segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Somos todos um pouco Wallflower

Sam, Charlie e Patrick, os personagens principais de
"As vantagens de ser invisível"


Então, amigos, há alguns dias assisti ao filme "As vantagens de ser invisível" (The perks of being a wallflower, 2012) e fiquei tão apaixonada pelo filme que resolvi usar esse espaço para falar um pouco dele. O filme foi baseado no livro homônimo de Stephen Chbosky (Mais um para a minha lista infinita de livros que quero ler em 2013...). E é o próprio autor do livro quem roteriza e dirige o filme, garantindo que sua visão seja respeitada. 

Quem  hoje está em seus quase 30 anos deve ter se deparado com uma profusão de filmes highschool nos anos 80 e 90. Comigo foi assim. Assisti à filmografia do saudoso John Hughes (responsável por preciosidades como "Clube dos cinco", "Curtindo a vida adoidado", "A garota de rosa shocking" e algumas bombas também, porque ninguém é perfeito). Assisti à incontáveis dramas e comédias sobre esse período da vida em que a gente começa a se individualizar. Eu sempre gostei desse tipo de filme. É um gênero que nunca se esgota, porque é profundamente introspectivo e, paradoxalmente, é ao mesmo tempo universal.


O que caracteriza um filme highschool? A presença marcante da vida escolar no highschool, ou como chamamos no Brasil, ensino médio. Mas a trama não precisa ficar presa à isso. Em "As vantagens de ser invisivel", a escola é apenas o cenário, o palco, para as descobertas da vida. Quando, nos idos dos anos 80, John Hughes trancou os cinco alunos desajustados em uma sala de aula. Unidos por um castigo que parecia durar a eternidade, a escola também não era o essencial. Isso acontece porque aqueles personagens não são planos. Não são apenas "um cérebro, um atleta, um caso perdido, uma princesa e um criminoso", são personagens que, conforme o filme se desenrola, vão revelando ser multifacetados.

É exatamente esse traço da filmografia do John Hughes que acredito que faltou à filmes como "Highschool musical" e "Meninas Malvadas", dois filmes do gênero que estão entre os mais famosos dos últimos anos (Não que a falta de qualidade nos filmes highschool seja exclusividade dos anos 2000).  A visão superficial e estereotipada da adolescência que muitos filmes mostram é um tipo de invisibilização, de silenciamento. É tratar o adolescente como um ser bobo. É dizer que seus problemas são pequenos. Quando adultos, parece que esquecemos como a primeira vez em que experimentamos algo é intensa. Do primeiro beijo à primeira tragada. É tudo amplificado. Adolescentes não são dramáticos nem imbecis. São apenas pessoas decidindo/descobrindo quem elas são de fato.

Em "As vantagens de ser invisível", a idéia de que os personagens são mais do que aparentam, que aquele momento de suas vidas é intenso, complexo e desafiador está presente desde o primeiro minuto do filme. A tradicional separação nerds/desajustados/jogadores/líderes de torcida/alternativos/bullies existe, mas não de forma tão evidente. Há por exemplo, uma bully que é nerd. E também pessoas mais neutras, que circulam bem, sem atrito com outros grupos (como parece ser a irmã do personagem principal).

Charlie, o protagonista, é um jovem com problemas psicológicos sérios, que já passou por internação em clínicas psiquiátricas. Logo no início, somos apresentados à esse personagem que é ao mesmo tempo inteligente, solitário e trágico. E embora ele sofra bullying na escola, nunca foi retratado como alguém digno de pena. Seus grandes amigos são Sam, uma jovem que teve uma vida atribulada e que sofreu abuso na infância, e o meio-irmão dela, Patrick, um homossexual que ama alguém que não teve a coragem de se assumir homossexual também. Charlie passa por várias "primeiras vezes" no filme ao lado desses dois amigos. E há momentos de grande emoção que une esses três personagens com uma enorme delicadeza.

Como um pano de fundo dessa história, há a violência contra as mulheres e crianças, física e psicológica. De forma simples, esses temas aparecem em alguns momentos, delineando e dando profundidade aos personagens. Uma frase do professor de inglês do Charlie é emblemática e nos faz pensar em como se desenvolvem os relacionamentos abusivos. Ele diz: "Aceitamos o amor que acreditamos merecer". Isso ajuda a entender como algumas mulheres estão sempre ao lado de homens abusivos, obviamente esse não é o único fator. Mas não é muito parecido com isso em alguns casos mesmo? Há relacionamentos em que a autoestima da mulher é tão sufocada, que ela começa a acreditar, ainda que de forma não racionalizada, que é aquele amor que ela merece, precisa ou pode ter.

Uma curiosidade: fui atrás de entender o significado da palavra "Wallflower" e, a menos que alguém possa me dar outra significação, a resposta do dicionário foi: "moça que fica sem dançar por não ter parceiro". Na nossa sociedade machista, pode ser compreendida com uma imagem da solidão (que é bastante recorrente no filme, pois sempre tem alguém em uma festa sozinho, encostado em algum canto...).

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A linda introdução do filme Medianeras, de Gustavo Taretto

Há algum tempo assisti ao filme "Medianeras", do diretor Gustavo Taretto, e fiquei apaixonada pelo texto que introduz os dois personagens principais do filme, Martín e Mariana. É um belo discurso sobre Buenos Aires, sobre a decadência da cidade, ou como diz o Martín  "irregularidades estéticas e éticas" que delineiam, ambientam e são refletidas nos seus personagens cotidianos. Abaixo uma tradução livre.

O trecho do Martín:

"Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita, é uma cidade superpovoada em um país deserto, uma cidade em que se erguem milhares e milhares e milhares e milhares de edifícios sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto, existe um muito baixo, ao lado de um racionalista, um irracional, ao lado de um de estilo francês há outro sem estilo algum. Provavelmente estas irregularidades nos refletem perfeitamente, irregularidades estéticas e éticas.

Estes edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica demonstram uma total falta de planejamento. Exatamente igual à nossa vida, vamos vivendo sem ter a mínima idéia de como queremos ser. Vivemos como se estivéssemos de passagem por Buenos Aires. Somos os inventores da cultura do inquilino. Os edifícios são cada vez menores, para dar lugar a novos edifícios, menores ainda. Os apartamentos se dividem em ambientes, e vão desde os excepcionais 5 ambientes com varanda, sala de jogos, dependência de empregados, depósito, até a quitinete, ou caixa de sapatos.

Os edifícios, como quase todas as coisas pensadas pelo homem são feitos para nos diferenciar uns dos outros. Existe uma fachada frontal e posterior, e os pavimentos baixos e os altos. Os privilegiados são identificados com a letra A, excepcionalmente a B, quanto mais progride o alfabeto menos categoria tem o apartamento. As vistas e a luminosidade são promessas que raramente condizem com a realidade. O que se pode esperar de uma cidade que vira as costas para o seu Rio?

Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais de cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a abulia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a insegurança, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e empresários da construção. Desses males, exceto o suicídio, eu padeço de todos. " 


O trecho da Mariana:

"Todos os edifícios, absolutamente todos, possuem uma face inútil, imprestável, que não é nem a fachada frontal e nem a posterior, é a “medianera”. Superfícies enormes, que nos dividem e nos lembram do passar  do tempo,  a poluição e a sujeira da cidade. As medineras mostram  nosso estado mais miserável, refletem a inconstância, as rachaduras, as soluções temporárias.  O lixo que escondemos sob o tapete, pensamos nelas excepcionalmente, quando,  violadas pelos intempéries do tempo, deixam infiltrar suas reivindicações.

As medianeras  se tornaram mais um meio publicitário, que salvo raras exceções conseguiu embelezar-lhes. Geralmente, são propagandas duvidosas de supermercados ou fast food, anúncios de loteria que prometem de muito à quase nada, etc etc etc. Apesar de atualmente nos recordar da terrível crise que nos deixou desempregados. Os condicionadores de ar são erupções irregulares das quais padecem as medianeras, graças à antiguidade dos edifícios que não comtemplaram sistemas de refrigeração adequados para uma cidade cada vez mais quente. 

Contra toda a opressão que significa viver em caixas de sapatos, existe uma saída, uma fuga, ilegal, como todas as fugas. Em clara contravenção ao código de planejamento urbano, abrem-se minúsculas, irregulares e irresponsáveis janelas que permitem que milagrosos raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos."

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Minha retrospectiva musical e bem louca de 2012

Eu sempre fui bem curiosa com música. Não toco instrumento nenhum, mas gosto muito de ouvir música e de ler à respeito. Esse ano, contudo, eu não fui curiosa. Nem parei para pensar no porquê, mas eu não passei o ano lendo blogs de música, ouvindo o som novo de bandas antigas, nada disso. Eu fui bem menos musical. Ainda sim, uma amiga minha criou um grupo no facebook chamado "Mulheres na Música" e me chamou para ser administradora, acabei conhecendo bastante coisa bacana por lá (e muita coisa não tão bacana assim também, não é?). Além disso, somente de estar em uma rede social, acabamos esbarrando aqui e ali em alguma coisa legal.

Ah, eu já fui uma dessas roqueirinhas que adoram minimizar o estilo musical alheio para se sentir superior, mas felizmente foi uma fase e eu mudei. Eu não posso dizer que gosto de todos os gêneros, mas tento não ser preconceituosa, até mesmo porque esses preconceitos musicais normalmente são bem elitistas e voltados para a música de origem popular. Talvez por isso a minha retrospectiva musical esteja louca e incoerente.

5. Banda Uó - Faz Uó

Eu conheci a Banda Uó através de uma amiga. Você pode achar ruim, mas não pode dizer que é banal. Não dá para ignorar uma música que começa com "Hoje acordei danado, com fogo no rabo...".


LOL:

"Hoje eu acordei danado com fogo no rabo
Eu quero me acabar, me acabar
Vou pra Banda Uó ao som do brega, eu quero ver o
DJ tocar, DJ tocar"


4. Karmin - Hello

Esbarrei em Karmin por aí, em algum tweet, alguma postagem de facebook, realmente não me lembro. O que sei é que até hoje não consegui cantar uma música inteira dela. Entenda o porquê:


"Too nice, too clean
Too white, too green
Little haters, big dreams
I don't care what you think about me
Two faced, old friends, told me, the end was near, forget them
See a lot of things changed since then"

3. Ella Henderson - Believe

Caloura do X-Factor UK. Ella não foi a vencedora, mas foi inesquecível. Espero que em breve haja um álbum dela fazendo muito sucesso por aí. Ah, é preciso muito talento para fazer essa música chata ficar linda.



"No matter how hard I try
You keep pushing me aside
And I can't break through
There's no talking to you
It's so sad that you're leaving
It takes time to believe it
But after all is said and done
You're gonna be the lonely one"


2. Amanda Palmer - Map of Tasmania

Essa aqui foi o feminismo que trouxe para mim (Beijos, timeline militante linda e body positive!). Uma música sobre depilação. Sim, e é muito divertida, o clipe é ótimo.


"I say grow that shit like a jungle
Give 'em something strong to hold onto
Let it fly in the open wind
If it get too bushy, you can trim"


1. Perota Chingo - Rie Chinito

A gente conhece muito pouco da música dos países vizinhos. Eu me dei conta disso quando conheci Perota Chingó, uma dupla formada por Dolo e Maju, que me encanta e me emociona. Assim, muito. Com certeza foi o que mais gostei de conhecer na música em 2012.



"Ríe chinito,
se ríe y yo lloro porque el chino ríe sin mi
Ríe en la noche,
y achina los ojos morochos más lindos que vi
Sopla las cañas,
sube la montaña, mañana quizás bajará
Se hace de día,
el sol lo encandila, los vientos descansa y el chino se amansa"


Teve muito mais coisa, mas fecho com essas cinco músicas para dizer que meu 2012:
  • Foi divertido como a Banda Uó, 
  • Foi ora calmo ora agitado, como Karmin. 
  • Houve surpresas agradáveis, como foi a Ella Henderson. 
  • Houve militância por um mundo menos opressor, como a música da Amanda Palmer. 
  • E agora, termina calmo como Perota Chingó num final de tarde. 

Aguardando que 2013 seja embalado por muita música boa. Um feliz ano novo para todxs.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Divergente - Facção antes do sangue


Hoje vou dar uma pausa nos textos sobre Jogos Vorazes, porque li outro livro que me chamou a atenção, se chama "Divergente", da autora Veronica Roth. É um livro que veio na levada de Jogos Vorazes, é distópico, narrado em primeira pessoa, a personagem central é mulher e há todo um conflito ideológico envolvido. Sim, há semelhanças com Jogos Vorazes, mas também há diferenças. 

Quero ressaltar o quanto acho importante que o mercado esteja se abrindo para a criação de protagonistas mulheres em tramas de ação. É muito importante para o desenvolvimento e autoestima das crianças e das adolescentes que elas tenham exemplos positivos representados na TV, no cinema, na literatura, nos quadrinhos. Até então, eu lembrava de poucas heroínas protagonistas, digamos assim, na literatura. As que atingiram as maiores massas (e que chegaram ao Brasil), que viraram bestsellers, e que não são exemplos de passividade eram muito raras. 

Cito três sempre: Morgana, Katniss e Lisbeth. Morgana é a principal narradora de "As Brumas de Avalon", na mesma história outras personagens participam contando a história, mas o protagonismo de Morgana é marcante. Depois temos Lisbeth, que é uma das personagens protagonistas de "Os homens que não amavam as mulheres", não falarei muito dela nesse momento porque a amo de paixão enlouquecida e pretendo reservar um texto apenas para ela, mas digamos que ela é atual, ela é destemida, ela é independente e vingativa. Por fim, Katniss, de quem já falei aqui e aqui. Há outras? certamente, mas essas são as mais proeminentes. Se houvesse um "top of mind" de personagens que se enquadram nas seguintes características: "Protagonista, Heroína, ativa, trama de ação", acredito que esses três nomes seriam os mais apontados. ACREDITO, e claro posso estar errada (Sintam-se à vontade para me apresentar novas leituras. Já ouvi falar de mais alguns livros distópicos com protagonismo feminino, em breve pretendo lê-los e comentá-los. Embora esse não seja um blog de literatura, eu gosto muito de ler e acabarei falando muito no assunto).

Agora eu conheci a Tris. E a Tris tem seus altos e baixos mas é certamente mais uma para o time. Vamos ao Livro.

A PARTIR DAQUI CONTÉM (POUCOS) SPOILERS

- Ambientação



"Divergente" é uma história que acontece num futuro distópico. Os antepassados dos personagens, depois de devastarem o planeta com guerras, dividiram a sociedade em facções, criadas para desenvolver certas características da personalidade de cada cidadão. Como assim? Eu explico. Os antepassados culparam algumas características dos seres humanos pelas mazelas da humanidade. Assim:

Aqueles que culpavam o egoísmo, formaram a facção "Abnegação";
Aqueles que culpavam a ignorância, formaram a facção "Erudição";
Aqueles que culpavam a agressividade, formaram a facção "Amizade";
Aqueles que culpavam a duplicidade, formaram a facção "Franqueza";
Aqueles que culpavam a covardia, formaram a facção "Audácia".

Cada facção tem parte no funcionamento da sociedade. Os integrantes da Abnegação controlam o governo, pois são altruístas e botam as prioridades dos outros acima das suas. Os integrantes da Franqueza, controlam a justiça, pois não deve haver duplicidade para que haja justiça. Os integrantes da Erudição, se tornaram professores, médicos, cientistas. Os integrantes da Amizade controlam as fazendas (eu ainda não entendi o motivo, não ficou claro). Os integrantes da Audácia, que são os mais destemidos realizam a segurança. É óbvio que cada facção tem lideranças próprias também.

Há, é claro, aqueles que foram destituídos de suas facções. São chamados de "sem-facção". Fazem os serviços menos remunerados, quando não se tornam pedintes, pessoas carentes.

Enfim, há alguma tensão entre as facções, especialmente entre a Erudição e a Abnegação. As lideranças da Erudição querem integrar o governo com fins bastante egoístas, algo que é rejeitado de pronto pela Abnegação. Há divergências ideológicas entre a Amizade e a Franqueza. Segundo integrantes da Franqueza, quem quer manter a amizade a todo custo, estará de alguma forma enganando alguém, pois não há franqueza absoluta na paz. Assim, entre diferenças ideológicas e questões práticas do funcionamento da sociedade, a coisa se torna bem interessante.

-Tris, a protagonista.

Imagem encontrada nesse link
Esse é o pano de fundo da história de Beatrice, uma jovem nascida na Abnegação. Aos 16 anos, todos os jovens passam por um teste de aptidão que ajudará a definir o melhor direcionamento para ele, ou seja, qual a facção mais indicada. Contudo, a escolha é individual. Uma escolha que define tudo na vida, daí o ditado "Facção antes do sangue", pois a sua escolha pode obrigá-lo a abandonar tudo, inclusive sua família. 

Beatrice, a Tris, acorda todos os dias e leva uma vida contida. Ela deve ser altruísta em tudo o que faz, se ela por exemplo quiser subir num elevador e outras pessoas quiserem fazer isso também, ela irá de escadas. Não importa a situação, o outro é prioridade. As roupas da abnegação são todas iguais, assim como o corte de cabelo, os espelhos são escondidos, pois a vaidade é uma forma de autocomplacência. É uma vida regrada e difícil com certeza.

Ao fazer seu teste, Tris descobre que é "Divergente", ou seja, que ela demonstra inclinação para várias facções, nenhuma em específico, e que isso é muito perigoso. Uma pessoa a ajuda a esconder o resultado do teste de aptidão, introduzindo um resultado falso ao sistema: "Abnegação". Tris escolhe abandonar a sua vida contida e ir para a Audácia. Uma grande diferença entre Jogos Vorazes e Divergente, é que desde o início, Jogos Vorazes é acima de tudo uma crítica a uma sociedade de consumo, vazia de valores, enquanto Divergente (deixo claro que estou falando do primeiro livro da trilogia) é uma história de descoberta, de crescimento. A gente acompanha a Tris durante o seu treinamento na Audácia e como ela passa de uma menina magricela e baixinha, da facção mais sacaneada pelas outras (ela sofre bullying por causa da maneira como os "Caretas", forma como chamam os habitantes da Abnegação, vivem a vida), se torna uma autêntica integrante da Audácia. Além desse foco, há toda uma questão filosófica sobre o que é a coragem e o que representa cada uma dessas qualidades que envolvem as facções, e como o pensamento livre é perigoso para esse tipo de sociedade. Aliás, eu diria que é perigoso em qualquer tipo de sociedade em que há algum grau de autoritarismo.

Depois de escolher a facção, ela passa por um período de treinamento e seleção. Alguns daqueles que tentam entrar em alguma facção acabam não sendo aceitos, e por consequência, tornam-se sem facção. Na Audácia, pode-se dizer que é um treinamento quase militar. Ela aprende a lutar, a atirar, a enfrentar seus piores medos. E é lá que ela entende a diferença entre a paz da abnegação e a liberdade da audácia. E é onde ela se torna para todos os efeitos uma adolescente, é quando ela permite a si mesma se colocar como prioridade às vezes, rir alto, provar sua capacidade, ser vaidosa e autocomplacente. Mas também aprende a ser forte, decidida, audaz e a ser também em alguns momentos altruísta como nunca foi antes. E a amar. Sim, há romance. Diferente de Jogos Vorazes, onde o amor é uma dúvida constante em Katniss, Tris tem algumas certezas. Eu ainda não decidi se gosto disso ou não. Em Jogos Vorazes certamente sofri com a indecisão de Katniss, mas vejo muito valor em um personagem que não sabe o que quer, que precisa compreender a si mesma. Acho que seria legal se a Tris descobrisse mais lentamente o que sente por Quatro. Isso não faz, de forma alguma, que eu desgoste da trama ou dos personagens, ou mesmo do romance. Eu gosto muito dos momentos que eles passam juntos. Os dois são personagens que falam mais em silêncio do que em palavras quando estão juntos, ao menos é essa a sensação que tenho.

Obs.: Divergente já tem adaptação para o cinema prevista para 2014 e o segundo livro, "Insurgent", já foi lançado na gringa.

sábado, 27 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 6 - Cinna, o rebelde da Capital


CONTÉM SPOILERS

Jogos Vorazes é um entretenimento televisivo. Um reality show extremo. E como tal, os tributos precisam fazer o seu papel de divertir.  E isso inclui a aparência deles, também faz parte do espetáculo. Trazer dos distritos pessoas que mal tem comida na mesa e fazer com que elas pareçam bonitas, maquiadas, bem arrumadas em suas aparições públicas é um trabalho feito por uma equipe de preparação. Em casos drásticos, considera-se até a cirurgia plástica. Tudo pelas câmeras.



Cada tributo tem a sua equipe de preparação, composta por três integrantes, que darão banho, cortarão os cabelos, farão as unhas, uniformizarão a pele, depilarão os tributos e etc, e um estilista que é responsável por coordenar a equipe e vestir os tributos. Não é curioso que um estilista, profissão considerada fútil e elitista, nascido na Capital, seja um rebelde aliado aos distritos? Veja, não estou falando de alguém com planos de poder, mas de alguém que apesar de TODOS os seus privilégios, consegue se desvincilhar da pesada carga de alienação que permeia a Capital. Consegue olhar além de si.

Empatia é a palavra que define Cinna. Ele é capaz de sentir isso de forma tão sincera que põe a sua vida a favor de uma causa que não lhe favorecerá. E isso não passa despercebido por Katniss. Katniss que não simpatiza facilmente com as pessoas, que é desconfiada, desde o primeiro momento colocou Cinna entre os seus amigos. Como disse Finnick, Katniss tem uma capacidade notável de fazer bons julgamentos. 
Cinna pediu para ser o estilista do distrito 12, um distrito muito pobre, que apenas duas vezes em 73 anos conseguiu sair vitorioso da arena. E ele fez isso porque queria ajudar a mudar essa situação. Todos os looks que Cinna compõe para Katniss são cautelosamente estudados para uma situação específica. Por exemplo, quando Katniss e Peeta participam do desfile dos tributos e são apresentados à audiência, em vez de fazer uma roupa que meramente representasse o distrito de origem de Katniss, Cinna criou algo inesquecível. Ele escreveu a ferro e fogo de forma permanente a imagem de Katniss. E sei lá, mas acho possível que esse tenha sido um grande passo para ela se tornar o Tordo, símbolo da Revolução. Um passo que não veio dela, um presente de Cinna para que ela alcançasse a audiência, os patrocinadores e quem sabe, até para lhe dar um pouco de confiança. Se Madge deu à Katniss um nome, Tordo, Cinna foi profético ao lhe dar uma história: The Girl on Fire (traduzido como "A garota quente").

Há outros rebeldes oriundos da Capital, nem todos são desprendidos como Cinna. Uma das diversões de Katniss é ver como os rebeldes da capital se adaptam às dificuldades de viver em um distrito, em evitar o desperdício e não comer além da conta, pode parecer egoísta da parte de Katniss enxergar a graça nisso, mas é perfeitamente compreensível. Entretanto, Cinna jamais faria feio numa situação dessas, sua própria existência não seria mais importante do que unificar e libertar os distritos de Panem e antes mesmo da Rebelião começar, ele já estava na linha de frente.

domingo, 21 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 5 - Peeta, o garoto com o pão



CONTÉM SPOILERS


Tudo bem, provavelmente vou precisar de mais de um texto para falar sobre Peeta, esse personagem que amo tanto. Vou focar em falar do personagem nesse texto e falarei da relação dele com Katniss em outro momento. 

Peeta tem 16 anos e foi o tributo do distrito 12 escolhido para participar dos Jogos Vorazes junto com Katniss. Peeta é filho do padeiro do Distrito 12. E é apaixonado por Katniss desde que tinha 5 anos de idade. Apesar disso, ele e Katniss nunca tinham se falado, embora tivessem uma única história bonita para contar que aconteceu antes dos Jogos.


Em um dia particularmente difícil para Katniss, após a morte de seu pai, ela estava com muita fome e via a morte se aproximar dela e de sua família. Desesperada, ela revirou o lixo da família de Peeta, mas não encontrou nada. Peeta, na época também com 11 anos, queimou propositalmente parte de alguns pães, para que sua mãe os jogasse fora, já que não poderia vender pães queimados. O que ele queria mesmo era ajudar Katniss. E assim, pela primeira vez, Peeta a salvou da morte. E esse foi o momento que iniciou o ciclo de proteção entre Katniss e Peeta, um está sempre protegendo o outro, dos perigos da arena, do frio, da morte, dos pesadelos, da Capital e até de si mesmos.

Peeta não é um guerreiro, não é particularmente habilidoso com nenhuma arma. Sua maior habilidade é a força que adquiriu carregando sacos e sacos de farinha na padaria. Peeta é sensível, é artístico e pacifista. Seu talento em decoração de bolos e pinturas se provou importante para sua sobrevivência na arena, pois ele é realmente incrível em se camuflar na paisagem. 

Entrarei no campo obscuro dos achismos ao dizer que acredito que a sua paixão pela arte (e o seu fraco pelas coisas bonitas, no sentido mais amplo que a palavra beleza possui, não estou falando de "padrão de beleza") pode ter motivado seu amor por Katniss. Pois foi ao ouví-la cantar que ele se apaixonou. 

Os livros utilizam o recurso do narrador-personagem, o que significa que é Katniss que nos conta toda a história, são os olhos dela que nos guiam para Panem, para os jogos, para a Guerra e também para Peeta. E aos olhos de Katniss, Peeta não tem defeitos. É verdade. Até mesmo aquilo que seria um defeito, o fato de ele ser um excelente mentiroso é visto por ela como uma qualidade. Talvez outros olhos tivessem registrado nisso um personagem manipulador. Mas para Katniss, essa é só mais uma das qualidades de Peeta (E eu concordo com ela). Vou transcrever algumas  das muitas passagens interessantes em que Katniss descreve Peeta. 

"Gosto de observar suas mãos enquanto ele trabalha, fazendo uma página em branco florescer a partir do nanquim, adicionando toques de cor a nosso livro anteriormente preto e amarelado. Seu rosto adquire uma expressão especial quando ele se concentra. Seu semblante normalmente tranquilo é substituído por algo mais intenso e retraído que sugere a existência de todo um mundo trancado dentro dele."

"Olho para aqueles olhos azuis que nenhuma quantidade excessiva de maquiagem consegue deixar verdadeiramente mortíferos." 
"Então, Finnick sabe o que Haymitch e eu sabemos. A respeito de Peeta. A respeito de ele ser muito mais bondoso do que qualquer um de nós. (...) Atirei para matar quanto mirei Enobaria, Gloss e Brutus. Peeta teria pelo menos tentando fazer alguma negociação antes. Teria tentado ver se alguma aliança mais ampla não seria possível."  
"Certamente ele é corajoso, mas nós todos temos sido suficientemente corajosos para sobreviver aos Jogos. Há essa questão da bondade que é difícil relegar, mas ainda assim... e quando penso no assunto, o que será que Peeta consegue fazer tão melhor do que o resto de nós? Ele consegue usar as palavras. Ele ofuscou todos os outros tributos em ambas as entrevistas. E talvez seja por causa dessa bondade subjacente que ele consiga colocar uma multidão _ Não, um país inteiro _ a seu lado, proferindo uma simples sentença." (Katniss imaginando porque todos protegem Peeta) 
"A delicadeza, o equilíbrio, a afetuosidade que deixavam um inesperado rastro de calor humano." (Katniss ponderando sobre as qualidades de Peeta. A descrição que mais gosto) 
"Você é pintor. Você é padeiro. Você gosta de dormir de janela aberta. Nunca põe açúcar no chá. E dá dois nós nos cadarços." (Katniss, sobre os hábitos de Peeta) 
"Do dente-de-leão na primavera. Do amarelo vívido que significa renascimento em vez de destruição." (Katniss dizendo o que Peeta significa para ela)

Uma das coisas que admiro em Peeta além de sua sagacidade e caráter, é a sua capacidade de respeitar o limite de Katniss. Ele a ama sem cobrar retribuição. Ele oferece a ela a possibilidade de escolher livremente o destino que quiser, ele só quer que ela seja feliz. Ele ama e isso basta. 


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 4 - Katniss, a bestante do fogo


CONTÉM SPOILERS


Hoje quero apresentar a outra face de Katniss. Não aquela que defende aos inocentes e motiva multidões. A sua agenda pública já foi descrita nesse post. "Katniss, a sobrevivente" dá lugar a "Katniss, a bestante do fogo".


"Bestante" é o nome dado aos seres mortíferos geneticamente manipulados criados pela Capital. E Bestante de fogo é como Katniss se define após passar por todas as provações ao longo dos três livros. Com boa parte do corpo queimado, ela vê pedaços de sua pele retorcida, costurada, dolorida e desmontando. Porém, a verdadeira dor não está na superfície. Ela percebe que jamais conseguirá apagar o rastro de destruição que uma guerra traz, as marcas da guerra no mundo e dentro de Katniss são indeléveis. 

Mesmo insubordinada, mesmo recusando-se a fazer esse papel, Katniss foi usada como a peça que faltava no Jogo de alguém. Se por um lado, ela conseguiu ofuscar o poder da Capital graças às suas atitudes nos Jogos, por outro, os interesses políticos foram se moldando para que a personagem pudesse ser novamente um instrumento, difícil de ser manuseado, é verdade, mas necessário. Demorou muito para que ela entendesse isso plenamente. E custou muito caro. Katniss não conseguiu proteger quem amava dos interesses políticos que rondam toda a trama. A mesma personagem que tanto se ressente da mãe que entrou em depressão quando o pai dela morreu numa mina de carvão, agora se vê totalmente descrente de sua própria vida também, desejando a própria morte, para que haja um fim para o seu sofrimento.

O maravilhoso capítulo 25 do livro Esperança, talvez o meu capítulo preferido de todos os livros, retrata com tanta precisão o sofrimento da personagem através de um dos seus inúmeros pesadelos que eu não poderia tentar explicá-lo sem transcrever essa passagem que foi tão difícil de ler.

"Um bestante do fogo conhece apenas uma única sensação: Agonia. Nenhuma visão, nenhum som, nenhuma sensação além da implacável queimadura na carne. Talvez haja períodos de inconsciência, mas qual é a importância disso se não consigo encontrar refúgio neles? Sou o pássaro de Cinna, inflamado, voando freneticamente para escapar de algo inescapável. As penas flamejantes que crescem de meu corpo. O bater das asas faz com que as chamas se movam. Estou me consumindo, porém infinitamente.

Por fim, minhas asas começam a falhar, perco altura e a gravidade me impulsiona em direção a um mar da cor dos olhos de Finnick e cheio de espuma. Flutuo sobre minhas costas, que continuam queimando debaixo d'água, mas a agonia dá lugar à dor. Quando fico à deriva e incapaz de navegar é que eles aparecem. Os mortos.

Os que eu amava voam como pássaros no céu aberto acima de mim. Adejando, girando no ar, me chamando para que eu me junte a eles. Quero muito seguí-los, mas a água salgada satura minhas asas, tornando impossível levantá-las. Os que eu odiava foram para a água, horrendos seres cheios de escamas que estraçalham minha carne salgada com dentes pontudos. Mordendo sem dar descanso. Arrastando-me para o fundo."

Talvez algumas pessoas discordem de mim, mas na minha opinião, a trilogia que Suzanne Collins escreveu não tem final feliz. Aliás não tem um só minuto de plena felicidade. Mesmo na felicidade há uma dor lancinante. E Katniss nos envolve cada vez mais profundamente na sua escuridão, na sua tristeza. Quando o momento chega, ela também nos envolve no seu desejo de renovação, uma tarefa mais árdua que unificar todos os distritos de Panem. É muito contraditório que o Tordo, o pássaro que é o símbolo da rebelião, se sinta sempre aprisionado na gaiola que alguém criou, no Jogo de alguém que se sentou em uma sala com alguns dos seus e decidiu tomar a vida de pessoas inocentes, como Katniss, como Peeta, como todos os tributos e como todo o povo oprimido dos Distritos.