quarta-feira, 29 de maio de 2013

Das sutilezas da gordofobia velada: o elogio preconceituoso.

Hoje li um texto incrível da querida Charô, sobre os elogios racistas que as pessoas negras são obrigadas a ouvir. Aliás, que título incrível: "Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata!" . Corram lá, leiam e espalhem, porque Charô até rima com amor. Na mesma vibe, já que por várias vezes por aqui eu disse que o padrão de beleza é racista e também gordofóbico (além de machista) e não escapamos dos elogios preconceituosos, listo aqui aqueles que mais ouvi e li por aí em relação às pessoas gordas.

Imagem da página
Preta & Gorda no Facebook

-"Imagina, você não é gorda, você é cheinha/fortinha/fofinha"

Muito parecido com o elogio racista que a Charô citou "Você não é negra, é moreninha". Usa-se eufemismo para tratar outra pessoa por acreditar que de outra forma, seria ofensivo.

Ofensa mesmo é saber que alguém olha para mim e me vê como algo tão indigno de ser chamada pelo que de fato sou: gorda. Ser gorda é quase o mesmo que não ser mulher aos olhos dessas pessoas. É como se chamar alguém de "gordx" fosse uma enorme falta de educação. Precisamos ressignificar a palavra "gordx".

Ser gordx não é ofensa. Ser gordx não é ofensa. Ser gordx não é ofensa. Repita comigo.

A gordofobia é tão internalizada que usamos isso contra nós mesmos. Uma vez reparei que uma amiga sempre se referia a si mesma associando o adjetivo gorda com outro adjetivo desabonador. Exemplo: Sou uma gorda ridícula. Sou uma gorda horrível. Sou uma gorda repulsiva. E entendi que para ela e para muitas pessoas, ser gordo é sinônimo de ser ridículo, horrível e repulsivo. Não é.

- "Imagina! Você não é gorda, você é gostosa!" a.k.a "Mulher tem que ter onde pegar"

Esse é bem machista. É aquela velha história: mulher precisa servir como brinquedo sexual do homem. Pode ser gorda, desde que seja gostosa, seja curvilínea. Pode ter celulite se for gostosa. A maior parte das pessoas que dizem "mulher tem que ter onde pegar" não está interessado em pessoas com maior grau de obesidade. É só mais uma forma de controle do corpo. Nem tão magra que "não tenha onde pegar", nem tão gorda que deixe de ser "gostosa".

- "Você é gorda mas é tão feminina"

Ou seja, é obrigatório que você, mulher gorda, ande toda emperequetada porque, na prática, ser feminina nessa sociedade patriarcal representa uma série de valores: Tem que ser vaidosa, tem que se comportar de uma maneira condizente com uma "boa moça" casaidora, tem que enquadrar-se numa lista sem fim de estereótipos de gênero para compensar o fato de que você é gorda. Para desviar atenção disso. Sdds liberdade. Isso não é elogiar, é tolher liberdades.

- "Você tem um rosto lindo"

Amigas gordas, QUEM NUNCA?

Toda gorda ouve isso algumas milhares de vezes na vida, a incapacidade das pessoas de elogiar o corpo obeso é tão grande que é melhor falar do rosto, né? Se a pessoa for branca e tiver traços europeus, então! Olhos claros ganham pontos! Tudo isso para dizer que esse comentário é muito racista e gordofóbico. Guardem ele para si, é melhor não tentar elogiar dessa forma, porque vai soar como crítica.

E sim, o preconceito também existe na benevolência, na condescendência, no olhar paternalista. Não é porque você está elogiando que as sutilezas do racismo, da gordofobia e do machismo não estejam presentes.

P.S.: Obrigada, querida Charô, por ser uma inspiração constante. E para todas as pessoas que comentaram o texto da Charô e com isso me ajudaram a criar tópicos para esse texto <3

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Para nunca esquecer do que importa

Com a intenção de não deixar a minha memória a cargo dessa tarefa, resolvi reunir aqui os meus textos  e palestras preferidos, que são bastante basilares sobre diversas pautas de ativismo. São muitos, eu sei. Porém, são necessários. A maioria são textos e vídeos que me mudaram, que abriram minha visão de mundo. Outros eu escrevi e linkei aqui por achar pertinente falar sobre o assunto. Essa é uma lista em constante transformação, se você tem alguma sugestão a dar é só acrescentar nos comentários. Toda adição que eu fizer aqui será precedida da data de atualização. Dessa forma, sempre que houver algo novo, será fácil de identificar. Ah, e vou manter um link permanente para essa postagem na barra lateral do meu blog. Estão convidados a voltar aqui sempre para continuar do ponto onde pararam.

Introdução ao feminismo:


Feminismo, está na hora de conhecer!, por Carol Marques Lage: Esse é um texto bem didático e voltado para o público feminino adolescente.

Feminismo for Dummies, por Clara Averbuck: Gosto muito desse texto, porém não concordo em condenar a misandria sem contextualizá-la.

Precisão, por Deh: Explica porque precisamos do feminismo.

Não pediremos "Por favor, parem de nos oprimir", por Thaís Campolina e Flávia: Sobre como uma sociedade machista gostaria que o feminismo agisse.

O feminismo não tem limites (e nem deveria ter mesmo), por Gizelli Sousa (Eu): Sobre os interesses escusos na manutenção do machismo.

Desenhando: Mulheres e crianças primeiro e outros privilégios, por Paula Mariá: Explicando porque os "privilégios" que os machistas dizem que as mulheres possuem não são privilégios de fato.

As feministas é que são chatas, por Aline Valek: Esse texto ilustra bem o fato de que mulheres são odiadas, e como as feministas as defendem, elas são chatas.

#MitosFeminismo, por Srta. Bia: Texto que traz uma boa definição de feminismo.

Feministas chatas e lugares de fala, por Lídia Freitas: Sobre como o patriarcado nega o lugar de fala às mulheres e por reivindicá-lo, feministas recebem a alcunha de chatas.

Feminismo negro e Racismo:


Rosa Parks, símbolo de luta por
direitos civis das pessoas negras nos EUA


Os privilégios de ser uma mulher branca, por Ana Clara Marques e Patrick Monteiro: explica alguns dos privilégios que uma mulher branca possui em relação às mulheres negras.

Enegrecer o feminismo: A situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero, por Sueli Carneiro: Esse texto é muito bom, ele mostra como algumas das premissas e pautas do feminismo foram criadas a partir da perspectiva da mulher branca, por isso o feminismo precisa enegrecer e se tornar inclusivo para as mulheres negras.

A sexualidade da mulher negra, por Jarid Arraes: Mostra um aspecto do machismo/racismo com o qual as mulheres negras lidam desde cedo.

Do mendigo de Curitiba e do racismo sutilmente disfarçado, por Fátima Tardelli: Aqui há uma exposição sobre como se dá a negação sistêmica do racismo e como o padrão de beleza vigente é racista.

Blackface? Yes we can, por Charô Lastra: A Charô explica nesse texto porque o blackface é racista e como ele pode ser subvertido.

Entrevista com Luana Tolentino, por Conceição Lemes: Luana Tolentino é historiadora, professora da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais, pesquisadora da UFMG e militante do movimento negro. Ela conta um pouco da sua trajetória como empregada doméstica, sobre educação, sobre cotas, sobre igualdade racial e etc.

Ser negro, ser afrodescendente e o apagamento das histórias de apagamento, por Charô Lastra: Um texto sobre como é conveniente a omissão do conceito de afrodescendência e que ser negro não é apenas questão de pele, mas de narrativa histórica e cultura.

Videocast - Ser uma criança negra, por Charô Lastra: vídeo fabuloso sobre a opressão racista que acomete a criança negra.


Slutshaming:


Marcha das Vadias


Vadia, puta, vagabunda e rodada, por Cely: Para mim, o texto definitivo sobre slutshaming. Para quem não sabe é o preconceito contra mulheres que usam roupas curtas, não querem o chamado "relacionamento sério" ou tem qualquer conduta sexual fora do padrão.

Qual a relevância de mostrar os peitos num protesto?, por Robson Sobral: desmonta as críticas cheias de slutshaming contra os protestos em que há nudez.

Solidariedade entre mulheres:




Divergência feminina: mulheres que criticam outras mulheres, por Jarid Arraes: um texto sobre como é nocivo criticar outras mulheres.



Homens no feminismo:


Separatistas são os homens, por Cely: Crítica ao comportamento masculino dentro de ambientes feministas e sobre a importância de espaços exclusivamente femininos para o empoderamento das mulheres.

A birra da exceção, por Paula Mariá: Sobre comportamento masculino frente às críticas ao homem como agente do machismo.

Não me ensine a militar, por Gizelli Sousa (Eu): Sobre as pessoas que tentam pautar a militância alheia e no caso do feminismo normalmente essas pessoas são homens cis, brancos e heterossexuais.

Homens (pró-)feministas: aliados não protagonistas, por Henrique Marques-Samyn: Sobre como deveria ser a atuação dos homens na militância feminista.

Aborto:

Isto é um feto abortado em período legal

Desmontando um falso argumento: Só é a favor do aborto quem já nasceu , por Henrique Marques-Samyn: Crítica a essa falácia que visa desmoralizar as pessoas pró-escolha.

Pra começo de conversa, por Carolina Sbaile: relato emocionante de alguém que sente que não deveria ter nascido.

This is my abortion (Este é o meu aborto), por Jane: Desmistificando o que é um aborto. Muito longe da imagem de crianças mortas que os pró-vida espalham por aí.

UPDATE 25/05/2013 A você que abortou, por Paula Mariá: A autora escreve uma carta às pessoas que, diferente dela, optaram pelo aborto.

Cultura do Estupro:


Cultura do Estupro no espaço público: Nosso direito de ir e vir ameaçado, por Gizelli Sousa (Eu): Nesse texto tento mostrar através de exemplos como o espaço público é hostil com as mulheres e como isso está relacionado com a cultura do estupro.

Quem me estuprou, por Aline Valek: Texto fictício sobre uma mulher que foi estuprada.

Padrão de beleza:


O propósito da mulher não é a beleza, por Jarid Arraes: crítica à imposição da beleza às mulheres.

A mulher inteligente, segundo o patriarcado, por Gizelli Sousa (Eu): A respeito das cobranças masculinas em torno da mulher.

Falácia do femismo/misandria:


O mito do Femismo, por Ana Clara Marques e Patrick Monteiro: mostra o interesse por trás da separação de feminismo (teoria de igualdade) e femismo (machismo às avessas, coisa que non ecziste).

Maternidade:

Qualquer forma de violência é condenável, por Ana Cristina Duarte: Explica o que é a violência obstétrica


LGBT:

Imagem da página "Transexualismo da depressão", no Facebook

Transexualidade e despatologização, por Aline Freitas: texto curtinho criticando a definição da OMS para transexualidade.

Não somos todos gays!, por Daniela Andrade: sobre o apagamento das questões referentes às pessoas trans* quando se fala em LGBT unicamente como um movimento gay.

Nada contra, por Aline Valek: texto humorístico lançando os argumentos preconceituosos dos homofóbicos contra eles mesmos.

Panorama Mundial:
Marcha das Vadias de Bogotá

Roupas não previnem estupro. Em lugar nenhum do mundo, por Flávia: A tradução do texto O mito de como o Hijab protege as mulheres contra o abuso sexual, por Josh Shahryar. É também um texto sobre cultura do estupro.

O véu, o feminismo e a questão da escolha, por Flávia: Diversos questionamentos sobre o feminismo ocidental, que trata as pessoas não-ocidentais como vítimas, mas também sobre o feminismo de escolha como posicionamento único.

"Minhas raízes são aéreas", por Eliane Brum: Um texto forte (prepare o lenço) sobre a experiência da gaúcha Débora Noal no grupo "Médicos sem fronteiras" em zonas de conflito remotas e perigosas. Esse texto é tão maravilhoso e triste que meus olhos marejam enquanto escrevo sobre ele.

UPDATE 22/05/2013 Uma carta aberta de mulheres negras para a marcha das vadias, tradução por Feminista Cansada: Tradução do texto "An open letter from black women to slutwalk", texto assinado por diversas feministas (pode ser visto no fim do texto original), criticando a ressignificação da palavra "vadia", que tem um peso muito maior para as mulheres negras.

Palestras TED (é preciso ativar as legendas):
A teen just trying to figure it out (tradução livre: Uma adolescente tentando se encontrar), por Tavi Gevinson: Sobre feminismo e adolescência.

Radical Women, embracing traditions (tradução livre: Mulheres radicais abraçando a tradição), por Kavita Ramdas: Sobre mulheres que usam a tradição de suas culturas para quebrar paradigmas.

On Security (tradução livre: Sobre segurança), por Eve Ensler: Histórias inspiradoras de como mulheres que promoveram grandes mudanças em ambientes de enorme insegurança e violência.

The danger of a single history (tradução livre: Os perigos de uma história única), por Chimamanda Adichie: Sobre os perigos da visão paternalista e única sobre a África.

A call to men (tradução livre: Um chamado aos homens), por Tony Porter: Uma palestra que explica como o machismo também afeta aos homens, desde crianças.

Reinventing feminism (tradução livre: Reinventando o feminismo), por Courtney Martin: Fala sobre a geração atual de feministas através da sua história pessoal.

P.S.:Meus agradecimentos a todos os amigos que ajudaram a montar essa lista e aos autores desses textos maravilhosos.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Coleções assinadas em fast fashions: Democratizar a moda não é isso!


Há muito tempo eu já desejava escrever sobre as "coleções assinadas" das lojas de departamento, ultimamente chamadas de "fast fashion". Peguei o gancho da Ana, do blog "Hoje vou assim off", que fez um texto ótimo sobre o assunto que pode ser lido aqui.

Eu não sei quem começou essa moda, mas o fato é que no Brasil deu certo. As lojas de departamentos como C&A e Riachuelo têm se alternado em coleções assinadas por estilistas. Ótimo. Democratizar a moda é uma idéia verdadeiramente bonita. Porém, não é democratização quando:

- A roupa é fabricada na China: Como brilhantemente explicou a Ana, há roupas de coleção que são conhecidas por pessoas que frequentam o Ebay. Pessoas como eu, por exemplo, que bati o olho e pensei: "cara de pau!". A ética passou longe. Se a coleção é assinada, acreditamos que é porque existe autoralidade. Contudo, o que de fato existe é a exploração de uma classe de consumo que não tem poder aquisitivo alto o suficiente para comprar uma roupa de grife. Basicamente, estão vendendo o exclusivo, mas entregando para as pessoas a cópia da cópia, só que com uma etiqueta grifada.

Foto 1 - Asos, foto 2- C&A,
foto 3- Ebay (inclusive aproveitaram a foto da Asos)
- Mão-de-obra barata: Já comprei produtos chineses. Além dos que comprei conscientemente, hoje sei que praticamente tudo o que consumimos vem da China (e outros países asiáticos), de tênis a eletrônicos. Até participo de um grupo no facebook que compartilha dicas de produtos do ebay. Não me orgulho de comprar na China, mas está cada dia mais difícil e mais caro comprar roupas que me vistam aqui no Brasil. Não é só no ebay que a mão de obra é barata, já ouvi por mais de uma vez que os produtos vendidos em lojas de departamento, que são produzidos no Brasil, muitas vezes podem ser encontrados em lojas de fábrica (sem a etiqueta) a preços muito menores. Valorizar o trabalho dos costureiros é muito importante, mas infelizmente o que percebo é que isso só acontece se você for direto até a fonte. Se a gente não pode comprar em lojas de grife e compra em lojas de departamentos, ainda que a produção seja nacional, dificilmente o trabalho deles  estará sendo valorizado. Mesmo em lojas de grife eu tenho minhas dúvidas sobre a valorização do profissional, a impressão que tenho é que o lucro é ainda muito mais díspar, se comparado aos salários dos costureiros.

- Retira o mercado do pequeno lojista: Contrastando com esse modo de produção altamente excludente, estão @s costureir@s como a minha mãe. Ela é das boas, perfeccionista em níveis quase preocupantes e adora o que faz. Tanto, que ela fez uma faculdade de moda e tem um negócio próprio. Uma pequena loja que não gera lucro o suficiente para expandir. Não existe valorização para o pequeno empresário, para quem tem uma loja de bairro, para quem trabalha em casa. Não em um ambiente de consumo em que etiqueta é status. 

- As coleções não contemplam tamanhos grandes: Como dizer que há democratização da moda quando as pessoas que já são consumidoras de lojas populares não conseguem encontrar sua numeração? Eu compro em lojas de departamento nem sempre por opção, mas porque lá eu consigo encontrar numeração que me sirva. Ou conseguia. A C&A e a Riachuelo lançaram coleções plus size uma delas assinada pela Preta Gil (gente, a Preta é estilista? Eu não sei) e a outra da marca Tool, respectivamente. Mas isso não basta, não basta nos colocar em uma arara no fundo da loja, nem lançar uma coleção por ano que contemple nossas medidas. Nós, mulheres gordas, desejamos fazer parte da grade padrão,  quem disse que nós temos "tamanho especial" ou que somos "plus size"? Somos normais. Eu rejeito esse rótulo (embora seja obrigada a usá-lo para conseguir comprar roupas). Sou gorda como outras são magras. E ninguém vende roupa para pessoas magras como se fosse "tamanho especial". Coleções assinadas e gordofóbicas não democratizam nada, só tornam ainda mais evidente a diferença no tratamento que é dispensado às pessoas obesas.

Eu sigo me perguntando: Se somos um nicho separado de todos, cadê a visibilidade dos estilistas "plus size"? Por que eles não tem notoriedade? Por que não sabemos seus nomes? Eu desejo o reconhecimento desses profissionais, desejo que eles estejam à frente da criação em redes de lojas de departamentos e em pequenas lojas de bairro. Que o seu trabalho seja difundido. Infelizmente, parece que eles, como nós que somos gordos, estão à margem na moda.

A gente vive analisando as contradições que existem entre vestir o que quiser/ o que couber/ o que tem um preço que pode ser pago/ o que é ético. E normalmente (eu não vou me excluir aqui), o que é ético costuma ficar em segundo plano. Democratizar passa por equilibrar todos esses fatores. Quando a gente precisa escolher um deles em detrimento dos outros, com certeza algo está errado.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Givenchy: O cheiro da morte - parte 2


O texto de hoje é uma sequência do post "Givenchy: O cheiro da morte". Depois de tê-lo escrito, algumas pessoas (movidas por um otimismo que eu não possuo) ainda questionavam qual era a real intenção da marca Givenchy ao criar um perfume inspirado por um feminicídio brutal. Alguns comentaristas acharam que era uma homenagem à Elizabeth Short. 

Pessoalmente eu não acredito mesmo que há qualquer traço de homenagem na propaganda do perfume. Veja, não há crítica ao assassinato em momento algum e muito menos vejo representada ali na personagem a figura de uma mulher dos anos 40, que teve uma vida particularmente diferente do habitual. O que vejo é uma idéia bem vazia de erotização do corpo, especialmente no momento em que ela se move sensualmente sobre uma base, ou quando continua olhando de forma vazia para o nada, gerando o famoso ar blasé. Na verdade esse tratamento da imagem me parece bastante desumanizador.

Porém, deixando todas as minhas impressões de lado, deixo que o próprio Ricardo Tisci, diretor criativo da Givenchy, se explique. O trecho abaixo foi retirado da Vogue Austrália, e traduzido livremente por mim.

V.A.: O nome Dahlia Noir evoca uma femme fatale muito misteriosa, quase perigosa. Qual foi a sua intenção?

Tisci: "Eu quis materializar na fragrância e em seu nome um anjo negro sedutor, uma heroina que emana uma suavidade obscura, uma ternura fatal."

V.A.: Dahlia Noir presta homenagem ao Romance escrito por James Ellroy "Dália Negra"?

Tisci: "A Dália Negra, no livro de James Ellroy, é sobretudo uma heroina. Na minha opinião, a estória é mais sobre paixão do que sobre crime. A paixão faz com que cada indivíduo alcance seu máximo, leva ao excessos. O ápice das emoções pode levá-los a cometer atos sob a influência da paixão."

Deixa eu ver se entendi: 

Então ele quis "materializar" na fragrância, cujo nome veio de um feminicídio brutal, um "anjo sedutor". Está explicada a objetificação sob a personagem na propaganda. E por fim, o que acho mais problemático, ele afirma que o caso Dália Negra é mais sobre paixão, do que sobre crime.

Muita calma nessa hora. 

Então um feminicídio brutal (Sim, vou repetir essas palavras algumas vezes, para deixar bem claro do que se trata) em que alguém resolveu partir o corpo de uma pessoa ao meio, fazer cortes em seus genitais, abrir um sorriso macabro do canto da boca até as orelhas dessa pessoa, jogar seu corpo nu, violentado e torturado em um terreno baldio... é mais sobre PAIXÃO do que sobre CRIME? Se isso não é glamurizar um feminicídio, não sei mais o que poderia ser. 

Vamos esclarecer uma coisa: feminicídio não é questão de "paixão", é questão de "poder". E não é um caso isolado. Feminicídio é um fenômeno complexo que ocorre em todo o mundo até hoje. Quem tiver alguma dúvida sobre o verdadeiro massacre de um gênero sobre outro, pode dar uma olhadinha no blog "quem o machismo matou hoje", que até março desse ano fazia uma contagem diária de mulheres que foram mortas por seus companheiros e viraram apenas mais uma pequena manchete de jornal. Chega de falar em "crime passional". Dizer que a culpa é da paixão é legitimar a violência. Não é paixão, é ódio, é misoginia e é demonstração de poder/posse. 

Acho que as empresas se esqueceram o significado de homenagem. Dessas homenagens e boas intenções, o inferno está lotado. Não é homenagem quando se glamuriza o feminicídio, está homenageando quem, queridão? O assassino "movido pela paixão", que nunca foi pego? Só se for. 


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Não sou gordofóbico, mas:

Foto da Marcha das Vadias de BH em 2012

... jamais namoraria com umx gordx.
... botei minha/meu filhx na dieta só para garantir.
... acho que obesidade é desleixo.
... compro roupas em lojas que só vendem roupas para magros e isso não me incomoda.
... sempre observo o prato das pessoas obesas.
... acho que, diferente de mim que como o que quiser, xs gordxs só deveriam comer alface.
... acho que, diferente de mim que só ando de carro, xs gordxs só deveriam andar a pé.
... acho que todx gordx tem que ser muito simpático "para compensar".
... prefiro magros, é uma questão de gosto pessoal.
... chamo as pessoas gordas de baleia, monstrinho, superpig, porco e etc, mas é só de brincadeirinha, claro!
... acho que atleta TEM que ser magro.
... acho as pessoas gordas naturalmente engraçadas.
... de vez em quando uso a palavra "gordx" para ofender alguém.
... não entendo porque meu/minha ex me trocou por umx gordx.
... tenho nojinho.
... me incomoda ver gente gorda nos ambientes que frequento.
... acho que gordxs são seres carentes e vulneráveis.
... acho que gordxs devem vestir roupas que disfarcem o seu corpo.
... mantenho alguma distância de gordxs quando entro no ônibus ou no metrô.
... acho ridículo esse negócio de miss plus size, já que não existe gorda bonita.
... se fico com umx gordx, eu digo para xzamigue que é caridade, só para não pegar mal para o meu lado.
... não contrataria umx gordx.
... porque não faz logo uma cirurgia e resolve o "problema"?
... os gordos não estão nem aí para a própria saúde.

Escrevi esse texto porque, em geral, as pessoas não tem nada contra gordos e até têm amigos que são.

Já dá para fazer um bingo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O feminismo não tem limites (e nem deveria ter mesmo)


Há poucas horas, me deparei com a expressão "feminismo desenfreado". Eu ri um pouco do ridículo da expressão, mas depois ela me fez refletir. Em primeiro lugar, qual o problema de não ter freio em exigir igualdade de direitos, respeito a todos e uma sociedade mais justa? E por fim, a quem interessa frear o feminismo?

Ao Estado cujo poder se concentra nas mãos de homens. Ainda que tenhamos uma presidenta, não temos poder, não temos representatividade. Precisamos de mais mulheres nas trincheiras do legislativo, do executivo e do judiciário, na linha de frente, nos defendendo de leis que atentam contra a nossa dignidade, como o Estatuto do Nascituro. 

Aos empresários que precisariam pagar igualmente aos homens e às mulheres. Nada de contratar mão de obra qualificada a preço de banana.

Às empresas que teriam que reformular sua estratégia de marketing. Os fabricantes de cerveja precisariam parar de objetificar mulheres, os fabricantes de produtos de limpeza, teriam que entender que homens também são capazes de realizar tarefas domésticas, os fabricantes de brinquedos teriam que oferecer bonecas aos meninos. Enfim, todo mundo teria que se levantar do seu lugarzinho confortável, quentinho e ser criativo de verdade.

À igreja que teria que explicar para os fiéis porque mulheres não fazem parte do seu alto escalão. Além, é claro, de ter que explicar porque as mulheres foram sempre vilipendiadas, destratadas, subjugadas e mortas em nome da fé. Sem contar o exercício que seria mudar o discurso de submissão que é vomitado em cima das mulheres, o que interferiria diretamente no seu modelo falido de família.

À grande mídia formada por conglomerados familiares, que só oferecem lugar de destaque a uma mulher se ela souber repetir como um papagaio tudo aquilo que os homens e mandatários dessas famílias pensam. Que teria que dar voz às mulheres, em vez de dar ordens.

Aos exploradores sexuais que traficam, vendem, aprisionam, estupram, desumanizam e matam mulheres no mundo inteiro.

Aos financiadores de conflitos, que sabem da força destrutiva do estupro que é constantemente usado como arma de guerra.


À indústria da moda/beleza que retira de nós, mulheres, a capacidade de amar ao próprio corpo, de vestir o que achar melhor, de ter uma auto-imagem adequada. Naomi Wolf mandou o papo retíssimo na cara da sociedade: "Uma cultura obcecada por magreza feminina não é obcecada pela beleza da mulher, mas sim pela obediência feminina. A dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil".

Aos médicos cesaristas que todos os dias praticam o oportunismo de negar informação às suas pacientes, para assim retirar-lhes o poder de escolha sobre o próprio corpo.

Aos charlatães que lotam universidades e ganham dinheiro em cima de pesquisas de gênero pseudocientíficas sem metodologia confiável

E principalmente, àqueles homens que se beneficiam do machismo e não estão dispostos a deixar de lado o poder que presumem ter sobre as mulheres. Poder que vai desde achar que é normal assediar uma mulher na rua até o direito de decidir se a mulher deve viver ou morrer. Homens que não querem uma sociedade horizontalmente estruturada, preferem manter-se no topo de uma pirâmide cuja base é composta por minorias historicamente oprimidas.

E, na boa? sou feminista e nenhum deles vai me segurar.

Essa foi uma lista que reuni em poucos minutos. Sei que há muitos outros interessados na manutenção do sistema patriarcal. A semelhança entre eles? Todos estão lucrando $$$ com a opressão machista. Interessa muitíssimo ao capitalismo que o feminismo seja contido, seja controlado. A quem você acha que interessa frear o feminismo?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Givenchy: o cheiro da morte


Não assisto muito à televisão. Talvez por isso, esse texto esteja um pouco atrasado. Ontem, em um dos raros momentos em que zapeava pelos canais, assisti a uma propaganda que me deixou chocada. Fui obrigada a me questionar: Eu realmente assisti a isso? Eu entendi direito? Infelizmente, a resposta para as duas questões foi "sim". O anúncio era um daqueles comerciais aparentemente nonsense de perfume. Eu nem estava prestando muita atenção. Filmado em preto e branco, com uma modelo bastante alta e magra fazendo carão, vestida em uma roupa preta esvoaçante. Cabelos e roupas ao vento. Propagandas de perfume não vendem odores, vendem estilos de vida. Ao pensar numa mulher linda com os cabelos e as roupas ao vento, dançando suavemente, eu imagino uma mulher livre. A cor da roupa dela, preta, traz a idéia do mistério, da sedução. Até então, tranquilo. Propaganda de perfume é isso mesmo. O problema veio no fim, quando é revelado o nome do perfume: Dahlia Noir. Com o perdão da piada ruim, isso cheira fortíssimo à misoginia. Antes de prosseguirmos, assistam.



Aos menos informados, o nome é uma referência a um feminicídio brutal ocorrido em Los Angeles nos anos 40 e até hoje sem solução. A vítima foi uma moça chamada Elizabeth Short e o caso ficou conhecido como Dália Negra. Quando eu digo que foi um assassinato brutal, eu não estou brincando, galera. A moça foi dividida ao meio, as pernas e o torso foram completamente separadas, o assassino fez cortes em seu rosto que iam dos cantos da boca às orelhas, num sorriso macabro. Especula-se que ela tenha sido torturada. É importante ressaltar que esse é um daqueles casos extremamente famosos. Há livros, há filme dirigido por Brian de Palma, há documentários. Não estamos falando de um feminicídio anônimo, mas de algo que está de alguma maneira na memória das pessoas (na minha, inclusive, que nem sou americana). Até mesmo o RPM tem uma música chamada Dália Negra, que conta a história do assassinato de uma prostituta (eles usam o termo "vadia". Uma pequena gota da misoginia do rock nacional, mas esse assunto fica para outro dia).

O motivo pelo qual o caso é conhecido é o machismo da sociedade. Elizabeth foi uma mulher incomum para a sua época. Ela perdeu o noivo na guerra e resolveu sair da casa dos pais mesmo sendo solteira. Era muito bonita, Vivia sozinha, frequentava bares e aspirava à uma carreira no cinema. O termo machista para definí-la é Femme fatale. O assassinato dela foi alardeado como aviso às moças jovens, para que tivessem uma vida de recato. Culpar a vítima, como se pode notar, é prática antiga. Lamento que ainda precisemos levantar a bandeira de que a vítima não tem culpa.

Propaganda misógina
Não vou colocar aqui fotos do corpo mutilado de Elizabeth Short, mas elas podem ser facilmente encontradas no google. Se você resolver dar uma comparada no corpo e na roupa da modelo, principalmente na mídia impressa onde o figurino está mais evidente, vai encontrar semelhanças também. A roupa possui algumas faixas passando de forma bem marcada pelo seu corpo, e uma espécie de véu de tule. Fica evidente a intenção de fazer uma referência ao mutilamento de Elizabeth. Uma das faixas parece demarcar exatamente o corte abrupto na cintura, é de um mau gosto inexplicável. Tudo muito absurdo e nojento. Não há chance de ser uma coincidência. Dahlia Noir é uma referência direta ao feminicídio de Elizabeth Short.

Modelo da Rodarte e produto que imita sangue
Estou até agora tentando entender essa glamurização do feminicídio que é tão recorrente na moda. Há algum tempo atrás, talvez no primeiro momento em que me dei conta do flerte entre moda e misoginia, eu fiquei igualmente pasma diante do desfile de uma coleção de maquiagem da Rodarte, para a MAC. Foi horrível. O desfile trazia modelos sorumbáticas, com grandes olheiras, de aspecto quase fantasmagórico. Aquilo não era apenas um tanto soturno, era macabro mesmo. Entretanto, o pior veio novamente no nome dos produtos: Border Town, Factory e Juárez, Ghost Town, Sleepless, Quinceañera, Del Norte. TUDO está ligado à Cidade de Juárez.

Protesto em memória das vítimas
de feminicídio realizado pela
artista mexicana Elina Chauvet (foto)
Cidade de Juárez é lembrada em todo o mundo por ser símbolo da violência machista. De 1993 à 2012, ou seja, em 20 anos, foram mais de 700 mulheres mortas. 700 mulheres torturadas, violentadas e por fim, assassinadas em uma única cidade. As vítimas em geral são jovens mulheres, entre 15 e 25 anos,  que abandonaram seus estudos para trabalhar nas fábricas da cidade. É um verdadeiro massacre. Um drama social impensável, uma barbárie. O México é constantemente condenado por cortes internacionais de Direitos Humanos. Como alguém pode cogitar usar essa referência para criar maquiagem? Alguns dirão que as irmãs Mulleavy, fundadoras da Rodarte, estavam tocadas pelo assunto e queriam dar visibilidade ao tema. Certo, eu entendo que as criações artísticas por vezes são denunciativas e que há um espaço para a crítica que deve ser ocupado, inclusive na moda. Porém, quando precisaram se explicar perante à sociedade mexicana e diversas organizações de direitos humanos, elas afirmaram que queriam apenas “celebrar a beleza da paisagem e das pessoas”. Meus caros, celebração da beleza de mulheres mortas e/ou vulneráveis à violência não é crítica. Não há celebração quando estamos falando de um assunto que é uma ferida aberta no México e no mundo inteiro.

Esses dois casos não são isolados. A moda/a indústria de cosméticos é cheia de imagens de mulheres mortas, violentadas, agredidas. Há uma glamurização da violência contra a mulher que não questiona nada é apenas muito pertubadora. Um outro exemplo é a "Agent Provocateur", uma empresa que produz lingerie e que é famosa por lançar campanhas polêmicas e comumente proibidas por serem degradantes para as mulheres. Vejam:


Diante desse panorama, quando oferecem para mulheres produtos que de alguma maneira glamurizam o feminicídio, estão passando adiante essa cultura misógina. Estão incentivando-a. É óbvio que alguém que assiste à propaganda da Dahlia Noir não vai sair por aí matando mulheres, mas é igualmente óbvio que o somatório dessas imagens que se repetem em campanhas publicitárias formam em nós um nível de misoginia. Afinal, propagandas são feitas para nos convencer de algo, certo? para que sejamos convencidos a consumir um produto. As empresas gastam milhões em propagandas por um motivo: elas funcionam. Compramos suas motivações, compramos seus produtos. Quando nos acostumamos a observar mulheres agredidas, mortas, violentadas, ainda que vestidas nas mais lindas lingeries, ainda que usando o perfume mais caro, estamos naturalizando, lenta e silenciosamente, a violência sistemática contra a mulher. 

P.S.: Um texto excelente sobre a coleção Rodarte para MAC, você pode ver no saudoso blog "De Chanel na Laje"

UPDATE: leia também a parte 2 desse texto aqui.