segunda-feira, 29 de abril de 2013

Não sou gordofóbico, mas:

Foto da Marcha das Vadias de BH em 2012

... jamais namoraria com umx gordx.
... botei minha/meu filhx na dieta só para garantir.
... acho que obesidade é desleixo.
... compro roupas em lojas que só vendem roupas para magros e isso não me incomoda.
... sempre observo o prato das pessoas obesas.
... acho que, diferente de mim que como o que quiser, xs gordxs só deveriam comer alface.
... acho que, diferente de mim que só ando de carro, xs gordxs só deveriam andar a pé.
... acho que todx gordx tem que ser muito simpático "para compensar".
... prefiro magros, é uma questão de gosto pessoal.
... chamo as pessoas gordas de baleia, monstrinho, superpig, porco e etc, mas é só de brincadeirinha, claro!
... acho que atleta TEM que ser magro.
... acho as pessoas gordas naturalmente engraçadas.
... de vez em quando uso a palavra "gordx" para ofender alguém.
... não entendo porque meu/minha ex me trocou por umx gordx.
... tenho nojinho.
... me incomoda ver gente gorda nos ambientes que frequento.
... acho que gordxs são seres carentes e vulneráveis.
... acho que gordxs devem vestir roupas que disfarcem o seu corpo.
... mantenho alguma distância de gordxs quando entro no ônibus ou no metrô.
... acho ridículo esse negócio de miss plus size, já que não existe gorda bonita.
... se fico com umx gordx, eu digo para xzamigue que é caridade, só para não pegar mal para o meu lado.
... não contrataria umx gordx.
... porque não faz logo uma cirurgia e resolve o "problema"?
... os gordos não estão nem aí para a própria saúde.

Escrevi esse texto porque, em geral, as pessoas não tem nada contra gordos e até têm amigos que são.

Já dá para fazer um bingo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O feminismo não tem limites (e nem deveria ter mesmo)


Há poucas horas, me deparei com a expressão "feminismo desenfreado". Eu ri um pouco do ridículo da expressão, mas depois ela me fez refletir. Em primeiro lugar, qual o problema de não ter freio em exigir igualdade de direitos, respeito a todos e uma sociedade mais justa? E por fim, a quem interessa frear o feminismo?

Ao Estado cujo poder se concentra nas mãos de homens. Ainda que tenhamos uma presidenta, não temos poder, não temos representatividade. Precisamos de mais mulheres nas trincheiras do legislativo, do executivo e do judiciário, na linha de frente, nos defendendo de leis que atentam contra a nossa dignidade, como o Estatuto do Nascituro. 

Aos empresários que precisariam pagar igualmente aos homens e às mulheres. Nada de contratar mão de obra qualificada a preço de banana.

Às empresas que teriam que reformular sua estratégia de marketing. Os fabricantes de cerveja precisariam parar de objetificar mulheres, os fabricantes de produtos de limpeza, teriam que entender que homens também são capazes de realizar tarefas domésticas, os fabricantes de brinquedos teriam que oferecer bonecas aos meninos. Enfim, todo mundo teria que se levantar do seu lugarzinho confortável, quentinho e ser criativo de verdade.

À igreja que teria que explicar para os fiéis porque mulheres não fazem parte do seu alto escalão. Além, é claro, de ter que explicar porque as mulheres foram sempre vilipendiadas, destratadas, subjugadas e mortas em nome da fé. Sem contar o exercício que seria mudar o discurso de submissão que é vomitado em cima das mulheres, o que interferiria diretamente no seu modelo falido de família.

À grande mídia formada por conglomerados familiares, que só oferecem lugar de destaque a uma mulher se ela souber repetir como um papagaio tudo aquilo que os homens e mandatários dessas famílias pensam. Que teria que dar voz às mulheres, em vez de dar ordens.

Aos exploradores sexuais que traficam, vendem, aprisionam, estupram, desumanizam e matam mulheres no mundo inteiro.

Aos financiadores de conflitos, que sabem da força destrutiva do estupro que é constantemente usado como arma de guerra.


À indústria da moda/beleza que retira de nós, mulheres, a capacidade de amar ao próprio corpo, de vestir o que achar melhor, de ter uma auto-imagem adequada. Naomi Wolf mandou o papo retíssimo na cara da sociedade: "Uma cultura obcecada por magreza feminina não é obcecada pela beleza da mulher, mas sim pela obediência feminina. A dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil".

Aos médicos cesaristas que todos os dias praticam o oportunismo de negar informação às suas pacientes, para assim retirar-lhes o poder de escolha sobre o próprio corpo.

Aos charlatães que lotam universidades e ganham dinheiro em cima de pesquisas de gênero pseudocientíficas sem metodologia confiável

E principalmente, àqueles homens que se beneficiam do machismo e não estão dispostos a deixar de lado o poder que presumem ter sobre as mulheres. Poder que vai desde achar que é normal assediar uma mulher na rua até o direito de decidir se a mulher deve viver ou morrer. Homens que não querem uma sociedade horizontalmente estruturada, preferem manter-se no topo de uma pirâmide cuja base é composta por minorias historicamente oprimidas.

E, na boa? sou feminista e nenhum deles vai me segurar.

Essa foi uma lista que reuni em poucos minutos. Sei que há muitos outros interessados na manutenção do sistema patriarcal. A semelhança entre eles? Todos estão lucrando $$$ com a opressão machista. Interessa muitíssimo ao capitalismo que o feminismo seja contido, seja controlado. A quem você acha que interessa frear o feminismo?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Givenchy: o cheiro da morte


Não assisto muito à televisão. Talvez por isso, esse texto esteja um pouco atrasado. Ontem, em um dos raros momentos em que zapeava pelos canais, assisti a uma propaganda que me deixou chocada. Fui obrigada a me questionar: Eu realmente assisti a isso? Eu entendi direito? Infelizmente, a resposta para as duas questões foi "sim". O anúncio era um daqueles comerciais aparentemente nonsense de perfume. Eu nem estava prestando muita atenção. Filmado em preto e branco, com uma modelo bastante alta e magra fazendo carão, vestida em uma roupa preta esvoaçante. Cabelos e roupas ao vento. Propagandas de perfume não vendem odores, vendem estilos de vida. Ao pensar numa mulher linda com os cabelos e as roupas ao vento, dançando suavemente, eu imagino uma mulher livre. A cor da roupa dela, preta, traz a idéia do mistério, da sedução. Até então, tranquilo. Propaganda de perfume é isso mesmo. O problema veio no fim, quando é revelado o nome do perfume: Dahlia Noir. Com o perdão da piada ruim, isso cheira fortíssimo à misoginia. Antes de prosseguirmos, assistam.



Aos menos informados, o nome é uma referência a um feminicídio brutal ocorrido em Los Angeles nos anos 40 e até hoje sem solução. A vítima foi uma moça chamada Elizabeth Short e o caso ficou conhecido como Dália Negra. Quando eu digo que foi um assassinato brutal, eu não estou brincando, galera. A moça foi dividida ao meio, as pernas e o torso foram completamente separadas, o assassino fez cortes em seu rosto que iam dos cantos da boca às orelhas, num sorriso macabro. Especula-se que ela tenha sido torturada. É importante ressaltar que esse é um daqueles casos extremamente famosos. Há livros, há filme dirigido por Brian de Palma, há documentários. Não estamos falando de um feminicídio anônimo, mas de algo que está de alguma maneira na memória das pessoas (na minha, inclusive, que nem sou americana). Até mesmo o RPM tem uma música chamada Dália Negra, que conta a história do assassinato de uma prostituta (eles usam o termo "vadia". Uma pequena gota da misoginia do rock nacional, mas esse assunto fica para outro dia).

O motivo pelo qual o caso é conhecido é o machismo da sociedade. Elizabeth foi uma mulher incomum para a sua época. Ela perdeu o noivo na guerra e resolveu sair da casa dos pais mesmo sendo solteira. Era muito bonita, Vivia sozinha, frequentava bares e aspirava à uma carreira no cinema. O termo machista para definí-la é Femme fatale. O assassinato dela foi alardeado como aviso às moças jovens, para que tivessem uma vida de recato. Culpar a vítima, como se pode notar, é prática antiga. Lamento que ainda precisemos levantar a bandeira de que a vítima não tem culpa.

Propaganda misógina
Não vou colocar aqui fotos do corpo mutilado de Elizabeth Short, mas elas podem ser facilmente encontradas no google. Se você resolver dar uma comparada no corpo e na roupa da modelo, principalmente na mídia impressa onde o figurino está mais evidente, vai encontrar semelhanças também. A roupa possui algumas faixas passando de forma bem marcada pelo seu corpo, e uma espécie de véu de tule. Fica evidente a intenção de fazer uma referência ao mutilamento de Elizabeth. Uma das faixas parece demarcar exatamente o corte abrupto na cintura, é de um mau gosto inexplicável. Tudo muito absurdo e nojento. Não há chance de ser uma coincidência. Dahlia Noir é uma referência direta ao feminicídio de Elizabeth Short.

Modelo da Rodarte e produto que imita sangue
Estou até agora tentando entender essa glamurização do feminicídio que é tão recorrente na moda. Há algum tempo atrás, talvez no primeiro momento em que me dei conta do flerte entre moda e misoginia, eu fiquei igualmente pasma diante do desfile de uma coleção de maquiagem da Rodarte, para a MAC. Foi horrível. O desfile trazia modelos sorumbáticas, com grandes olheiras, de aspecto quase fantasmagórico. Aquilo não era apenas um tanto soturno, era macabro mesmo. Entretanto, o pior veio novamente no nome dos produtos: Border Town, Factory e Juárez, Ghost Town, Sleepless, Quinceañera, Del Norte. TUDO está ligado à Cidade de Juárez.

Protesto em memória das vítimas
de feminicídio realizado pela
artista mexicana Elina Chauvet (foto)
Cidade de Juárez é lembrada em todo o mundo por ser símbolo da violência machista. De 1993 à 2012, ou seja, em 20 anos, foram mais de 700 mulheres mortas. 700 mulheres torturadas, violentadas e por fim, assassinadas em uma única cidade. As vítimas em geral são jovens mulheres, entre 15 e 25 anos,  que abandonaram seus estudos para trabalhar nas fábricas da cidade. É um verdadeiro massacre. Um drama social impensável, uma barbárie. O México é constantemente condenado por cortes internacionais de Direitos Humanos. Como alguém pode cogitar usar essa referência para criar maquiagem? Alguns dirão que as irmãs Mulleavy, fundadoras da Rodarte, estavam tocadas pelo assunto e queriam dar visibilidade ao tema. Certo, eu entendo que as criações artísticas por vezes são denunciativas e que há um espaço para a crítica que deve ser ocupado, inclusive na moda. Porém, quando precisaram se explicar perante à sociedade mexicana e diversas organizações de direitos humanos, elas afirmaram que queriam apenas “celebrar a beleza da paisagem e das pessoas”. Meus caros, celebração da beleza de mulheres mortas e/ou vulneráveis à violência não é crítica. Não há celebração quando estamos falando de um assunto que é uma ferida aberta no México e no mundo inteiro.

Esses dois casos não são isolados. A moda/a indústria de cosméticos é cheia de imagens de mulheres mortas, violentadas, agredidas. Há uma glamurização da violência contra a mulher que não questiona nada é apenas muito pertubadora. Um outro exemplo é a "Agent Provocateur", uma empresa que produz lingerie e que é famosa por lançar campanhas polêmicas e comumente proibidas por serem degradantes para as mulheres. Vejam:


Diante desse panorama, quando oferecem para mulheres produtos que de alguma maneira glamurizam o feminicídio, estão passando adiante essa cultura misógina. Estão incentivando-a. É óbvio que alguém que assiste à propaganda da Dahlia Noir não vai sair por aí matando mulheres, mas é igualmente óbvio que o somatório dessas imagens que se repetem em campanhas publicitárias formam em nós um nível de misoginia. Afinal, propagandas são feitas para nos convencer de algo, certo? para que sejamos convencidos a consumir um produto. As empresas gastam milhões em propagandas por um motivo: elas funcionam. Compramos suas motivações, compramos seus produtos. Quando nos acostumamos a observar mulheres agredidas, mortas, violentadas, ainda que vestidas nas mais lindas lingeries, ainda que usando o perfume mais caro, estamos naturalizando, lenta e silenciosamente, a violência sistemática contra a mulher. 

P.S.: Um texto excelente sobre a coleção Rodarte para MAC, você pode ver no saudoso blog "De Chanel na Laje"

UPDATE: leia também a parte 2 desse texto aqui.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Racismo e glamour


Homenagem é o caralho. Do que eu estou falando? recentemente uma revista francesa faz ensaio fotográfico entitulado African queen (Rainha africana) usando uma modelo loira cuja pele foi pintada digitalmente para parecer negra e, poucas semanas depois, o renomado estilista Ronaldo Fraga, "homenageia" os negros fazendo com que modelos usem perucas de palha de aço (Bombril) na passarela do SPFW. Na boa? Não é homenagem se as pessoas se sentem ridicularizadas.

Humor do início do século XX

Para falar disso é necessário compreender que o nosso padrão de beleza é racista. As características européias são normalmente qualificadas como bonitas: pele e olhos claros, cabelos com compleição lisa, nariz aquilino e etc.  Aos traços característicos dos negros se atribuem adjetivos nada abonadores: Nariz de batata, cabelo de bombril, cabelo duro, cabelo ruim, carvão, sujo e etc. Portanto, existe um fator racial determinante em como a sociedade percebe a beleza.

Blackface glamurizado da revista

E sob esse aspecto que a prática do blackface, ou seja, o ato de pintar uma pessoa branca de negra é compreendido. A caracterização do branco como negro é usada há muito tempo como forma de ridicularização. E continua sendo, não se esqueçam de Adelaide, do Zorra Total. E por isso é perigosa demais essa "glamurização" do blackface, que ignora um passado de opressão. A glamurização do blackface é um carimbo que diz: "não somos racistas, somos todos iguais". O problema é que não somos iguais e não devemos nos dar ao luxo de ignorar isso. O tratamento dispensado aos negros e aos brancos em nossa sociedade é de profunda desigualdade racial.

O cabelo de bombril
Muito parecido com isso é a questão do cabelo bombril. Eu acho que a uma imagem fala muita coisa. O cabelo crespo não é bombril, essa é uma ridicularização sobre uma característica física atribuída aos negros. Uma peruca de bombril é uma piada de péssimo gosto. Se a idéia era fazer uma homenagem, seria muito mais interessante e empoderador realizar um desfile inteiramente formado por modelos negros. Sabemos que, dado o caráter preconceituoso do padrão de beleza, os negros tem um lugar restrito na moda, representando o exótico, o diferente. Seria lindo ver diversidade nas passarelas em vez de Bombril. Não dá para retirar as coisas de seu contexto de opressão, falar em "homenagem" e achar que é tão simples assim. Uma ressignificação.

Não é ressignificação quando parte de um grupo opressor. A ressignificação é antes de tudo empoderadora. Por exemplo, eu uso a palavra "negro" para me referir às pessoas de pele escura, mas os negros podem preferir falar de si mesmos como "pretos" de forma empoderadora. Eu, que sou branca, prefiro não usar esse termo, pois sei que temos responsabilidade histórica sobre o teor pejorativo que ele recebeu. Então, resumindo nada disso é homenagem e nem ressignificação, o nome correto é opressão.

Por outro lado, a marca Cavalera arrasou com muitos modelos negros, cabelos livres e soul music. Vamos contemplar:


Me dá vontade de sair dançando junto.







Essa postagem integra a blogagem coletiva organizado pelo grupo "Blogueiras negras"

terça-feira, 19 de março de 2013

NOTA DE REPÚDIO AO TROTE RACISTA E SEXISTA NA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG


Reproduzo abaixo a nota de repúdio contra o trote racista e machista na UFMG, assinada por diversos coletivos e militantes de movimentos sociais. Espero, sinceramente, que esse caso seja investigado, culpados não saiam impunes e que nós, como sociedade, possamos refletir sobre o "novo" conservadorismo que é parte dos nossos tempos. Chega de dizer que essas pessoas pararam no passado. Não. Elas não pararam. Esse reacionarismo é parte do nosso tempo.



NOTA DE REPÚDIO AO TROTE RACISTA E SEXISTA NA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG

A Humanidade, se fosse uma pessoa, envergonhar-se-ia de muita coisa de seu passado; passado este que contém muitos episódios verdadeiramente abjetos. Enquanto humanos, faríamos minucioso inventário moral de nós mesmos; enquanto partícipes do que convencionamos chamar 'Humanidade', relacionaríamos todos os grupos ou pessoas que por nossas ações e omissões prejudicamos e nos disporíamos a reparar os danos a eles causados.

Vigiaríamos a nós mesmos, o tempo todo, para que individualmente e enquanto grupo,  não repetíssemos nossos vergonhosos e documentados erros. Pais conscienciosos, ensinaríamos as novas gerações os novos e relevantes valores morais que tem de pautar nossas condutas, palavras e intenções.

Dois desses episódios, chagas profundas e fétidas de nosso passado humano,  são a escravidão e o nazismo. No primeiro, tratamos outros seres humanos como inferiores;  os açoitamos; os forçamos ao trabalho; os ridicularizamos (dizendo que eles eram feios, sujos, burros, seres humanos mal acabados e não evoluídos);  procuramos destruir seus laços com a terra amada, sua cultura, sua língua; dissemos que eles não tinham alma enfim. No segundo não era diferente; mesmas ações, alvos expandidos: pessoas negras, judeus, homossexuais. Todos tratados com o mesmo desrespeito.

O tempo passou e como as chagas permanessem, fizemos um meio-trabalho: criamos leis. Leis como a 7.176/89, que qualifica o crime de racismo e depois a Lei  9.459/97 (que inclui o parágrafo 1 no artigo 20 da já referida Lei 7.176/89, mencionando a fabricação e uso de símbolos nazistas). Infelizmente, nem mesmo a força da lei tem sido suficiente.

O  que vemos é, em toda parte, ressurgirem graves violações dos Direitos Humanos outrora perpetradoss. O que seria motivo de vergonha vem ganhando o espaços públicos, por meio de recursos custeados pelo Estado; um Estado que se auto declara 'Democrático de Direito'; um Estado que tem como fundamento a DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (inciso III do artigo 1 da Constituição de 1988).

Sim, foi isso mesmo o que você leu: na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alunos do curso de Direito (sim, um curso cujo objetivo é formar profissionais que serão essenciais à Justiça e à defesa desse propalado Estado Democrático de Direito) fizeram um trote onde, sob a desculpa de fazer piada usaram saudações nazistas e representações racistas e sexistas.

A notícia, amplamente divulgada na mídia, vocês podem ler aqui: http://vestibular.uol.com.br/ultimas-noticias/2013/03/18/trote-com-saudacao-nazista-provoca-acusacoes-de-racismo-na-ufmg.jhtm

Mas não é só: infelizmente nesses últimos meses, tomamos contato com episódios igualmente repulsivos ocorridos em universidades: na Politécnica (Faculdade da Universidade de São Paulo, também mantida com recursos públicos), vimos alunos divulgarem uma gincana, onde uma das 'provas' era algo cometer assédio sexual.

http://www.feministacansada.com/post/44492821098

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,gincana-da-poli-incentiva--machismo-e-revolta-estudantes-,1004392,0.htm

E isso logo após alunos de uma outra Universidade (também da USP, na cidade de São Carlos) , agredirem manifestantes que criticavam um trote que vilipendiava a imagem feminina.

http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/cotidiano/3104-grupo-protesta-contra-trote-machista-e-e-agredido-na-usp-sao-carlos

Todas essas condutas, perpetradas por alunos que deveriam estar recebendo instruções aptas a torná-los profissionais e cidadãos mais éticos (afinal, é para isso que todos os cursos contém em suas grades a matéria denominada 'Ética'), mostram que beiramos a um perigoso retrocesso no quesito 'Direitos Humanos'.

Sendo os Direitos Humanos imprescritíveis, inalienáveis, irrenunciáveis, invioláveis e universais, efetivos e interdependentes, não pode haver NENHUMA tolerância a qualquer ato ou gesto que os ameaçem.

E é por isso e também por tais atos (perpetrados nas três universidades citadas) constituirem verdadeiro incentivo à propagação de discursos preconceituosos e de ódio, é que os coletivos assinam a presente nota de repúdio, esperando que autoridades constituídas tomem as providências cabíveis para apenar exemplarmente os responsáveis. Leis para isso já existem; mas para que os direitos ganhem efetividade é preciso sua aplicação.

Esperamos também que as pessoas que lerem a presente também façam um reflexão sobre o rumo que nossa Sociedade está tomando. Não queremos o retrocesso. E se você compartilha conosco desse sentimento, dessa vontade de colaborar com a construção de uma Sociedade melhor, não se cale.

Nós somos negros; nós somos mulheres;  nós somos gays; nós somos lésbicas; nós somos transsexuais; somos nordestinos; adeptos de religiões minoritárias. Somos as minorias que diuturnamente temos de conviver com o menoscabo de nossas imagens; com atos que naturalizam a violência;  que criam verdadeira cisão entre Humanos; que reabrem as chagas e as fazem sangrar. E nós não vamos nos calar. O estandarte, escudo e espada emprestaremos da Themis, a deusa da justiça; usaremos a lei e  exigiremos o seu cumprimento.

Aos estudantes de Direito que fizeram uma tal 'brincadeira'repulsiva, lembramos:

'Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus'  -
Onde não existe justiça não pode haver direito
Assinam o presente,
·       Feministas do Cariri -  http://www.facebook.com/feministasdocariri]
·       SlutShamingDetected - http://euescolhifornicar.com/
·       Renovação Negra - http://renovacaonegra.blogspot.com.br/
·       Liga Humanista Secular do Brasil -  http://ligahumanista.org/
·       Oyá Feminista - https://www.facebook.com/OyaFeminista
·       Ogums Toques – http://ogumstoques.com/
·       Catavento –
·       Luciana Nepomuceno - http://borboletasnosolhos.blogspot.com.br/
·       Denise Arcoverde - http://sindromedeestocolmo.com/
·       Biscate Social Club - http://biscatesocialclub.com.br
·       Niara de Oliveira - http://pimentacomlimao.wordpress.com/
·       Transexualimo da depressão – https://www.facebook.com/transpatologico
·       Vertov Rox - http://we.riseup.net/vertov
·       Rádio Caruncho Fm Livre - http://caruncho.radiolivre.org/
·       Editora Artesanal Monstro dos Mares -  http://monstrodosmares.com.br
·       Cinezine Cineclube - http://cinezine.com.br
·       Centro de estudos humanistas, libertários e anarquistas - http://reinehr.org/cehla/
·       José Ricardo D' Almeida
·       Luluzinhacamp – http://luluzinhcacamp.com
·       Lucia Freitas – http://ladybugbrazil.com/
·       Blogueiras Feministas - http://blogueirasfeministas.com
·       Blogagem Coletiva da Mulher Negra - http://blogagemcoletivadamulhernegra.wordpress.com
·       Blogueiras Negras - http://blogueirasnegras.wordpress.com
·       Ativismo de Sofá - http://ativismodesofa.blogspot.com.br
·       Mulheres Notáveis - http://mulheres-incriveis.blogspot.com.br/
·       Ofensiva contra o machismo - http://contramachismo.wordpress.com/
·       Chopinho Feminino - http://chopinhofeminino.blogspot.com.br/
·       Gilson Moura Henrique Junior - http://natransversaldotempo.wordpress.com/
·       Marcha das Vadias BH - http://slutwalkbh.blogspot.com.br/
·       Machismo chato - http://machismochatodecadadia.tumblr.com/
·       Bidê Brasil - http://bdbrasil.org/
·       Entre Luma e Frida - http://entrelumaefrida.com.br/
·       Escreva Lola Escreva - http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/
·       Cozinha da Matilde - http://www.cozinhadamatilde.com.br/
·       Larissa Santiago - http://mundovao.blogspot.com.br/
·       Questões Plurais - http://questoesplurais.tumblr.com/
·       Gordas e feministas - https://www.facebook.com/gordasefeministas
·       Preta & Gorda - https://www.facebook.com/PretaeGorda
·       Gizelli Souza –  http://twitter.com/gizasousa
·       Cecília Santos – http://www.cozinhadaceci.com.br/
·       Mulheres em Movimento Mudam o Mundo - http://mmm-rs.blogspot.com.br/
·       Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte - http://bhemciclo.org/

terça-feira, 5 de março de 2013

Gordofobia vende e nós compramos

Sakina, do blog Saks in the city

Escrevo esse texto sem estar particularmente chateada com nenhum fato e como não ouço falar e nem li nada a respeito disso, acredito que essa seja de fato uma opinião bastante pessoal sobre um aspecto da gordofobia na moda. 

Antes de falar especificamente sobre o assunto, eu gostaria de explicar que está crescendo o mercado plus size, nome que considero péssimo como forma de tratamento para os consumidores, afinal ele nos coloca em posição separada, nos desloca para uma prateleira no fundo da loja ou pior, para fora dela. Por outro lado, entendo que o nome é necessário como "bandeira" dentro do ambiente gordofóbico que é a moda. Plus size é uma expressão que não me define, que me causa muito mal estar, não me representa. É uma expressão que me isola dentro de um grupo de pessoas de uma forma ruim. Eu prefiro que me chamem de gorda, obesa e etc. Sou uma pessoa gorda. Contudo, infelizmente para viver como gorda que necessita de roupas, eu precisei adotar o plus size

Eu fiz essa digressão apenas para dizer que esse grupo é isolado do grupo detentor da "normalidade" (ou seja, aquele grupo para o qual as peças são produzidas sem precisar de uma etiqueta que diz se o seu tamanho é a mais ou a menos), e é  um grupo reduzido também. A quantidade de lojas que vestem a pessoa gorda é pequena em relação à totalidade das lojas que vestem as magras. Ok, até aí todo mundo sabe e provavelmente deve concordar comigo. O problema é que mesmo sabendo disso, ninguém se responsabiliza.

As contradições que carregamos conosco são muitas. Por exemplo, eu não uso maquiagem testada em animais, mas como carne. Eu tomo banhos rápidos, desligo a torneira para escovar meus dentes, tento não gastar água/energia elétrica de forma desnecessária pelo bem do planeta, mas continuo utilizando um veículo movido por combustível fóssil altamente poluente. E eu sei muito bem que é impossível abraçar todas as causas que existem no mundo, que são justas, que merecem atenção. Contudo, algumas vezes relutamos em ver que contribuímos para alguns problemas.

Algumas das pessoas mais bem intencionadas que conheço, que com certeza eu jamais chamaria de "gordofóbicas", que não demonstram qualquer traço disso em suas atitudes no dia-a-dia, podem contribuir para a manutenção desse status quo gordofóbico ao comprar em lojas que tem numeração reduzida, apenas para pessoas magras. Isso é tão recorrente e ninguém jamais se questiona. Aqui eu retomo o que falei antes: Ninguém se responsabiliza. Porque nos acostumamos a achar que a gordofobia é um preconceito que precisa ser vencido apenas dentro de nós, mas é muito mais do que isso. Precisamos cobrar as empresas. Precisamos de consumo consciente para democratizar a moda. Não conseguir se vestir como as outras pessoas também é um aspecto da opressão contra as pessoas gordas, e não podemos esperar a boa vontade de quem oprime em nos dar esse direito. Quem é magro, mas luta contra a gordofobia precisa pensar nos aspectos menos óbvios dela.

Eu falo em responsabilidade porque se você é magro, não é gordofóbico, mas compra em lojas que só vendem manequim até o 38, você não tem culpa. Afinal, quais opções serão dadas caso você se desfaça desse pequeno privilégio? Serão dadas as mesmas opções que eu possuo. Ter um privilégio não é algo para se envergonhar, ou se culpar, mas seria bom se responsabilizar, tomar partido por quem não tem e ser um aliado para que o que você desfruta não seja mais uma exclusividade de alguns. Talvez para algumas pessoas isso signifique boicote à essas marcas, para outras, pressionar governos por uma regulamentação mais justa das numerações, para outros ainda, talvez isso signifique investir mais em marcas populares. Ou mesmo que continue comprando pelo menos faça isso problematizando a questão, tendo a noção do seu papel nas engrenagens que faz rodar o dinheiro num comércio preconceituoso. Enfim, cada um precisa pensar no que consegue fazer, no que está ao seu alcance.  O que não é mais possível é continuar cobrindo os olhos para o problema.

sábado, 2 de março de 2013

O caso Quvenzhané Wallis: Racismo naturalizado



Essa semana li uma crítica sobre como nós, feministas brancas, nos omitimos de falar sobre o ataque que sofreu a atriz Quvenzhané Wallis. Embora o assunto tenha sim me tocado, que eu tenha tuitado sobre isso, que eu não tenha escrito nada por achar que não tinha propriedade sobre o tema, a crítica me atinge. Escrever em um blog é algo permanente. O twitter, por mais que alcance muita gente, é efêmero e não serve como base de informação. Por isso, resolvi escrever esse texto mesmo que não me sinta tão preparada por não sofrer na pele a opressão da qual vou falar. E farei isso porque essa feminista que não intersecciona lutas não é a feminista que quero ser. Vamos ao mais importante: falar sobre racismo.


Tão fofa :3
Quvenzhané Wallis é uma garotinha que entrou para história do Oscar pela indicação como melhor atriz aos nove anos de idade. Seria uma bela história, mas como ela é negra, essa história foi manchada pela misoginia e pelo racismo. 

O preconceito precede o Oscar. Quando da indicação da pequena Quvenzhané ao Oscar por sua atuação em Beasts of the southern wild (aqui conhecido como "Indomável Sonhadora"), pareceu impossível para a imprensa americana pronunciar o nome dela. Entendo que é um nome difícil, mas também não é, por exemplo, "Schwarzenegger" ou "Wasikowska", "Wachowski" e outros tantos famosos em Hollywood? A diferença está na cor da pele. Eu acredito que o grande desinteresse da imprensa em aprender a pronúncia é um problema racial em que o nome, aquilo que nos dá individualidade, se torna menos importante. E é necessário falar disso porque é exatamente a desumanização da pessoa negra que torna possível a violência e o desrespeito com a qual a sociedade tratou  Quvenzhané na noite do Oscar.

A premiação, marcada pelas piadas misóginas, foi especialmente cruel com Quvenzhané Wallis. No palco da premiação, o apresentador Setch Macfarlane resolveu fazer uma piadinha sobre a idade dela. Compreensível, já que ela é a mais jovem indicada ao prêmio. O problema é que a piada não parou por aí, veja por si mesmo:

"Então, deixe-me falar para aqueles de vocês que foram indicados para um prêmio... então, você foi indicado para um Oscar, algo que uma criança de nove anos pode fazer! Ela é adorável, Quvenzhane. Ela falou para mim nos bastidores: "Eu realmente espero não perder para aquela velhinha, a Jennifer Lawrence". Para dar uma idéia do quão jovem ela é, faltam 16 anos para ela se tornar muito velha para o Clooney."

Ao apresentar uma criança de nove anos de idade, presente no evento, trajando uma bolsinha de cachorrinho, o apresentador fez uma piada que envolve sexualização, e, portanto pedofilia. Sim, pode parecer que a piada era contra o George Clooney, mas na verdade a maior vítima foi Quvenzhané. E isso foi dito para uma platéia mundial. Todo mundo viu e muita gente não observou esse aspecto da piadinha, sabe por quê? Porque ela é negra. A naturalização das ofensas contra as pessoas negras é um fato. E isso ficará claro com o ocorrido no twitter na mesma noite, já que Macfarlane não estava sozinho contra Quvenzhané, ela também foi alvo de uma piada do canal "The Onion". E aqui eu preciso ser bem enfática ao dizer que uma piada não isenta ninguém de ser preconceituoso, babaca e/ou criminoso. A injúria foi tão absurda que arrisco dizer que é passível de processo. O tweet foi:

"Todo mundo parece ter medo de dizer isso, mas a Wallis é uma espécie de cunt".

Cunt, em tradução literal é uma adjetivo chulo para vagina. E é usado como xingamento, portanto um termo misógino. Digamos que a significação varia de contexto, mas normalmente se aproxima muito do Bitch (puta, vadia, piranha), só que com um grau de misoginia ainda maior. Então, vamos voltar um pouco no tempo... Quando Chlöe Moretz, uma criança branca, fez o papel de Hit-girl no filme Kick Ass, ela usou o termo "cunt". E as críticas surgiram de todos os lugares, afirmando não ser responsável expor uma criança à esse tipo de vocabulário. Porém, quando uma criança negra é agredida pelo mesmo termo, a reação não é imediata, as pessoas dizem que é apenas uma piada. A diferença de tratamento é evidente: Muitas pessoas que criticaram a atitude do The Onion sofreram retaliação por parte de comediantes, usuários do twitter, e pasme, até mesmo feministas (brancas). 

O caso Quvenzhané Wallis evidencia a hipersexualização da mulher/menina negra, a coisificação, a objetificação da pessoa negra, o desrespeito da mídia com as mulheres negras que alcançam o sucesso em suas carreiras, e também nos mostra como as crianças negras são expostas à violência psicológica e verbal e tudo isso de forma naturalizada.

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