segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A representação feminina em Interestelar



Interestelar, novo filme de Christopher Nolan, é um daqueles filmes que ficam se repetindo na memória. Você sai do cinema ainda cheio de reflexões para amadurecer, talvez por isso eu tenha demorado um bocado para escrever este texto. O filme é grandioso, emocionante. Como fã de ficção científica, posso dizer que Interestelar é maravilhoso. É um filme corajoso, que devolve ao cinema o tema da exploração espacial e gera perguntas fundamentais para nós, que hoje vivemos aqui na Terra. Como feminista, conhecendo um pouco sobre o debate da representação feminina, afirmo que o filme poderia ter sido melhor se houvesse um pouco mais de cuidado no roteiro. Sabe aquela sensação de bola na trave?

Spoilers leves

Em Interestelar, descobrimos que a Terra está devastada devido  às mudanças climáticas. Tempestades de areia são comuns e provocam graves doenças respiratórias. Há pragas que praticamente destruíram a capacidade do ser humano de produzir alimentos. Todos os recursos do planeta estão direcionados para o plantio de alimentos. No filme, acompanhamos Cooper (Interpretado por Matthew McConaughey), ex-engenheiro e ex-piloto da NASA, que como a maior parte das pessoas, se tornou fazendeiro. Cooper é viúvo e tem dois filhos, o Tom e a Murph. Cooper acaba se tornando o piloto de um missão cujo "plano A" é encontrar um novo planeta habitável para os seres humanos e transportá-los até lá e o "plano B" é levar material genético para perpetuar a espécie neste outro planeta. 

Houve uma expedição anterior que levou um primeiro grupo de cientistas para explorar três planetas potenciais, a missão de Cooper é descobrir qual planeta é o mais apropriado para a sobrevivência da espécie, enquanto isso, na terra, a base tentaria descobrir uma maneira de transportar os seres humanos para o planeta escolhido.

Além de toda a ciência envolvida, de todas as teorias explicadas e desenvolvidas em tela, o filme gera uma reflexão simples: Este é o planeta que nós vivemos. Você consegue imaginar uma realidade em que nada mais importa, além da produção de alimentos? Imagine o desespero de ver todas as culturas sendo uma a uma devastada por pragas, até que só sobre milho. Mais nada. Que todos os recursos tenham se esgotado e a única esperança é viajar para uma galáxia distante. Agora se lembre que estamos no meio de uma crise hídrica no Brasil, que o Cerrado está extinto, que a Amazônia está sendo desmatada, que o clima está evidentemente mais quente a cada ano, que grande parte de nossos políticos e gestores não está interessada em manter, apenas em usufruir. O Nosso planeta é um recurso que precisa ser gerido de forma mais responsável. Talvez seja este o ponto forte do filme, como uma boa distopia, ele nos faz observar os rumos que estamos tomando no momento presente.

Spoilers severos

Há duas mulheres em papéis importantes na trama: A Dr. Brand, cientista da NASA, interpretada por Anne Hathaway e Murph, a filha de Cooper, interpretada por três atrizes em diferentes fases da vida (Mackenzie Foy quando criança, Jessica Chanstain quando adulta e Ellen Burstyn, quando idosa). A existência destas personagens, em si, é um avanço representativo já que, apesar de encontrarmos grandes personagens na ficção científica, como Ellen Ripley (Alien), Ellie Arroway (Contato), Ryan Stone (Gravidade), Katniss Everdeen (Jogos Vorazes) entre outras, este ainda é um gênero substancialmente masculino. Mesmo entre estas, apenas duas são cientistas. Fato que espelha uma realidade avassaladora, uma enorme disparidade de gênero no ensino de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). O fato do filme colocar não uma, mas duas personagens mulheres muito importantes para a trama é digno de nota.

Dr. Amelia Brand:



Brand é a cientista encumbida de garantir o plano B: transportar o material genético humano para o planeta escolhido. O plano B me incomoda um bocado. No plano B, as mulheres teriam a função de repovoar a terra através de inseminação artificial, o que lembra muito o conto escrito pela Aline Valek, para a coletânea Universo Desconstruído. No conto "Eu, incubadora" a maternidade é compulsória, as mulheres são verdadeiras incubadoras já que os direitos do nascituro são mais abrangentes do que os da mulher. As mulheres são incentivadas a terem mais filhos e o aborto é terminantemente proibido (Alguma semelhança com a realidade?). Pois bem, eu temo que num futuro proporcionado pelo plano B as mulheres seriam vítimas de enormes violações de direitos humanos em nome da perpetuação da espécie, claro que ninguém menciona este aspecto problemático no plano B durante o filme.

Enfim, o plano B foi cair justamente nas mãos de uma mulher. Coincidência? Eu acho que é uma metáfora para a própria maternidade. A mulher é claro, é antes de tudo a mãe. É a cientista, mas também a mãe. Aquela sob quem residirá a tarefa de perpetuar a espécie.

Me incomodou bastante que Brand tenha grande responsabilidade na falha da missão. Ao tentar recuperar os dados no planeta submerso e não obedecer a ordem de Cooper, ela fez com que eles gastassem muito tempo em gravidade severa, causando um enorme lapso temporal entre os cientistas e os sobreviventes na Terra. Em outras palavras, ela foi a responsável por Cooper não ter acompanhado os seus filhos crescerem. 

Além disso, há um momento em que eles precisam fazer uma escolha dramática: Eles já foram ao planeta submerso e perderam muito tempo e combustível (por causa de Brand). Agora eles precisam optar, se quiserem retornar à Terra, ou vão para o planeta do Dr. Mann, ou para o planeta do Dr. Edmunds. Ir para os dois planetas significaria uma missão sem volta. Amelia faz uma defesa do planeta do Dr. Edmunds, não porque este é o melhor planeta, mas porque segundo ela: " O amor não é algo inventado. É observável, poderoso, e tem que significar alguma coisa... O amor é a única coisa que somos capazes de perceber que transcende o tempo e o espaço". Sim, ela era apaixonada pelo Dr. Edmunds. Achei que foi um reforço do estereótipo da sensibilidade feminina, da mulher como ser emotivo, pouco racional. Talvez se outro personagem estivesse na situação dela, eu não teria achado o discurso ruim, porém, quando dito por uma personagem mulher, soa apenas como mais do mesmo. 

Murph Cooper:



Murph começa o filme como uma garotinha de uns 10 anos que percebe uma anomalia em seu quarto, que ela chama de "fantasma". Os livros de sua estante constantemente caem sem que ninguém os toque. Murph é incentivada por seu pai a analisar o fenômeno criticamente, observar e fazer anotações. Pessoalmente, achei este momento incrível, já que meninas em geral não são estimuladas a desenvolver habilidades científicas, matemáticas, espaciais e etc.

Imagine só o tipo de brincadeiras que são associadas às meninas: Todos os caminhos levam ao lar e à maternidade. Enquanto os meninos são exploradores, bombeiros, cientistas e etc. Ao brincar de carrinho, um menino desenvolve habilidades matemáticas, ele entende a noção básica por exemplo, de velocidade, acelaração, atrito e etc. Até mesmo Lego, um brinquedo que pode ser considerado neutro, e que desenvolve habilidades espaciais, há mais de 30 anos faz publicidade para meninos. Portanto, quando Cooper incentiva a sua filha a desenvolver a inclinação que ela já possuía para a ciência, ele nos mostra que sim, mulheres podem ser cientistas. É maravilhoso que o filme tenha a sensibilidade de escolher Murph e não o seu irmão Tom, como aquela que seguirá uma carreira científica, enquanto seu irmão escolhe viver na fazenda, com esposa e filhos. Murph e Tom representam as duas facetas da humanidade: A que luta pelo futuro e a que se acomodou com a  dura realidade.



Quando cresce, Murphy, agora cientista, descobre que o "fantasma" do seu quarto, na verdade era seu pai, que encontrava-se em uma espécie de quinta dimensão. Através dos dados fornecidos por Cooper, ela é capaz de criar o modelo de estação espacial que salvará os seres humanos. Ela celebra o fato dando um beijo em um colega cientista. Veja, o único beijo do filme, é dado por uma mulher, para celebrar uma conquista científica. Super normal, né, gente? Novamente, uma sutil romantização da mulher. O filme teria passado tão melhor sem isso.

Quando finalmente Cooper retorna de sua missão, sua filha, agora idosa, explica para ele que ela não é importante, que ele é que foi o grande cientista que possibilitou todo o avanço tecnológico e a salvação da humanidade. Ela inclusive diz que ele tem coisa mais importante para fazer do que ficar ali com ela, que ele deveria voltar e encontrar a Doutora Brand, que estaria sozinha em um planeta em outra galáxia. Nessa hora eu me pergunto: Qual a necessidade disso? Bastaria que os dois se encontrassem, que palavras de amor entre pai e filha fossem trocadas e pronto. Eu vi esta cena como um apagamento de uma vida inteira como cientista. A própria cientista descreditou o seu trabalho.

Isto é muito problemático, pois sabemos que o apagamento das mulheres cientistas é um fato. Mulheres cientistas costumeiramente foram esquecidas, apagadas da história, seu trabalho muitas vezes foi creditado a homens que tiveram carreiras visíveis, foram laureados com prêmios e etc. Na minha opinião, este é o maior erro de representação feminina em Interestelar. 

Por tudo isso, concluo que as mulheres desse filme são inteligentes, são assertivas, são inspiradoras. Porém, este filme é sobre a jornada de Cooper, ele é o herói motivado pela sobrevivência de seus filhos, ele tem os ideais elevados e são os seus atos que realmente influenciam toda a história, que se fecha num círculo em volta de Cooper. Ele, ele, ele. O filme é bom, sim. Melhor que bom, é ótimo. Mas não vá ao cinema esperando um tratado de feminismo, pois ainda não foi desta vez.

Mais sobre o assunto:

As mulheres de Interestelar

Um comentário:

  1. Discordo de sua observação a respeito da cena de reencontro entre Cooper e Murphy no final. Durante o diálogo com o pai, ela menciona que não fez tudo sozinha, mas que teve a ajuda dele, não dando todo o crédito para Cooper. Inclusive, após Cooper despertar e achar que o nome da estação foi dado em homenagem a ele, o corrigem ao informá-lo que na verdade tinha sido em homenagem a filha dele. No mais, parabéns pelo texto.

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