De vez em quando aparece por aí, nos telejornais, uma pessoa sem deficiência fazendo o teste da acessibilidade na cadeira de rodas. A idéia desse tipo de reportagem é mostrar quais as dificuldades sentidas pelas pessoas com deficiência. Fica a dúvida: Por que não podemos ouví-las? Por que é necessário que alguém sem deficiência sinta na pele o problema? O exercício da empatia está em falta. Não é preciso ter deficiência física para entender os problemas e empatizar.
Essa semana, houve um caso similar e igualmente problemático. Talvez até pior por causa do tom de comédia. A apresentadora Ticiane Pinheiro, do reality show "Além do peso", resolveu fazer uma reportagem mostrando as dificuldades enfrentadas pelas pessoas gordas. Até aí, ótimo. É mesmo necessário que a mídia possa mostrar que pessoas gordas são oprimidas. Que tudo o que nos cerca é pensado para a pessoa magra. Do assento do metrô ao peso do elevador. Entretanto, o que se viu foi isso:
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| Ticiane sendo gordofóbica |
Vamos esclarecer uma coisa? Eu sou gorda e esse não é o meu prato de comida. A obesidade é multifatorial, essa idéia de que o gordo se alimenta mal é um mito. A reportagem "gorda por um dia" foi uma sucessão de clichês e teve um tom de troça que foi muito cruel. Hipócritas. Se a idéia era mostrar o quanto o gordo é oprimido, parabéns, conseguiram. Nos oprimiram ainda mais.
Ser gordo não é usar uma fantasia de gordo. A dificuldade de passar na roleta pode ser real para quem veste uma fantasia de gordo, a humilhação, não. A humilhação vem de anos e anos de desprezo, das inúmeras pessoas que não conhecem você e te julgam pela aparência, vem do emprego não conquistado e de todas as vezes que um médico disse para você emagrecer, mesmo quando todos os exames mostravam que você é um ser humano saudável. Uma roupa não faz ninguém se tornar gordo.
Se estão tão interessados em saber como é o dia-a-dia do gordo, tenho uma dica: perguntem para as pessoas gordas. Pessoas magras podem falar sobre o assunto, sim. Devem falar. Mas se colocar em nossos lugares, não. Termino esse texto reclamando da militância feminista nas redes sociais que não se esforçou em dar visibilidade para esse episódio. Quase que somente as mulheres gordas se sentiram incomodadas. Não basta falar para o gordo "amar o seu corpo". Se pararmos o discurso aí e não falarmos do que acontece na sociedade estaremos apenas, mais uma vez, culpando a vítima. Com toda a boa intenção do mundo? sim. Mas a gordofobia internalizada não é a única a ser combatida.
Deixo como recomendação esse texto da Renata que analisa toda a reportagem, ponto a ponto.


Olá, sei que não tem nada a ver com o assunto aqui tratado. Mas vi que você leu Divergente e Insurgente e gostaria de saber se já leu o último livro, e o que achou dele.
ResponderExcluirBeijos
Você se refere ao Allegiant? Eu ainda não li.
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