na Ceilândia. Eu estudei na Asa Norte. Eu tenho família em Planaltina. Eu tenho amigos em Taguatinga. Passei várias vésperas de natal e réveillons observando as luzes e os fogos na Esplanada dos Ministérios. Toda essa digressão para dizer que é bem legal, para variar, não ouvir músicas que falam apenas das esquinas de São Paulo e das praias do Rio de Janeiro. 

Esse contato com Legião Urbana me deixou um pouco temerosa de assistir ao filme "Faroeste Caboclo". Em parte por medo de como Brasília seria registrada, pois a representação da cidade é sempre de uma das duas formas: Ou é uma cidade de políticos corruptos ou a cidade de Oscar Niemeyer. Somado a isso, soube que a homossexualidade do Renato tinha sido ignorada no filme "Somos tão jovens", também em cartaz. Me decepcionei de antemão. Deu preguicinha. Achei que as duas produções tinham sido maquiadas para "a família brasileira" assistir no domingo à tarde. Por fim, confesso meu preconceito com a recente produção industrial do cinema brasileiro: comédia sem graça atrás de comédia sem graça. Ad eternum.

Aí vem "Faroeste Caboclo" e esbofeteia geral na cara.

Brasília aparece de forma natural, sem grande ostentação. A cena de introdução a cidade deve ser a única que eu sinto a presença da "Cidade de Niemeyer". Depois há perseguição em quadras residenciais, tiroteio em uma mata cheia de eucaliptos (eram bem comuns por aqui, apesar de não ser uma árvore do cerrado) , a UNB e uma Ceilândia que ainda me causa dúvida. Explico: Ceilândia, para quem não sabe, foi uma cidade-satélite criada em 1971 pela CEI - Campanha de Erradicação de Invasões (daí veio o nome da cidade). O filme se passa no início dos anos 80, então decorreram cerca de 10 anos. Sabendo que hoje Ceilândia é a cidade mais populosa do DF, não tenho a certeza de que uma década após a sua criação, ela seria aquele descampado mostrado no filme. Porém, imagino que houve pesquisa na criação das locações e mesmo que haja alguma abstração, não creio que tenha prejudicado o filme.

Faroeste Caboclo, como a música, conta a história trágica de um homem negro e pobre chamado João a.k.a Santo Cristo, nome de sua cidade natal. Sua história vai da infância à sua morte. Alguns fãs não gostarão das adaptações que são muitas. Porém, foram necessárias para tornar verossímil a história que, escrita há 30 anos, é tão atual.

De música para filme algumas coisas mudaram. O tom, por exemplo. Na música, o tom é de um conto épico sendo narrado, com várias passagens "grandiosas". Por exemplo quando, na letra, o duelo teria sido anunciado na TV e todo o povo apareceu para assistí-lo. Ou quando, segundo a letra, o desejo de Santo Cristo na verdade era falar com o presidente para ajudar ao povo. Eu entendo que a poesia do Renato Russo fazia de Santo Cristo (começando pelo seu nome), uma espécie de mártir. Há até um momento em que se fala em Via Crúcis. Enfim, trechos que ficaram para trás para contar uma história menor em "tom" mas que tem a mesma eloquência em denunciar as desigualdades do nosso país.

*Spoiler alert* - Diferenças básicas entre música e filme


"Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu"

Na música, Santo Cristo desde menino desejava ser bandido e guardava dentro de si um ódio crescente que aumentou com a morte do pai (assassinado por um soldado) e com a sua passagem pela FEBEM, sem explicar muito bem o motivo. 

No filme, a infância de Santo Cristo foi dura. O pai foi assassinado por um soldado e ele foi criado com grande dificuldade pela mãe, que morreu aparentemente de fome ou de sede. Nesse momento o Santo Cristo resolve ir embora, mas não sem antes vingar a morte do pai. E por isso ele vai para a FEBEM. A passagem por lá é apenas mencionada.

A morte do pai dele é um marco na música e no filme. Está claro que foi um crime motivado pela desigualdade de classe e de raça. Soldado nenhum mataria por motivo torpe um homem branco de classe mais abastada. Vale lembrar aqui dos dados atuais sobre a mortalidade de homens negros e jovens, os fatores raciais e sociais são determinantes em decidir quem vive e quem morre até hoje. É nesse ponto que o João começa a formar o seu senso de justiça próprio. Fico ainda mais feliz de ver que a mãe dele foi incluída no filme, mostrando que a morte do pai dele repercutiu naquela família, que ele foi criado por uma mulher solteira e sem condições financeiras. O personagem do filme tem mais tonalidades de cinza, ele não desejava ser bandido, não há esse maniqueísmo no personagem.. Era apenas uma criança como as outras, porém com menos oportunidades e expectativas. Uma história bem comum no Brasil de hoje.

"Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá"

O Pablo da música é apenas mencionado como um parente distante e um traficante que trazia a droga da Bolívia. No filme, ele é amigo e protetor (sem no entanto tutelar o Santo Cristo). Aparentemente teve alguma relação mais próxima com o pai do Santo Cristo. Um personagem ligeiramente canastrão na maior parte das cenas, mas impiedoso com seus inimigos. 


"Maria Lúcia pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter"


O que há de mais diferente no filme em relação a música é Maria Lúcia, interpretada pela Isis Valverde. E eu tenho que dizer que adorei isso. Maria Lúcia no filme é praticamente outra protagonista. Originalmente, ela entra no final quase que para redimir João dos seus pecados, para depois trocá-lo pelo seu pior inimigo, quase um Deus ex machina. No filme, entretanto, ela e o João se encontram em algum momento, surge uma afinidade, começam a namorar e enfrentam bastante preconceito por viver um amor interracial e de classes bastantes diferentes. 

Aliás, vou fazer um aparte para falar de quem eu esperava que fosse a Maria Lúcia. Eu acreditava que ela seria uma mulher negra e pobre, moradora da Ceilândia, provável vizinha do Santo Cristo. Eu pensava isso pois na música o Renato fala que o João frequentava as baladinhas da Asa Norte, andava com os boyzinhos e etc. Então, como a Maria Lúcia representava a redenção do Santo Cristo de sua vida como criminoso, imaginei alguém distante desse meio que ele passou a frequentar. Contudo, no filme ela foi retratada como uma garota da Zona Sul (Bom, nesse caso, Asa Norte). Filha de senador, moradora da Asa Norte, estudante de arquitetura e usuária de maconha. Distante do que eu esperava, mas também válido para inserir o personagem Santo Cristo num ambiente completamente diferente do dele, evidenciando o racismo existente em espaços frequentados pela classe média, majoritariamente branca.

Voltando à Maria Lúcia, o que achei mais interessante é que ela é uma mulher ativa na história. Ela não abandona o Santo Cristo para ficar com o Jeremias. Ela se prostitui para que ele permaneça vivo, o que é muito diferente. Então, Faroeste Caboclo também é a história de um amor trágico.

"Mas acontece que um tal de Jeremias,
Traficante de renome, apareceu por lá"

Em nenhum momento na música se fala em raça ou na classe social do Jeremias. Apenas se sabe que ele rivalizou com Santo Cristo pelo mercado de drogas e por Maria Lúcia. No filme, o Jeremias é um traficante branco e rico, associado com a polícia local. Em dado momento é flagrante que bandido que vai preso é o negro e pobre. O bandido branco e rico tem as costas quentes. Mas se há um elo bem fraco no filme é o ator que interpreta o Jeremias. Ele é muito super overactor demais, parece até que pertence a outro filme. Enquanto o João possui tons de cinza, o Jeremias é preto e branco. Isso me incomodou demais. Creio que o personagem o Marco Aurélio, que existe apenas no filme é o principal vilão do filme. Digo isso pois Marco Aurélio é um policial corrupto, que atende aos interesses de Jeremias. E, parando para pensar, foi também um homem armado pelo Estado que matou o pai de João. Além, é claro, da interpretação excelente do Antônio Calloni.

"E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo"
(...)
"E mato também Maria Lúcia
Aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor"


Coloquei esses trechos para falar de violência. Vale mencionar aqui que no estupro que sofre o Santo Cristo fica claro que estupro é uma arma. Estupro NÃO é sexo, é uma questão de poder. E outra diferença grande é que o Santo Cristo não pensou em matar Maria Lúcia, como ele fala na música.

Faroeste Caboclo e Django Livre



Fica difícil evitar comparações, primeiro pois os filmes foram lançados temporalmente próximos, portanto ainda temos Django bem fresco na memória e partilham do mesmo gênero, o western (embora Faroeste Caboclo dialogue com outros gêneros como o romance e o policial). E principalmente porque em ambos os filmes há a presença das opressões sobre os negros em países e momentos distintos, mas ainda sim correlatas. Os dois filmes são retratos do racismo. Em Django o assunto é a escravidão, em Faroeste Caboclo é algo menos tangível, mas também profundo e real e que diz muito sobre o Brasil atual.

Ao assistir Django, por várias vezes eu fiquei incomodada com o personagem Dr. Schultz, de Cristoph Waltz, grande ator que é, roubou para si o protagonismo do filme, fazendo de Django um personagem tutelado, quase secundário, por boa parte do filme. Em Faroeste Caboclo existe o peruano Pablo encarnando a figura do mentor apenas por ter introduzido João às drogas, mas a relação entre eles é muito mais horizontal. Santo Cristo é independente de Pablo, não há alguém para indicar o caminho, ensinar como ele deve agir. João traça o próprio destino apesar das barreiras que estão no caminho. Outra diferença é que em Faroeste Caboclo não há a culpabilização do negro pelo racismo, como representado pelo personagem de Stephen em Django (entenda). Por esses motivos, acho que no quesito de denúncia social e racial, Faroeste Caboclo me emociona mais.

Por fim, acho louvável que tenhamos duas produções de tanta qualidade, com protagonismo negro, girando em torno do racismo. E fico ainda mais feliz que uma dessas produções seja nacional, que tenha sido ambientada em Brasília, originada de uma música do Legião Urbana e que tenha quebrado esse marasmo em que estava o cinema nacional.




quarta-feira, 29 de maio de 2013

Das sutilezas da gordofobia velada: o elogio preconceituoso.

Hoje li um texto incrível da querida Charô, sobre os elogios racistas que as pessoas negras são obrigadas a ouvir. Aliás, que título incrível: "Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata!" . Corram lá, leiam e espalhem, porque Charô até rima com amor. Na mesma vibe, já que por várias vezes por aqui eu disse que o padrão de beleza é racista e também gordofóbico (além de machista) e não escapamos dos elogios preconceituosos, listo aqui aqueles que mais ouvi e li por aí em relação às pessoas gordas.

Imagem da página
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-"Imagina, você não é gorda, você é cheinha/fortinha/fofinha"

Muito parecido com o elogio racista que a Charô citou "Você não é negra, é moreninha". Usa-se eufemismo para tratar outra pessoa por acreditar que de outra forma, seria ofensivo.

Ofensa mesmo é saber que alguém olha para mim e me vê como algo tão indigno de ser chamada pelo que de fato sou: gorda. Ser gorda é quase o mesmo que não ser mulher aos olhos dessas pessoas. É como se chamar alguém de "gordx" fosse uma enorme falta de educação. Precisamos ressignificar a palavra "gordx".

Ser gordx não é ofensa. Ser gordx não é ofensa. Ser gordx não é ofensa. Repita comigo.

A gordofobia é tão internalizada que usamos isso contra nós mesmos. Uma vez reparei que uma amiga sempre se referia a si mesma associando o adjetivo gorda com outro adjetivo desabonador. Exemplo: Sou uma gorda ridícula. Sou uma gorda horrível. Sou uma gorda repulsiva. E entendi que para ela e para muitas pessoas, ser gordo é sinônimo de ser ridículo, horrível e repulsivo. Não é.

- "Imagina! Você não é gorda, você é gostosa!" a.k.a "Mulher tem que ter onde pegar"

Esse é bem machista. É aquela velha história: mulher precisa servir como brinquedo sexual do homem. Pode ser gorda, desde que seja gostosa, seja curvilínea. Pode ter celulite se for gostosa. A maior parte das pessoas que dizem "mulher tem que ter onde pegar" não está interessado em pessoas com maior grau de obesidade. É só mais uma forma de controle do corpo. Nem tão magra que "não tenha onde pegar", nem tão gorda que deixe de ser "gostosa".

- "Você é gorda mas é tão feminina"

Ou seja, é obrigatório que você, mulher gorda, ande toda emperequetada porque, na prática, ser feminina nessa sociedade patriarcal representa uma série de valores: Tem que ser vaidosa, tem que se comportar de uma maneira condizente com uma "boa moça" casaidora, tem que enquadrar-se numa lista sem fim de estereótipos de gênero para compensar o fato de que você é gorda. Para desviar atenção disso. Sdds liberdade. Isso não é elogiar, é tolher liberdades.

- "Você tem um rosto lindo"

Amigas gordas, QUEM NUNCA?

Toda gorda ouve isso algumas milhares de vezes na vida, a incapacidade das pessoas de elogiar o corpo obeso é tão grande que é melhor falar do rosto, né? Se a pessoa for branca e tiver traços europeus, então! Olhos claros ganham pontos! Tudo isso para dizer que esse comentário é muito racista e gordofóbico. Guardem ele para si, é melhor não tentar elogiar dessa forma, porque vai soar como crítica.

E sim, o preconceito também existe na benevolência, na condescendência, no olhar paternalista. Não é porque você está elogiando que as sutilezas do racismo, da gordofobia e do machismo não estejam presentes.

P.S.: Obrigada, querida Charô, por ser uma inspiração constante. E para todas as pessoas que comentaram o texto da Charô e com isso me ajudaram a criar tópicos para esse texto <3

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Para nunca esquecer do que importa

Com a intenção de não deixar a minha memória a cargo dessa tarefa, resolvi reunir aqui os meus textos  e palestras preferidos, que são bastante basilares sobre diversas pautas de ativismo. São muitos, eu sei. Porém, são necessários. A maioria são textos e vídeos que me mudaram, que abriram minha visão de mundo. Outros eu escrevi e linkei aqui por achar pertinente falar sobre o assunto. Essa é uma lista em constante transformação, se você tem alguma sugestão a dar é só acrescentar nos comentários. Toda adição que eu fizer aqui será precedida da data de atualização. Dessa forma, sempre que houver algo novo, será fácil de identificar. Ah, e vou manter um link permanente para essa postagem na barra lateral do meu blog. Estão convidados a voltar aqui sempre para continuar do ponto onde pararam.

Introdução ao feminismo:


Feminismo, está na hora de conhecer!, por Carol Marques Lage: Esse é um texto bem didático e voltado para o público feminino adolescente.

Feminismo for Dummies, por Clara Averbuck: Gosto muito desse texto, porém não concordo em condenar a misandria sem contextualizá-la.

Precisão, por Deh: Explica porque precisamos do feminismo.

Não pediremos "Por favor, parem de nos oprimir", por Thaís Campolina e Flávia: Sobre como uma sociedade machista gostaria que o feminismo agisse.

O feminismo não tem limites (e nem deveria ter mesmo), por Gizelli Sousa (Eu): Sobre os interesses escusos na manutenção do machismo.

Desenhando: Mulheres e crianças primeiro e outros privilégios, por Paula Mariá: Explicando porque os "privilégios" que os machistas dizem que as mulheres possuem não são privilégios de fato.

As feministas é que são chatas, por Aline Valek: Esse texto ilustra bem o fato de que mulheres são odiadas, e como as feministas as defendem, elas são chatas.

#MitosFeminismo, por Srta. Bia: Texto que traz uma boa definição de feminismo.

Feministas chatas e lugares de fala, por Lídia Freitas: Sobre como o patriarcado nega o lugar de fala às mulheres e por reivindicá-lo, feministas recebem a alcunha de chatas.

Feminismo negro e Racismo:


Rosa Parks, símbolo de luta por
direitos civis das pessoas negras nos EUA


Os privilégios de ser uma mulher branca, por Ana Clara Marques e Patrick Monteiro: explica alguns dos privilégios que uma mulher branca possui em relação às mulheres negras.

Enegrecer o feminismo: A situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero, por Sueli Carneiro: Esse texto é muito bom, ele mostra como algumas das premissas e pautas do feminismo foram criadas a partir da perspectiva da mulher branca, por isso o feminismo precisa enegrecer e se tornar inclusivo para as mulheres negras.

A sexualidade da mulher negra, por Jarid Arraes: Mostra um aspecto do machismo/racismo com o qual as mulheres negras lidam desde cedo.

Do mendigo de Curitiba e do racismo sutilmente disfarçado, por Fátima Tardelli: Aqui há uma exposição sobre como se dá a negação sistêmica do racismo e como o padrão de beleza vigente é racista.

Blackface? Yes we can, por Charô Lastra: A Charô explica nesse texto porque o blackface é racista e como ele pode ser subvertido.

Entrevista com Luana Tolentino, por Conceição Lemes: Luana Tolentino é historiadora, professora da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais, pesquisadora da UFMG e militante do movimento negro. Ela conta um pouco da sua trajetória como empregada doméstica, sobre educação, sobre cotas, sobre igualdade racial e etc.

Ser negro, ser afrodescendente e o apagamento das histórias de apagamento, por Charô Lastra: Um texto sobre como é conveniente a omissão do conceito de afrodescendência e que ser negro não é apenas questão de pele, mas de narrativa histórica e cultura.

Videocast - Ser uma criança negra, por Charô Lastra: vídeo fabuloso sobre a opressão racista que acomete a criança negra.


Slutshaming:


Marcha das Vadias


Vadia, puta, vagabunda e rodada, por Cely: Para mim, o texto definitivo sobre slutshaming. Para quem não sabe é o preconceito contra mulheres que usam roupas curtas, não querem o chamado "relacionamento sério" ou tem qualquer conduta sexual fora do padrão.

Qual a relevância de mostrar os peitos num protesto?, por Robson Sobral: desmonta as críticas cheias de slutshaming contra os protestos em que há nudez.

Solidariedade entre mulheres:




Divergência feminina: mulheres que criticam outras mulheres, por Jarid Arraes: um texto sobre como é nocivo criticar outras mulheres.



Homens no feminismo:


Separatistas são os homens, por Cely: Crítica ao comportamento masculino dentro de ambientes feministas e sobre a importância de espaços exclusivamente femininos para o empoderamento das mulheres.

A birra da exceção, por Paula Mariá: Sobre comportamento masculino frente às críticas ao homem como agente do machismo.

Não me ensine a militar, por Gizelli Sousa (Eu): Sobre as pessoas que tentam pautar a militância alheia e no caso do feminismo normalmente essas pessoas são homens cis, brancos e heterossexuais.

Homens (pró-)feministas: aliados não protagonistas, por Henrique Marques-Samyn: Sobre como deveria ser a atuação dos homens na militância feminista.

Aborto:

Isto é um feto abortado em período legal

Desmontando um falso argumento: Só é a favor do aborto quem já nasceu , por Henrique Marques-Samyn: Crítica a essa falácia que visa desmoralizar as pessoas pró-escolha.

Pra começo de conversa, por Carolina Sbaile: relato emocionante de alguém que sente que não deveria ter nascido.

This is my abortion (Este é o meu aborto), por Jane: Desmistificando o que é um aborto. Muito longe da imagem de crianças mortas que os pró-vida espalham por aí.

UPDATE 25/05/2013 A você que abortou, por Paula Mariá: A autora escreve uma carta às pessoas que, diferente dela, optaram pelo aborto.

Cultura do Estupro:


Cultura do Estupro no espaço público: Nosso direito de ir e vir ameaçado, por Gizelli Sousa (Eu): Nesse texto tento mostrar através de exemplos como o espaço público é hostil com as mulheres e como isso está relacionado com a cultura do estupro.

Quem me estuprou, por Aline Valek: Texto fictício sobre uma mulher que foi estuprada.

Padrão de beleza:


O propósito da mulher não é a beleza, por Jarid Arraes: crítica à imposição da beleza às mulheres.

A mulher inteligente, segundo o patriarcado, por Gizelli Sousa (Eu): A respeito das cobranças masculinas em torno da mulher.

Falácia do femismo/misandria:


O mito do Femismo, por Ana Clara Marques e Patrick Monteiro: mostra o interesse por trás da separação de feminismo (teoria de igualdade) e femismo (machismo às avessas, coisa que non ecziste).

Maternidade:

Qualquer forma de violência é condenável, por Ana Cristina Duarte: Explica o que é a violência obstétrica


LGBT:

Imagem da página "Transexualismo da depressão", no Facebook

Transexualidade e despatologização, por Aline Freitas: texto curtinho criticando a definição da OMS para transexualidade.

Não somos todos gays!, por Daniela Andrade: sobre o apagamento das questões referentes às pessoas trans* quando se fala em LGBT unicamente como um movimento gay.

Nada contra, por Aline Valek: texto humorístico lançando os argumentos preconceituosos dos homofóbicos contra eles mesmos.

Panorama Mundial:
Marcha das Vadias de Bogotá

Roupas não previnem estupro. Em lugar nenhum do mundo, por Flávia: A tradução do texto O mito de como o Hijab protege as mulheres contra o abuso sexual, por Josh Shahryar. É também um texto sobre cultura do estupro.

O véu, o feminismo e a questão da escolha, por Flávia: Diversos questionamentos sobre o feminismo ocidental, que trata as pessoas não-ocidentais como vítimas, mas também sobre o feminismo de escolha como posicionamento único.

"Minhas raízes são aéreas", por Eliane Brum: Um texto forte (prepare o lenço) sobre a experiência da gaúcha Débora Noal no grupo "Médicos sem fronteiras" em zonas de conflito remotas e perigosas. Esse texto é tão maravilhoso e triste que meus olhos marejam enquanto escrevo sobre ele.

UPDATE 22/05/2013 Uma carta aberta de mulheres negras para a marcha das vadias, tradução por Feminista Cansada: Tradução do texto "An open letter from black women to slutwalk", texto assinado por diversas feministas (pode ser visto no fim do texto original), criticando a ressignificação da palavra "vadia", que tem um peso muito maior para as mulheres negras.

Palestras TED (é preciso ativar as legendas):
A teen just trying to figure it out (tradução livre: Uma adolescente tentando se encontrar), por Tavi Gevinson: Sobre feminismo e adolescência.

Radical Women, embracing traditions (tradução livre: Mulheres radicais abraçando a tradição), por Kavita Ramdas: Sobre mulheres que usam a tradição de suas culturas para quebrar paradigmas.

On Security (tradução livre: Sobre segurança), por Eve Ensler: Histórias inspiradoras de como mulheres que promoveram grandes mudanças em ambientes de enorme insegurança e violência.

The danger of a single history (tradução livre: Os perigos de uma história única), por Chimamanda Adichie: Sobre os perigos da visão paternalista e única sobre a África.

A call to men (tradução livre: Um chamado aos homens), por Tony Porter: Uma palestra que explica como o machismo também afeta aos homens, desde crianças.

Reinventing feminism (tradução livre: Reinventando o feminismo), por Courtney Martin: Fala sobre a geração atual de feministas através da sua história pessoal.

P.S.:Meus agradecimentos a todos os amigos que ajudaram a montar essa lista e aos autores desses textos maravilhosos.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Coleções assinadas em fast fashions: Democratizar a moda não é isso!


Há muito tempo eu já desejava escrever sobre as "coleções assinadas" das lojas de departamento, ultimamente chamadas de "fast fashion". Peguei o gancho da Ana, do blog "Hoje vou assim off", que fez um texto ótimo sobre o assunto que pode ser lido aqui.

Eu não sei quem começou essa moda, mas o fato é que no Brasil deu certo. As lojas de departamentos como C&A e Riachuelo têm se alternado em coleções assinadas por estilistas. Ótimo. Democratizar a moda é uma idéia verdadeiramente bonita. Porém, não é democratização quando:

- A roupa é fabricada na China: Como brilhantemente explicou a Ana, há roupas de coleção que são conhecidas por pessoas que frequentam o Ebay. Pessoas como eu, por exemplo, que bati o olho e pensei: "cara de pau!". A ética passou longe. Se a coleção é assinada, acreditamos que é porque existe autoralidade. Contudo, o que de fato existe é a exploração de uma classe de consumo que não tem poder aquisitivo alto o suficiente para comprar uma roupa de grife. Basicamente, estão vendendo o exclusivo, mas entregando para as pessoas a cópia da cópia, só que com uma etiqueta grifada.

Foto 1 - Asos, foto 2- C&A,
foto 3- Ebay (inclusive aproveitaram a foto da Asos)
- Mão-de-obra barata: Já comprei produtos chineses. Além dos que comprei conscientemente, hoje sei que praticamente tudo o que consumimos vem da China (e outros países asiáticos), de tênis a eletrônicos. Até participo de um grupo no facebook que compartilha dicas de produtos do ebay. Não me orgulho de comprar na China, mas está cada dia mais difícil e mais caro comprar roupas que me vistam aqui no Brasil. Não é só no ebay que a mão de obra é barata, já ouvi por mais de uma vez que os produtos vendidos em lojas de departamento, que são produzidos no Brasil, muitas vezes podem ser encontrados em lojas de fábrica (sem a etiqueta) a preços muito menores. Valorizar o trabalho dos costureiros é muito importante, mas infelizmente o que percebo é que isso só acontece se você for direto até a fonte. Se a gente não pode comprar em lojas de grife e compra em lojas de departamentos, ainda que a produção seja nacional, dificilmente o trabalho deles  estará sendo valorizado. Mesmo em lojas de grife eu tenho minhas dúvidas sobre a valorização do profissional, a impressão que tenho é que o lucro é ainda muito mais díspar, se comparado aos salários dos costureiros.

- Retira o mercado do pequeno lojista: Contrastando com esse modo de produção altamente excludente, estão @s costureir@s como a minha mãe. Ela é das boas, perfeccionista em níveis quase preocupantes e adora o que faz. Tanto, que ela fez uma faculdade de moda e tem um negócio próprio. Uma pequena loja que não gera lucro o suficiente para expandir. Não existe valorização para o pequeno empresário, para quem tem uma loja de bairro, para quem trabalha em casa. Não em um ambiente de consumo em que etiqueta é status. 

- As coleções não contemplam tamanhos grandes: Como dizer que há democratização da moda quando as pessoas que já são consumidoras de lojas populares não conseguem encontrar sua numeração? Eu compro em lojas de departamento nem sempre por opção, mas porque lá eu consigo encontrar numeração que me sirva. Ou conseguia. A C&A e a Riachuelo lançaram coleções plus size uma delas assinada pela Preta Gil (gente, a Preta é estilista? Eu não sei) e a outra da marca Tool, respectivamente. Mas isso não basta, não basta nos colocar em uma arara no fundo da loja, nem lançar uma coleção por ano que contemple nossas medidas. Nós, mulheres gordas, desejamos fazer parte da grade padrão,  quem disse que nós temos "tamanho especial" ou que somos "plus size"? Somos normais. Eu rejeito esse rótulo (embora seja obrigada a usá-lo para conseguir comprar roupas). Sou gorda como outras são magras. E ninguém vende roupa para pessoas magras como se fosse "tamanho especial". Coleções assinadas e gordofóbicas não democratizam nada, só tornam ainda mais evidente a diferença no tratamento que é dispensado às pessoas obesas.

Eu sigo me perguntando: Se somos um nicho separado de todos, cadê a visibilidade dos estilistas "plus size"? Por que eles não tem notoriedade? Por que não sabemos seus nomes? Eu desejo o reconhecimento desses profissionais, desejo que eles estejam à frente da criação em redes de lojas de departamentos e em pequenas lojas de bairro. Que o seu trabalho seja difundido. Infelizmente, parece que eles, como nós que somos gordos, estão à margem na moda.

A gente vive analisando as contradições que existem entre vestir o que quiser/ o que couber/ o que tem um preço que pode ser pago/ o que é ético. E normalmente (eu não vou me excluir aqui), o que é ético costuma ficar em segundo plano. Democratizar passa por equilibrar todos esses fatores. Quando a gente precisa escolher um deles em detrimento dos outros, com certeza algo está errado.