Esse mês tão curto, visto que estamos ainda na metade, se mostrou demasiadamente longo devido aos inúmeros casos de violações de direitos humanos, em especial de racismo. Peço desculpas de antemão por esse texto, pois ele será longo e desconexo.
Eu me lembro de um dia em que eu passeava com a minha mãe em um dos shoppings de Brasília. Eu tinha uns nove ou dez anos. Era meio da tarde e fazia um calor desses que a gente só espera em agosto. Talvez fosse agosto, não sei bem. Mas sei que eu estava incomodada com o calor. Algumas crianças, provavelmente da mesma idade que eu, porém todas em situação de rua, resolveram se refrescar no espelho d'água do shopping. Primeiro veio uma criança, depois outra. Quando percebi havia várias delas se divertindo no espelho d'água. Nem mesmo dez minutos se passaram e chegou o primeiro segurança, já puxando a criança mais próxima com violência para fora do espelho d'água. Pouco depois, outros seguranças chegaram, usando da mesma violência contra crianças pequenas.
Toda essa discussão sobre rolezinho me recordou esse momento em que fui testemunha de algo que me soa bem parecido, seja pela localização (o shopping), seja pela forma violenta com que se tratou os envolvidos, seja pela demonstração cortante de racismo/classismo, dirigidos às pessoas pobres e negras. No ano 2000 um grupo de pessoas em situação de rua foram visitar um shopping center. Chamaram a imprensa para registrar o momento, esse evento resultou no documentário Hiato. Rolezinho não é de hoje, amigos. Aliás, antes do rolezinho virar capa do G1, muita gente pobre e negra já foi tratada como bandido dentro de shoppings centers. Vou abrir um parêntese aqui para falar especificamente de um comentário que ouvi há alguns dias na CBN do Arthur Xexéo, que dizia que os rolezinhos embora fossem pacíficos, tinham a intenção de "assustar". Eita, preguiça de pensar, meldels. Fecha parêntese.
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| Imagem de Lex Silva, para o Estadão |
Não apenas as pessoas negras e pobres são indesejadas no shopping center, mas também, em especial, as mulheres trans, as travestis. Que são alijadas do seu direito ao banheiro feminino. São desumanizadas, rejeitadas e discriminadas unicamente porque precisam usar o banheiro, nessas horas a mítica "mulher de verdade" é colocada na roda. Como se mulheres trans fossem um delírio, uma fantasia. Questionar identidades trans é como girar a roda da violência. Pode ser que o resultado seja o não pertencimento ao banheiro público feminino, pode ser que o resultado seja o homicídio transfóbico. E questionar identidades trans é o primeiro passo para tudo. Houve um protesto em um shopping de São Paulo, para expor a face transfóbica de um shopping center que tentou recusar a mulheres trans o direito ao banheiro feminino. Protesto lindíssimo, emocionante.
Houve também o caso de um anúncio no mercado livre, oferecendo negros ao preço de R$1,00. Agora sabemos que a mente brilhante por trás do humor ~~politicamente incorreto~~ é um adolescente inconformado por não ter passado no vestibular, segundo ele, devido ao sistema de cotas. Muitos diziam, na época do julgamentos das cotas no STF, que a aprovação das cotas geraria ódio racial. Meus caros, o ódio racial sempre existiu. Agora sua face está mais exposta, apenas. Será que é a cota racial ou a cultura racista que distorce até mesmo as cabeças mais jovens, mais aptas a aceitar questionamentos? Para mim a resposta é muito óbvia.
Hoje, um jornal da minha cidade (vergonha), que é distribuído gratuitamente nos metrôs da cidade (portanto voltado para um público operário e com bastante incidência, também negro), chamou a ministra da igualdade racial, Luiza Bairros, de "anta", porque ela disse que as pessoas brancas reagem ao rolezinho no shopping. O colunista responsável por essa atitude que envolve muito de racismo e machismo, Cláudio Humberto, acusa-a de ignorar que no Brasil não existem pessoas "puro branco". Ele ignora (eu deveria chamá-lo de anta?) que são os negros desse país que são excluídos da educação superior, dos cargos políticos, dos empregos melhor remunerados, que são maioria nos presídios, as mulheres negras são as que mais sofrem violência doméstica e, principalmente, são as pessoas negras que mais morrem por homicídio nesse país. Nesse momento, os dados têm cor. A cor é visível, sobressai. Pode ser que não exista ninguém puramente branco nesse país, mas o fenótipo é essencial para determinar quem vive e quem morre. E também como vivem e como morrem os brasileiros. Um exemplo disso é o rapaz Kaique Augusto Batista do Santos, homossexual e negro, cujo corpo foi encontrado com sinais de tortura, mas o registro policial é de suicídio. Homofobia e racismo agindo juntos, amparados pelas forças policiais.
Para finalizar, é sempre bom lembrar que janeiro é mês de quê, mesmo? Exatamente, de Big Brother Brasil. Eu sei que muita gente que eu conheço passa o mês de janeiro defendendo esse programa. As defesas que mais ouço são: "Você não é melhor que outra pessoa porque não assiste Big Brother" e também "Big Brother não é pior do que muitos programas que passam na TV". Bom, sinceramente, eu costumava pensar assim também. Eu até acompanhei algumas edições. E na verdade, eu ainda concordo que quem não assiste BBB não é melhor do que quem assiste, porém, desde o episódio do BBB 12, em que uma mulher bêbada foi estuprada (segundo a nossa lei, em que para haver o estupro não é necessária a penetração) ao vivo e absolutamente NADA foi feito, em que o apresentador chamou "estupro de incapaz" de "amor", em que muita gente aqui fora chamou a moça de vadia por estar bêbada, minha opinião mudou drasticamente. O Big Brother é indefensável. E um dos motivos é porque é um programa que escolhe criteriosamente perfis racistas, homofóbicos, machistas exatamente para botar lenha na fogueira. Dessa vez não foi diferente, anda por aí mais um tipo desses, o tal do Cássio, que já postou tweets racistas e machistas. Nessa noite ele fez mais comentários racistas. Não dá vontade de dormir hoje e acordar daqui a 3 meses, quando o programa acabar?


Bom saber que janeiro não foi difícil só pra mim, empatia sempre ajuda! =) Tive umas boas discussões com minha mamusca sobre os rolêzinhos. Fizeram um aqui em São Bernardo há uma ou duas semanas, não sei no que deu, mas o povinho encuzado da classe média que temos por aqui com certeza não ficou nada feliz. Nem me fale do Big Brother! Viu que agora tem um canal só pra ele na tv a cabo? Pra morrer do c# mesmo, aff.
ResponderExcluirComentando pra encher o saco e dizer que adoro teu blog e acho a descrição do seu perfil uma lindeza! Beijão na bunda =3