quinta-feira, 21 de março de 2013

Racismo e glamour


Homenagem é o caralho. Do que eu estou falando? recentemente uma revista francesa faz ensaio fotográfico entitulado African queen (Rainha africana) usando uma modelo loira cuja pele foi pintada digitalmente para parecer negra e, poucas semanas depois, o renomado estilista Ronaldo Fraga, "homenageia" os negros fazendo com que modelos usem perucas de palha de aço (Bombril) na passarela do SPFW. Na boa? Não é homenagem se as pessoas se sentem ridicularizadas.

Humor do início do século XX

Para falar disso é necessário compreender que o nosso padrão de beleza é racista. As características européias são normalmente qualificadas como bonitas: pele e olhos claros, cabelos com compleição lisa, nariz aquilino e etc.  Aos traços característicos dos negros se atribuem adjetivos nada abonadores: Nariz de batata, cabelo de bombril, cabelo duro, cabelo ruim, carvão, sujo e etc. Portanto, existe um fator racial determinante em como a sociedade percebe a beleza.

Blackface glamurizado da revista

E sob esse aspecto que a prática do blackface, ou seja, o ato de pintar uma pessoa branca de negra é compreendido. A caracterização do branco como negro é usada há muito tempo como forma de ridicularização. E continua sendo, não se esqueçam de Adelaide, do Zorra Total. E por isso é perigosa demais essa "glamurização" do blackface, que ignora um passado de opressão. A glamurização do blackface é um carimbo que diz: "não somos racistas, somos todos iguais". O problema é que não somos iguais e não devemos nos dar ao luxo de ignorar isso. O tratamento dispensado aos negros e aos brancos em nossa sociedade é de profunda desigualdade racial.

O cabelo de bombril
Muito parecido com isso é a questão do cabelo bombril. Eu acho que a uma imagem fala muita coisa. O cabelo crespo não é bombril, essa é uma ridicularização sobre uma característica física atribuída aos negros. Uma peruca de bombril é uma piada de péssimo gosto. Se a idéia era fazer uma homenagem, seria muito mais interessante e empoderador realizar um desfile inteiramente formado por modelos negros. Sabemos que, dado o caráter preconceituoso do padrão de beleza, os negros tem um lugar restrito na moda, representando o exótico, o diferente. Seria lindo ver diversidade nas passarelas em vez de Bombril. Não dá para retirar as coisas de seu contexto de opressão, falar em "homenagem" e achar que é tão simples assim. Uma ressignificação.

Não é ressignificação quando parte de um grupo opressor. A ressignificação é antes de tudo empoderadora. Por exemplo, eu uso a palavra "negro" para me referir às pessoas de pele escura, mas os negros podem preferir falar de si mesmos como "pretos" de forma empoderadora. Eu, que sou branca, prefiro não usar esse termo, pois sei que temos responsabilidade histórica sobre o teor pejorativo que ele recebeu. Então, resumindo nada disso é homenagem e nem ressignificação, o nome correto é opressão.

Por outro lado, a marca Cavalera arrasou com muitos modelos negros, cabelos livres e soul music. Vamos contemplar:


Me dá vontade de sair dançando junto.







Essa postagem integra a blogagem coletiva organizado pelo grupo "Blogueiras negras"

terça-feira, 19 de março de 2013

NOTA DE REPÚDIO AO TROTE RACISTA E SEXISTA NA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG


Reproduzo abaixo a nota de repúdio contra o trote racista e machista na UFMG, assinada por diversos coletivos e militantes de movimentos sociais. Espero, sinceramente, que esse caso seja investigado, culpados não saiam impunes e que nós, como sociedade, possamos refletir sobre o "novo" conservadorismo que é parte dos nossos tempos. Chega de dizer que essas pessoas pararam no passado. Não. Elas não pararam. Esse reacionarismo é parte do nosso tempo.



NOTA DE REPÚDIO AO TROTE RACISTA E SEXISTA NA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG

A Humanidade, se fosse uma pessoa, envergonhar-se-ia de muita coisa de seu passado; passado este que contém muitos episódios verdadeiramente abjetos. Enquanto humanos, faríamos minucioso inventário moral de nós mesmos; enquanto partícipes do que convencionamos chamar 'Humanidade', relacionaríamos todos os grupos ou pessoas que por nossas ações e omissões prejudicamos e nos disporíamos a reparar os danos a eles causados.

Vigiaríamos a nós mesmos, o tempo todo, para que individualmente e enquanto grupo,  não repetíssemos nossos vergonhosos e documentados erros. Pais conscienciosos, ensinaríamos as novas gerações os novos e relevantes valores morais que tem de pautar nossas condutas, palavras e intenções.

Dois desses episódios, chagas profundas e fétidas de nosso passado humano,  são a escravidão e o nazismo. No primeiro, tratamos outros seres humanos como inferiores;  os açoitamos; os forçamos ao trabalho; os ridicularizamos (dizendo que eles eram feios, sujos, burros, seres humanos mal acabados e não evoluídos);  procuramos destruir seus laços com a terra amada, sua cultura, sua língua; dissemos que eles não tinham alma enfim. No segundo não era diferente; mesmas ações, alvos expandidos: pessoas negras, judeus, homossexuais. Todos tratados com o mesmo desrespeito.

O tempo passou e como as chagas permanessem, fizemos um meio-trabalho: criamos leis. Leis como a 7.176/89, que qualifica o crime de racismo e depois a Lei  9.459/97 (que inclui o parágrafo 1 no artigo 20 da já referida Lei 7.176/89, mencionando a fabricação e uso de símbolos nazistas). Infelizmente, nem mesmo a força da lei tem sido suficiente.

O  que vemos é, em toda parte, ressurgirem graves violações dos Direitos Humanos outrora perpetradoss. O que seria motivo de vergonha vem ganhando o espaços públicos, por meio de recursos custeados pelo Estado; um Estado que se auto declara 'Democrático de Direito'; um Estado que tem como fundamento a DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (inciso III do artigo 1 da Constituição de 1988).

Sim, foi isso mesmo o que você leu: na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alunos do curso de Direito (sim, um curso cujo objetivo é formar profissionais que serão essenciais à Justiça e à defesa desse propalado Estado Democrático de Direito) fizeram um trote onde, sob a desculpa de fazer piada usaram saudações nazistas e representações racistas e sexistas.

A notícia, amplamente divulgada na mídia, vocês podem ler aqui: http://vestibular.uol.com.br/ultimas-noticias/2013/03/18/trote-com-saudacao-nazista-provoca-acusacoes-de-racismo-na-ufmg.jhtm

Mas não é só: infelizmente nesses últimos meses, tomamos contato com episódios igualmente repulsivos ocorridos em universidades: na Politécnica (Faculdade da Universidade de São Paulo, também mantida com recursos públicos), vimos alunos divulgarem uma gincana, onde uma das 'provas' era algo cometer assédio sexual.

http://www.feministacansada.com/post/44492821098

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,gincana-da-poli-incentiva--machismo-e-revolta-estudantes-,1004392,0.htm

E isso logo após alunos de uma outra Universidade (também da USP, na cidade de São Carlos) , agredirem manifestantes que criticavam um trote que vilipendiava a imagem feminina.

http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/cotidiano/3104-grupo-protesta-contra-trote-machista-e-e-agredido-na-usp-sao-carlos

Todas essas condutas, perpetradas por alunos que deveriam estar recebendo instruções aptas a torná-los profissionais e cidadãos mais éticos (afinal, é para isso que todos os cursos contém em suas grades a matéria denominada 'Ética'), mostram que beiramos a um perigoso retrocesso no quesito 'Direitos Humanos'.

Sendo os Direitos Humanos imprescritíveis, inalienáveis, irrenunciáveis, invioláveis e universais, efetivos e interdependentes, não pode haver NENHUMA tolerância a qualquer ato ou gesto que os ameaçem.

E é por isso e também por tais atos (perpetrados nas três universidades citadas) constituirem verdadeiro incentivo à propagação de discursos preconceituosos e de ódio, é que os coletivos assinam a presente nota de repúdio, esperando que autoridades constituídas tomem as providências cabíveis para apenar exemplarmente os responsáveis. Leis para isso já existem; mas para que os direitos ganhem efetividade é preciso sua aplicação.

Esperamos também que as pessoas que lerem a presente também façam um reflexão sobre o rumo que nossa Sociedade está tomando. Não queremos o retrocesso. E se você compartilha conosco desse sentimento, dessa vontade de colaborar com a construção de uma Sociedade melhor, não se cale.

Nós somos negros; nós somos mulheres;  nós somos gays; nós somos lésbicas; nós somos transsexuais; somos nordestinos; adeptos de religiões minoritárias. Somos as minorias que diuturnamente temos de conviver com o menoscabo de nossas imagens; com atos que naturalizam a violência;  que criam verdadeira cisão entre Humanos; que reabrem as chagas e as fazem sangrar. E nós não vamos nos calar. O estandarte, escudo e espada emprestaremos da Themis, a deusa da justiça; usaremos a lei e  exigiremos o seu cumprimento.

Aos estudantes de Direito que fizeram uma tal 'brincadeira'repulsiva, lembramos:

'Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus'  -
Onde não existe justiça não pode haver direito
Assinam o presente,
·       Feministas do Cariri -  http://www.facebook.com/feministasdocariri]
·       SlutShamingDetected - http://euescolhifornicar.com/
·       Renovação Negra - http://renovacaonegra.blogspot.com.br/
·       Liga Humanista Secular do Brasil -  http://ligahumanista.org/
·       Oyá Feminista - https://www.facebook.com/OyaFeminista
·       Ogums Toques – http://ogumstoques.com/
·       Catavento –
·       Luciana Nepomuceno - http://borboletasnosolhos.blogspot.com.br/
·       Denise Arcoverde - http://sindromedeestocolmo.com/
·       Biscate Social Club - http://biscatesocialclub.com.br
·       Niara de Oliveira - http://pimentacomlimao.wordpress.com/
·       Transexualimo da depressão – https://www.facebook.com/transpatologico
·       Vertov Rox - http://we.riseup.net/vertov
·       Rádio Caruncho Fm Livre - http://caruncho.radiolivre.org/
·       Editora Artesanal Monstro dos Mares -  http://monstrodosmares.com.br
·       Cinezine Cineclube - http://cinezine.com.br
·       Centro de estudos humanistas, libertários e anarquistas - http://reinehr.org/cehla/
·       José Ricardo D' Almeida
·       Luluzinhacamp – http://luluzinhcacamp.com
·       Lucia Freitas – http://ladybugbrazil.com/
·       Blogueiras Feministas - http://blogueirasfeministas.com
·       Blogagem Coletiva da Mulher Negra - http://blogagemcoletivadamulhernegra.wordpress.com
·       Blogueiras Negras - http://blogueirasnegras.wordpress.com
·       Ativismo de Sofá - http://ativismodesofa.blogspot.com.br
·       Mulheres Notáveis - http://mulheres-incriveis.blogspot.com.br/
·       Ofensiva contra o machismo - http://contramachismo.wordpress.com/
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terça-feira, 5 de março de 2013

Gordofobia vende e nós compramos

Sakina, do blog Saks in the city

Escrevo esse texto sem estar particularmente chateada com nenhum fato e como não ouço falar e nem li nada a respeito disso, acredito que essa seja de fato uma opinião bastante pessoal sobre um aspecto da gordofobia na moda. 

Antes de falar especificamente sobre o assunto, eu gostaria de explicar que está crescendo o mercado plus size, nome que considero péssimo como forma de tratamento para os consumidores, afinal ele nos coloca em posição separada, nos desloca para uma prateleira no fundo da loja ou pior, para fora dela. Por outro lado, entendo que o nome é necessário como "bandeira" dentro do ambiente gordofóbico que é a moda. Plus size é uma expressão que não me define, que me causa muito mal estar, não me representa. É uma expressão que me isola dentro de um grupo de pessoas de uma forma ruim. Eu prefiro que me chamem de gorda, obesa e etc. Sou uma pessoa gorda. Contudo, infelizmente para viver como gorda que necessita de roupas, eu precisei adotar o plus size

Eu fiz essa digressão apenas para dizer que esse grupo é isolado do grupo detentor da "normalidade" (ou seja, aquele grupo para o qual as peças são produzidas sem precisar de uma etiqueta que diz se o seu tamanho é a mais ou a menos), e é  um grupo reduzido também. A quantidade de lojas que vestem a pessoa gorda é pequena em relação à totalidade das lojas que vestem as magras. Ok, até aí todo mundo sabe e provavelmente deve concordar comigo. O problema é que mesmo sabendo disso, ninguém se responsabiliza.

As contradições que carregamos conosco são muitas. Por exemplo, eu não uso maquiagem testada em animais, mas como carne. Eu tomo banhos rápidos, desligo a torneira para escovar meus dentes, tento não gastar água/energia elétrica de forma desnecessária pelo bem do planeta, mas continuo utilizando um veículo movido por combustível fóssil altamente poluente. E eu sei muito bem que é impossível abraçar todas as causas que existem no mundo, que são justas, que merecem atenção. Contudo, algumas vezes relutamos em ver que contribuímos para alguns problemas.

Algumas das pessoas mais bem intencionadas que conheço, que com certeza eu jamais chamaria de "gordofóbicas", que não demonstram qualquer traço disso em suas atitudes no dia-a-dia, podem contribuir para a manutenção desse status quo gordofóbico ao comprar em lojas que tem numeração reduzida, apenas para pessoas magras. Isso é tão recorrente e ninguém jamais se questiona. Aqui eu retomo o que falei antes: Ninguém se responsabiliza. Porque nos acostumamos a achar que a gordofobia é um preconceito que precisa ser vencido apenas dentro de nós, mas é muito mais do que isso. Precisamos cobrar as empresas. Precisamos de consumo consciente para democratizar a moda. Não conseguir se vestir como as outras pessoas também é um aspecto da opressão contra as pessoas gordas, e não podemos esperar a boa vontade de quem oprime em nos dar esse direito. Quem é magro, mas luta contra a gordofobia precisa pensar nos aspectos menos óbvios dela.

Eu falo em responsabilidade porque se você é magro, não é gordofóbico, mas compra em lojas que só vendem manequim até o 38, você não tem culpa. Afinal, quais opções serão dadas caso você se desfaça desse pequeno privilégio? Serão dadas as mesmas opções que eu possuo. Ter um privilégio não é algo para se envergonhar, ou se culpar, mas seria bom se responsabilizar, tomar partido por quem não tem e ser um aliado para que o que você desfruta não seja mais uma exclusividade de alguns. Talvez para algumas pessoas isso signifique boicote à essas marcas, para outras, pressionar governos por uma regulamentação mais justa das numerações, para outros ainda, talvez isso signifique investir mais em marcas populares. Ou mesmo que continue comprando pelo menos faça isso problematizando a questão, tendo a noção do seu papel nas engrenagens que faz rodar o dinheiro num comércio preconceituoso. Enfim, cada um precisa pensar no que consegue fazer, no que está ao seu alcance.  O que não é mais possível é continuar cobrindo os olhos para o problema.

sábado, 2 de março de 2013

O caso Quvenzhané Wallis: Racismo naturalizado



Essa semana li uma crítica sobre como nós, feministas brancas, nos omitimos de falar sobre o ataque que sofreu a atriz Quvenzhané Wallis. Embora o assunto tenha sim me tocado, que eu tenha tuitado sobre isso, que eu não tenha escrito nada por achar que não tinha propriedade sobre o tema, a crítica me atinge. Escrever em um blog é algo permanente. O twitter, por mais que alcance muita gente, é efêmero e não serve como base de informação. Por isso, resolvi escrever esse texto mesmo que não me sinta tão preparada por não sofrer na pele a opressão da qual vou falar. E farei isso porque essa feminista que não intersecciona lutas não é a feminista que quero ser. Vamos ao mais importante: falar sobre racismo.


Tão fofa :3
Quvenzhané Wallis é uma garotinha que entrou para história do Oscar pela indicação como melhor atriz aos nove anos de idade. Seria uma bela história, mas como ela é negra, essa história foi manchada pela misoginia e pelo racismo. 

O preconceito precede o Oscar. Quando da indicação da pequena Quvenzhané ao Oscar por sua atuação em Beasts of the southern wild (aqui conhecido como "Indomável Sonhadora"), pareceu impossível para a imprensa americana pronunciar o nome dela. Entendo que é um nome difícil, mas também não é, por exemplo, "Schwarzenegger" ou "Wasikowska", "Wachowski" e outros tantos famosos em Hollywood? A diferença está na cor da pele. Eu acredito que o grande desinteresse da imprensa em aprender a pronúncia é um problema racial em que o nome, aquilo que nos dá individualidade, se torna menos importante. E é necessário falar disso porque é exatamente a desumanização da pessoa negra que torna possível a violência e o desrespeito com a qual a sociedade tratou  Quvenzhané na noite do Oscar.

A premiação, marcada pelas piadas misóginas, foi especialmente cruel com Quvenzhané Wallis. No palco da premiação, o apresentador Setch Macfarlane resolveu fazer uma piadinha sobre a idade dela. Compreensível, já que ela é a mais jovem indicada ao prêmio. O problema é que a piada não parou por aí, veja por si mesmo:

"Então, deixe-me falar para aqueles de vocês que foram indicados para um prêmio... então, você foi indicado para um Oscar, algo que uma criança de nove anos pode fazer! Ela é adorável, Quvenzhane. Ela falou para mim nos bastidores: "Eu realmente espero não perder para aquela velhinha, a Jennifer Lawrence". Para dar uma idéia do quão jovem ela é, faltam 16 anos para ela se tornar muito velha para o Clooney."

Ao apresentar uma criança de nove anos de idade, presente no evento, trajando uma bolsinha de cachorrinho, o apresentador fez uma piada que envolve sexualização, e, portanto pedofilia. Sim, pode parecer que a piada era contra o George Clooney, mas na verdade a maior vítima foi Quvenzhané. E isso foi dito para uma platéia mundial. Todo mundo viu e muita gente não observou esse aspecto da piadinha, sabe por quê? Porque ela é negra. A naturalização das ofensas contra as pessoas negras é um fato. E isso ficará claro com o ocorrido no twitter na mesma noite, já que Macfarlane não estava sozinho contra Quvenzhané, ela também foi alvo de uma piada do canal "The Onion". E aqui eu preciso ser bem enfática ao dizer que uma piada não isenta ninguém de ser preconceituoso, babaca e/ou criminoso. A injúria foi tão absurda que arrisco dizer que é passível de processo. O tweet foi:

"Todo mundo parece ter medo de dizer isso, mas a Wallis é uma espécie de cunt".

Cunt, em tradução literal é uma adjetivo chulo para vagina. E é usado como xingamento, portanto um termo misógino. Digamos que a significação varia de contexto, mas normalmente se aproxima muito do Bitch (puta, vadia, piranha), só que com um grau de misoginia ainda maior. Então, vamos voltar um pouco no tempo... Quando Chlöe Moretz, uma criança branca, fez o papel de Hit-girl no filme Kick Ass, ela usou o termo "cunt". E as críticas surgiram de todos os lugares, afirmando não ser responsável expor uma criança à esse tipo de vocabulário. Porém, quando uma criança negra é agredida pelo mesmo termo, a reação não é imediata, as pessoas dizem que é apenas uma piada. A diferença de tratamento é evidente: Muitas pessoas que criticaram a atitude do The Onion sofreram retaliação por parte de comediantes, usuários do twitter, e pasme, até mesmo feministas (brancas). 

O caso Quvenzhané Wallis evidencia a hipersexualização da mulher/menina negra, a coisificação, a objetificação da pessoa negra, o desrespeito da mídia com as mulheres negras que alcançam o sucesso em suas carreiras, e também nos mostra como as crianças negras são expostas à violência psicológica e verbal e tudo isso de forma naturalizada.

Mais informações sobre o assunto podem ser encontradas nesse link.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Saúde, o argumento velado da discriminação


Eu tenho apenas 29 anos de idade e já vejo a mudança na forma da discriminação das pessoas que não se enquadram no padrão de beleza eurocêntrico e gordofóbico. Em vez de dizer, como já escutei antes, "você é feio" as pessoas dizem "você não é saudável/limpo". O problema é que aquilo que normalmente se chama de "saúde" é um conjunto de normas que tornam possível esse padrão de beleza.  

Na história de opressão que viveu e vive a mulher, constantemente ela é considerada suja, impura. E ainda hoje isso se reflete em alguns momentos. Veja a ditadura da depilação, por exemplo. "Nojenta" é a mulher que não se depila. Mas para o homem, ter pêlos é apenas natural. Veja só a diferença de tratamentos. Para a mulher, existem sabonetes íntimos, clareadores de axilas, maquiagem para esconder marcas e etc. A higienização da figura da mulher está muito relacionada ao preconceito machista. 

Cadivéu e sua campanha racista
Para a nossa sociedade, um cabelo com aspecto saudável e/ou limpo é aquele caracterizado pelo adjetivo "sedoso". Eu, que tenho o cabelo ondulado e um tanto arrepiado (o chamado "frizz"), me sinto tentada a alisá-lo por achar que o problema está em mim. E eu sou branca. As mulheres negras são acusadas de não serem "limpas". Em entrevistas de emprego, um cabelo crespo pode ser a diferença entre um sim e um não. Muitas vezes, alisar o cabelo não é uma escolha, é uma imposição marcada pelas palavras pejorativas repetidas à exaustão: "Cabelo ruim". O cabelo crespo é alvo das mais diversas piadas, desde afirmar que ele é impermeável, até dizer que é um ninho, que é cheio de piolhos e etc. Todo o preconceito destilado em nome dessa mentira que acreditam ser a tal higiene.

A compleição do cabelo crespo não é sinônimo de sujeira. Grande parte de quem diz que é, SABE que não é, apenas usa o argumento inválido como desculpa para justificar seu veneno racista.


O argumento "saúde" está presente em todas as demonstrações de gordofobia. A saúde do gordo é sempre a maior preocupação dos gordofóbicos, só que não. O que o gordofóbico de verdade quer é acalantar seu ego diminuindo alguém que a sociedade tornou vulnerável. Há estudos, constantemente ignorados, indicando que o gordo ativo é tão saudável quanto o magro. De um lado temos a pessoa gorda e saudável e de outro a pessoa magra que sofre de transtorno alimentar e as duas sofrem pelo mesmo preconceito: a gordofobia. A pessoa que sofre um transtorno alimentar muitas vezes (pois a questão é multifatorial) tem um medo muito grande de engordar. Essa falsa demanda de saúde (que passa longe de ser saúde de verdade) está criando uma geração de pessoas que, psicologicamente, não estão saudáveis.

A obesidade é constantemente patologizada ou vista como desleixo, quando ela na verdade possui vários espectros diferentes não abordados pela maioria dos gordofóbicos, que querem acreditar numa meritocracia da saúde que simplesmente não existe. A obesidade não é apenas comportamental, ela não se desenvolve apenas no indivíduo que come muito e não pratica exercício. E mesmo que fosse assim, não estou vendo a patrulha gordofóbica censurar quem tem comportamentos pouco saudáveis como comer fastfood, fumar cigarros, beber (muito ou socialmente) e etc, se a pessoa é magra, está liberado. Não estou vendo as mesmas pessoas pressionarem os governos para fazerem campanha de conscientização sobre alimentação saudável e nem sobre a importância da prática de exercícios. Não estou vendo essas pessoas se importarem com algo que vá além da aparência física dos outros. Para os gordofóbicos o que determina onde a saúde deve residir é a aparência.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Meus pitacos sobre Django Livre



Eu não sou crítica de cinema e talvez por isso mesmo minha opinião esteja tão longe dos aplausos que Django Livre recebeu. Aliás, um motivo para eu não ter me entusiasmado tanto com o filme: Western. Western, para mim e para muitas mulheres, é gosto adquirido. Falo isso porque somos educadas para a docilidade, a passividade. Não significa que mulheres não possam gostar e se divertir assistindo, apenas que não somos estimuladas a assistir o gênero. Recentemente assisti Bravura Indômita e achei sensacional. O que acontece é que Western é um gênero violento e dominado pela presença masculina. Assim, foi preciso muito tempo para que eu pudesse dizer: "eu curto western". Eu gostei do filme? Sim. Eu amei? Não. Eu pagaria para ver de novo? Não. 

Pesa para mim o fato de que o Tarantino costuma colocar as mulheres de suas histórias como personagens marcantes, ativas, inteligentes. Ele faz filmes que são marcadamente violentos, brutais, mas olha só: as mulheres participam. As mulheres do tarantino até protagonizam. Mas em Django Livre as mulheres são completamente apagadas. Cito aqui as três que apareceram no filme: A mulher de lenço vermelho no rosto, que estava entre os capatazes de candyland, a irmã de Calvin Candie (que eu sequer me lembro do nome, para vocês sentirem o quanto a personagem é dispensável) e Brunhilde Von Shaft, a esposa de Django.

Mulher misteriosa de lenço vermelho
A mulher de lenço vermelho no rosto é apenas uma promessa que não dá em nada. Ela passa o tempo todo calada e morre repentinamente, sem ter agido, sem ter falado, enfim, nada. A irmã de Calvin é retratada quase como uma criança, sob o manto de paternalismo do irmão. E Brunhilde Von Shaft é a maior decepção. O que sabemos dela no início do filme é que tentou fugir da fazenda onde era escrava, o que em si é um ato de muita coragem, foi vendida para outro senhor, separada de Django. E depois, quando ele a reencontra ela está sendo punida por ter tentado fugir novamente. É de se esperar que ela fosse A mulher que o Tarantino adora representar: forte, determinada, ousada, inteligente. Mas não. Não. Ela está lá quase que para efeito decorativo. A única função é a de dar a motivação para o herói Django. A donzela em perigo. 
Os parceiros Django e Schultz
Esquecendo esse traço do filme que me incomodou muito, mas que não seria suficiente para que o filme fosse mediano (uma vez que "Cães de Aluguel", por exemplo, não tem mulheres também e é fantástico) tenho outros "poréns". Eu acredito mais no Tarantino quando ele conta histórias de bandidos. Imagino que ele tentou fazer isso em Django ao colocá-lo como parceiro de um "caçador de recompensas", alguém moralmente questionável, se pensarmos que ele recolhe cadáveres e troca por dinheiro, por outro lado, faz isso sob a tutela da lei. Assim, estamos falando de dois personagens que são um homem oprimido e um homem que mata bandidos, ou seja, por definição, mocinhos. É uma história sobre heróis. E heróis tem um problema que bandidos não possuem: Heróis sentem culpa. Mesmo que em dados momentos da história o Django precise agir de forma cruel com seus companheiros que foram escravizados, isso não acontece sem culpa. Quando a gente assiste Kill Bill, a gente empatiza com a vilania da personagem principal, Beatrix Kiddo, que mata sem remorso, como ela mesma informa aos seus oponentes. E porque é ruim que personagens sintam culpa? Não é ruim, é apenas diferente do que estamos habituados a ver em filmes do Tarantino. Eu, pessoalmente, acho que ele conta histórias de bandidos muito bem, mas histórias de mocinhos, não tanto. E por falar em diferenças, Django Livre é um filme linear. 

Os vilões Stephen e Calvin
No tocante às atuações, Samuel L. Jackson, Cristoph Waltz, Leonardo di Caprio estão incríveis, Jamie Foxx também se saiu bem, embora possua menos diálogos. A impressão que tenho é que conforme o personagem se empodera, toma as rédeas de sua vida, ele vai adquirindo mais diálogos e isso é uma característica bacana do filme. Mas é exatamente na questão da escravidão que o filme mais peca. É muito bom assistir um filme Western estrelado por um ator negro. Há outros, de cabeça me lembro de "As loucas aventuras de James West". Li um post  que mostra vários outros títulos. Tudo bem, é verdade que o Tarantino nos faz gargalhar do ridículo homem branco opressor encapuzado, numa clara referência à Ku klux klan, que na época ainda nem existia. E também é interessante o discurso "científico" do Calvin Candie para justificar a escravidão, faz a gente pensar em como a ciência não é neutra e foi usada como arma para garantir a perpetuação do preconceito. Mas é também verdade que o Tarantino deu para o herói um tutor branco. E para finalizar, caiu na falácia que "pior que o homem branco é o homem negro opressor". O maior vilão de um filme cuja temática É A ESCRAVIDÃO é um negro. Eu acho que isso é um profundo desrespeito à história das pessoas negras. O homem negro, ainda que poderoso, continuaria sendo alvo do preconceito, continuaria sendo oprimido. Daí eu me pergunto: Era mesmo necessário? Parece uma mea culpa: "olha só, eu mostrei esse personagem aqui (o Candy), que é um homem branco desprezível, mas também tem esse aqui (Dr. Schultz), que é um cara legal. E até tem esse outro (Stephen) que é negro e é pior que o branco!". 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Pasteurização da decoração: A cagação de regra suprime o espaço da individualidade


Há muitos anos nós, mulheres, somos bombardeadas com normas sobre a nossa aparência, sobre como devemos nos vestir para estar de acordo com os ditames da moda. E se nosso corpo varia de tamanho, variam os julgamentos. Corpos maiores devem ser escondidos, disfarçados para que pareçam menores. Mas não são. Quem é gordinha como eu sou, não deveria ser tolhida por normas de vestimenta que restringem o seu gosto pessoal à zero ou pelo menos a um segundo plano. Quantos anos eu passei sem usar listras horizontais porque diziam engordar? Quantas roupas pretas? Quantas saias na altura do joelhos? Não estamos falando de moda, estamos falando de opressão quando a idéia é: odeie tanto o seu corpo que precise passar a escondê-lo.

Não é muito diferente quando falamos da decoração de ambientes. Digite aí no google: "truques para ampliar/aumentar a sua sala/outro ambiente qualquer". A nossa casa também é espaço de pasteurização do pensamento. Pois é, a cagação de regras não possui limites. Ela está vestindo a nossa pele e está na cor da parede da nossa casa.

Print de matéria da revista "Casa e Jardim"
Dizem as revistas especializadas em suas fórmulas repetidas à exaustão, que as cores claras, os espelhos, as listras horizontais, os móveis baixos e etc ampliam o espaço. Não, amigos! Parem! Nada disso amplia de fato um ambiente, a única coisa capaz de ampliá-lo de verdade é a demolição de uma parede que integre um espaço contíguo. 

Nesse ponto há de se compreender uma outra característica dessa pasteurização: A noção de que espaços maiores são necessariamente melhores. E me desculpe se vejo aí um teor levemente elitista, pois indiretamente afirma-se que a casa modesta não tem a mesma graça que a casa opulenta. Cresci em uma casa de cerca de 80m², onde viviam 3 pessoas, às vezes algum animal de estimação e nos foi perfeitamente suficiente. Um lar de fato. Não é o tamanho de uma casa que a tornará melhor. 

Aliás, já que toquei no assunto "tamanho", nos poucos anos de profissão como arquiteta, tenho visto as casas crescerem assustadoramente. Casas onde vivem 4 pessoas e possuem mais de 500m², 6, 7 banheiros. Há mais banheiros do que capacidade de utilização simultânea. Sem contar os resquícios do nosso passado escravagista em que funcionários precisam ter alas de permanência distantes daquelas em que ficam os patrões, assim, a empregada não come na mesa da sala, não assiste tv com os moradores da casa, sequer usa o mesmo vaso sanitário.  Os excessos viraram a norma. 

A casa deveria ser o espaço máximo de personalização que se tem na vida. Deveria ser o reflexo daquilo que somos, deveria incorporar a nossa alma, pois é nesse lugar que passaremos os momentos da nossa vida em que não precisamos vestir nenhuma máscara. Não precisamos estar impecavelmente vestidos, mesmo gordinhas ninguém nos julgará se usarmos largas listras horizontais e um short curto mostrando as polpinhas da bunda, enfim, em boa parte do tempo é lá que seremos quem de fato somos. Contudo, embora muitos clientes afirmem desejar um projeto personalizado, acabam pedindo o mesmo de sempre. Serve aí uma parede bege, um piso claro, um forro de gesso, umas sancas, uma cortina voil e vamos levando a vida sem emoção.

O conjunto de características de uma casa jamais deveria ser alvo de normatização tão absoluta a ponto de decidir que não há espaço para cores escuras em uma casa pequena. E surprise: Cores escuras não necessariamente tornam o ambiente uma caverna, sabe? há muitas formas de utilizá-las. Espelhos podem até criar a ilusão de um ambiente maior, mas não deixam de ser superfícies sem textura e muito frias. Enfim, há motivos para não usar desses artifícios que teoricamente "ampliam". Não significa que não devemos usar cores claras, espelhos e listras, o que quero dizer é que não devemos adotar irrefletidamente algo que não nos diz absolutamente nada só porque alguém disse que é bom. Deveriam mudar a manchete dessas notícias, deveria ser: "Truques para que a sua casa seja qualquer coisa menos SUA casa"