Ontem foi ao ar o "Profissão repórter" sobre aborto. E através dele é possível entender como a mídia tradicionalmente lida com a questão do aborto: a abordagem adotada foi impregnada de culpabilização das vítimas.
No primeiro bloco, ouviram os familiares de Elizângela Barbosa e Jandira Cruz, duas mulheres que viraram notícia por entrar para as estatísticas de morte por aborto no Brasil. Segundo a repórter, a intenção era investigar o que levou Jandira e Elizângela a realizarem abortos clandestinos. Na prática não foi o que aconteceu. A abordagem foi inicialmente sensacionalista, uma tentativa de causar comoção com a dor das pessoas próximas a essas mulheres. Entretanto, a dor não é sempre a melhor conselheira.
Na dor de perder alguém que amamos, tentamos encontrar o erro, contudo, resposta pode não ser a mais óbvia. A mãe e a irmã de Jandira pediram que ela não fizesse o aborto, mas Jandira decidiu fazer mesmo assim e morreu. Subentende-se que sua mãe e irmã estavam corretas e Jandira estava errada. Esta é a resposta simples, mas não é bem assim. Jandira deveria ter o direito de realizar um aborto legal, seguro e gratuito. Sua vida estaria salva se o aborto fosse legalizado no Brasil. Não satisfeitos em levar ao ar os trechos culpabilizadores da entrevista, fizeram pior: mostraram as cenas do enterro de Jandira, onde um pastor derrama discurso anti-escolha em cima de seu caixão. O horror, o horror.
Em outro momento, um repórter acompanha um delegado na casa onde Elizângela fez o aborto. Esse viés policial em reportagens sobre aborto não existe para que observemos a barbárie a que essas mulheres são submetidas. Quando não se pontua que a legalização seria o caminho seguro, tudo o que estão fazendo é colocar mais medo e culpa na cabeça das mulheres que optam pelo aborto. É uma abordagem criminalizadora.
Em um dos pontos mais baixos de uma reportagem que já estava muito ruim, o repórter vai atrás de duas mulheres que foram flagradas durante uma operação policial ao buscar um aborto clandestino. O amadorismo do jornalista foi impressionante. A primeira mulher que ele localizou desistiu de abortar. O jornalista bateu na porta da mulher e quem atendeu foi o marido. Ele tentou se explicar sem dizer exatamente o motivo pelo qual desejava falar com a esposa dele. Por sorte, o marido sabia da situação, mas e se não soubesse e tivesse percebido do que se tratava? Ele não apenas violou a privacidade dela, sua atitude poderia colocar não apenas um casamento em risco, mas a vida de uma mulher. Afinal, como ele poderia saber da índole desse marido? Se ele reagiria com violência? Uma TOTAL irresponsabilidade.
Apenas aos 17:30 de uma reportagem de 25 minutos é que temos a oportunidade de ouvir a outra mulher localizada. A primeira mulher entrevistada que de fato ESCOLHEU realizar um aborto e sobreviveu. O discurso mais politizado até então. O problema é que logo no início do bloco seguinte, colocam novamente o discurso religioso anti-escolha, desta vez um grupo de freiras que convencem mulheres a não realizar abortos. O que ninguém perguntou para elas é quem vai cuidar dessas crianças quando elas nascerem? Quem vai cuidar psicologicamente dessa mulher que vai ficar nove meses esperando uma criança que ela não deseja? Quem vai dar para essa mulher as oportunidades de trabalho e emprego que ela pode perder por estar grávida? A verdade é que as freiras não estão interessadas nas implicações da gravidez para a mulher, mas disto a reportagem não tratou.
Finalmente, entrevistaram mais uma mulher que tentou realizar aborto e falhou, ela diz que deu a criança para adoção porque não se considerava digna de ficar com ela. Veja bem, de toda a entrevista que a mulher deu, é este o trecho escolhido para ir ao ar, pois fala da culpa. Apenas no finalzinho do programa, entrevistaram Renata Correa, a documentarista de "Clandestinas". A única parte informativa sobre o tema. Reparei na falta de especialistas sobre o assunto, de mulheres do movimento feminista, de médicos como o Dr. Dráuzio Varella que é da casa e é abertamente a favor do aborto, de religiosos que são favoráveis ao aborto e de estatísticas mais completas. Enfim, informações relevantes que poderiam delinear melhor o tema para o expectador. Imagino que esta não foi a intenção.
É importante notar que apenas duas mulheres que optaram pelo aborto foram entrevistadas. Destas, apenas uma foi bem sucedida. A outra desistiu e deu a criança para adoção. Ou seja, uma única mulher em toda a reportagem realizou um aborto e ela teve apenas SEGUNDOS para contar sua história. O programa deu muito mais tempo para os discursos anti-escolha. Para religiosos, mulheres que optaram pela maternidade, pessoas que não apoiam o aborto e estão sofrendo em luto. Mas mesmo que o tempo dado aos dois lados do debate fosse igual, continuaria achando que é uma covardia enorme dar voz ao lugar comum e para posar de "neutros" colocar um pouquinho das opiniões divergentes. Não existe neutralidade quando a opinião majoritária é opressora. Ser neutro é oprimir. Para garantir a discussão sobre aborto, é preciso ouvir quem é a favor dele, porque quem é contra já tem palanque, palco, púlpito, voz.
Por fim, tirando a entrevista com a família de Jandira, toda a reportagem teve um homem como entrevistador. Não é que homem não possa fazer entrevistas sobre aborto, mas seria sensível por parte da produção que um tema que está tão relacionado ao machismo e ao controle do corpo da mulher, fosse conduzido por outra mulher, que certamente estaria mais a par da realidade, já que uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já realizaram um aborto. Ela certamente conhece histórias sussurradas por outras mulheres em sua família ou por amigas, é uma questão de empatia.


Olá, Giza, queria mandar um email para você, mas não encontrei seu email. Adorei o texto que você escreveu sobre o Profissão Repórter desta semana. Para onde posso escrever?
ResponderExcluirOlá, Mariana. Eu não tinha reparado que o ícone do email estava com problema. Pode mandar para arquiteta.gs@gmail.com
ExcluirDesde que me entendo por gente que me afirmo como contra o aborto. Já cheguei a ter discussão sobre o tema com uma namorada. E foi assim atá conhecer uma amiga, quase uma irmã minha de tão próximos que somos. Moça de seus 18 anos, inteligente, sensata e religiosa. Muito religiosa aliás. Foi conversando com ela sobre o tema e da empatia que ela sentia pelas mulheres que optaram pelo aborto (por ter lido uma reportagem sobre mulheres de um pais africano, estupradas e das quais algumas se viram impedidas de fazer o aborto e outras morreram ao tentar procedimentos caseiros), que ela me mostrou algo que eu nunca tinha parado pra pensar: eu nunca tinha me dado conta que não sei e jamais saberei o que é passar por uma gravidez indesejada. Aquela conversa foi um verdadeiro soco no estômago! A partir daí comecei a refletir de verdadeira sobre a questão e a perceber que nem tudo era assim tão preto no branco. Mas acho que o grande ensinamento que ficou foi que eu. enquanto homem, não posso simplesmente sair por aí emitindo minha opinião irrefletida, sobre um assunto que eu nunca compreenderei o suficiente, por mais que me esforce em ler e me informar sobre.
ResponderExcluirEstava curioso para saber qual a abordagem que o programa Profissão Repórter daria ao tema. Não o pude assistir, mas agradeço pelo texto explicativo que mostrou que o que eu temia ocorreu. Uma pena.
Sobre o tema, gostaria a ainda de citar um texto que foi um dos mais brilhantes e interessantes que já li, escrito pela genial Aline Valek, "Eu, Incubadora" na coletânea "Universo Desconstruído". Um conto que me deu muito sobre o que refletir.
Gizelli, parabéns pelo teu texto!!
ResponderExcluirCara, seu texto foi massa. Amei. Compartilhando em todas as redes. A parte sobre a neutralidade numa opressão é brilhante. Amo o blog, parabéns :-3
ResponderExcluirBeijundas!