terça-feira, 29 de abril de 2014

Divergente, filme versus livro


No último final de semana eu assisti ao filme “Divergente”, adaptação para o cinema da obra homônima de Veronica Roth. E apesar de concordar inteiramente com críticas como essa, do Thiago Siqueira, eu percebo que falta a visão de alguém que leu os livros. Não porque eu acredite que as coisas precisam estar literalmente transpostas de uma mídia para outra, mas para analisar outro aspecto da obra: A adaptação respeita a obra original?


SIM, CONTÉM SPOILERS

Eu confesso que até agora não decidi se gostei do filme. Certamente tem algo de muito positivo em ver uma heroína de ação no cinema. Vê-la superar suas próprias fraquezas, fazendo escolhas que decidirão o seu próprio destino. Porém, a sensação que ficou é que o livro é muito melhor. Isso não é surpresa. É muito comum que o livro seja melhor que a adaptação para o cinema, são raros os casos em que o contrário ocorre. Contudo, no caso de divergente, a disparidade é muito grande.

O que mais senti falta nessa adaptação foi de ver a Tris crescer dentro da Audácia. De vê-la criando relacionamentos verdadeiros, como a amizade com a Christina. Sair da Abnegação não representou para Tris apenas a entrada nessa facção guerreira, mas também a liberdade de ser autocomplacente, de agir espontaneamente e fazer amizades incontidas. Eu entenderia que cortassem as amizades mais superficiais da Tris, como Uriah, Marlene e Lynn. Mas não o grupo principal de amigos. A cumplicidade entre Tris e Christina é importante e jamais deveria ter sido limada do filme. Aliás, quem apenas viu o filme, mal deve se lembrar quem são os amigos da Tris: Christina, Will e o traidor Al.

 Através do filme, as pessoas não saberão o quão duro foi o golpe que Al deu em Tris. E nem o quão traumatizante. No cinema, a Tris apenas apanha de um grupo de encapuzados, um dos quais ela descobre ser o Al. Entretanto, no livro, o ataque beira um estupro. Os caras passam a mão nela enquanto ameaçam sua integridade física. Será por isso que a Tris desenvolveu tanto medo de ter relações sexuais com Quatro? Talvez sim. Quem leu o livro pode se fazer essa pergunta, quem viu o filme, nunca imaginaria.

Na adaptação também não dá para perceber claramente o quanto ou como Christina e Will se apaixonaram durante o treinamento. E por isso não saberão que Tris e Christina terão que reconstruir juntas essa amizade, já que Tris foi forçada a matar Will. Toda essa teia de relacionamentos foi sumariamente cortada para dar espaço a cenas de ação, luta, correria e tiroteio.

Infelizmente, pelo filme, não chegamos sequer a conhecer a personagem principal. Não vemos a Tris descobrir o que é a coragem, como acontece no livro, onde ela começa falando que é egoísta e é corajosa, mas depois entende o significado de “acreditamos em nos libertar dos medos, nos simples atos de bravura, em defender aqueles que não podem se levantar sozinhos”. Nem sequer chegamos a conhecer todos os medos de Tris na paisagem do medo. O grande problema dessa adaptação é que, diferente da adaptação de jogos vorazes, em que o foco está nas relações humanas e na tensão social, em Divergente o foco esteve em garantir ao espectador numerosas cenas de ação temperadas com romance.

Mas mesmo as cenas de ação não deixam o espectador temer pelos heróis. Não há a sensação de perigo iminente. E o romance com o quatro é morno. Deixa a desejar. A tensão que existe entre os dois sempre que estão sozinhos, não acontece no filme. Quem leu o livro sabe da expectativa que existe na cena em que os dois sobem a escada da roda gigante. Ou de como foi importante para o Quatro que a Tris passasse junto com ele por sua paisagem do medo. O filme não criou a expectativa do romance, não fez com que torcêssemos por eles.

Em resumo, a adaptação do livro está muito aquém do potencial, apesar da boa atuação da Shailene Woodley, que sinceramente me pareceu a única boa atuação de todo o elenco (Kate Winslet, o que houve, gata!?). Eu esperava bem mais.

Update: A Rafaela Paludo, que fez um ótimo comentário aqui mesmo nesse texto, deixou um link para a crítica que ela fez do filme, que está bem legal, descrevendo ponto a ponto as ~divergências~ entre livro e filme.

3 comentários:

  1. Oi, Giza! Te acompanho pelo twitter e sou uma grande fã do We Can Cast It. Ao contrário do que tu disse no teu tweet, eu li teu post, hehe! Me tornei fã da trilogia de Divergente justamente pelas questões de crescimento pessoal e desenvolvimento psicológico da personagem principal e também de quem a cerca. Fui surpreendida positivamente pela história, que até então eu achava ser mais um livro adolescente sobre distopia.

    Me decepcionei muito em relação ao filme exatamente pelos pontos que tu comentou. Achei que eu estava louca, porque todo mundo parece estar curtindo. Saber que mais alguém reparou nas mesmas coisas que eu me fez sentir compreendida, haha!

    Outra coisa que queria comentar é sobre os soldados. Como li em inglês e o artigo não tem gênero definido, qual foi a minha surpresa por descobrir posteriormente, lendo um "her" ou um "she", que 90% delas eram mulheres? E no filme, sempre que tinha uma escolta ou algum soldado guardando algo, eram sempre homens de farda, bem clichê de filme de ação mesmo. Achei um detalhe tão legal colocado pela autora...

    Também fiz uma resenha mais completa sobre o filme, se tiver interesse em ler está em: http://www.chovendolivros.com.br/resenha-divergente-o-filme-2014/

    P.S.: Adorei o recorte na imagem de divulgação do filme, deixando só a Tris. Eu acabei colocando a padrão no meu post mesmo. Mas a verdade é que o Four tem que estar ali para o público não achar que é um filme de "menina". :-/ Sem contar que a Tris está naquela posição de heroína dos quadrinhos, de costas, mostrando curvas. Nossa, é cada coisa que eu reparo nesse filme cada vz que toco no assunto!

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  2. Ótimo texto de resenha. Meus parabéns! Amei a maneira que vc usou para se expressar, me fez se interessar pelo livro....mas vc já leu o livro reverso... se trata de um livro arrebatador...ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos.....e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história.....acesse o link da livraria cultura ...a capa do livro é linda ela traz o universo como tema.
    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=78725243

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  3. Me decepcionei demais ao ver o filme...Teve muitas mudanças na qual não eram necessárias... O Romance da Tris e do Quatro não passa intensidade nenhuma, já no livro o clima entre eles é sempre tão tenso e contagiante... Esperei tanto pela cena em que a Tris encontra o Quatro no fosso bebado e divertido.
    Sem contar nas mudanças grotesca que foram feitas sem necessidade...
    Exemplos: A ida e volta da Tris da Erudição, onde a conversa com a Jeannine deveria ter sido ríspida e a volta onde o Eric arranca a Tris do carro pelos braços..
    A morte da mãe da Tris onde ela revela a que era da Erudição e tbm era uma Divergente.
    O final onde a Tris lutra com o Quatro na sala de controle da Audácia e ele mesmo desliga a simulação e retira o disco rígido para que não seja reiniciada.
    Nossaaaaa e muitas outras coisas que só quem leu o livro vai entender.
    Realmente o filme deixou a desejar e muitooo =/

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