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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Divertida Mente e a difícil tarefa de aceitar a Tristeza

SIM, TEM SPOILERS.


Embora toda a ambientação, cores e personagens tenham um aspecto muito lúdico e infantil, A nova animação da Pixar, Divertida Mente (Inside Out), talvez seja a animação mais madura do estúdio. É um filme que trata a criança com respeito, sem jamais subestimar sua inteligência. Apesar de ser um filme engraçado e empolgante, ele não se ancora no humor ou na ação para prender a atenção, mas em passar uma mensagem importante sobre como lidar com as próprias emoções.

O filme conta duas histórias paralelas: conhecemos Riley, uma menina de 11 anos que está se mudando de uma zona rural do Minnesotta para São Francisco, portanto é uma história sobre a adaptação dela à nova realidade. A segunda história do filme é a história dos sentimentos da Riley, que também são personagens: Alegria, tristeza, nojinho, raiva e medo. Eles comandam as emoções e consequentemente, as ações de riley. dentro de sua mente através de um painel de controle. 


A representação gráfica de como funciona a mente de Riley é muito interessante. Na sala de comando, em um painel de controle, estes cinco sentimentos se revezam e ajudam Riley a criar memórias. As memórias de longo prazo vão para um gigantesco labirinto de prateleiras. Já algumas memórias de base ajudam Riley a formar suas "ilhas de personalidade". A Riley de 11 anos tem a ilha da família, a da honestidade, da bobeira, do Hockey e da Amizade.



Até então, todas as memórias base de Riley foram criadas pela alegria. Mas diante da nova realidade, a tristeza começa a se tornar mais ativa e acaba criando uma memória base. A Alegria não entende o porquê da Tristeza existir e tenta a todo custo evitar que a ela chegue ao painel de controle. Embora bem intencionada, Alegria acaba criando uma certa confusão e num acidente, ambas são jogadas para fora da sala de comando, no ambiente criativo da mente da Riley. Alegria e Tristeza portanto tentam encontrar o caminho para a sala de comando.

As duas passam por vários lugares incríveis da mente de Riley, como a Terra da Imaginação, a sala de pensamentos abstratos, o Vale do esquecimento, a produção de sonhos, o subconsciente e o Trem de pensamentos. Parece complexo? E é mesmo. Mas a fluidez da narrativa, o visual lúdico e o carisma dos personagens ajudam a simplificar estes conceitos. Além disso, a dinâmica de ação e reação entre as duas histórias é muito fácil de compreender. É um filme em que não precisamos nem nos preocupar em analisar Bechdel Test, já que não existe interesse amoroso e todas as personagens centrais da trama são mulheres.


Uma coisa que deve ser destacada é que embora Riley não seja uma personagem feminina típica, já que ela não tem interesse em coisas de princesa, gosta de Hockey (que é considerado um esporte violento) e de fazer palhaçada (em vez de se comportar "como uma mocinha"), conforme a Tristeza começava a ser mais ativa na mente de Riley, os pais da menina reforçavam nela a idéia de que ela DEVIA ser feliz, que ela DEVIA sorrir e ser a boa garota que sempre foi. Um belo exemplo de como sem querer os pais e a sociedade educam as meninas para serem doces, agradáveis e esconderem seus verdadeiros sentimentos. No caso das meninas exige-se trocar a tristeza pela alegria. Mas e se fosse um menino? A ele também estaria proibido sentir tristeza, mas em troca, em geral, pede-se que o sentimento dominante seja a raiva. Que ele aja "como um homem". 

O que nos impede de aceitar a tristeza como um sentimento válido, real e necessário para a nossa saúde mental? Nesta jornada, Alegria, Riley e nós, o público, começamos a entender a importância da tristeza. Afinal, mesmo uma memória alegre pode estar carregada de uma pequena dose de tristeza se lembrada com saudade, com nostalgia. O simples ato de olhar para o passado evoca sentimentos mais complexos. O filme explora o tema da depressão de forma leve e muito acertada. É subversivo na medida em que nos permite debater os sentimentos negativos de uma menina, sem vilanizar a criança, sem dizer que ela é chata ou mal educada, que seus pais não se esforçaram o suficiente, ou que ela é ingrata por se sentir triste. 

O único senão que vejo é a representação da tristeza como uma mulher gordinha, baixinha e de óculos (olá, podem me chamar de tristeza, até meu cabelo é parecido!). Eu entendo que a pixar usou como referência para a criação dessa personagem o desenho de uma lágrima, por isso ela é azul e gordinha, mas a referência não é óbvia para quem assiste o filme. Entretanto, a personagem nos cativa tão completamente e ela tem um enorme papel no final. Por isso, ao mesmo tempo que ela reforça o estereótipo, ela também o quebra, mostrando que as pessoas gordas podem ser importantes, devem ser respeitadas e levadas a sério.


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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Mad Max: Estrada da Fúria (Feminista)



Estreou neste final de semana passado o novo filme da saga Mad Max. Confesso que eu tinha zero intenção de assistir até ouvir falar da polêmica criada por grupos machistas que ameaçavam boicote ao filme, alegando ser uma "propaganda feminista". Corri para o cinema e o que vi não me decepcionou. "Mad Max: Estrada da Fúria" não é uma continuação direta da saga, nem mesmo um remake, pois não reconta a história original,  apesar da utilização de elementos dos filmes anteriores como o ambiente distópico, as gangues de motocicleta, o fetiche por velocidade e o sobrevivente solitário Max (o protagonista da saga). Em estrada da Fúria, o diretor e roteirista George Miller (que também é responsável pelos filmes originais) fez uma releitura de sua própria obra.

SPOILERS LEVES

Neste universo distópico, a humanidade sucumbiu e o planeta é um grande deserto, Wasteland, em tons avermelhados para todos os lados. Há grupos isolados de seres humanos, uma existência dura, onde todos os sobreviventes são guerreiros. Dentro deste contexto, os conflitos que já temos hoje por petróleo e água são extrapolados. Assim, quem tem o controle sobre os recursos ganha contornos messiânicos. Nesta religiosidade de oportunidade, Immortan Joe, o falso messias que supostamente voltou dos mortos, comanda a Cidadela (uma torre de pedra erguida sobre um aquífero), ladeado por um séquito de guerreiros, os War Boys, capazes de morrer para adentrar Valhalla, o paraíso.

Immortan Joe tem uma imagem impactante, usa uma máscara para respiração decorada como uma caveira com dentes de cavalo e uma armadura plástica para proteger a sua pele coberta de bolhas. Não se sabe o passado de Joe, portanto não importa saber como se deu esta transformação física, mas ela certamente referencia a outro vilão icônico, Darth Vader, e nos faz questionar em que ponto Immortan Joe sucumbiu ao mal, onde perdeu sua humanidade. Joe tem dois filhos, Corpus Colossus e Rictus Erectus, o primeiro muito inteligente, porém possui alguma deficiência de crescimento, o segundo não chegamos a conhecer bem, mas sabemos que é um maiores guerreiros de Cidadela. Joe ainda está em busca de um herdeiro para perpetuar seu legado.


Com este objetivo, Joe possui um pequeno harém, onde mantém cinco mulheres como escravas sexuais. É importante frisar, porém, que neste universo não são apenas as mulheres do harém de Joe que são tratadas como objeto. Os seres humanos de forma geral são tratados de forma totalmente utilitarista por Joe, os próprios War Boys em seu desespero por salvação são usados como armas de guerra. Mesmo o protagonista que dá nome ao filme, Max, é capturado em Wasteland para servir como BloodBag, doador de sangue. Num universo de guerreiros, há um cuidado com o tratamento das feridas de guerra, ainda que seja uma medicina rudimentar. Assim, todos tem uma "função" que os torna, de alguma forma, menos sujeitos.

Entretanto, no tocante à objetificação, há uma cena especialmente perturbadora em que vemos mulheres sendo ordenhadas como se fossem vacas, pois o leite humano, aparentemente, é o único que sobrou no mundo e leite tornou-se uma iguaria. As mulheres ordenhadas são aquelas que fazem parte do séquito de Joe, cuja única opção é ficar para não morrer nas areias do deserto. Novamente, como uma boa distopia deve fazer, Mad Max nos faz pensar na forma como validamos o consumo de produtos derivados dos animais. E se fôssemos nós a receber o tratamento que oferecemos aos animais? E por fim, as mulheres neste futuro distópico também são encaradas como um recurso, uma mercadoria. Mas não são também neste nosso mundo atual? A distopia de alguns é a realidade outros, a escravidão sexual é uma realidade em nosso mundo, ela acontece diariamente em todos os lugares, obviamente de forma ilegal mas acontece. Está aí uma das raízes da força feminista do filme, revelar como a objetificação das mulheres está ligada à violência propagada contra elas. Esta força feminista que transborda da mensagem do filme foi ampliada pela forma como George Miller conduziu sua obra. 

Ao lidar com o tema da escravidão sexual, George Miller pediu a consultoria de Eve Ensler. Para quem não a conhece, Eve Ensler foi a criadora da peça "Monólogos da Vagina", de 1996. A peça, que trata de assuntos como sexo, amor, menstrução, multilação genital, masturbação e estupro, entre outros, já foi traduzida em mais de 40 línguas e encenada em mais de 140 países. Eve criou o V-Day movement, um dia para levantar fundos para organizações de proteção às mulheres. Eve viajou o mundo conhecendo as mais diversas culturas e histórias de mulheres, perguntando a elas como ela poderia ajudar, como os fundos do V-Day poderiam ser aplicados para melhorar suas vidas. A participação de Eve no projeto sedimenta a tendência feminista do filme.

No rol de decisões acertadas, George Miller incumbiu sua esposa, Margaret Sixel, de fazer o corte final do longa, evitando colocar o projeto nas mãos das pessoas que costumam realizar este trabalho em Hollywood, que sabemos, já está cheia de vícios machistas nos filmes de ação. George Miller escolheu se cercar de mulheres neste projeto, o resultado é um longa que ninguém pode acusar de ser menos divertido que qualquer outro Mad Max, ao contrário, eu acredito que este é o mais representativo da franquia. Ação do começo ao fim. Eu não sou a maior fã de filmes de ação, mas neste caso não é uma ação cansativa como acontece, por exemplo, nos Transformers de Michael Bay, onde há uma confusão de peças metálicas na tela e ficamos observando sem saber exatamente o que está acontecendo. Em Mad Max a ação é filmada em planos estáticos, longos e bem marcados, nós sabemos exatamente o que está acontecendo e isto não torna o filme menos emocionante.

SPOILERS SEVEROS


A condução da sinopse traça aspectos feministas do filme. O protagonista Max, um guerreiro solitário, porém dotado de uma consciência, ajudaria as esposas do vilão Joe a escapar da escravidão sexual a que eram submetidas. Entretanto, Miller percebeu o quanto seria machista ver um homem resgatando as mulheres que pertenciam a outro homem. Somente uma mulher poderia receber esta tarefa, somente uma mulher seria realmente capaz de resgatar outras mulheres, porque uma se espelharia na outra, seriam iguais. Surge então a outra protagonista do filme, a Imperatriz Furiosa (MEU DEUS, já começa lacrando no nome!), interpretada brilhantemente por Charlize Theron. Uma heroína como poucas na história do cinema de ação. Para mim é impossível não colocá-la ao lado de Katniss (Jogos Vorazes), Ripley (Alien) e Sarah Connor (Teminator 2). Furiosa costumava trabalhar para Joe, porém, em busca de redenção, rouba uma máquina de guerra e tenta levar as esposas para a sua terra natal, o Vale Verde. Na fuga, Max acaba se aliando a elas. Max e Furiosa são os protagonistas, mas Furiosa é a líder da missão, Max inclusive obedece suas ordens. Talvez este seja o maior incômodo dos machinhos com o filme, não aguentaram ver uma mulher em posição de comando.

Furiosa é uma mulher com uma deficiência física, ela não tem um de seus braços e usa uma prótese mecânica. Assim como os War Boys, ela tem a cabeça raspada, usa roupas funcionais para uma guerreira e tem uma força física tremenda, a ponto de entrar numa briga corpo-a-corpo com Max. Aliás, esta cena da briga no encontro inicial deles foi especialmente importante para evidenciar que as mulheres neste filme não são bibelôs. Passamos a conhecer um pouco melhor Cheedo, Toast, Capable, Dag e Angharad, as esposas. Não se engane com as roupas curtas e pele à mostra, que servem como recordação de como as esposas foram tratadas até então, como objetos, não para mantê-las no mesmo status. Ancoro essa opinião, primeiro, pelo impacto de ver as esposas cortando seus cintos de castidade, uma cena de forte simbolismo. Segundo, porque as esposas, duas delas grávidas, também são movidas por seu instinto de sobrevivência e não estão ali apenas para agir como uma carga a ser transportada, elas lutam e participam ativamente da ação do filme. E principalmente porque todas elas tem personalidade própria e até mesmo conflitos internos sobre fugir ou não. 


Elas não são belas donzelas em perigo, são mulheres empoderadas assumindo os riscos de escapar de seu algoz. Outra coisa interessante é como elas, as esposas, defendem os War Boys, embora eles as estejam caçando a serviço de Joe, elas conseguem ver através da situação e enxergar o verdadeiro inimigo. Os War Boys, assim como elas, são meros objetos para Joe. As esposas são dotadas de inteligência e sensibilidade, até mesmo destoando um pouco da crueldade do mundo que as cerca. Por sinal, outra cena digna de nota, perturbadora, grotesca, de uma cesária nos mostra que essa crueldade é o modus operandi do mundo de Mad Max.

Não bastasse todo o cuidado em representar estas mulheres, nós também somos presenteados com um gangue de motoqueiras guerreiras idosas. E pelo aspecto físico, uma delas é indígena. Considere o quanto é raro ver uma mulher idosa no cinema sem que ela esteja encenando alguém que lida com a perda de memória ou morrendo em camas de hospitais. Em Mad Max, as mulheres idosas são pessoas poderosas, imagine o quanto é difícil chegar aos 70 anos em um ambiente inóspito cheio de conflitos? Contudo, é mesmo Charlize Theron que rouba todas as cenas com sua determinação, destreza e força, mas também emociona quando percebe que seu objetivo maior pode não ser alcançado e nos mostra que Furiosa é apenas humana, passando por este mundo, fazendo o melhor que pode. 

Em geral, histórias sobre mulheres ou produzidas por mulheres, são demarcadas por gênero, ou seja, são encaradas como obras de público alvo exclusivamente feminino. E personagens femininas normalmente não são admiradas por homens. Embora eu, mesmo mulher, me sinta representada por vários personagens masculinos da ficção, o oposto é muito raro. Eu creio que em Mad Max conseguiram quebrar essas duas barreiras comuns no cinema, fazer um filme com mulheres sem demarcar o filme com um único gênero e fazer uma personagem que inspira homens e mulheres. Já chega de sermos alocadas sempre como subgênero e público de menor importância na cultura pop. Histórias sobre mulheres podem ser divertidas e lucrativas e veja só, elas ainda são um campo a explorar, pois ainda não foram contadas na mesma medida que as histórias masculinas, parece que Hollywood começa a perceber isto.

domingo, 29 de março de 2015

Kingsmansplaining - Já deu de machismo nerd, né, gente? melhorem!

Lamentável. Não tem outra forma de definir o final de Kingsman. 



O resto do filme é ótimo e muito divertido. Enquanto eu assistia, já pensava no texto que postaria aqui, falando da personagem Gazelle, uma mulher não-branca, com as duas pernas amputadas na altura do joelho, que usa suas próteses como armas letais.  Eu queria vir aqui hoje celebrar essa personagem, dizer que eu adoro o Colin Firth, que achei interessante terem colocado trama de fundo com violência doméstica. Enfim, muitas coisas para falar mas, sinceramente, tudo ficou meio enevoado depois do final LAMENTÁVEL.

O filme conta a história do personagem Eggsy Unwin que participa de uma seleção para ocupar a vaga de um agente kingsman, um grupo britânico ultra secreto. No caminho se depara com um vilão que tem um plano para diminuir drasticamente a população mundial, para que a Terra se recupere dos danos causados pelos seres humanos. Conta com atores incríveis, como Colin Firth e Samuel L. Jackson.

O enorme problema é que há uma personagem no filme, a princesa Tilde, que existe unicamente para que haja uma piada misógina ao final. Explicando a cena: Ela está presa em uma cela. O herói do filme a encontra e diz (em tom de brincadeira) que só vai tirá-la se ela der um beijo nele, pois ele sempre quis beijar uma princesa. Ela responde que se ele tirá-la de lá, vai dar muito mais que isso. Quando ele diz que vai salvar o mundo, ela diz que vai até deixá-lo usar a "Porta dos fundos". Quando ele conclui a tarefa, ele vai até a cela dela, onde ela o espera com a bunda de fora, aliás a câmera dá um close na bunda dela. ISSO MESMO. Fecha o filme com essa gag.

Em nenhum outro momento do filme existe qualquer tom misógino, o personagem principal é um jovem rapaz que se solidariza com a sua mãe, Michelle, porque ela está em um relacionamento abusivo, é carinhoso com sua irmãzinha mais nova, tem uma concorrente e amiga, a Roxy, que ele trata com respeito durante todo o filme. Ele vê a Gazelle como uma ameaça, ele não a subestima em nenhum momento. Portanto, a piada nem sequer faz sentido com o personagem que foi apresentado. Até então, o filme tinha a minha confiança. Eu havia embarcado completamente naquela história e sentia que era um bom filme para as mulheres (não seria ótimo porque, convenhamos, é apenas mais um herói-homem-hetero-branco). Portanto, a piada ficou ainda mais rasteira, mais gratuita.

Depois quando nós falamos o quanto o universo pop e de quadrinhos está claramente afogado no machismo, nós é que somos chatas. Foi isso o que Matthew Vaughn, diretor do filme, disse. Nós, as feministas, é que não sabemos rir. Ele argumentou que a agência de sugerir o sexo foi da mulher, por isso a piada seria até mesmo empoderadora e que ele não era misógino. 

Acho tão significativo que a personagem em questão seja uma princesa, tradicionalmente princesas aprisionadas servem de motivação para o herói. A piada aqui é óbvia, muito requentada. Mas piora. Sendo mulher e me imaginando na situação dela, há dias presa, sabendo que o mundo como ela conhecia estava prestes a acabar, eu jamais teria desejo de fazer sexo com um total desconhecido, como se em vez de estar aprisionada, ela estivesse numa balada procurando um parceiro, sabe? As emoções da personagem foram completamente desconsideradas. 

A princesa Tilde tem uma cena empoderadora. Ela estava presa porque se negou corajosamente a ajudar o Valentine, vilão do filme. Depois de presa, ela negou novamente participar dos planos dele. Isso é empoderamento. Mas ao torná-la a recompensa do herói. A "Bond" Girl do Kingsman, ele retirou essa força da personagem. Se ele queria empoderar uma mulher sexualmente, porque não subverter essa lógica de que o herói salva a mocinha em troca do seu amor, e pensasse na Roxy como protagonista dessa cena? E se ela fosse recompensada sexualmente? E o que acharia a audiência de um nu masculino sexualizado? Tenho certeza de que não seria tão bem recebido quanto o close na bunda da princesa, mas afinal não é disso que se trata uma sátira? Mesmo assim, não tenho a certeza de que seria uma boa idéia, porque um homem estranho oferecendo-se sexualmente para uma mulher costuma ser puro assédio. O ideal mesmo seria cortar esta cena, não apenas do filme, mas do imaginário nerd.

O filme deveria se chamar "Kingsmansplaining". Para quem não conhece o termo "mansplaining", ele pode ser definido como a mania que os homens tem de explicar para as mulheres algo que elas sabem o que é, às vezes muito melhor do que eles. Acontece muito com mulheres feministas. O autor afirma que não é misógino mas, para começar, ele não é mulher. Não está em suas mãos definir o que é ou não ofensivo para as mulheres. Mesmo que não tenha sido sua intenção, misoginia não intencional ainda é misoginia. Embora eu acredite que, depois de tanto se falar em machismo nerd, fica difícil supor que houve misoginia não intencional. Na minha opinião, o diretor marcou seu ponto de vista com a piadinha. Ele vê as mulheres das mesma forma que as retrata: Ele até entende que elas são inteligentes como a Roxy, que elas são fortes e determinadas, como a Gazelle, firmes, como a Tilde e às vezes vulneráveis, como Michelle, mas no final do dia, elas vão mesmo é servir para aquecer a cama do herói, para ser mais um nome na sua listinha de recompensas e motivações. No fim, é sempre a visão masculina que prevalece. É como se ele observasse a discussão em torno do machismo nerd de fora e dissesse: Até posso ceder em um ou outro ponto, mas não quero perder de vez o meu privilégio de objetificar mulheres.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O Jornalismo e o aborto


Ontem foi ao ar o "Profissão repórter" sobre aborto. E através dele é possível entender como a mídia tradicionalmente lida com a questão do aborto: a abordagem adotada foi impregnada de culpabilização das vítimas

No primeiro bloco, ouviram os familiares de Elizângela Barbosa e Jandira Cruz, duas mulheres que viraram notícia por entrar para as estatísticas de morte por aborto no Brasil. Segundo a repórter, a intenção era investigar o que levou Jandira e Elizângela a realizarem abortos clandestinos. Na prática não foi o que aconteceu. A abordagem foi inicialmente sensacionalista, uma tentativa de causar comoção com a dor das pessoas próximas a essas mulheres. Entretanto, a dor não é sempre a melhor conselheira. 

Na dor de perder alguém que amamos, tentamos encontrar o erro, contudo, resposta pode não ser a mais óbvia. A mãe e a irmã de Jandira pediram que ela não fizesse o aborto, mas Jandira decidiu fazer mesmo assim e morreu. Subentende-se que sua mãe e irmã estavam corretas e Jandira estava errada. Esta é a resposta simples, mas não é bem assim. Jandira deveria ter o direito de realizar um aborto legal, seguro e gratuito. Sua vida estaria salva se o aborto fosse legalizado no Brasil. Não satisfeitos em levar ao ar os trechos culpabilizadores da entrevista, fizeram pior: mostraram as cenas do enterro de Jandira, onde um pastor derrama discurso anti-escolha em cima de seu caixão. O horror, o horror.

Em outro momento, um repórter acompanha um delegado na casa onde Elizângela fez o aborto. Esse viés policial em reportagens sobre aborto não existe para que observemos a barbárie a que essas mulheres são submetidas. Quando não se pontua que a legalização seria o caminho seguro, tudo o que estão fazendo é colocar mais medo e culpa na cabeça das mulheres que optam pelo aborto. É uma abordagem criminalizadora.

Em um dos pontos mais baixos de uma reportagem que já estava muito ruim, o repórter vai atrás de duas mulheres que foram flagradas durante uma operação policial ao buscar um aborto clandestino. O amadorismo do jornalista foi impressionante. A primeira mulher que ele localizou desistiu de abortar. O jornalista bateu na porta da mulher e quem atendeu foi o marido. Ele tentou se explicar sem dizer exatamente o motivo pelo qual desejava falar com a esposa dele. Por sorte, o marido sabia da situação, mas e se não soubesse e tivesse percebido do que se tratava? Ele não apenas violou a privacidade dela, sua atitude poderia colocar não apenas um casamento em risco, mas a vida de uma mulher. Afinal, como ele poderia saber da índole desse marido? Se ele reagiria com violência? Uma TOTAL irresponsabilidade.

Apenas aos 17:30 de uma reportagem de 25 minutos é que temos a oportunidade de ouvir a outra mulher localizada. A primeira mulher entrevistada que de fato ESCOLHEU realizar um aborto e sobreviveu. O discurso mais politizado até então. O problema é que logo no início do bloco seguinte, colocam novamente o discurso religioso anti-escolha, desta vez um grupo de freiras que convencem mulheres a não realizar abortos. O que ninguém perguntou para elas é quem vai cuidar dessas crianças quando elas nascerem? Quem vai cuidar psicologicamente dessa mulher que vai ficar nove meses esperando uma criança que ela não deseja? Quem vai dar para essa mulher as oportunidades de trabalho e emprego que ela pode perder por estar grávida? A verdade é que as freiras não estão interessadas nas implicações da gravidez para a mulher, mas disto a reportagem não tratou.

Finalmente, entrevistaram mais uma mulher que tentou realizar aborto e falhou, ela diz que deu a criança para adoção porque não se considerava digna de ficar com ela. Veja bem, de toda a entrevista que a mulher deu, é este o trecho escolhido para ir ao ar, pois fala da culpa. Apenas no finalzinho do programa, entrevistaram Renata Correa, a documentarista de "Clandestinas". A única parte informativa sobre o tema. Reparei na falta de especialistas sobre o assunto, de mulheres do movimento feminista, de médicos como o Dr. Dráuzio Varella que é da casa e é abertamente a favor do aborto, de religiosos que são favoráveis ao aborto e de estatísticas mais completas. Enfim, informações relevantes que poderiam delinear melhor o tema para o expectador. Imagino que esta não foi a intenção.

É importante notar que apenas duas mulheres que optaram pelo aborto foram entrevistadas. Destas, apenas uma foi bem sucedida. A outra desistiu e deu a criança para adoção. Ou seja, uma única mulher em toda a reportagem realizou um aborto e ela teve apenas SEGUNDOS para contar sua história. O programa deu muito mais tempo para os discursos anti-escolha. Para religiosos, mulheres que optaram pela maternidade, pessoas que não apoiam o aborto e estão sofrendo em luto. Mas mesmo que o tempo dado aos dois lados do debate fosse igual, continuaria achando que é uma covardia enorme dar voz ao lugar comum e para posar de "neutros" colocar um pouquinho das opiniões divergentes. Não existe neutralidade quando a opinião majoritária é opressora. Ser neutro é oprimir. Para garantir a discussão sobre aborto, é preciso ouvir quem é a favor dele, porque quem é contra já tem palanque, palco, púlpito, voz. 

Por fim, tirando a entrevista com a família de Jandira, toda a reportagem teve um homem como entrevistador. Não é que homem não possa fazer entrevistas sobre aborto, mas seria sensível por parte da produção que um tema que está tão relacionado ao machismo e ao controle do corpo da mulher, fosse conduzido por outra mulher, que certamente estaria mais a par da realidade, já que uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já realizaram um aborto. Ela certamente conhece histórias sussurradas por outras mulheres em sua família ou por amigas, é uma questão de empatia.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Renée irreconhecível ou a mulher que não "envelhece bem"

Foto polêmica de Renée

Não deve ser fácil para Renée. "Irreconhecível". Foi como descreveram a série de fotos publicadas esta semana da atriz Renée Zellweger, de 45 anos, famosa por sua atuação como a encantadora Bridget Jones. Imediatamente, a internet e boa parte da mídia internacional de celebridades se dedicou a tecer todo tipo de julgamento. Algumas pessoas ficaram tristes por ela, outras com raiva, outras pessoas (creio que a maioria) acharam divertido rir de uma mulher famosa. Cirurgiões plásticos deram seu palpite. Pegaram a sua foto e traçaram linhas por cima, como se fosse um mapa de carne de boi no açougue, para explicar os supostos procedimentos. No fim, novamente a analogia do pedaço de carne cabe aqui, não pela objetificação sexual, mas pela objetificação em si. Um objeto de análise. Ela não foi a primeira, lembro-me também do quanto se falou (mal) da plástica da Nicole Kidman e de Courtney Cox. Em entrevista para a revista PEOPLE, Renée não negou diretamente a cirurgia, mas deu a entender que não houve nenhum procedimento. Renée também disse que está feliz.

Não sei se Renée disse a verdade ou não, mas sei que a maior parte das pessoas não ficou chocada porque ela supostamente fez uma cirurgia plástica facial, afinal, tantas atrizes fazem cirurgias plásticas, não é? Por exemplo, Scarlett Johanson e Jeniffer Aniston já fizeram cirurgias para afinar o nariz, Diane Krueger colocou próteses de silicone nos seios. Cirurgias plasticas e tratamentos estéticos são incentivados. O que choca as pessoas é o resultado insatisfatório, não a prática da intervenção. Por isso, parece que todo mundo está passando à quilômetros de distância da questão que deveríamos discutir: O direito da mulher a envelhecer.

No caso de Renée, acho que existe uma pressão que já a acompanha há um bom tempo porque ela precisou engordar para fazer o papel de Bridget Jones. Isso jogou os holofotes sobre seu corpo também. Este engorda-emagrece para entrar na personagem fez com que suas aparições fossem cercadas de comentários sobre o seu peso e sua aparência. Assim, mesmo uma mulher branca, loira, de olhos claros, cabelos lisos (muito enquadrada nos padrões de beleza) pode se sentir pressionada a estar sempre bonita e jovem.

A profissão de Renée também gera um impacto grande nas mulheres que envelhecem, já que Hollywood costuma dar somente aos homens o direito de envelhecer. Se o homem envelhecer, se engordar, se enrugar, vai continuar atuando, vai ser lembrado como um grande ator, que um dia foi também um galã. Já as mulheres precisam "envelhecer bem". Pode ter rugas, mas não pode ter muita. Pode ter cabelo branco, mas tem que ser magrinha. Ah, e faça o favor de cobrir os braços, porque pele sobrando debaixo do braço está proibido (quem se lembra das pessoas chocadas com o braço da Madonna?). Assim, exige-se que a mulher aceite sua idade, mas só até certo ponto, ela precisa "se cuidar". Regrinhas não vocalizadas, mas que podemos observar claramente. Afinal, quanto mais idade a mulher tem, menos quantidade e menos diversidade de papéis ela receberá, consequentemente, menos dinheiro também.

Outro dia, eu estava assistindo a série de TV True Detective. Um dos protagonistas, Marty, tem uma esposa, Maggie, e uma amante, Lisa. Marty me parece um homem entre os 40 e 50 anos de idade, mas tanto Maggie quanto Lisa são bem mais jovens. A TV, embora tenha se tornado um pouco mais democrática, ainda possui limitações quando o assunto é o envelhecimento de uma mulher. São raras as séries como Orange is the new black, onde a diversidade é parte crucial do entretenimento. Várias das séries de TV atuais tem como protagonistas homens de meia idade namorando mulheres com metade de sua idade. Juro que não é uma questão de moralismo, mas isso é fetichismo de quem produz e de quem consome esses produtos. As mulheres que tem papéis relevantes estão cada dia mais jovens.

Se Renée fez ou não uma cirurgia ou um tratamento, não importa. Não estamos no direito de julgar as atrizes por não se darem ao luxo de envelhecer sem cirurgia plástica, nem de exigir que envelheçam "bem", mas deveríamos sim exigir mais diversidade, para que nenhuma atriz se sinta pressionada a esconder suas ruguinhas e para que mais mulheres percam o medo de envelhecer.

terça-feira, 29 de julho de 2014

As pessoas que não saem da bolhazinha

Eu conheço várias pessoas que acordam todos os dias, saem de suas casas para seus respectivos trabalhos. Conversam, se divertem, se apaixonam. Nada demais. À primeira vista, não enxergamos nada de diferente. Porém, se observarmos com atenção, veremos que em volta delas há uma fina película que as acompanha para todos os lugares.

Dentro desta película, a sensação é de estar em um ambiente de cores quentes e confortáveis, com móveis estofados em tecidos macios. Cortinas de tafetá. O clima lá dentro varia, há quem viva com o termostato em 15 graus, outros em 30. O que for mais conveniente. Neste ambiente há fartura de comida, não há luxo, mas também nada falta. Toda a informação que vem do exterior é imediatamente filtrada pela fina película que rodeia estas pessoas.

Estas pessoas vivem na bolha.



Qualquer morador da bolha dirá que não existe racismo no Brasil, pois somos um povo miscigenado e inclusive, já tivemos até Ministro negro presidindo o STF! Não se percebe que as desigualdades sociais brasileiras estão profundamente arraigadas na questão racial. O áudio externo da bolha é automaticamente cortado sempre que alguém fala em extermínio da juventude negra, Cláudias ou Amarildos. Acredita-se que a tortura que é praticada hoje em dia é questão de segurança pública e não tem nada a ver com racismo. Cotas? não é medida afirmativa, é racismo reverso. O que conta mesmo é o mérito. Assim, não importa se você é pobre ou rico, negro ou branco, gordo ou magro, basta trabalhar duro e você vai conseguir qualquer coisa.

A bolha também é muito específica sobre a questão do aborto: A mulher que faz é uma assassina, merece apodrecer na cadeia. Os habitantes da bolha se regozijam quando uma mulher morre em uma mesa de aborto clandestino. Afinal, hoje em dia só engravida quem quer. Todo mundo tem acesso à informação, há medicamento a preços módicos e se engravidar é pura safadeza mesmo. 

Machismo? No hay. os homens já cuidam dos afazeres domésticos dando uma ajudinha na louça de domingo. Isso sim é igualdade de gênero, para quê lei Maria da Penha? Na confortável bolha, assédio é elogio. Homens são tão objetificados quanto mulheres. E veja, já temos até uma presidenta mulher! Aquela "vaca-sapatona-vai-tomar-no-cu" (e é claro que ao dizer isso, eles não estão sendo misóginos, nem gordofóbicos, nem lesbofóbicos, porque essas opressões nem existem). Obeso é só quem come muito, e só é obeso quem quer. Bando de gente relaxada, encostada que só sabe reclamar da vida. Aliás, toda e qualquer minoria está sempre se vitimizando.

Viver na bolha é super confortável. Especialmente porque sair dela não é fácil, mas é possível. Há três maneiras conhecidas de sair: A primeira, é espontaneamente. Vez ou outra vaza um áudio externo e o habitante curioso, resolve dar uma voltinha lá fora. Também existem algumas pessoas que podem ir ao seu resgate, mas somente com o seu consentimento. E por fim, sabe, bolhas são coisas muito frágeis. Elas podem explodir do nada. 

Algumas pessoas vieram ao meu resgate mas eu não quis ser resgatada. Sempre vazou um ou outro áudio para dentro da minha bolha e eu me recusei a sair. Quando eu menos esperava, a minha bolha explodiu. Aconteceu quando uma prima minha foi brutalmente assassinada pelo companheiro. Sinceramente, eu não desejo a ninguém que aconteça algo semelhante. Eu espero que cada vez mais pessoas consigam perceber o outro, ter empatia, abandonar seu posicionamento preconceituoso às vezes explícito, às vezes velado. Espero encontrar cada vez menos bolhas por aí.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Nossos direitos reprodutivos, eterna moeda de troca

Marcha das Vadias 2013

A campanha eleitoral já está em curso há muito tempo e os nossos direitos reprodutivos já estão sendo ceifados. Em um país em que grande parte da população é cristã, é mais lucrativo se declarar anti-aborto. Afinal, quem vai querer associar sua imagem a essas mulheres psicopatas que matam suas próprias crianças, não é mesmo? Exceto que essas mulheres não são psicopatas, não matam ninguém pois fetos não são crianças. Essas mulheres são seres humanos com uma vida plena e é nelas que precisamos pensar. 

Quem são essas mulheres que abortam?

Segundo pesquisa publicada pela UNB, 81% das mulheres que abortam tem filhos (veja só, elas não odeiam crianças!), 88% tem religião, sendo que dessas, 65% são católicas (como assim, mulher que faz aborto é cristã também?) e 64% são casadas (ora, veja só, não é coisa apenas de mulher solteira). A mulher que aborta não é uma criminosa, ela pode ser simplesmente qualquer mulher. E mesmo que essas mulheres odiassem crianças, mesmo que não fossem cristãs, mesmo que não fossem casadas, seus corpos continuariam sendo delas, não são do Estado, não são da igreja.

O direito ao aborto é, de todas as conquistas que já foram alcançadas pelas mulheres, talvez o mais suscetível ao retrocesso. Mesmo em países onde o aborto legalizado já é uma realidade, esse direito está sempre ameaçado pelo conservadorismo e pelo ódio cristão. Isso mesmo: ódio. Não é amor usar tendenciosamente a expressão "pró-vida", sabendo que ela representa a morte de inúmeras mulheres. Não é amor, quando tratamos as mulheres como verdadeiras incubadoras e não como seres humanos completos. Não é amor quando queremos retirar das mulheres o direito de abortar o feto anencéfalo, que nasceria sem vida. Passa longe de ser amor quando uma criança é estuprada pelo padrasto e a igreja tenta forçá-la a prosseguir com uma gravidez de alto risco. O ódio cristão é uma realidade.

"Hipocrisia, pra desconhecida é a punição
Mas se for da família é só tratar com discrição
Morre negra, morre jovem
Morre gente da favela,
Morre o povo que é carente
Que não passa na novela"

(trecho da música Ventre Livre de Fato, de Luana Hansen e Elisa Gargiulo)

Na semana passada, o Ministério da Saúde publicou a portaria 415 que regulamentava o atendimento de aborto legal no SUS, garantindo o acesso gratuito ao aborto para as mulheres em maior vulnerabilidade social. Porém, em mais um episódio lamentável, o Ministério cedeu à pressão interna dos fundamentalistas, que são o grupo de ódio mais poderoso do país, e revogou a portaria, que havia sido publicada um dia antes. UM DIA ANTES. Esse é o poder que o ódio tem no nosso país, ele é capaz de passar por cima da regulamentação de um direito legalizado da mulher. Em troca de quê? apoio político. 

Vivemos em um país em que um homem retira os direitos humanos das mulheres e recebe palmadinhas nas costas dos seus colegas, recebe votos, recebe congratulações, fica bem na fita. Até mesmo para escrever esse texto, tomei o cuidado de não personalizar o problema em alguns poucos indivíduos que encabeçaram a revogação da portaria, porque eles seriam tomados como heróis e não como cúmplices da morte de muitas mulheres. E isso nos mostra que o Estado Laico é uma ilusão. Precisamos de mais mulheres na política e de mais debate sobre o aborto. Precisamos chamar atenção para o problema, que é tão grave. Pois não se enganem, nada está garantido e assegurado, continuarão procurando formas de derrubar os nossos (poucos) direitos reprodutivos. 


P.S.: Esse texto integra a blogagem coletiva contra a revogação da portaria 415. Os demais textos da blogagem estão sendo divulgados no tumblr #AbortoLegal

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Digressionando sobre Jogos Vorazes: Parte 7 - Considerações sobre gênero e raça

CONTÉM SPOILERS

Panem é um país curioso. Sua organização política como um Estado autocrático, ditador, nos faz pensar em como seria absolutamente horrível viver naquela realidade. De fato, seria. Porém, há alguns indícios de evolução quanto às questões de raça e gênero que em nosso mundo não-fictício, na realidade que nos cerca, ainda não alcançamos.

Katniss, na arena
de Em Chamas
O primeiro aspecto visível é a forma como mulheres são lidas como pessoas competentes. Em cada distrito, são escolhidos dois tributos, um de cada gênero. Há casos em que se afirma até mesmo que a mulher é a maior ameaça. Katniss nunca foi minimizada por seus opositores, ela sempre foi temida. Mesmo a pequena Rue, do distrito 11, que possui apenas 12 anos, é analisada como ágil e esperta. Em sua narrativa, a autora Suzanne Collins atribuiu às mulheres muito mais do que a dualidade beleza/inteligência. E é exatamente isso  que possibilita que as enxerguemos como seres humanos dotados de muitas habilidades distintas. Coisa que não vejo muito nas cobranças da nossa sociedade na vida real. Aqui, nesse planetinha patriarcal, a mulher vive sob o estigma da beleza e da inteligência (isso se levarmos em conta o que é a inteligência para o patriarcado).

Apesar de tudo, me parece que em alguns momentos ainda há algum resquício de paternalismo. Um exemplo, que soa até mesmo contraditório, é que aparentemente, apenas homens trabalham nas minas de carvão. Suas filhas e esposas estão presas ao trabalho doméstico e ao comércio, no distrito 12. O trabalho mais pesado parece ser masculino. Há também a forte presença da monogamia. A Katniss teria se martirizado bem menos ao longo do livro se conseguisse se livrar desse conceito, pois está claro que ela ama aos dois rapazes, Peeta e Gale, em formas e intensidades que nem ela consegue medir. Katniss não é monogâmica, mas Panem sim. E foi também por influência desse traço cultural que ela precisou fazer uma escolha. E, enfim, apesar de representar minorias oprimidas, o livro (como a maioria dos livros publicados) não apresenta qualquer personagem com orientação sexual não-heterossexual ou identidade trans.

Com relação às mulheres, são muitos os exemplos positivos. Além da própria Katniss, há mulheres comandando militarmente, como a Comandante Lyme e a comandante Paylor, que presidem o próprio distrito, como a Presidente Coin e um número grande de mulheres que foram tributos e saíram vitoriosas. Se não contarmos também aquelas mulheres em profissões tradicionalmente femininas, mas que são reconhecidas por sua habilidade, como por exemplo a mãe de Katniss e sua irmã Prim. Até mesmo Cressilda, que é do time de cinegrafistas, é de enorme coragem, colocando-se na linha de frente durante a guerra para fazer bem o seu trabalho. 

Há também a questão racial. A autora descreve vagamente seus personagens e eu acredito que seja intencional. Vez ou outra ela fala abertamente sobre a cor de pele, como no caso de Katniss cuja pele é tom de oliva. E também de Thresh e Rue que são negros. Não é à toa que existe um grande chororô branco em volta da série adaptada para o cinema, uma vez que a autora não define claramente a raça de seus personagens, os leitores acabam levando seus próprios preconceitos para dentro de sua imaginação. A branquitude, para muitos, é normativa.

Collins costuma participar da seleção do elenco para os filmes, podemos compreender portanto que essas escolhas não são totalmente descoladas do livro. Infelizmente, Katniss foi interpretada por uma atriz branca (compreendo que a atriz é sensacional, a crítica é restrita à questão racial), mas há também algumas gratas surpresas. O elenco negro de Jogos Vorazes incluem os dois tributos do distrito 11 na primeira arena, Thresh e Rue. Dois personagens importantes para a saga, que trouxeram consigo as características de humanidade, de compaixão, de solidariedade. Eles foram fiéis aos seus princípios ainda que isso custasse suas vidas. O estilista de Katniss, Cinna, também é interpretado por um ator negro. Compreendo essa escolha quase como política, pois é bastante significativo que um habitante da capital, que vive cercado por aquela realidade alienadora e sem empatia, consiga entender seus privilégios e alinhar-se politicamente às pessoas oprimidas dos distritos. 

Patina Miller, atriz escolhida para interpretar
a Comandante Paylor no filme "A Esperança"
No segundo filme, Em Chamas, apareceram novos personagens negros. Como o tributo vitorioso Beetee que é um cientista. É raro vermos pessoas negras representadas num rol de profissões que exigem alto grau de especialização. Como antagonista, existe ainda Enobaria, uma personagem de quem não sabemos muito. Em "A esperança" haverá também a comandante Paylor, uma mulher que é crucial para o destino de Panem e será interpretada por uma atriz negra. No somatório de personagens negros há uma diversidade de pessoas em posições de comando, como símbolos de vitória, humanidade e até mesmo de subversão.

Notem também que o maior vilão da série é um homem branco e rico. Ele personaliza o inimigo. esse fato importa porque na nossa sociedade esse é o perfil que mais acumula privilégios. Assim, jogos vorazes se estabelece como uma saga literária adaptada para o cinema que traz consigo uma característica marcante: O respeito a minorias historicamente oprimidas.

Bons Links:

We Can Cast It - Mulheres na Ficção Científica, Gravidade e Jogos Vorazes., por Gizelli Sousa (eu), Aline Valek e Lady Sybylla.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Metrô lotado não é lugar de gordo?

Passei um tempo tentando entender o porquê de me incomodar tanto essa denominação "plus size". E entendi que, além de ser normativa, classificando um tamanho de corpo como além do regular, essa é uma denominação que veio de um mercado que me abomina. A moda. A moda odeia mulheres. A moda nos enclausura. 

Em teoria, a moda é libertadora. Pois é uma das formas em que podemos expressar quem somos, nosso humor, nossa forma de enxergar a vida. Talvez devesse ser apenas isso. Mas basta reunir uma turminha de mulheres e perguntar quais delas têm dificuldade para encontrar roupas que as vistam, calçados que não machuquem e etc. Praticamente todas têm em algum cantinho do seu armário uma roupa comprada e pouco usada porque foi comprada em um momento de descontrole. Descontrole emocional mesmo. A moda (e muitas outras coisas, é claro) nos desestabiliza.

Eu, de shortinho e bolsa da moda
Nós, mulheres, muitas vezes não recorremos à moda para nos expressar, mas para nos enquadrar. Para entregar os pontos a uma sociedade que nos tolhe naquilo que vestimos e naquilo que somos. Só que enquanto alguns setores  se movimentam para enxergar as pessoas gordas como consumidores de moda, parece que todos se esqueceram de debater a cidadania da pessoa gorda. E acho que a desestabilização que o consumo nos proporciona encontra refúgio nessa falta de cidadania.

A pessoa gorda começa a existir na moda, mas ainda não existe na escola, onde as carteiras são pequenas e desconfortáveis. Onde o coleguinha magro cria apelidos para o gordinho. Não existe na roleta do ônibus. Nem tem prioridade na fila do banco, no metrô ou demais serviços. O obeso, assim como grávidas e idosos, não é doente. Obesidade não é doença. Obesidade é uma condição ou uma situação e assim deve ser encarada. O obeso, por exemplo, pode ter mais dificuldade de ficar em pé por longos períodos. Mas basta ser gordo e entrar num metrô lotado: Ninguém parece se importar. Sente-se na cadeira da prioridade e observe os olhares negativos. Aliás, gordo no metrô lotado, sentado ou em pé é odiado. 

Quando se lê num anúncio de emprego "exige-se boa aparência", isso significa ser branco e magro. E não ter um emprego, ou ter empregos abaixo da sua capacitação, revela que falhamos em oferecer cidadania aos gordos. Assim como não se encaixar direito na cadeira do ônibus. Em hipótese alguma se pensa no gordo como cidadão. Aplica-se ao gordo a idéia da meritocracia. A difundida idéia de que "Só não emagrece quem quer" culpa apenas o gordo e nada mais pela sua condição. Nunca se culpa, por exemplo, o capitalismo pelo incentivo ao consumo de comida ruim e pelo estímulo a vida sedentária. E nunca se aceita a idéia de que a obesidade é multifatorial e que corpos distintos tem especificidades distintas. 

Oferecem ao gordo a mesma ridícula meritocracia culpabilizadora que querem empurrar sobre os negros. Os negros receberam a abolição, contudo nunca houve um processo de integração, ao contrário, sofreram um processo de exclusão racista, resultando hoje num grupo de pessoas que recebem muito menos dinheiro e morrem muito mais cedo e violentamente do que os brancos. Mesmo assim espera-se que eles tomem sozinhos as rédeas da situação e se tornem, como Joaquim Barbosa, presidentes do STF. Só que na vida real, a cidadania não vem quando a gente se esforça para alcançar, a meritocracia é uma ilusão pautada em exceções. E as exceções não mostram o quadro geral.

Amar seu corpo é importante (aliás, é importantíssimo), mas ter suas capacidades e especificidades respeitadas também é. Não vamos esquecer que a luta contra a gordofobia é maior do que a luta pelo direito ao shortinho de cada dia. Antes de ser plus size, somos gordos e somos pessoas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Não é iuzomismo quando...

Dentro (e fora) do feminismo há uma enorme preocupação com o homem. Muitas vezes essa preocupação acaba por secundarizar as questões pertinentes à mulher. Para dar um exemplo, basta falar um pouco sobre as agruras de ser uma mãe solteira para um monte de gente reclamar um espaço para o homem nesse discurso, para dizer que o homem não tem licença paternidade digna, para dizer que o homem também ama seus filhos, que a guarda normalmente é da mãe e etc. O protagonismo da luta é disvirtuado, retirado de nossas mãos porque temos que pensar em igualdade. Numa igualdade para a qual não importa as nuances do machismo com que precisamos lidar. Um ideal de igualdade que não entende o conceito de isonomia. Para essas situações, muitas de nós, mulheres e feministas, usamos ironicamente a expressão "iuzômi?", ou seja, brincamos com o fato de que muitas vezes somos interpeladas por pessoas que antes de pensar nos direitos das mulheres querem saber onde se encaixam os homens em nossa luta.

Eu uso essa expressão de forma jocosa e acredito nela como forma de empoderar mulheres. Mostrar para elas que há um certo ridículo em buscar benefícios para os homens em um mundo que pertence a eles. Em que todos os benefícios já estão concentrados em suas mãos. Porém, discordo da aplicação desse termo nas questões interseccionais.

Amarildo, torturado e morto
pela polícia "pacificadora"
Não é "iuzomismo" quando nos perguntamos, por exemplo, porque o homem negro ganha tão mal. Talvez você não saiba, mas a mulher branca ganha mais do que o homem negro. E tampouco o extermínio da juventude masculina e negra é uma questão pertinente apenas à luta antirracista. Eu creio nesse tópico também como assunto do feminismo, pois há gerações e gerações de mães que perderam seus filhos para a violência institucional. Há filhas sem pai. Há mulheres que precisam lidar com a realidade de cuidar sozinhas de suas crianças porque o companheiro morreu ou desapareceu. Amarildo também é questão feminista. Não significa relevar toda e qualquer opressão de gênero proveniente de um homem negro, significa que devemos compreender que o homem negro não está no topo da escala da opressão e não deveria ser alçado a esse posto, equiparando-se ao homem branco.

Não existe um descolamento tão grande entre a mulher negra e o homem negro, quanto existe entre a mulher branca e o homem branco. Especialmente porque entre eles há a experiência do racismo. Isso os une de forma indelével. E é mesmo assim que deve ser. O homem branco representa a figura do poder, o homem negro, não. O homem negro não personifica o inimigo. Portanto, ao meu ver, apoiar a mulher negra é também apoiar o homem negro, um feminismo que não compreende as nuances de privilégio e opressão que se alternam em momentos distintos e categoriza absolutamente tudo como "iuzomi" não é o feminismo que defendo.

Bons Links:

Uma carta de amor aberta para o meu filho: Sobre luto, amor e maternidade negra, no Blogueiras Negras.


Update: Algumas pessoas me criticaram por acreditar que ao colocar o homem negro na luta feminista eu estaria priorizando esse homem em detrimento das mulheres negras (cis e trans). A essas pessoas eu peço desculpas, realmente não me expressei bem como poderia ter feito. Há obviamente mais tonalidades de cinza do que um texto de 4 parágrafos pode expressar. Há homens negros silenciando mulheres negras em sua luta política. E também usando do poder concedido pelo patriarcado para abusar fisicamente, sexualmente e etc. Eu entendo tudo isso, amigas e jamais intencionei ocultar isso, diminuir, ou negar. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Representação feminina: O princípio da Smurfette

Smurfs - Representação predominantemente masculina
Um dos clichês que envolvem a representação feminina na TV, quadrinhos, jogos, cinema, literatura e etc, é o "Princípio da Smurfette". O termo foi cunhado por Katha Pollitt em 1991, para o NY Times.O texto de Pollitt foi motivado pela dificuldade que ela encontrou em oferecer para a filha dela histórias em que houvesse uma representação feminina adequada. 

Tartarugas Ninja - April é a única mulher e não luta
Se você, como eu, foi criança nos anos 80, deve se lembrar dos smurfs. Os smurfs eram pequenas criaturas azuis que viviam em uma comunidade exclusivamente masculina, exceto por uma personagem, a Smurfette. O princípio da smurfette trata exatamente dessa desigualdade numérica entre personagens femininas e masculinas que é recorrente. Esse princípio se aplica aos casos em que os personagens centrais carregam essa desigualdade. Entretanto,  às vezes, como no caso dos Smurfs, a coisa é tão absurda que entre TODO o grupo de personagens só há uma mulher, desprezando completamente o fato de que metade da população mundial é composta por mulheres. E é claro que isso se repete em muitas outras obras de ficção. O problema, entretanto, extrapola a questão numérica. As "mulheres-smurfettes" geralmente são estereotipadas e não definem o grupo, são em sua maioria personagens à parte do grupo. Às vezes sua função é decorativa, às vezes é meramente para evitar a crítica da não-representatividade das mulheres, às vezes ela é o par romântico de algum dos outros personagens principais.

Miss piggy é uma personagem sexualizada. SIM. Isso mesmo. :O
A Smurfette sexualizada: A começar pela própria smurfette (a original), que foi criada pelo Gargamel para seduzir os smurfs e depois transformada pelo papai-smurf em uma smurf do bem (loira, sexy com decote e salto alto). Outro exemplo é a Miss Piggy dos Muppets, a única mulher do grupo principal obviamente é muito vaidosa.


Kanga é uma canguru-fêmea, mãe de Roo.
 E é a única personagem feminina de Winnie the Pooh.
A Smurfette maternal/Sentimental: Em outros casos, a mulher-smurfette pode ser uma figura que cuida dos personagens masculinos, preocupa-se com eles quase de forma maternal, ela é o lado sentimental e/ou espiritual. 

TBBT - Tanta coisa errada que fica difícil começar a falar
Ou seja, prevalece a dualidade santa x vadia. Algumas personagens incorporam elementos dos dois grupos. Por exemplo, a Penny nas duas primeiras temporadas de The Big Bang Theory. Às vezes representada como uma mulher sexy, às vezes como mãe (especialmente na maneira como se relaciona com o Sheldon). Nesse caso há ainda o problema de a personagem ser tachada de burra e fútil o tempo todo e, obviamente, ser assediada por quase todos os homens do grupo. Felizmente, após algum tempo foram inseridas outras personagens, como a Leslie, Amy, Bernadette e Pryia (não quer dizer que essas personagens estejam livres de estereótipos).

Novo Star Trek de J.J. Abrams
Tudo bem, vamos assumir que esse é um clichê que vem se reduzindo ao longo dos anos. Antingamente era mais que normal haver apenas uma mulher. Em Star Wars, por exemplo, só há duas mulheres representativas em toda a franquia (Padmé e Léia) e elas não são contemporâneas uma à outra. Porém é válido lembrar que muitas histórias estão sendo recontadas atualmente. O filme de Star Trek, por J.J. Abrams, só tem uma personagem mulher, a Uhura. Em remakes não há o cuidado em repensar esse tipo de posicionamento. E é claro que em tempos de filmes de superheróis criados há décadas atrás, se torna bem comum ver filmes com mulheres-smurfettes.

Pacific Rim - O problema persiste
Assisti recentemente o filme "Pacific Rim", queridinho de 10 entre 10 nerds ávidos por reviver os live actions japoneses da infância. Adivinhe? a personagem Mako é uma smurfette. E é claro que é ela que se deixa levar pelas emoções dentro do Jaeger. E é a única cuja competência é questionada em função de seu passado. Coincidência? Eu sei que havia uma outra pilota, russa, contudo ela não abriu a boca durante todo o filme.


Muitos filmes (e séries) recentes padecem desse mal. Parece que na indústria do cinema só mesmo as mentes masculinas definem o grupo. E é de dentro delas que sai essa pífia representatividade feminina que, quando existe está cercada de estereótipos, paternalismo e misoginia. Seria bom lembrar que há séries e desenhos de sucesso com grupos de personagens quase que inteiramente femininos. Basta lembrar de As Panteras, Buffy, Sailor Moon (esse em especial praticamente inverte o princípio da Smurfette), vários desenhos da Clamp e etc. O problema é que, quando a história é cheia de personagens masculinos, é apenas uma história. Quando ela é cheia de personagens femininas, é uma história de "mulherzinha". Machismo everywhere.

Caverna do Dragão - E quando só há um personagem negro?
Se esquecermos a representação de gênero (por um segundo) e pensarmos de forma mais abrangente, esse clichê pode ser aplicado às questões raciais também. Às vezes no meio de um grupo inteiramente branco, até há mais de uma personagem feminina, porém apenas um personagem negro (exemplo: Diana, em Caverna do Dragão). Isso significa que estão tentando nos vender diversidade só que não. É quase um favor permitir personagens femininas e/ou negrxs.


Bons Links:
Anita Sarkeesian - The Smurfette principle

domingo, 28 de julho de 2013

O cristianismo quebra as nossas vidas

Essa semana aconteceu a Marcha das Vadias no RJ (Doravante, MDVRJ). A marcha das Vadias já se tornou um evento oficial do nosso calendário feminista. Porque consegue reunir pessoas no Brasil todo. O primeiro tópico questionado na marcha foi a questão da violência sexual, porém, hoje ela tem um teor muito político. As pessoas que se unem contra uma série de opressões distintas contra as mulheres e os LGBTs, afinal, muita da opressão que recai sobre eles tem origem na mesma questão: machismo. 

Imagem da MDVRJ 2013

Esse ano, como era de se esperar de uma manifestação política, ela veio questionar o status quo. Enquanto acontece a JMJ, Jornada Mundial da Juventude (que poderia se chamar JMJC, Jornada Mundial da Juventude Conservadora), acontece também a MDVRJ. Durante o protesto, alguns manifestantes realizaram um ato simbólico que eu nem sei se foi um ato da organização da marcha ou não, mas na verdade não importa muito, porque o feminismo é plural. O ato em questão foi a destruição de estátuas da religião católica. Eu preciso explicar a relação simbólica? Quebrar uma imagem significa: "Não nos submeteremos aos seus santos, aos seus credos, não acreditamos em vocês, não queremos que regulem nossas vidas" ou até mesmo:

Não regule os nossos ovários

Pois é, ato político não é feito para todo mundo gostar. Não é feito para ser essencialmente pacífico. Muitas vezes ele vem para marcar uma posição. E isso é importante porque a igreja vandaliza as nossas vidas diariamente, influenciando em Estados para evitar que pessoas do mesmo sexo sejam vistos como cidadãos comuns e insuflando a violência contra grupos LGBTs enquanto diz que Deus ama a ~~todos~~, regulando a sexualidade da mulher, condenando o divórcio, proibindo o uso de anticoncepcionais, insistindo num modelo de família que não representa boa parte da população, além, é claro de proibir o aborto e MATAR milhares de mulheres no mundo TODOS OS DIAS (isso para falar o mínimo, porque as opressões da igreja católica NÃO TÊM FIM).

Me choca mais o corpo dilacerado de uma mulher vítima de um aborto clandestino do que a imagem quebrada de um santo. Quem se choca com o santo quebrado, está confundindo a violência do opressor e a reação do oprimido. Nesse caso em específico, há oceanos de diferença entre um ato simbólico e um ato de violência. Se houve um ato simbólico que realmente impulsiona a violência foi a distribuição de bonequinhos em forma de feto, realizado pela própria igreja católica durante a JMJC. Isso sim gera o assassinato de milhões de pessoas.



Citando a Nádia Lapa, vocês repararam que os fetinhos distribuidos na JMJC são sempre brancos? Pois é, a igreja está cagando para as mulheres negras e pobres que estão em vulnerabilidade social muito maior que a mulher branca. Não adianta me dizer que a igreja merece respeito, que a religião católica deveria ser respeitada. Não deve. Eu não devo nada à uma religião que não se importa se eu acabar morrendo nas mãos de um açougueiro qualquer e que me nega o direito à humanidade plena. Isso sem contar o desrespeito sistemático da igreja católica (e evangélica) contra as religiões de matriz afro. Procure aí no google quantas imagens de umbanda já foram quebradas em nome das religiões cristãs. Seletivos esses críticos, não? Imagem de umbanda pode quebrar?

Sabe outra coisa que achei muito simbólica? Essa imagem aqui:

O papa é bope, o bope não poupa ninguém.

Amor cristão é ilusão (Tá aí, acho que na próxima marcha eu vou usar essa frase!). Não existe, nunca existiu. Uma instituição que sempre foi capitaneada por homens brancos, evidenciando seu caráter machista e racista, não merece respeito algum. Que se quebrem os santos e que sejam livres a sexualidade, as identidades de gênero, as relações, o ventre e a religiosidade (ou a falta dela).


Eu fico com a Luana Hansen:

"Hipocrisia, pra desconhecida é a punição
Mas se for da família é só tratar com discrição
Morre negra, morre jovem
Morre gente da favela,
Morre o povo que é carente
Que não passa na novela"



UPDATE: Se você é um manifestante que defende a depredação do patrimônio do Estado e das empresas que oprimem e lucram em cima do cidadão comum mas condena a destruição da imagem, você não é coerente. A religião cristã é tão ou mais opressora do que Estados e empresas. E você provavelmente é incapaz de questionar o próprio machismo.

UPDATE 2: Não sei a vericidade da informação, mas me disseram que o casal que quebrou a estátua era um casal indígena. Mais um peso simbólico, pois além de representar todas as coisas que falei, uma vez que foi um ato dentro da marcha das vadias, também simboliza a destruição da cultura indígena por parte da religião cristã. E mesmo que o casal não fosse indígena, esse tema NÃO DEVE ser descartado. As outras religiões também são alvo do vandalismo do cristianismo. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Feminismo é odiado

Imagem da página Revolução com Fofura

Feministas são... 

...chamadas de vadias porque dizem que as mulheres têm direito a sua própria sexualidade.
...chamadas de feias quando questionam os valores de uma sociedade patriarcal.
...chamadas de assassinas quando defendem o direito da mulher de decidir sobre a gravidez.
...desacreditadas quando apontam a existência da cultura do estupro.
...desumanizadas pois ao defender o direito ao próprio corpo não merecem respeito.
...ignoradas por dizer que mulheres não devem ser submissas.
...ridicularizadas por dizer que mulheres não aceitam um padrão de beleza racista, machista, gordofóbico e capacitista.
...diminuídas quando se unem à outros grupos militantes, pois seus problemas são sempre secundarizados.
...rejeitadas em suas próprias famílias por denunciar a violência doméstica, seja ela física ou psicológica.
...vilanizadas por achar que o modelo de família tradicional não é suficiente para representar a diversidade.
...ameaçadas por grupos fundamentalistas.
...persona non grata por afirmar que amar uma mulher não é possuí-la.
...estereotipadas como raivosas quando afirmam que as mulheres não devem ser silenciosas e nem silenciadas.
...temidas porque desejam que as mulheres tenham maior participação política e assumam mais cargos de poder.
...agredidas até por homens que teoricamente lutam ao seu lado.
...perseguidas porque a maior parte de seus opositores nem sequer sabe o que É o feminismo.

Feministas são odiadas porque são mulheres e porque defendem outras mulheres. O feminismo é odiado porque mulheres são odiadas.

Leia também: As feministas é que são chatas, por Aline Valek.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Literatura de/para/sobre mulher não é subgênero!

Desenhe um boneco de palitinho num quadro negro, em giz branco. E pergunte a qualquer um quem é aquela figura. 100% de certeza que é um homem, branco, cisgênero e heterossexual. Assim é na vida em praticamente tudo. Imagine x CEO de uma grande empresa. Imagine x presidente de uma nação. Imagine x protagonista de um filme de ação. Imagine x personagem central de um livro de aventura. Vou focar na literatura, pois mesmo personagens altamente libertárias como a Lisbeth Salander (Série Millenium - Stieg Larsson) só quebram em parte esse estereótipo: Mulher, branca, cisgênero, bissexual. Nesse texto tratarei apenas da questão de gênero, deixando as outras características para outros textos (vindouros, aguardem).

A literatura é dominada por homens. Por isso eu criei uma versão um pouco melhorada (acho) de um bechdel test, doravante chamarei de Teste Giza (Porque SIM!), que é meu atual critério para comprar/ler um livro:

- O livro é escrito por uma mulher?
- A personagem central é mulher?
- O interesse romântico em um homem, caso haja, é secundário para a trama?

Isso, obviamente, não vai medir o grau de feminismo, vai apenas determinar se os livros que são escritos por e para mulheres são sobre mulheres. Imagine que fosse o contrário, quantos livros você conhece que são escritos por homens? com protagonismo masculino e cujos interesses românticos são secundários para a trama? Aí ficou fácil, não é? Essa pesquisa aqui sobre o panorama brasileiro comprova bem o problema.

Aguardo o dia em que a normatização sobre a literatura não seja tão grande a ponto de existir um gênero desviante que é "para mulheres". Ou seja, que o protagonismo masculino deixe de ser padrão e que ser mulher deixe de carregar o estigma de ser sub-qualquer coisa. 

Por que é importante ler livros escritos por mulheres? 

O teste Bechdel original não contém informações sobre quem está por trás da história. Talvez porque realizar um filme é uma competência de muitas pessoas, o que tornaria difícil a análise. Mas um livro é escrito por um autor ou por poucas mãos, o que facilitaria. O nome está na capa, não custa dar uma olhadinha rápida. É importante ler livros de mulheres porque o olhar masculino sobre as mulheres tem sido em grande escala ou misógino, ou paternalista. De princesas que precisam ser salvas à pedaços de carne que precisam ser devoradas (metaforicamente). Livros como a série Millenium, escritos por um homem e com olhar igualitário sobre as mulheres, são raros. Muito raros.

Aguardando ansiosa o dia que essa linda <3 vai
escrever livros sobre Hermiones e não sobre Harrys.

Dia desses, estava lendo Game of Thrones. O mundo lá retratado é muito similar ao nosso no tocante à misoginia, ainda que as mulheres do livro sejam em sua maioria personagens maravilhosas, ricas em complexidade. Enfim, me surpreendi com um trecho em que Danaerys adentrava um recinto onde só havia homens, em sua maioria desconhecidos. Ela quase que instintivamente procura por outra mulher no recinto. Não encontra e, por isso, se sente desconfortável. Esse pequeno trecho, que poderia passar completamente despercebido, demonstra que o autor naquele momento teve uma enorme empatia pelas mulheres de forma geral. Qual mulher se sentiu segura em um ambiente completamente masculino? Eu nunca me senti. Lembro-me das muitas vezes em que desci praticamente na última parada de ônibus, tarde da noite, voltando da faculdade. Quantas vezes não tive medo ao ficar sozinha com o motorista, o cobrador e um ou dois gatos pingados desconhecidos dentro do ônibus? Esse tipo de pensamento pode vir num lampejo de empatia de um autor homem, mas vem naturalmente quando a autora é mulher, porque ela vive esses sentimentos o tempo todo.

Saindo um pouco da literatura para o cinema (oi, maior digressão do mundo, lembra?), quando a Pixar lançou "Valente", o que mais ouvi por aí foram críticas. Diziam que era um filme sem muita ação. Diziam que era um filme sem muita comédia. Diziam tanta coisa que eu desanimei o suficiente para não criar expectativas, mas qual não foi a minha surpresa ao assistir o filme e me deparar com grande parte da minha vida ali, naquela tela? Eu e minha mãe sempre tão parceiras, tão amigas e tão diferentes, passamos boa parte da nossa vida discutindo essas diferenças. Já repararam como é raro que se trate a fundo dessa relação entre mãe e filha? Ou que, quando o fazem, uma das duas sempre sai como vilã? Valente é um filme com não uma, mas duas protagonistas que se amam. É um filme que não gira em torno dos homens que estão na vida delas, mas apenas do amadurecimento e fortalecimento daquela relação entre mulheres. Se fosse um livro passaria com louvor no meu personal Giza test for books.

Além disso é importantíssimo parar de normatizar a profissão de escritor como uma profissão masculina. Recomendo esse texto.

Por que é importante que as personagens centrais sejam mulheres? 

Para que possamos nos sentir representadas e empoderadas. É ótimo encontrar personagens como a Hermione (Harry Potter - J.K Rowling), que é a aluna mais inteligente da grifinória, possivelmente de Hogwarts. É ótimo encontrar personagens como a Michonne (The Walking Dead - Robert Kirkman), que é uma guerreira negra e badass num mundo onde a maior parte da população foi dizimada. Porém, nenhuma dessas personagens são autônomas de fato nessas aventuras, pois são secundarizadas e eclipsadas pelo protagonismo masculino. Pense aí como seria foda um The Walking Dead sob a liderança da Michonne? 

Katniss Badass Everdeen
Sabe aquele estereótipo de que nerd é tudo um bando de adolescente espinhento de mão peluda que não tem namorada porque as garotas em geral desprezam a cultura nerd? Deixa eu contar um segredo: é o oposto. Mulheres são desprezadas pela cultura. Imperam o paternalismo e a misoginia. Não nos sentindo plenamente representadas, muitas de nós, nerds em potencial, acabam por trilhar outros caminhos. Por não se interessar por games, por exemplo! A Anita Sarkeesian recentemente criticou o fato de não haver nenhum jogo para XBOX One com protagonismo feminino entre os lançamentos anunciados esse ano. Sacou? Temos sido sistematicamente excluídas ou eclipsadas na literatura, nos games, no cinema e etc.

Por que é importante que o interesse romântico não seja prioritário para a trama?

Recentemente, várias autoras tem escrito livros com protagonismo feminino (o que é ótimo), porém, as histórias giram em torno de homens (o que é péssimo). Mesmo os livros que são escritos para um público feminino, são sobre homens. A presença masculina é o fio condutor das histórias que as mulheres lêem. É importante que personagens masculinos sejam secundários, para que o protagonismo seja feminino DE FATO. Pois na nossa sociedade atual, não há equilíbrio entre essa relação, mesmo um protagonismo dividido pode facilmente se tornar paternalista.

Não leio porque não me
empodera, mas não julgo quem lê.
Observe, por exemplo, que segundo esse teste que propus, nenhum livro da Jane Austen passaria. Eu amo Jane Austen. Acho que a obra dela busca a quebra de paradigmas da sociedade em que ela vivia, onde casamentos eram arranjados entre pessoas de mesma classe social. Ela questiona em sua obra várias questões: Se o casamento entre pessoas de classe social diferente deveria ser probido, se mulheres devem casar por interesse e por fim, o próprio casamento arranjado em si, que é fruto de um relacionamento (ou nem isso) sem amor. Porém, uma vez que o assunto tratado é a questão do casamento e da vida conjugal, pode-se dizer que os livros tratam do relacionamento de mulheres e homens. 

Isso que estou falando parece contrariar a idéia do primeiro tópico? Ou seja, antes eu disse que mulheres empatizam melhor com mulheres por compartilhar experiências similares, mas agora eu digo que algumas de nós estão escrevendo histórias que não nos empoderam e isso soa estranho? Bom, a verdade é que uma das experiências universalmente compartilhadas por nós é a internalização do machismo. Crescemos ouvindo o patriarcado ditar as regras sobre as nossas vidas e muitas vezes acreditamos nele. Acreditamos nele quando nos contaram histórias de princesas presas em torres, aguardando príncipes. Ouvimos o patriarcado quando nossos pais dizem que nosso irmão pode sair à noite, mas nós não. Prestamos atenção quando aquele carinha disse que aquela menina era rodada e sem valor. E principalmente acreditamos no patriarcado quando ele falou que não podemos confiar umas nas outras. Enfim, tantas mentiras foram colocadas dentro de nós que um teste anti-patriarcado precisaria de uma prova de Vestibular padrão CESPE para encontrar uma obra que de fato não fosse machista. 

Então, eu acho importante não julgar, não condenar a mulher que está escrevendo histórias românticas e parar de achar que todas as críticas direcionadas ao gênero literário Chiklit (por exemplo: Becky Bloom, Bridget Jones e, acho que até Crepúsculo se enquadra), são críticas literárias. Há muito de misoginia, tanto contra as escritoras quanto contra suas personagens, mas  principalmente, contra seu público.

E aí, Giza, o que você recomenda, então?

OLHA não está fácil. Tenho 5 livros (na verdade são sagas literárias) para recomendar. E essa lista vai aumentar conforme eu progredir nas leituras encalhadas.

Momento lindo da Marji em Persépolis

- Persépolis, de Marjane Satrapi (Quatro volumes, existe uma edição única). Esse livro merece um texto só para ele, mas adianto que a autobiografia de uma iraniana que tem como pano de fundo o cenário político do Irã, de crescente repressão às liberdades civis.

- As Brumas de Avalon, de Marion Bradley Zimmer (Quatro livros). Old but gold. Pegue uma história contada e recontada sob a ótica masculina e conte-a novamente, só que dando voz às mulheres. Essa é a premissa. É maravilhoso.

- Jogos Vorazes, de Suzane Collins (Três livros). Aqui há um terreno cinzento na questão dos relacionamentos amorosos, se eles são ou não secundários, contudo eu consigo ver que sim, é uma história sobre uma mulher lutando uma guerra sozinha. E é notório que a personagem é muito solitária, então creio que passa no Teste Giza. 

- Caminhos de Sangue, de Moira Young (Três livros, só li o primeiro até agora). A Saba começa a história sendo a sombra do irmão. A própria personagem diz isso, mas ela vai crescendo ao longo do primeiro livro até se tornar autônoma. É ela que embarca em uma aventura para salvar o irmão. É ela a heroína (e para falar a verdade, o irmão mal aparece). 

- Divergente, de Veronica Roth (Três livros, apenas dois lançados). Ai gente, ai gente, será? Não sei ainda, estou em dúvida. Estou aguardando o melhor.

P.S.: Aceito sugestões.

UPDATE: Até mesmo as capas dos livros para mulheres são gritantemente diferentes, veja nesse link.
UPDATE 2: Passar no Teste Giza não assegura qualidade, apenas aponta o protagonismo feminino dentro (personagem) e fora (escritoras) da ficção.