Hoje vou dar uma pausa nos textos sobre Jogos Vorazes, porque li outro livro que me chamou a atenção, se chama "Divergente", da autora Veronica Roth. É um livro que veio na levada de Jogos Vorazes, é distópico, narrado em primeira pessoa, a personagem central é mulher e há todo um conflito ideológico envolvido. Sim, há semelhanças com Jogos Vorazes, mas também há diferenças.
Quero ressaltar o quanto acho importante que o mercado esteja se abrindo para a criação de protagonistas mulheres em tramas de ação. É muito importante para o desenvolvimento e autoestima das crianças e das adolescentes que elas tenham exemplos positivos representados na TV, no cinema, na literatura, nos quadrinhos. Até então, eu lembrava de poucas heroínas protagonistas, digamos assim, na literatura. As que atingiram as maiores massas (e que chegaram ao Brasil), que viraram bestsellers, e que não são exemplos de passividade eram muito raras.
Cito três sempre: Morgana, Katniss e Lisbeth. Morgana é a principal narradora de "As Brumas de Avalon", na mesma história outras personagens participam contando a história, mas o protagonismo de Morgana é marcante. Depois temos Lisbeth, que é uma das personagens protagonistas de "Os homens que não amavam as mulheres", não falarei muito dela nesse momento porque a amo de paixão enlouquecida e pretendo reservar um texto apenas para ela, mas digamos que ela é atual, ela é destemida, ela é independente e vingativa. Por fim, Katniss, de quem já falei aqui e aqui. Há outras? certamente, mas essas são as mais proeminentes. Se houvesse um "top of mind" de personagens que se enquadram nas seguintes características: "Protagonista, Heroína, ativa, trama de ação", acredito que esses três nomes seriam os mais apontados. ACREDITO, e claro posso estar errada (Sintam-se à vontade para me apresentar novas leituras. Já ouvi falar de mais alguns livros distópicos com protagonismo feminino, em breve pretendo lê-los e comentá-los. Embora esse não seja um blog de literatura, eu gosto muito de ler e acabarei falando muito no assunto).
Agora eu conheci a Tris. E a Tris tem seus altos e baixos mas é certamente mais uma para o time. Vamos ao Livro.
A PARTIR DAQUI CONTÉM (POUCOS) SPOILERS
- Ambientação
"Divergente" é uma história que acontece num futuro distópico. Os antepassados dos personagens, depois de devastarem o planeta com guerras, dividiram a sociedade em facções, criadas para desenvolver certas características da personalidade de cada cidadão. Como assim? Eu explico. Os antepassados culparam algumas características dos seres humanos pelas mazelas da humanidade. Assim:
Aqueles que culpavam o egoísmo, formaram a facção "Abnegação";
Aqueles que culpavam a ignorância, formaram a facção "Erudição";
Aqueles que culpavam a agressividade, formaram a facção "Amizade";
Aqueles que culpavam a duplicidade, formaram a facção "Franqueza";
Aqueles que culpavam a covardia, formaram a facção "Audácia".
Cada facção tem parte no funcionamento da sociedade. Os integrantes da Abnegação controlam o governo, pois são altruístas e botam as prioridades dos outros acima das suas. Os integrantes da Franqueza, controlam a justiça, pois não deve haver duplicidade para que haja justiça. Os integrantes da Erudição, se tornaram professores, médicos, cientistas. Os integrantes da Amizade controlam as fazendas (eu ainda não entendi o motivo, não ficou claro). Os integrantes da Audácia, que são os mais destemidos realizam a segurança. É óbvio que cada facção tem lideranças próprias também.
Há, é claro, aqueles que foram destituídos de suas facções. São chamados de "sem-facção". Fazem os serviços menos remunerados, quando não se tornam pedintes, pessoas carentes.
Enfim, há alguma tensão entre as facções, especialmente entre a Erudição e a Abnegação. As lideranças da Erudição querem integrar o governo com fins bastante egoístas, algo que é rejeitado de pronto pela Abnegação. Há divergências ideológicas entre a Amizade e a Franqueza. Segundo integrantes da Franqueza, quem quer manter a amizade a todo custo, estará de alguma forma enganando alguém, pois não há franqueza absoluta na paz. Assim, entre diferenças ideológicas e questões práticas do funcionamento da sociedade, a coisa se torna bem interessante.
-Tris, a protagonista.
Esse é o pano de fundo da história de Beatrice, uma jovem nascida na Abnegação. Aos 16 anos, todos os jovens passam por um teste de aptidão que ajudará a definir o melhor direcionamento para ele, ou seja, qual a facção mais indicada. Contudo, a escolha é individual. Uma escolha que define tudo na vida, daí o ditado "Facção antes do sangue", pois a sua escolha pode obrigá-lo a abandonar tudo, inclusive sua família.
Beatrice, a Tris, acorda todos os dias e leva uma vida contida. Ela deve ser altruísta em tudo o que faz, se ela por exemplo quiser subir num elevador e outras pessoas quiserem fazer isso também, ela irá de escadas. Não importa a situação, o outro é prioridade. As roupas da abnegação são todas iguais, assim como o corte de cabelo, os espelhos são escondidos, pois a vaidade é uma forma de autocomplacência. É uma vida regrada e difícil com certeza.
Ao fazer seu teste, Tris descobre que é "Divergente", ou seja, que ela demonstra inclinação para várias facções, nenhuma em específico, e que isso é muito perigoso. Uma pessoa a ajuda a esconder o resultado do teste de aptidão, introduzindo um resultado falso ao sistema: "Abnegação". Tris escolhe abandonar a sua vida contida e ir para a Audácia. Uma grande diferença entre Jogos Vorazes e Divergente, é que desde o início, Jogos Vorazes é acima de tudo uma crítica a uma sociedade de consumo, vazia de valores, enquanto Divergente (deixo claro que estou falando do primeiro livro da trilogia) é uma história de descoberta, de crescimento. A gente acompanha a Tris durante o seu treinamento na Audácia e como ela passa de uma menina magricela e baixinha, da facção mais sacaneada pelas outras (ela sofre bullying por causa da maneira como os "Caretas", forma como chamam os habitantes da Abnegação, vivem a vida), se torna uma autêntica integrante da Audácia. Além desse foco, há toda uma questão filosófica sobre o que é a coragem e o que representa cada uma dessas qualidades que envolvem as facções, e como o pensamento livre é perigoso para esse tipo de sociedade. Aliás, eu diria que é perigoso em qualquer tipo de sociedade em que há algum grau de autoritarismo.
Depois de escolher a facção, ela passa por um período de treinamento e seleção. Alguns daqueles que tentam entrar em alguma facção acabam não sendo aceitos, e por consequência, tornam-se sem facção. Na Audácia, pode-se dizer que é um treinamento quase militar. Ela aprende a lutar, a atirar, a enfrentar seus piores medos. E é lá que ela entende a diferença entre a paz da abnegação e a liberdade da audácia. E é onde ela se torna para todos os efeitos uma adolescente, é quando ela permite a si mesma se colocar como prioridade às vezes, rir alto, provar sua capacidade, ser vaidosa e autocomplacente. Mas também aprende a ser forte, decidida, audaz e a ser também em alguns momentos altruísta como nunca foi antes. E a amar. Sim, há romance. Diferente de Jogos Vorazes, onde o amor é uma dúvida constante em Katniss, Tris tem algumas certezas. Eu ainda não decidi se gosto disso ou não. Em Jogos Vorazes certamente sofri com a indecisão de Katniss, mas vejo muito valor em um personagem que não sabe o que quer, que precisa compreender a si mesma. Acho que seria legal se a Tris descobrisse mais lentamente o que sente por Quatro. Isso não faz, de forma alguma, que eu desgoste da trama ou dos personagens, ou mesmo do romance. Eu gosto muito dos momentos que eles passam juntos. Os dois são personagens que falam mais em silêncio do que em palavras quando estão juntos, ao menos é essa a sensação que tenho.
Obs.: Divergente já tem adaptação para o cinema prevista para 2014 e o segundo livro, "Insurgent", já foi lançado na gringa.