quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Saúde, o argumento velado da discriminação


Eu tenho apenas 29 anos de idade e já vejo a mudança na forma da discriminação das pessoas que não se enquadram no padrão de beleza eurocêntrico e gordofóbico. Em vez de dizer, como já escutei antes, "você é feio" as pessoas dizem "você não é saudável/limpo". O problema é que aquilo que normalmente se chama de "saúde" é um conjunto de normas que tornam possível esse padrão de beleza.  

Na história de opressão que viveu e vive a mulher, constantemente ela é considerada suja, impura. E ainda hoje isso se reflete em alguns momentos. Veja a ditadura da depilação, por exemplo. "Nojenta" é a mulher que não se depila. Mas para o homem, ter pêlos é apenas natural. Veja só a diferença de tratamentos. Para a mulher, existem sabonetes íntimos, clareadores de axilas, maquiagem para esconder marcas e etc. A higienização da figura da mulher está muito relacionada ao preconceito machista. 

Cadivéu e sua campanha racista
Para a nossa sociedade, um cabelo com aspecto saudável e/ou limpo é aquele caracterizado pelo adjetivo "sedoso". Eu, que tenho o cabelo ondulado e um tanto arrepiado (o chamado "frizz"), me sinto tentada a alisá-lo por achar que o problema está em mim. E eu sou branca. As mulheres negras são acusadas de não serem "limpas". Em entrevistas de emprego, um cabelo crespo pode ser a diferença entre um sim e um não. Muitas vezes, alisar o cabelo não é uma escolha, é uma imposição marcada pelas palavras pejorativas repetidas à exaustão: "Cabelo ruim". O cabelo crespo é alvo das mais diversas piadas, desde afirmar que ele é impermeável, até dizer que é um ninho, que é cheio de piolhos e etc. Todo o preconceito destilado em nome dessa mentira que acreditam ser a tal higiene.

A compleição do cabelo crespo não é sinônimo de sujeira. Grande parte de quem diz que é, SABE que não é, apenas usa o argumento inválido como desculpa para justificar seu veneno racista.


O argumento "saúde" está presente em todas as demonstrações de gordofobia. A saúde do gordo é sempre a maior preocupação dos gordofóbicos, só que não. O que o gordofóbico de verdade quer é acalantar seu ego diminuindo alguém que a sociedade tornou vulnerável. Há estudos, constantemente ignorados, indicando que o gordo ativo é tão saudável quanto o magro. De um lado temos a pessoa gorda e saudável e de outro a pessoa magra que sofre de transtorno alimentar e as duas sofrem pelo mesmo preconceito: a gordofobia. A pessoa que sofre um transtorno alimentar muitas vezes (pois a questão é multifatorial) tem um medo muito grande de engordar. Essa falsa demanda de saúde (que passa longe de ser saúde de verdade) está criando uma geração de pessoas que, psicologicamente, não estão saudáveis.

A obesidade é constantemente patologizada ou vista como desleixo, quando ela na verdade possui vários espectros diferentes não abordados pela maioria dos gordofóbicos, que querem acreditar numa meritocracia da saúde que simplesmente não existe. A obesidade não é apenas comportamental, ela não se desenvolve apenas no indivíduo que come muito e não pratica exercício. E mesmo que fosse assim, não estou vendo a patrulha gordofóbica censurar quem tem comportamentos pouco saudáveis como comer fastfood, fumar cigarros, beber (muito ou socialmente) e etc, se a pessoa é magra, está liberado. Não estou vendo as mesmas pessoas pressionarem os governos para fazerem campanha de conscientização sobre alimentação saudável e nem sobre a importância da prática de exercícios. Não estou vendo essas pessoas se importarem com algo que vá além da aparência física dos outros. Para os gordofóbicos o que determina onde a saúde deve residir é a aparência.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Meus pitacos sobre Django Livre



Eu não sou crítica de cinema e talvez por isso mesmo minha opinião esteja tão longe dos aplausos que Django Livre recebeu. Aliás, um motivo para eu não ter me entusiasmado tanto com o filme: Western. Western, para mim e para muitas mulheres, é gosto adquirido. Falo isso porque somos educadas para a docilidade, a passividade. Não significa que mulheres não possam gostar e se divertir assistindo, apenas que não somos estimuladas a assistir o gênero. Recentemente assisti Bravura Indômita e achei sensacional. O que acontece é que Western é um gênero violento e dominado pela presença masculina. Assim, foi preciso muito tempo para que eu pudesse dizer: "eu curto western". Eu gostei do filme? Sim. Eu amei? Não. Eu pagaria para ver de novo? Não. 

Pesa para mim o fato de que o Tarantino costuma colocar as mulheres de suas histórias como personagens marcantes, ativas, inteligentes. Ele faz filmes que são marcadamente violentos, brutais, mas olha só: as mulheres participam. As mulheres do tarantino até protagonizam. Mas em Django Livre as mulheres são completamente apagadas. Cito aqui as três que apareceram no filme: A mulher de lenço vermelho no rosto, que estava entre os capatazes de candyland, a irmã de Calvin Candie (que eu sequer me lembro do nome, para vocês sentirem o quanto a personagem é dispensável) e Brunhilde Von Shaft, a esposa de Django.

Mulher misteriosa de lenço vermelho
A mulher de lenço vermelho no rosto é apenas uma promessa que não dá em nada. Ela passa o tempo todo calada e morre repentinamente, sem ter agido, sem ter falado, enfim, nada. A irmã de Calvin é retratada quase como uma criança, sob o manto de paternalismo do irmão. E Brunhilde Von Shaft é a maior decepção. O que sabemos dela no início do filme é que tentou fugir da fazenda onde era escrava, o que em si é um ato de muita coragem, foi vendida para outro senhor, separada de Django. E depois, quando ele a reencontra ela está sendo punida por ter tentado fugir novamente. É de se esperar que ela fosse A mulher que o Tarantino adora representar: forte, determinada, ousada, inteligente. Mas não. Não. Ela está lá quase que para efeito decorativo. A única função é a de dar a motivação para o herói Django. A donzela em perigo. 
Os parceiros Django e Schultz
Esquecendo esse traço do filme que me incomodou muito, mas que não seria suficiente para que o filme fosse mediano (uma vez que "Cães de Aluguel", por exemplo, não tem mulheres também e é fantástico) tenho outros "poréns". Eu acredito mais no Tarantino quando ele conta histórias de bandidos. Imagino que ele tentou fazer isso em Django ao colocá-lo como parceiro de um "caçador de recompensas", alguém moralmente questionável, se pensarmos que ele recolhe cadáveres e troca por dinheiro, por outro lado, faz isso sob a tutela da lei. Assim, estamos falando de dois personagens que são um homem oprimido e um homem que mata bandidos, ou seja, por definição, mocinhos. É uma história sobre heróis. E heróis tem um problema que bandidos não possuem: Heróis sentem culpa. Mesmo que em dados momentos da história o Django precise agir de forma cruel com seus companheiros que foram escravizados, isso não acontece sem culpa. Quando a gente assiste Kill Bill, a gente empatiza com a vilania da personagem principal, Beatrix Kiddo, que mata sem remorso, como ela mesma informa aos seus oponentes. E porque é ruim que personagens sintam culpa? Não é ruim, é apenas diferente do que estamos habituados a ver em filmes do Tarantino. Eu, pessoalmente, acho que ele conta histórias de bandidos muito bem, mas histórias de mocinhos, não tanto. E por falar em diferenças, Django Livre é um filme linear. 

Os vilões Stephen e Calvin
No tocante às atuações, Samuel L. Jackson, Cristoph Waltz, Leonardo di Caprio estão incríveis, Jamie Foxx também se saiu bem, embora possua menos diálogos. A impressão que tenho é que conforme o personagem se empodera, toma as rédeas de sua vida, ele vai adquirindo mais diálogos e isso é uma característica bacana do filme. Mas é exatamente na questão da escravidão que o filme mais peca. É muito bom assistir um filme Western estrelado por um ator negro. Há outros, de cabeça me lembro de "As loucas aventuras de James West". Li um post  que mostra vários outros títulos. Tudo bem, é verdade que o Tarantino nos faz gargalhar do ridículo homem branco opressor encapuzado, numa clara referência à Ku klux klan, que na época ainda nem existia. E também é interessante o discurso "científico" do Calvin Candie para justificar a escravidão, faz a gente pensar em como a ciência não é neutra e foi usada como arma para garantir a perpetuação do preconceito. Mas é também verdade que o Tarantino deu para o herói um tutor branco. E para finalizar, caiu na falácia que "pior que o homem branco é o homem negro opressor". O maior vilão de um filme cuja temática É A ESCRAVIDÃO é um negro. Eu acho que isso é um profundo desrespeito à história das pessoas negras. O homem negro, ainda que poderoso, continuaria sendo alvo do preconceito, continuaria sendo oprimido. Daí eu me pergunto: Era mesmo necessário? Parece uma mea culpa: "olha só, eu mostrei esse personagem aqui (o Candy), que é um homem branco desprezível, mas também tem esse aqui (Dr. Schultz), que é um cara legal. E até tem esse outro (Stephen) que é negro e é pior que o branco!". 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Pasteurização da decoração: A cagação de regra suprime o espaço da individualidade


Há muitos anos nós, mulheres, somos bombardeadas com normas sobre a nossa aparência, sobre como devemos nos vestir para estar de acordo com os ditames da moda. E se nosso corpo varia de tamanho, variam os julgamentos. Corpos maiores devem ser escondidos, disfarçados para que pareçam menores. Mas não são. Quem é gordinha como eu sou, não deveria ser tolhida por normas de vestimenta que restringem o seu gosto pessoal à zero ou pelo menos a um segundo plano. Quantos anos eu passei sem usar listras horizontais porque diziam engordar? Quantas roupas pretas? Quantas saias na altura do joelhos? Não estamos falando de moda, estamos falando de opressão quando a idéia é: odeie tanto o seu corpo que precise passar a escondê-lo.

Não é muito diferente quando falamos da decoração de ambientes. Digite aí no google: "truques para ampliar/aumentar a sua sala/outro ambiente qualquer". A nossa casa também é espaço de pasteurização do pensamento. Pois é, a cagação de regras não possui limites. Ela está vestindo a nossa pele e está na cor da parede da nossa casa.

Print de matéria da revista "Casa e Jardim"
Dizem as revistas especializadas em suas fórmulas repetidas à exaustão, que as cores claras, os espelhos, as listras horizontais, os móveis baixos e etc ampliam o espaço. Não, amigos! Parem! Nada disso amplia de fato um ambiente, a única coisa capaz de ampliá-lo de verdade é a demolição de uma parede que integre um espaço contíguo. 

Nesse ponto há de se compreender uma outra característica dessa pasteurização: A noção de que espaços maiores são necessariamente melhores. E me desculpe se vejo aí um teor levemente elitista, pois indiretamente afirma-se que a casa modesta não tem a mesma graça que a casa opulenta. Cresci em uma casa de cerca de 80m², onde viviam 3 pessoas, às vezes algum animal de estimação e nos foi perfeitamente suficiente. Um lar de fato. Não é o tamanho de uma casa que a tornará melhor. 

Aliás, já que toquei no assunto "tamanho", nos poucos anos de profissão como arquiteta, tenho visto as casas crescerem assustadoramente. Casas onde vivem 4 pessoas e possuem mais de 500m², 6, 7 banheiros. Há mais banheiros do que capacidade de utilização simultânea. Sem contar os resquícios do nosso passado escravagista em que funcionários precisam ter alas de permanência distantes daquelas em que ficam os patrões, assim, a empregada não come na mesa da sala, não assiste tv com os moradores da casa, sequer usa o mesmo vaso sanitário.  Os excessos viraram a norma. 

A casa deveria ser o espaço máximo de personalização que se tem na vida. Deveria ser o reflexo daquilo que somos, deveria incorporar a nossa alma, pois é nesse lugar que passaremos os momentos da nossa vida em que não precisamos vestir nenhuma máscara. Não precisamos estar impecavelmente vestidos, mesmo gordinhas ninguém nos julgará se usarmos largas listras horizontais e um short curto mostrando as polpinhas da bunda, enfim, em boa parte do tempo é lá que seremos quem de fato somos. Contudo, embora muitos clientes afirmem desejar um projeto personalizado, acabam pedindo o mesmo de sempre. Serve aí uma parede bege, um piso claro, um forro de gesso, umas sancas, uma cortina voil e vamos levando a vida sem emoção.

O conjunto de características de uma casa jamais deveria ser alvo de normatização tão absoluta a ponto de decidir que não há espaço para cores escuras em uma casa pequena. E surprise: Cores escuras não necessariamente tornam o ambiente uma caverna, sabe? há muitas formas de utilizá-las. Espelhos podem até criar a ilusão de um ambiente maior, mas não deixam de ser superfícies sem textura e muito frias. Enfim, há motivos para não usar desses artifícios que teoricamente "ampliam". Não significa que não devemos usar cores claras, espelhos e listras, o que quero dizer é que não devemos adotar irrefletidamente algo que não nos diz absolutamente nada só porque alguém disse que é bom. Deveriam mudar a manchete dessas notícias, deveria ser: "Truques para que a sua casa seja qualquer coisa menos SUA casa"

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Somos todos um pouco Wallflower

Sam, Charlie e Patrick, os personagens principais de
"As vantagens de ser invisível"


Então, amigos, há alguns dias assisti ao filme "As vantagens de ser invisível" (The perks of being a wallflower, 2012) e fiquei tão apaixonada pelo filme que resolvi usar esse espaço para falar um pouco dele. O filme foi baseado no livro homônimo de Stephen Chbosky (Mais um para a minha lista infinita de livros que quero ler em 2013...). E é o próprio autor do livro quem roteriza e dirige o filme, garantindo que sua visão seja respeitada. 

Quem  hoje está em seus quase 30 anos deve ter se deparado com uma profusão de filmes highschool nos anos 80 e 90. Comigo foi assim. Assisti à filmografia do saudoso John Hughes (responsável por preciosidades como "Clube dos cinco", "Curtindo a vida adoidado", "A garota de rosa shocking" e algumas bombas também, porque ninguém é perfeito). Assisti à incontáveis dramas e comédias sobre esse período da vida em que a gente começa a se individualizar. Eu sempre gostei desse tipo de filme. É um gênero que nunca se esgota, porque é profundamente introspectivo e, paradoxalmente, é ao mesmo tempo universal.


O que caracteriza um filme highschool? A presença marcante da vida escolar no highschool, ou como chamamos no Brasil, ensino médio. Mas a trama não precisa ficar presa à isso. Em "As vantagens de ser invisivel", a escola é apenas o cenário, o palco, para as descobertas da vida. Quando, nos idos dos anos 80, John Hughes trancou os cinco alunos desajustados em uma sala de aula. Unidos por um castigo que parecia durar a eternidade, a escola também não era o essencial. Isso acontece porque aqueles personagens não são planos. Não são apenas "um cérebro, um atleta, um caso perdido, uma princesa e um criminoso", são personagens que, conforme o filme se desenrola, vão revelando ser multifacetados.

É exatamente esse traço da filmografia do John Hughes que acredito que faltou à filmes como "Highschool musical" e "Meninas Malvadas", dois filmes do gênero que estão entre os mais famosos dos últimos anos (Não que a falta de qualidade nos filmes highschool seja exclusividade dos anos 2000).  A visão superficial e estereotipada da adolescência que muitos filmes mostram é um tipo de invisibilização, de silenciamento. É tratar o adolescente como um ser bobo. É dizer que seus problemas são pequenos. Quando adultos, parece que esquecemos como a primeira vez em que experimentamos algo é intensa. Do primeiro beijo à primeira tragada. É tudo amplificado. Adolescentes não são dramáticos nem imbecis. São apenas pessoas decidindo/descobrindo quem elas são de fato.

Em "As vantagens de ser invisível", a idéia de que os personagens são mais do que aparentam, que aquele momento de suas vidas é intenso, complexo e desafiador está presente desde o primeiro minuto do filme. A tradicional separação nerds/desajustados/jogadores/líderes de torcida/alternativos/bullies existe, mas não de forma tão evidente. Há por exemplo, uma bully que é nerd. E também pessoas mais neutras, que circulam bem, sem atrito com outros grupos (como parece ser a irmã do personagem principal).

Charlie, o protagonista, é um jovem com problemas psicológicos sérios, que já passou por internação em clínicas psiquiátricas. Logo no início, somos apresentados à esse personagem que é ao mesmo tempo inteligente, solitário e trágico. E embora ele sofra bullying na escola, nunca foi retratado como alguém digno de pena. Seus grandes amigos são Sam, uma jovem que teve uma vida atribulada e que sofreu abuso na infância, e o meio-irmão dela, Patrick, um homossexual que ama alguém que não teve a coragem de se assumir homossexual também. Charlie passa por várias "primeiras vezes" no filme ao lado desses dois amigos. E há momentos de grande emoção que une esses três personagens com uma enorme delicadeza.

Como um pano de fundo dessa história, há a violência contra as mulheres e crianças, física e psicológica. De forma simples, esses temas aparecem em alguns momentos, delineando e dando profundidade aos personagens. Uma frase do professor de inglês do Charlie é emblemática e nos faz pensar em como se desenvolvem os relacionamentos abusivos. Ele diz: "Aceitamos o amor que acreditamos merecer". Isso ajuda a entender como algumas mulheres estão sempre ao lado de homens abusivos, obviamente esse não é o único fator. Mas não é muito parecido com isso em alguns casos mesmo? Há relacionamentos em que a autoestima da mulher é tão sufocada, que ela começa a acreditar, ainda que de forma não racionalizada, que é aquele amor que ela merece, precisa ou pode ter.

Uma curiosidade: fui atrás de entender o significado da palavra "Wallflower" e, a menos que alguém possa me dar outra significação, a resposta do dicionário foi: "moça que fica sem dançar por não ter parceiro". Na nossa sociedade machista, pode ser compreendida com uma imagem da solidão (que é bastante recorrente no filme, pois sempre tem alguém em uma festa sozinho, encostado em algum canto...).

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A linda introdução do filme Medianeras, de Gustavo Taretto

Há algum tempo assisti ao filme "Medianeras", do diretor Gustavo Taretto, e fiquei apaixonada pelo texto que introduz os dois personagens principais do filme, Martín e Mariana. É um belo discurso sobre Buenos Aires, sobre a decadência da cidade, ou como diz o Martín  "irregularidades estéticas e éticas" que delineiam, ambientam e são refletidas nos seus personagens cotidianos. Abaixo uma tradução livre.

O trecho do Martín:

"Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita, é uma cidade superpovoada em um país deserto, uma cidade em que se erguem milhares e milhares e milhares e milhares de edifícios sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto, existe um muito baixo, ao lado de um racionalista, um irracional, ao lado de um de estilo francês há outro sem estilo algum. Provavelmente estas irregularidades nos refletem perfeitamente, irregularidades estéticas e éticas.

Estes edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica demonstram uma total falta de planejamento. Exatamente igual à nossa vida, vamos vivendo sem ter a mínima idéia de como queremos ser. Vivemos como se estivéssemos de passagem por Buenos Aires. Somos os inventores da cultura do inquilino. Os edifícios são cada vez menores, para dar lugar a novos edifícios, menores ainda. Os apartamentos se dividem em ambientes, e vão desde os excepcionais 5 ambientes com varanda, sala de jogos, dependência de empregados, depósito, até a quitinete, ou caixa de sapatos.

Os edifícios, como quase todas as coisas pensadas pelo homem são feitos para nos diferenciar uns dos outros. Existe uma fachada frontal e posterior, e os pavimentos baixos e os altos. Os privilegiados são identificados com a letra A, excepcionalmente a B, quanto mais progride o alfabeto menos categoria tem o apartamento. As vistas e a luminosidade são promessas que raramente condizem com a realidade. O que se pode esperar de uma cidade que vira as costas para o seu Rio?

Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais de cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a abulia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a insegurança, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e empresários da construção. Desses males, exceto o suicídio, eu padeço de todos. " 


O trecho da Mariana:

"Todos os edifícios, absolutamente todos, possuem uma face inútil, imprestável, que não é nem a fachada frontal e nem a posterior, é a “medianera”. Superfícies enormes, que nos dividem e nos lembram do passar  do tempo,  a poluição e a sujeira da cidade. As medineras mostram  nosso estado mais miserável, refletem a inconstância, as rachaduras, as soluções temporárias.  O lixo que escondemos sob o tapete, pensamos nelas excepcionalmente, quando,  violadas pelos intempéries do tempo, deixam infiltrar suas reivindicações.

As medianeras  se tornaram mais um meio publicitário, que salvo raras exceções conseguiu embelezar-lhes. Geralmente, são propagandas duvidosas de supermercados ou fast food, anúncios de loteria que prometem de muito à quase nada, etc etc etc. Apesar de atualmente nos recordar da terrível crise que nos deixou desempregados. Os condicionadores de ar são erupções irregulares das quais padecem as medianeras, graças à antiguidade dos edifícios que não comtemplaram sistemas de refrigeração adequados para uma cidade cada vez mais quente. 

Contra toda a opressão que significa viver em caixas de sapatos, existe uma saída, uma fuga, ilegal, como todas as fugas. Em clara contravenção ao código de planejamento urbano, abrem-se minúsculas, irregulares e irresponsáveis janelas que permitem que milagrosos raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos."

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Minha retrospectiva musical e bem louca de 2012

Eu sempre fui bem curiosa com música. Não toco instrumento nenhum, mas gosto muito de ouvir música e de ler à respeito. Esse ano, contudo, eu não fui curiosa. Nem parei para pensar no porquê, mas eu não passei o ano lendo blogs de música, ouvindo o som novo de bandas antigas, nada disso. Eu fui bem menos musical. Ainda sim, uma amiga minha criou um grupo no facebook chamado "Mulheres na Música" e me chamou para ser administradora, acabei conhecendo bastante coisa bacana por lá (e muita coisa não tão bacana assim também, não é?). Além disso, somente de estar em uma rede social, acabamos esbarrando aqui e ali em alguma coisa legal.

Ah, eu já fui uma dessas roqueirinhas que adoram minimizar o estilo musical alheio para se sentir superior, mas felizmente foi uma fase e eu mudei. Eu não posso dizer que gosto de todos os gêneros, mas tento não ser preconceituosa, até mesmo porque esses preconceitos musicais normalmente são bem elitistas e voltados para a música de origem popular. Talvez por isso a minha retrospectiva musical esteja louca e incoerente.

5. Banda Uó - Faz Uó

Eu conheci a Banda Uó através de uma amiga. Você pode achar ruim, mas não pode dizer que é banal. Não dá para ignorar uma música que começa com "Hoje acordei danado, com fogo no rabo...".


LOL:

"Hoje eu acordei danado com fogo no rabo
Eu quero me acabar, me acabar
Vou pra Banda Uó ao som do brega, eu quero ver o
DJ tocar, DJ tocar"


4. Karmin - Hello

Esbarrei em Karmin por aí, em algum tweet, alguma postagem de facebook, realmente não me lembro. O que sei é que até hoje não consegui cantar uma música inteira dela. Entenda o porquê:


"Too nice, too clean
Too white, too green
Little haters, big dreams
I don't care what you think about me
Two faced, old friends, told me, the end was near, forget them
See a lot of things changed since then"

3. Ella Henderson - Believe

Caloura do X-Factor UK. Ella não foi a vencedora, mas foi inesquecível. Espero que em breve haja um álbum dela fazendo muito sucesso por aí. Ah, é preciso muito talento para fazer essa música chata ficar linda.



"No matter how hard I try
You keep pushing me aside
And I can't break through
There's no talking to you
It's so sad that you're leaving
It takes time to believe it
But after all is said and done
You're gonna be the lonely one"


2. Amanda Palmer - Map of Tasmania

Essa aqui foi o feminismo que trouxe para mim (Beijos, timeline militante linda e body positive!). Uma música sobre depilação. Sim, e é muito divertida, o clipe é ótimo.


"I say grow that shit like a jungle
Give 'em something strong to hold onto
Let it fly in the open wind
If it get too bushy, you can trim"


1. Perota Chingo - Rie Chinito

A gente conhece muito pouco da música dos países vizinhos. Eu me dei conta disso quando conheci Perota Chingó, uma dupla formada por Dolo e Maju, que me encanta e me emociona. Assim, muito. Com certeza foi o que mais gostei de conhecer na música em 2012.



"Ríe chinito,
se ríe y yo lloro porque el chino ríe sin mi
Ríe en la noche,
y achina los ojos morochos más lindos que vi
Sopla las cañas,
sube la montaña, mañana quizás bajará
Se hace de día,
el sol lo encandila, los vientos descansa y el chino se amansa"


Teve muito mais coisa, mas fecho com essas cinco músicas para dizer que meu 2012:
  • Foi divertido como a Banda Uó, 
  • Foi ora calmo ora agitado, como Karmin. 
  • Houve surpresas agradáveis, como foi a Ella Henderson. 
  • Houve militância por um mundo menos opressor, como a música da Amanda Palmer. 
  • E agora, termina calmo como Perota Chingó num final de tarde. 

Aguardando que 2013 seja embalado por muita música boa. Um feliz ano novo para todxs.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Divergente - Facção antes do sangue


Hoje vou dar uma pausa nos textos sobre Jogos Vorazes, porque li outro livro que me chamou a atenção, se chama "Divergente", da autora Veronica Roth. É um livro que veio na levada de Jogos Vorazes, é distópico, narrado em primeira pessoa, a personagem central é mulher e há todo um conflito ideológico envolvido. Sim, há semelhanças com Jogos Vorazes, mas também há diferenças. 

Quero ressaltar o quanto acho importante que o mercado esteja se abrindo para a criação de protagonistas mulheres em tramas de ação. É muito importante para o desenvolvimento e autoestima das crianças e das adolescentes que elas tenham exemplos positivos representados na TV, no cinema, na literatura, nos quadrinhos. Até então, eu lembrava de poucas heroínas protagonistas, digamos assim, na literatura. As que atingiram as maiores massas (e que chegaram ao Brasil), que viraram bestsellers, e que não são exemplos de passividade eram muito raras. 

Cito três sempre: Morgana, Katniss e Lisbeth. Morgana é a principal narradora de "As Brumas de Avalon", na mesma história outras personagens participam contando a história, mas o protagonismo de Morgana é marcante. Depois temos Lisbeth, que é uma das personagens protagonistas de "Os homens que não amavam as mulheres", não falarei muito dela nesse momento porque a amo de paixão enlouquecida e pretendo reservar um texto apenas para ela, mas digamos que ela é atual, ela é destemida, ela é independente e vingativa. Por fim, Katniss, de quem já falei aqui e aqui. Há outras? certamente, mas essas são as mais proeminentes. Se houvesse um "top of mind" de personagens que se enquadram nas seguintes características: "Protagonista, Heroína, ativa, trama de ação", acredito que esses três nomes seriam os mais apontados. ACREDITO, e claro posso estar errada (Sintam-se à vontade para me apresentar novas leituras. Já ouvi falar de mais alguns livros distópicos com protagonismo feminino, em breve pretendo lê-los e comentá-los. Embora esse não seja um blog de literatura, eu gosto muito de ler e acabarei falando muito no assunto).

Agora eu conheci a Tris. E a Tris tem seus altos e baixos mas é certamente mais uma para o time. Vamos ao Livro.

A PARTIR DAQUI CONTÉM (POUCOS) SPOILERS

- Ambientação



"Divergente" é uma história que acontece num futuro distópico. Os antepassados dos personagens, depois de devastarem o planeta com guerras, dividiram a sociedade em facções, criadas para desenvolver certas características da personalidade de cada cidadão. Como assim? Eu explico. Os antepassados culparam algumas características dos seres humanos pelas mazelas da humanidade. Assim:

Aqueles que culpavam o egoísmo, formaram a facção "Abnegação";
Aqueles que culpavam a ignorância, formaram a facção "Erudição";
Aqueles que culpavam a agressividade, formaram a facção "Amizade";
Aqueles que culpavam a duplicidade, formaram a facção "Franqueza";
Aqueles que culpavam a covardia, formaram a facção "Audácia".

Cada facção tem parte no funcionamento da sociedade. Os integrantes da Abnegação controlam o governo, pois são altruístas e botam as prioridades dos outros acima das suas. Os integrantes da Franqueza, controlam a justiça, pois não deve haver duplicidade para que haja justiça. Os integrantes da Erudição, se tornaram professores, médicos, cientistas. Os integrantes da Amizade controlam as fazendas (eu ainda não entendi o motivo, não ficou claro). Os integrantes da Audácia, que são os mais destemidos realizam a segurança. É óbvio que cada facção tem lideranças próprias também.

Há, é claro, aqueles que foram destituídos de suas facções. São chamados de "sem-facção". Fazem os serviços menos remunerados, quando não se tornam pedintes, pessoas carentes.

Enfim, há alguma tensão entre as facções, especialmente entre a Erudição e a Abnegação. As lideranças da Erudição querem integrar o governo com fins bastante egoístas, algo que é rejeitado de pronto pela Abnegação. Há divergências ideológicas entre a Amizade e a Franqueza. Segundo integrantes da Franqueza, quem quer manter a amizade a todo custo, estará de alguma forma enganando alguém, pois não há franqueza absoluta na paz. Assim, entre diferenças ideológicas e questões práticas do funcionamento da sociedade, a coisa se torna bem interessante.

-Tris, a protagonista.

Imagem encontrada nesse link
Esse é o pano de fundo da história de Beatrice, uma jovem nascida na Abnegação. Aos 16 anos, todos os jovens passam por um teste de aptidão que ajudará a definir o melhor direcionamento para ele, ou seja, qual a facção mais indicada. Contudo, a escolha é individual. Uma escolha que define tudo na vida, daí o ditado "Facção antes do sangue", pois a sua escolha pode obrigá-lo a abandonar tudo, inclusive sua família. 

Beatrice, a Tris, acorda todos os dias e leva uma vida contida. Ela deve ser altruísta em tudo o que faz, se ela por exemplo quiser subir num elevador e outras pessoas quiserem fazer isso também, ela irá de escadas. Não importa a situação, o outro é prioridade. As roupas da abnegação são todas iguais, assim como o corte de cabelo, os espelhos são escondidos, pois a vaidade é uma forma de autocomplacência. É uma vida regrada e difícil com certeza.

Ao fazer seu teste, Tris descobre que é "Divergente", ou seja, que ela demonstra inclinação para várias facções, nenhuma em específico, e que isso é muito perigoso. Uma pessoa a ajuda a esconder o resultado do teste de aptidão, introduzindo um resultado falso ao sistema: "Abnegação". Tris escolhe abandonar a sua vida contida e ir para a Audácia. Uma grande diferença entre Jogos Vorazes e Divergente, é que desde o início, Jogos Vorazes é acima de tudo uma crítica a uma sociedade de consumo, vazia de valores, enquanto Divergente (deixo claro que estou falando do primeiro livro da trilogia) é uma história de descoberta, de crescimento. A gente acompanha a Tris durante o seu treinamento na Audácia e como ela passa de uma menina magricela e baixinha, da facção mais sacaneada pelas outras (ela sofre bullying por causa da maneira como os "Caretas", forma como chamam os habitantes da Abnegação, vivem a vida), se torna uma autêntica integrante da Audácia. Além desse foco, há toda uma questão filosófica sobre o que é a coragem e o que representa cada uma dessas qualidades que envolvem as facções, e como o pensamento livre é perigoso para esse tipo de sociedade. Aliás, eu diria que é perigoso em qualquer tipo de sociedade em que há algum grau de autoritarismo.

Depois de escolher a facção, ela passa por um período de treinamento e seleção. Alguns daqueles que tentam entrar em alguma facção acabam não sendo aceitos, e por consequência, tornam-se sem facção. Na Audácia, pode-se dizer que é um treinamento quase militar. Ela aprende a lutar, a atirar, a enfrentar seus piores medos. E é lá que ela entende a diferença entre a paz da abnegação e a liberdade da audácia. E é onde ela se torna para todos os efeitos uma adolescente, é quando ela permite a si mesma se colocar como prioridade às vezes, rir alto, provar sua capacidade, ser vaidosa e autocomplacente. Mas também aprende a ser forte, decidida, audaz e a ser também em alguns momentos altruísta como nunca foi antes. E a amar. Sim, há romance. Diferente de Jogos Vorazes, onde o amor é uma dúvida constante em Katniss, Tris tem algumas certezas. Eu ainda não decidi se gosto disso ou não. Em Jogos Vorazes certamente sofri com a indecisão de Katniss, mas vejo muito valor em um personagem que não sabe o que quer, que precisa compreender a si mesma. Acho que seria legal se a Tris descobrisse mais lentamente o que sente por Quatro. Isso não faz, de forma alguma, que eu desgoste da trama ou dos personagens, ou mesmo do romance. Eu gosto muito dos momentos que eles passam juntos. Os dois são personagens que falam mais em silêncio do que em palavras quando estão juntos, ao menos é essa a sensação que tenho.

Obs.: Divergente já tem adaptação para o cinema prevista para 2014 e o segundo livro, "Insurgent", já foi lançado na gringa.